sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Viagem XVI

 A viagem fez-se comigo dentro, sem ter visto ninguém,  tendo pressentido apenas sombras. As conversas iam e vinham num fluxo  ininteligível e monocórdio.  Não era o sono que me agrilhoava. Era uma tristeza funda que me prendia. A meio da tarde, para lá do meio da vida, imaginava se tivesse aceite os convites para  partir e tentar a sorte além fronteiras. Aconteceram propostas decentes e outras menos decentes.  Nem umas, nem outras. Declinei uma por uma. Que vida teria? Como seria o meu quotidiano? Em quem me transformaria? Adaptar-me-ia às novas circunstâncias  ? Que gentes e conhecimentos iria adquirir? Arrepender-me-ia mais tarde? Naquela altura havia dentro de mim muito receio,  pavor do desconhecido. Hoje, agora, penso como seria  importante para mim se ao menos tivesse tentado.  Nesse tempo,  a família  estava viva e boa saúde e alguns  até já  se tinham emancipado, alguns casado ou seguiram outros caminhos, outras estradas,  eu fui ficando. Não era nenhum drama, compensavam as visitas  periódicas. Também naquele altura,  os valores eram outros  que com o passar do tempo  se desfizeram, passaram de prazo.   No  meu  tempo   já  havia   filhos tornados reféns dos pais que cresciam no banco de trás  do carro, sem nenhuma liberdade mas  sem sinal de ecrãns viciantes, havia tempo para pensar, para refletir  sobre o sentido da vida.  Infelizmente era eu com os meus  receios. Uma  alma paralítica, paralisada fruto de construções periclitantes, frágeis e quem  muito  vacila e hesita não chega a lado nenhum. O enlace  do cordão umbilical  permaneceu  a vida toda.  No entanto, não lamento  nada. Sei que  deveria  acontecer um afastamento e um regresso. Não tive ânimo para dar o salto.   Deixei-me vencer pelos fantasmas.   Inconscientemente  boicotei-me por dentro  criando impossíveis, para deste modo justificar a falha em   atender aos chamados. As grandes alterações assustam,  mexe-se numa pedra e todas as outras rolam. A tendência é  não tocar, porque ao correrem vão provocar ruído, desorganizar  o que se dá como arrumado e intocável,   os sons perturbam mentes que se assustam facilmente , preferem que tudo permaneça igual e estático. Também há  gente  medrosa que se manifesta de forma contrária ao que os maxilares  audazes e perspicazes expressam. De qualquer forma, não fui mas encontrei formas de cavar túneis e pontes com acesso  ao lado de lá. Houve muita correspondência trocada que me enriqueceu como pessoa. 

Pela janela, reparei na montanha densa de nevoeiro compacto a resvalar  das serras para a parte sul,  precipitando-se de forma rala sobre a cidade, a desvanecer lentamente.  Esta imagem  remeteu-me para um dia  em que choveu torrencialmente, desde as três horas  da tarde , com algumas pausas breves que mal se notaram   e depois continou sem cessar , quando eram   dezoite e vinte tomei a real  consciência do que se estava a passar lá  fora,  um dia de inverno  incomum e invulgar. A escuridão,  as luzes emanando reflexos  embaciados. Subi de uma  rua para outra para  conseguir um  refúgio, parei e o meu guarda chuva soava a um toldo encharcado.  O consolo eram as  lojas abertas mas havia no ar uma inquietação,  um desassossego nas pessoas que entravam  e saíam a correr.  A água parecia querer  infiltrar-se pelos poros, tomar de assalto os  músculos , chegar aos ossos e encher a corrente sanguínea. Tinha-se tornado assustador. O trânsito automóvel  lento, demasiado lento,  mexia com o sistema nervoso.  Os canteiros das flores transbordavam, até parecia que a força da água queria  arrancar  as flores pela raíz.   Comecei a ligar para os meus contatos, todos indisponíveis. Recolhi-me à porta de uma das lojas,  depois vi que se tratava de  antiguidades, entretanto para disfarçar o nervosismo, eu e a dona, uma senhora atraente com olhos  sorridentes  ainda trocamos alguma conversa.  Mostrou-se simpática e amável e também ela preocupada comigo, procurou  estabelecer ligação com os seus contatos. Após  várias tentativas infrutíferas, lá  conseguiu que um primo taxista viesse, no entanto, devido aos caos instalado, teria de esperar. 

E aguardei, não sei quanto tempo, um tempo interminável, a chuva não dava tréguas, a dona da loja inquieta  por mim, pelo primo que se atrasava, olhava para a rua  apreensiva ...de seguida, colocava-se atrás do balcão, atendia um ou outro cliente mais corajoso , indiferente a toda a agitação violenta que se desenrolava, logo a seguir dirijia-me a palavra, tentando animar: Não se preocupe, o meu primo está quase a chegar e já a leva a casa, porém , a minha casa ficava longe dali e isso agoniava-me. Quando  finalmente escutei umas quantas  buzinadelas , cheguei-me à porta. Devia ser ele, a dona da loja confirmou, corra, disse ela,  ainda tive tempo de me voltar e agradecer convenientemente o favor e a gentileza, tinha sido um anjo,  de outra forma não sei como voltaria . Quando entrei no taxi cumprimentei o primo da dona da loja e foi aí  que entrei em estado de grande perturbação. Através dos vidros fortemente embaciados, uma escuridão de bréu e água a fustigar as vidraças,  não distinguia por  onde passava, as ruas familiares,  agora irreconhecíveis, o taxi seguia em marcha lenta, apenas percebia as  luzes trémulas e pouco nítida dos faróis, reflexos no meio do nada, as claridades das ruas as  luzes dos prédios. O meu coração tremia, por não ter  referências exteriores. O que apaziguava era a voz  tranquila do motorista, descrevia sem lamentações ruidosas  o quanto fora difícil chegar à loja, o estado das estradas, das ruas, os carros numa grande confusão.  À medida que seguia menos pontos de referência se avistavam. Quando finalmente entrámos na via rápida,  fiquei alarmada, a chuva deu lugar ao nevoeiro cerrado, continuei cega. Só notava o automóvel da frente pela luz fraca dos faróis.  Por fim, cheguei, destranquei a porta da rua e subi  as escadas do edifício numa corrida, tanto quanto as forças me permitiam. Que grande alívio entrar em casa. Fui a uma das janelas , pela vidraça avistei um fumo branco como uma cortina , impedia de ver  os prédios da frente. Que sensação estranha. Um cenário irreal  como se lá  fora não existisse nada e até eu própria pertencesse a um mundo suspenso e inexistente.