Amélia, nome de rainha, última soberna da casa
o alguidar da massa, dos bolos
dos bigodes desenhados no buço
no queixo, nas boquinhas abertas das crianças
E o fado cantado, a subir de tom
uma melodia sentida de Amália ...
Os olhos castanhos, que infância escondes?
Num cofre bem guardado, segredos tamanhos
ninguém conhece o lugar onde está
Amélia, olhos rasos de lezíria
Corpo em abalos de comoção
Tão alegre e tão sofrida
contrários estados de alma:
depressivos, tempestivos
Sonhos varridos, uma grande mulher
Amélia ventania, suave maresia
Orquídea de sapatinho
Amélia, saltos altos
Chinelos, casa em ordem e sem mácula de pó
Escadas, camas, quintal , tudo num " brinquinho"
Amelia armava a tenda,
Pendurava lençóis de linho
a pequenada contente ia almoçar para dentro
Depois, faziam adivinhas; onde havia
uma casa amarela com janelas azuis
E gente feliz por dentro
Ventos sopravam de Inglaterra
Navio carregado de supresas boas
A massa de cabelos soltos
ondulavam até meia serra,
Unhas escavadas, envernizadas,
Lenços e écharpes de várias cores
Amélia vaidosa, grande sedutora
Na Azinhaga muito conhecida
Por ser reta por ser justa
Vida longa ,duradoura
Amélia, adormeceu, transcendeu
A vida de Amélia acabou
Parece mentira
Mas a existência de Amélia não terminou
Em Jerusalém, Amélia, vai purificar o coração
E aí há-de com Cristo ressuscitar
Oh Amélia, oh Amélia!
Ainda havia nesses olhos um fio de esperança
Fim - dia 2 de Julho , domingo, reta final da tarde, pelas 19:15
Descida à última morada - 4 de Julho (Santo António)