terça-feira, 30 de novembro de 2021

Recorte instantâneo

 Observas através de um quadrado?! habituaste-te a isso... eu amarfanhei o quadrado para ter a visão toda. 

Recorte instantâneo

 Dei tudo,  dei toda a vida que tinha, depois percebi que havia uma vida por viver, naturalmente,  a minha! 

Recorte instantâneo

 As nuvens encontram-se, beijam-se ruidosamente, tão  estrondosamente que faz faísca

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

A meio do nevoeiro…

 As árvores estranham 

os gemidos dos pássaros 

Voltam-se e não os vêm 

Por que estão mortos. 


domingo, 21 de novembro de 2021

 A minha esperança nos homens vai encolhendo de tamanho. 

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Hortênsias e Penicas

 

Uma tarde na esplanada 

D. Penica, senhora de idade considerável ;
cabeleira, peruca em forma de penico,
atarrachada na cabeça quase calva,
não fosse uma desvairada ventania
arrancá-la à força e cobrir as suas faces de vergonha.
Macėrrima e má cara.
Fazia-se acompanhar das duas filhas; a primogénita,
Beatrizinha, logo a seguir; Dorzinha e dois filhos da primogénita;
Inocêncio e Larito.
Beatrizinha; uma graça engraçada,  roliça, rechonchudinha,
sem ornatos, nem enfeites e muito meiguinha.
A irmã,  mais nova, ainda solteirinha
temia os homens e ninguém sabia  porquê.
Escanzelada desde os dedos dos pés, à ponta dos cabelos,
os mais  gozões  equiparavam-na ao pai,
pela carência ou ausência de curvas e das saliências
naturais das mulheres.
se o pai fisicamente se assemelhava a um pote inchado,
o mesmo não se diria de D.Penica, no entanto, muito vivaça,
uma força física surpreendente.
Porém,  as duas irmãs muito chegadinhas
partilhavam conversas  entre elas.
Larito, sentado à direita da avó, 
o mais velho dos dois irmãos ; aprumado, pouco dado a risos
ou exibicionismos, cantor de fados, aplaudido pela afinação.
Talento herdado do pai, um fadista conceituado de profissão
que abandonara a família muito cedo.
Larito, possuía dois encantos físicos, a combinação
dos grandes olhos, duas luas,
iguais aos da mãe e a elegância do pai.
Inocêncio, do lado esquerdo, sorridente como a mãe,
até se perceber, o logro que  escondia atrás dos dentes
Um riso trocista, cínico,  matreiro...
Já acima do peso, lábios grossos e vermelhos.
D. Hortênsia, distinta senhora, cabelo grisalho, farto,
ondeado, trajada a gosto. Boa comunicadora,
ar afável e saudável,
olhos pequenos esverdeados e sedutores.
Teresita, a filha,uma  jovem bonita, solteira, sozinha,
atenta a tudo, preocupada e amável .
De um lado, a mãe, do outro, a sobrinha;
Pureza, adolescente bem parecida,
cabelo comprido, bem tratado e liso.
T' shirt decotada, calções curtos,  bonito corpo.
Muito cobiçada e disputada pelos irmãos Larito e Inocêncio
mas não lhes ligava nenhuma.
Concentrada nela própria,  nos seus atributos físicos. 
Ar enfastiado e contrariado.
Sem a menor disposição para estar ali...
O seu lado narcísico, 
massajava repetidas vezes os cabelos,
mirava-se constantemente
como se quisesse ter a certeza
que tudo em si estava perfeito.
Logo a seguir, consultava o telemóvel,
Objeto sempre disponível.
Seguidamente, cruzava os braços e quedava-se
muda e esticada, sobrancelhas altivas.
 
Eis que surge Gonçalito, um rapaz descontraído,
cabelo negro, pastado e comprido até aos ombros.
Rosto quadrado e tisnado.
Ocupou a cadeira ao lado de D. Hortênsia,
que o recebeu com alegria e passou a mão direita
 nos ombros e na cabeça :
- Oh! Quem chegou?! - exclamou D. Penica visivelmente desagradada
- Porquê, não posso? - perguntou  irritado
D. Hortênsia colocou a mão sobre a dele.
- Tens a língua solta! - provocou D. Penica
- A senhora implica comigo! - reagiu áspero
- Eu implico contigo porque tu és insolente!
-  E o que é que eu estou fazendo agora?!- interrogou com espanto
- Eu sei como és na escola, o Inocêncio conta- me tudo...
- Ele conta-lhe o que também faz? -
- Inocêncio, diz lá como é! - D. Penica pediu esclarecimentos
- Eu nunca me comporto mal ! - justificou-se o neto sorridente
- Ah! Estás a ver, fala por ti e de ti e não acuses o meu neto!
- Eu vejo as professoras escreverem  recados na caderneta dele!
-  Não inventes! E agora também és mentiroso?- acusou a senhora
- Não,  não sou mentiroso, ele que diga! - elucidou  o rapaz
- Inocêncio, como é? - trovejou D. Penica abestalhada com os contornos da situação.
- Ate hoje, nenhum professor me escreveu na caderneta! - o rosto de Inocêncio  ficou sério
- Ele rasgou?! - Gonçalito atirou convincente
Beatrizinha,  até aí calada, continuou calada mas pensativa, um clarão escuro assaltou-lhe  o rosto e os olhos.
- Serias capaz?! - voltou-se para o neto
- Nunca, avó! - de repente, Inocêncio simulou uma  tristeza repentina
- Eu bem sabia! Tu não prestas! - continuou  D. Penica
Teresita, trocou um olhar cúmplice com a mãe e sugeriu:
- Gonçalito,  vamos dar uma volta ?
O rapaz nem respondeu, levantou-se imediatamente.
- Partia-te esses ossos todos, um por um !
Gonçalito,  enquanto se afastava dali, virou-se horrorizado:
- A senhora é uma velha chata!
Naquele instante:
- Gonçalito! - Teresita pronunciou com voz de espanto e repreensão e puxou-o pela mão.
Inocêncio parecia divertido, da tristeza, se alguma aconteceu,   nem se lembrava mais dela.
Entretanto D. Penica para D. Hortênsia:
- Aquele diabrete quem julga que é?
- O Gonçalito não é mau miúdo, precisa que o compreendam! 
- Só a sua filha para o aturar! - observou a outra
- Ele agora acalma , pede-lhe desculpa e ficamos todos em paz.
- Eu não desculpo, não merece,ele que  faça por merecer! É pólvora!
Nesse exato momento vem Teresita:
- Foi para casa! - informou os presentes.
- Na próxima,  ele desculpa-se com a D. Penica- esclareceu Teresita e imediatamente a seguir:- Mãe, eu vou pedir a conta para irmos!
- Nós também vamos! E quanto a esse pequeno pedir desculpas, é escusado,  a má educação corre-lhe nas veias! Haste torta, nunca mais endireita.
- Eu não penso assim, D. Penica, devemos tratar de recuperar e não atirar às feras, aí sim, é  perdê-lo definitivamente,  peço desculpas em nome dele... - rematou Teresita pondo um ar sério e ponderado.

Subitamente, Inocêncio saiu dali a correr sem dar explicações e Teresita pôs-lhe os olhos em cima, que  mau pressentimento. Tinham pago as respetivas contas quando Inocêncio voltou, com o mesmo sorriso de sempre nos lábios grossos e nas bochechas, porém, sempre a olhar para trás.
Levantaram-se  da mesa e de repente Inocêncio cinicamente apontava para o outro lado do passeio.
- Lá está o tinhoso de novo! - resmungou  D. Penica
- Tem pedras nas mãos e vê-se que está muito transtornado, repara naquela postura, naquele rosto! - murmurou  D. Hortênsia  para a filha
- Pois! - os olhos de Teresita fulminaram  Inocêncio ,  que distraído e encantado com a cena, nem se apercebeu de nada. Agilmente pediu à sobrinha;  Pureza para  amparar a avó no percurso de volta a casa, enquanto ela ia ter uma conversa com o primo.