Pablo Picasso
Ele, um funcionário da
Câmara, pintor autodidacta desconhecido. Ela, uma famigerada escritora e
jornalista.
Ele mostrou uma série
de trabalhos a um colega e o parecer foi favorável, para quê esconder o seu talento?
Podia ir mais longe, apostar a sério, arriscar mais!
- Conheces alguém do
meio?
- Conhecer, conhecer,
não conheço, mas posso te indicar uma pessoa muito próximo de outra, essa sim,
navega nesses mares. Posso dar o contacto dele, no entanto, espera para eu
confirmar se ele está interessado.
O encontro deu-se numa
esplanada à beira mar. Uma ligação de telemóvel e rapidamente localizou um
homem magro, barba farta, óculos de sol, boné escuro, que prontamente acenou.
Cumprimentaram-se e o recém chegado também pediu um café. Trocaram algumas
palavras habituais. Logo a seguir passaram a outro assunto:
- Onde estão essas
maravilhas?
Ele retirou de uma
pasta grande, umas folhas grossas.
- Oh, um aguarelista!?
Que bem! Deixe cá dar uma vista de olhos.
O outro permaneceu na
expectativa.
- Tem conhecimentos de
arte?
- Não, apenas o que vou
pesquisando na Internet.
- Sendo assim, tem
feito bom uso dessa pesquisa. O que me é dado apreciar é assaz interessante,
revela sensibilidade e bom gosto! Tem de continuar! Já pensou numa exposição?
- Sim... também, o meu
interesse passa mais por entrar em
contacto com um artista que foi
convidado a semana passada, no programa
" Espaço Criativo”, transmitido na
TV. No fim da entrevista apelou àqueles que se sentissem a mesma vocação ou com
dificuldades em ingressar no mundo das artes, que o procurassem.
- Qual o seu interesse
nesse artista?
- Os trabalhos dele estão
na mesma linha dos meus e fiquei fascinado.
- Um momento, já sei de
quem se trata, é o senhor James William, nunca falei com ele pessoalmente, ou sequer
tive algum tipo de aproximação... Sei que é casado com a senhora Rachel,
professora universitária e vivem em Londres...
- Gostou das minhas
aguarelas?
- Sim, sim, excelentes!
Como se propõe entrar em contacto com o pintor?
- Não sei, esperei até
ao fim do programa, a ver se alguém mencionava algum contacto mas nada. Liguei
para a RTP mas não estão autorizados a revelar dados a estranhos.
- Era de prever.
- Lembrei-me agora,
esse programa é apresentado pela Maria Bravo, uma amiga minha. Ela faz rádio e
televisão.
- Então vou lá
procurá-la?
- Faça isso. Entretanto
eu aviso-a da sua ida lá.
Cumprimentaram-se com
um aperto de mão e despediram-se. A manhã continuava brilhante, cortada em
gumes pelos voos verticais, horizontais e oblíquos das gaivotas e as
embarcações atracadas baloiçavam-se e roçavam-se deliciadas umas nas outras.
No dia seguinte, ele aguardava
ansioso pela presença da tal jornalista, um nervoso miudinho mordia-o bem por dentro.
Ela atrasava-se com frequência. Dez horas e trinta da manhã, meia hora depois
do esperado; Ei-la, muito apressada, as mãos ocupadas a carregar tralha. Assim
que mencionaram o nome dela, ele ergueu-se num salto, colocou-se à frente; uma
mulher possante, roliça, pesada. Um rosto nem bonito, nem feio. Sem carisma.
Cabelo apanhado atrás. Estatura média. Olhos redondos e distraídos:
- Diga!?
- Foi um amigo seu
que...
- Pois! Deixe cá ver!
Sabe, estou demasiado atrasada. Um colega meu já começou o meu programa... Disponho
de apenas uns minutinhos….
Sentou-se numa cadeira,
havia nela traços vincados da tradicional mulher camponesa. Segurou
desajeitadamente na capa, nos trabalhos e quando os passava, declarou:
- Tem aqui sumo do bom...
De repente, todos os
trabalhos tombaram do colo e espalharam-se pelo chão e o queixo dele também
andou ali a saltitar aflito, tamanha fora a desilusão sentida. Ela levantou-se
rapidamente da cadeira, chamou e pediu:
- Sr. António, ajude-me
a levantar isso e leve a pasta para cima, obrigada.
Voltou-se para ele e
rematou:
- Tome, aqui tem o meu cartão,
ligue-me ao final do dia para combinarmos qualquer coisa.
- E os meus trabalhos?
- Não se preocupe, estão
comigo! Até logo!
Ele ficou ali, meio
aturdido, desconfiado da boa fé daquela mulher, contraiu o rosto e abandonou o
local, desagradado.
Em casa com a
mulher.
- Filó, hoje não te vou
levar à tua mãe!
- Já sei, disseste
assim que chegaste. Tens que te encontrar com a tal senhora. Eu vou de
autocarro.
Combinaram de se
encontrar no Café Teatro às nove e meia. Ele preparou um discurso breve, para
arrumar a questão. Afinal bastava dar-lhe um mero contacto e tudo ficaria
resolvido.
Ela chegou dez horas,
pediu um copo para si e para ele. Ele não gostou da ideia, pretendia passar na
casa da sogra pelas dez e quinze. Cada vez que ele abria a boca, ela fechava-a
com conversas que não lhe interessavam; os temas foram variados; desde a
planificação e das regras de urbanismo, das obras da zona velha da cidade. E
ele cada vez mais aflito. E deve ter sido bem visível porque a certa altura, ela
questionou:
- Não lhe agrada a
minha companhia?
- Não se trata disso, fiquei
de apanhar a minha mulher às dez e quinze e já são dez e cinquenta e cinco.
- Vá lá então,
continuamos a nossa conversa amanhã.
Quando a mulher entrou
no carro:
- Então, assunto
resolvido?
- Nada!
- Porquê?
- A senhora é um
massacre! Tagarela dos diabos!
- Pois, é muito culta! Exibiu-se
para ti! E nada acerca das tuas pinturas?
- Julgas que sim?
- Tens de ter paciência,
essa gente é cheia de nove horas... é
tudo como querem, precisas dela...
Esclarece-me um pormenor, ela é bonita?
- Não conheces a
figura?
- Já ouvi falar dela
mas nunca a vi.
- Não tem qualquer
pinta, é um bloco de gordura cozido por um qualquer forno caseiro, lá do norte.
- Assim fico mais
sossegada.
- Somos casados há dois
anos, estamos praticamente em lua de mel, nem filhos chegaram ainda.
- Isso quer dizer que
és fiel?
- Fosse a senhora
bonita ou feia!
O rosto dela correu
para o dele e selaram aquela harmonia com um terno beijo de lábios.
O segundo encontro foi
no mesmo café às vinte e duas e quarenta e cinco. Repetiu-se mais um prato cultural,
à meia noite e meia, ela tinha tragado cinco copos, ele dois. Era quase forçado
a acompanhá-la. Começava a impacientar-se. Sempre que ia ao assunto para
terminar aquele imbróglio, ela contornava as palavras dele e ia por outro
atalho. Ele ansiava o desfecho daquela questão, era só isso.
- Suponho que hoje não
haverá problemas com horários...
- Não e a minha mulher,
é do conhecimento dela que estou consigo!
- Sabe qual é o seu
problema? Ser demasiado certinho! Vire a mesa, solte-se homem!
- Gosto de ser como
sou, não quero mudar nada!
- Com certeza, esqueça
a observação. Diga-me, tem pintado?
- Como? Depois do
trabalho, estou consigo...
- Tem de pensar num
tema para fazer uma exposição.
-Que quer dizer?
- O Sr. James já viu as
suas pinturas e convida-o a ir a Londres expor no atelier dele.
- Isso é ótimo! Quero muito
ir até lá, amealhei para esse efeito!
- Você é demasiado
apressadinho. Tenha calma. Vamos comemorar!
- Desculpe, já bebi o
suficiente para mim, sou fraquinho no que diz respeito a álcool. Depois vou
conduzir, nem pensar!
- Fique descansado, eu
levo-o a casa!
- Agradeço a gentileza
mas prefiro conduzir o meu carro.
- Como é medricas… não
se aventura, ai que tédio de homem!
Ele não respondeu,
preferiu calar-se.
Durante dias e dias
consecutivos foi um tormento para ele, saltitaram de bar em bar, copos e mais
copos, ela ria-se de forma descomunal, havia sempre um motivo para celebrar.
Chegava a casa de madrugada, atingiu níveis de álcool a que não estava
habituado. Começou a ressacar frequentemente.
Ele e a mulher:
- Filó, se quiseres,
desisto disto, nem me reconheço ao espelho... De repente fiquei velho e
cansado.
- A tipa é lixada mesmo!
- Um osso duro de roer,
ainda não devolveu o que é meu, não dá o contacto do inglês. E ando aqui de mãos
atadas!
- Não desistas! O pior já
passou, penso eu!
- Será?!
- Agarra essa
oportunidade para te lançares, também a mim custa! Passaste por tanto para nada!?
Coloca-te a bem com ela, tu é que perdes se te afastares, ela pode negar a
entrega desses trabalhos, entendes? Sabes que estou contigo. Não te preocupes
com mais nada. Cede no que puderes, para sairmos disto o mais breve
possível.
- Efetivamente parece não
haver outra alternativa.
E os dois selaram o
acordo com outro beijo apaixonado.
O novo encontro
aconteceu na casa de um amigo da jornalista. Foi o filho que veio abrir a porta.
O pai ainda não chegara. Encaminhou-os a uma sala onde havia um bar. Ela
serviu-se logo e perguntou se ele podia acompanhá-la no primeiro copo, ao princípio
da noite. Ele recusou, alegando indisposição gástrica. Ela riu-se:
- Você é terrível! Fisicamente
nada para atirar fora, pena essa cabeça tacanha. Tão jovem e pouco sedutor.
- A sua observação não
faz mossa.
- Se continua com essas
atitudes duvido que vá longe!
- Chego a onde devo
chegar!
- E eu, como mulher sou
atraente para si?
- Muito!
- Isso dito assim é pouco
cavalheiro e mente mal!
- Disse aquilo que a Sra.
queria ouvir!
- Também não sabe representar!
Demasiado certinho, careta, qual foi a última loucura que cometeu?
- Qual foi a minha última
loucura? É melhor não perguntar!
- Está a ver como tenho
razão?! Se não fosse eu, a sua vida seria uma verdadeiro desastre.
Subitamente a porta
abriu-se. Era o dono da casa. Ambos calaram-se. Um homem bem parecido, cabelos
médios despenteados, olhos claros, braços tatuados, esfregava as mãos enquanto
se aproximava deles:
- É este o artista? - riu-se.
- É, mas muito tacanho!
Falta iniciá-lo nas nossas regras.
Ele ficou em silêncio,
temeroso do rumo daquela conversa.
- Posso dar início ao
ritual! - rematou o mais velho.
- Parece que está na
hora - pronunciou divertida- hoje é todo teu!
O homem coçou o queixo
quadrado:
- Já vais? – perguntou.
- Sim, tenho outro compromisso!-
respondeu Maria Bravo
E trocaram olhares
cúmplices que ele nem se apercebeu.
- Ótimo, sabe - começou
dirigindo-se ao mais jovem- os seus trabalhos estão ali no meu atelier. Está
interessado em ir a Londres fazer a tal exposição, não?
- Sim, mortinho por
isso.
- Venha comigo -entretanto
Maria Bravo já se havia retirado. Ele seguiu o mais velho, ali cheirava a
tintas, a óleo de linhaça, a aguarás, terebintina, quadros por todos os lados.
Um ambiente fascinante:
- Está a ver, acolá
estão os seus trabalhos, dê uma olhada!
Ele conferiu todo
entusiasmado.
- Sim, estão cá!
- Sem razões para desconfianças,
certo?
- Certo!
- Antes que escorregue
para ouros lados e profira alguma asneira ou mostre arrependimento, vá tirar a
roupa toda, quero pinta-lo nu.
- Como? Estou fora da proposta!
- E como pensa ir para
Londres? Estamos na recta final, é que sabe...
O entusiasmo gelou!
Como contaria a Filó aquela loucura, aquela aberração? Sentiu-se um animal
acossado. Nada o forçava a semelhante coisa mas por outro lado receava que a
mulher se dececionasse com ele.
- Antes vou enviar uma mensagem
à minha mulher, depois dou a minha resposta.
- Faça isso.
Contou o essencial,
queria pô- la a par da verdade. Esperou e a resposta foi:
- Não vaciles agora meu
amor! Estamos nas mãos deles. Pensa no nosso futuro! Há sacrifícios que valem a
pena correr! Estou contigo, sempre estarei! Amo-te muito!
Depois de ler a
mensagem, cerrou os olhos com imensa força. Uma sombra confusa pairou sobre
ele. Esperava que ela se opusesse.
- Então, em que ficamos?
A resposta veio pesada,
custosa e contrariada:
- Fico.
O outro colocou a mão
direita sobre o ombro dele:
- Gosto das suas linhas
corporais e quero contorná-las uma a uma com todo o prazer!
No dia seguinte acordou
esgotado. Viu-se nu e o outro a seu lado ressonava e cheirava a bebida.
Nauseabundo levantou-se e enquanto se vestia, observou um envelope em seu nome,
sobre uma pequena mesa. Abriu-o e dentro constavam as duas passagens, a dele e a
da mulher. A pasta das aguarelas, ali mesmo, tudo conforme acordado. Quando
retirou o envelope havia uma nota sobre a mesa " Adorei a noite que passei
consigo e passaria mais noites como esta. Quando voltar de viagem, se me quiser
encontrar, sabe onde fica a casa, fofo".
Ele amarrotou a nota e
atirou-a para o balde do lixo.
Saiu o mais depressa
possível, ligou a ignição e o carro desapareceu ao fundo da estrada, embrulhado
numa nuvem de pó.
Viajaram para Londres,
foram muito bem recebidos pelo casal inglês, a exposição concretizou-se e foi
um sucesso de tal forma que decidiram ficar mais tempo por lá.
Ele nunca mais foi o
mesmo homem.
PN
Nota: Baseado em factos reais.