A Prosa
Neste blogue além da prosa , consta poesia escrita desde 2007
domingo, 5 de abril de 2026
Deus criou uma" casa "para nós e em troca como temos retribuído?
sábado, 14 de fevereiro de 2026
Viagem XX ( Fim)
Fui entrando planície adentro, como quem remói um assunto, pensamentos dispersos. É óbvio que tudo o que me foi dito fez eco numa parte qualquer do encéfalo. Subi suaves declives, montes em chapéu. Encontrei uma pedra e sentei-me nela. Suspirei. A minha grande esperança era saber que minha mãe estaria lá, no tal lugar, ouvi a sua voz nítida: E nunca mais ninguém vem dizer nada, onde está a pessoa. Que pensamentos assaltavam sua a mente ? Como seriam? Angustiantes? Assustados? Principalmente aqueles mais íntimos ? Como seria ela com ela mesma? E os antepassados? Para ela que lhes teria sucedido? Até para mim! E as saudades da mãe? Julgaria ir juntar-se a ela ? e à irmã mais nova? Noites e dias a chamar por ela, incessantemente. Que rosto teria Deus? Conhecê-lo-ia? E ele a ela? Saberia o seu nome? Se tudo Nele era amor, não havia razão para medo.
Parei de pensar. Levantei - me, ergui o rosto para o azul fresco do céu e pensei que Deus sabe o que faz. Só Deus me conhecia bem e a todos.
Distraída ou com intenção chamei novo Bolt. Não me sentia preparada para a aceitar a perda da minha mãe. Aquele silêncio, a beleza do lugar entristecia-me. Voltei aos ruídos da cidade.
Viagem XIX (cont)
Acercei-me da viatura, confirmei a matrícula.
Abri a porta traseira e dei de caras com aqueles olhos como lanternas, a brilhar para mim:
- Bom dia, Sr. Luís, nem associei o seu nome...
- Bom dia, D. Lígia! Bem vinda ! não associou a fotografia à minha pessoa?
- Sabe , a fotografia da plataforma não é nitida...nem o reconheci
- A D. Ligia estava a ver que Luís era este?! - solta um riso
Eu sorri.
- Hoje vai trabalhar mais cedo ?!
- Não, nao, hoje não!
- Pouco importa, vai à sua vida! - envergonhou-se pela curiosidade
- Sr. Luís vou arejar os cabelos e abrir os pulmões!
- Vai arejar os cabelos? o vento encarrega-se de emaranhá-los...e de os sujar de novo.
- E haja água para lavar de novo!
- Se o vento parar um bocadinho ficará um dia estupendo!
- Por isso mesmo Sr. Luís, vou esperar e aproveitar!
- Ficar muito tempo dentro de quatro paredes não é bom!
- Nada saudável! Abrir as cortinas ,é a renovação mental, clarear a visao, revela espaços para novas perspectivas , fazer desaparecer as sombras . Não há coisa pior que um quarto sem luz . A luz natural, não é a luz elétrica, a natural é saúde e provoca humor.
- D. Lígia, uma pessoa até se sente mais desperta durante o dia e até dorme melhor à noite.
- Luz é energia .A vitalidade circula livremente e equilibra a energia do lar.
- Luz é riqueza !
- Deus me livre de viver numa casa escura! Atrai depressões e outras doenças !
- Já somois dois! Na minha opinião, neste mundo, há muita coisa ao contrário, o homem foi feito para dormir à noite e viver de dia e ao fim de semana descansar, descansar não é terminar tarefas da semana, é conviver com a família, à mesa e não é comer como porquinhos, refeições que demoram quase uma eternidade, sair da mesa é o que custa mais! Não vê aquelas barrigonas , parece que vão explodir a qualquer momento, as mulheres é a mesma coisa e as crianças parecem bóias! Um mau estilo de vida!
Não pude deixar de soltar uma risada ! E ele continou:
- Esta gente come e bebe como se o mundo acabasse amanhã, o mundo vai acabar mas não é amanhã !
Soltei nova risada ! É que tudo nele é engraçado, a voz , os gestos, o rosto. E quando se volta para trás, para mim, ainda se torna mais hilariante. Ao me ver rir, ele também se ri , muito bem disposto. É mais jovem que eu, aparenta rondar os quarenta e muitos...o cabelo grisalho puxado para trás, com arabescos à mistura. Naquele rosto os olhos são a parte que mais se destaca, grandes, húmidos, castanhos mel, lábios finos, dentição ligeiramente desalinhada mas nada assustador. O Sr. Luís tem um corpo musculado, de estatura acima da média, todavia, não frequenta ginásio, ao fim de semana, a família vai para a fazendinha da avó que se encontra abandonada, lá, ele e os miúdos sobem as estacas, os paus deixados na terra, varas fincadas no solo, trepam os troncos das árvores de fruto, correm, entre os regos, atiram- se à terra fofa e rebolam, levantam-se , abrem os braços e respigam terra por todos os lados. Também praticam acrobacias e exercícios nas estacas. Enquanto isso, a mulher e à sogra saem à rua e fazem uma caminhada numa estrada muito pouco movimentada.
Após um silêncio , ele rompe:
- A Sr. Lígia, ainda está de luto pela sua mãe?
- Sim, estou!
- Há quanto tempo?
- Oito meses!
- É pouco ! Ainda deve sentir muitas saudades dela?
- Se sinto, só Deus sabe! Às vezes gostava de saber onde está, como está, se está bem, só ou acompanhada? Se tem boas memórias...
- D. Lígia, agarre-se a Deus, tenha fé, peça por ela! Deus vai ouvi-la. Acredite! A sua mãe era crente?
- Sim, era muito!
- Então!?
- Faça a sua parte ! Não pense em mais nada! Faça a sua parte!
- O meu pai era ateu, a minha mãe custava-lhe encarar que não acreditasse em Deus. Toda a vida tentou convencê-lo , ele ria-se de troça. Quando percebeu que tinha sido apanhado ...
O seu pai nunca se converteu?
- Converteu-se !
- A sério?
- A sério, rezava o terço mas não queria que ninguém soubesse.
- D. Lígia, o seu pai salvou-se. Bem lá no fundo, ele acreditava em Deus talvez nem ele mesmo soubesse. Tinha as razões dele para não aceitar, provavelmente as menos corretas .Deus soube esperar. Eu sei de gente que nem na hora da morte! Nem na hora da morte!
- D. Lígia, chegamos ao destino, o seu e o meu, por enquanto é ainda aqui na terra.
Abri a porta , ele desligou o motor.
- D. Lígia, lá em cima há Alguém que nos observa atentamente, mais atentamente do que se julga. O homem esquece-se disso. Se Deus quisesse levaria para o outro mundo os maus, os que estão a provocar sofrimento, destruição e morte mas não faz o mesmo que os homens fazem uns aos outros ,olho por olho dente por dente. Não me compete a mim julgar os atos de Deus. Eu sim , serei julgado. Deus sabe o que faz. Para os bons não haverá morte, será que quando partirmos vamos encontrar os entes queridos que já partiram e formarmos famílias renovadas? - encolheu os ombros
- D. Lígia, agora pense que está aqui, neste lugar maravilhoso, desfrute do seu momento, inspire e expire e seja feliz. Aproveite!
- Sr. Luís, fique bem e até à próxima ! Obrigada.
- Fique com Deus! Obrigado.
- O Sr. Luis levantou o braço num aceno, eu levantei o meu num aceno.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Viagem XVIII
Vem um vento carregado de frio, espevitado inunda as ruas e logo atrás uma poalha de chuva miúda. Há necessidade de se cobrir com mais de um agasalho , refugiar-se dentro de uma loja de roupas, ou um café e tomar uma bebida quente , meter-se numa igreja e assistir à missa que está prestes a começar, os forasteiros ainda percorrem a catedral , em todas as direções passando da nave central até aos braços do transepto , erguendo o telemóvel para fotografar o altar, as imagens dos santos, das santas, Cristo e a Virgem. A imponência gótica , estilo manuelino, sobressai pela riqueza dos seus detalhes decorativos e pela preservação histórica, a atenção dos mais curiosos percorre num deslumbramento o interior , a curiosidade sôfrega corre imediatamente em todas as direções e voa das esculturas para as pinturas. A vertigem do teto em madeira, de colossais dimensões , decoração que mistura raízes orientais islâmicas e estilo exclusivamente ibérico , após as imensas distrações, chega o convite à calma e ao recolhimento divino.
Sentada num banco, reflito de olhos colados no Jesus pregado na cruz, ao alto, entre duas pinturas, medito na Ressurreição, a grandiosa Vitória , o grande triunfo sobre a morte, o pecado e o mal, a Imortalidade é o pilar central da fé cristã na esperança da vida eterna. A certeza que a morte não é o ponto final mas uma porta que se abre para um mundo novo. A ressurreição é a prova de que a morte física foi vencida por Jesus e desta forma, aproxima o homem de Deus, já que se tornou também Homem e ressuscitou para a vida eterna. Esta é a grande expectativa , pois proporciona aos cristãos a certeza de que sendo também eles filhos de Deus, hão- de ressuscitar para uma vida inteira, perfeita e plena.
Estou muito interessada naquele Cristo, o rosto inclinado de tão cansado, fala-se Dele, dos milagres, da santidade, da humildade, da modéstia, da compreensão, da bondade, da humanidade, da tolerância, do perdão. O exemplo do Filho de Deus foi o mais singular e está gravado nas páginas da História. Ninguém pode apagar mas os estudiosos do alto da sua sabedoria já se julgam deuses e analisam o comportamento de Cristo, esquecem, no entanto, que é a sua visão, o ponto de vista de homem terreno, pequeno, com limitações e Jesus não é deste mundo. É Filho de Deus. Nem Deus pensa como os homens. A petulância desta gente polida, de grandes estudos, astuta nas suas ilações e argumentos validados pelos academismos, mestrados, doutoramentos. Por aqui nota-se logo a diferença abismal entre a Divindade e o terreno. Jesus Cristo foi um Homem séculos à frente do seu tempo, de grande inteligência, de imensa sabedoria, enviado pelo Pai em missão. Não obstante, o homem para celebrar o Divino, foi logo se apegar à grandiosidade das construções, imensa pujança, ostentação, vaidade.... Estará Deus à espera destas megalomanias? Quererá Deus que estes impérios o representem? Os sucessivos reis não serviram Deus, serviram a soberba própria do seu génio, a megalomania. Escravizaram para atigir os seus propositos, a opulência, e para apaziguar os ânimos mais exaltados, justificaram como forma única de homenagear Deus. Terá sido? Conquistaram o poder dos impérios com guerras sangrentas, intrigas , traições, assassinatos...
Jesus nasceu pobre, viveu pobre e morreu pobre, o maior legado de Cristo; a palavra, as ações e os milagres, o ser, transmitiu de forma inequívoca o seu amor pela humanidade, deu o seu próprio exemplo e por esse mesmo amor, morreu na cruz por nós. Jesus não se unia nem se aliava à igreja, nem aos poderes políticos, criou o seu grupo de homens simples, que o ouvissem, que acreditassem em si e o seguissem, os apóstolos. Como é certo e sabido, Jesus sentava- se à mesa dos pobres. Convivia com os mais necessitados, Amava as crianças. "O que fizerdes a um dos mais pequenos dos meus irmãos, fazeis a mim" . Contrariamente ao mundo terreno, os pobres são apregoados, defendidos verbalmente, como se brotassem daquelas bocas alguma verdade ou revelassem a mínima bondade para com os mais carenciados. Os grandes deste mundo sempre voltaram as costas aos que mais sentiam fome . Os excluidos deste mundo, até são mencionados, mas depois disso, esquecidos, repete-se o fraseado para ficar gravado na memória do povo, para que a mentira se pareça com a verdade. Convém que a grande massa popular pense que se faz tudo e mais não é impossível. Porém, o povo cego, desesperado e louco ainda acredita que vem aí um santo que vai mudar as suas vidas, não compreende que o falso santo vem desgraçá-los ainda mais. O santo que esconde a face deformada do mesmo barro que todos os outros e ainda muito pior. O único caminho é escolher dos piores, o melhor. Não há milagre que nos salve. Chegamos a um ponto sem retorno.
A aplicação indica que o motorista já chegou.
Ergo-me e respeitosamente persigno-me em nome do Pai , do Filho e do Espírito Santo e logo a seguir, saio.
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Viagem XVII
Há uns anos senti necessidade de viajar através de outro meio de transporte. Por isso uma manhã sombria, chamei um Bolt, mas comecei muito antes pelo táxi, é um transporte de luxo, no entanto, alguns deles, o interior, é tal e qual uma sucata desleixada, normalmente o motorista é antipático, caraça de elefante indisposto, torna-se doença crónica, ar bárbaro, a dúvidas colocadas responde resmungão por monossílabos, não se perturba com a comodidade do passageiro. Outros há que conduzem carros sofisticados, mas não passam de troncos toscos. Durante remotos anos recorri ao táxi , como se não bastasse, o meio onde vivia, era um lugarejo mesquinho. A impressão de um passa para outro e começam a ver pelo mesmo retângulo e vão partilhando a intriga, a difamação e a bisbilhotice é recolhida uns para os outros, depois deixam de ser os mesmos, passam a seres adulterados. Cruzei-me igualmente com taxistas muito simpáticos e atenciosos, embora muito raros. Com alguns travei amizade. Hoje não sobra pedra sobre pedra.
Aguardo uns minutos e fico atenta ao telemóvel, para fixar principalmente a matrícula da viatura e o nome de quem está ao volante. Observo o ecrã e efetivamente está confirmada. Há os mais afáveis, risonhos, capazes de soltar uma boa gargalhada, abrir o interior com cautela e arriscar algumas confissões, especialmente se voltarem a fazer mais serviço para o mesmo passageiro. Há os sisudos, mais reservados, que se focam na direção e guardam silêncio até o fim da viagem. Surgem também aqueles que disfarçam o embaraço do silêncio com música a meio tom, ou por sentirem que é mais agradável e preferível a qualquer comunicação com alguém que desconhecem, há músicas que revelam o raso cultivo de quem as consegue escutar. Neste tipo de serviço, as senhoras são aves raras, as poucas com quem me cruzei, autênticas múmias, nem o cumprimento, nem lhes vi o rosto. lembro-me provavelmente de uma, duas ou três em que a viagem foi um prazer,
Assim que abro a porta de trás, cumprimento imediatamente o motorista. A partir daqui depende de quem vai à frente. Se lhe apetecer uma boa cavaqueada, entro também no cavaco. Tenho sido surpreendida por muitos deles, agradáveis , afáveis, bem falantes, bem dispostos, independentemente da idade. São pessoas com brio e profissionais com boas classificações. A minha experiência é rica neste aspeto. No fim da viagem sou convidada a fazer a avaliação do serviço, do grau de agradabilidade e o direito à opinião pessoal, acrescentar algo que considero adequado, valorizo a simpatia, a afabilidade, o humor, a inteligência, a educação e naturalmente o respeito. Não tolero grosserias. Há outros detalhes que se pode considerar na avaliação, o estado da viatura, a apresentação do veículo, se se encontra preparado para transporte de clientes.
Às vezes gostaria de gravar certas conversas, de tão interessantes que se tornam. Há motoristas que nos marcam pela delicadeza, pela atenção, pela diferença, pela compreensão. Há bons profissionais e boas pessoas nas áreas em que menos se espera.
sexta-feira, 21 de novembro de 2025
Viagem XVI
A viagem fez-se comigo dentro, sem ter visto ninguém, tendo pressentido apenas sombras. As conversas iam e vinham num fluxo ininteligível e monocórdio. Não era o sono que me agrilhoava. Era uma tristeza funda que me prendia. A meio da tarde, para lá do meio da vida, imaginava se tivesse aceite os convites para partir e tentar a sorte além fronteiras. Aconteceram propostas decentes e outras menos decentes. Nem umas, nem outras. Declinei uma por uma. Que vida teria? Como seria o meu quotidiano? Em quem me transformaria? Adaptar-me-ia às novas circunstâncias ? Que gentes e conhecimentos iria adquirir? Arrepender-me-ia mais tarde? Naquela altura havia dentro de mim muito receio, pavor do desconhecido. Hoje, agora, penso como seria importante para mim se ao menos tivesse tentado. Nesse tempo, a família estava viva e boa saúde e alguns até já se tinham emancipado, alguns casado ou seguiram outros caminhos, outras estradas, eu fui ficando. Não era nenhum drama, compensavam as visitas periódicas. Também naquele altura, os valores eram outros que com o passar do tempo se desfizeram, passaram de prazo. No meu tempo já havia filhos tornados reféns dos pais que cresciam no banco de trás do carro, sem nenhuma liberdade mas sem sinal de ecrãns viciantes, havia tempo para pensar, para refletir sobre o sentido da vida. Infelizmente era eu com os meus receios. Uma alma paralítica, paralisada fruto de construções periclitantes, frágeis e quem muito vacila e hesita não chega a lado nenhum. O enlace do cordão umbilical permaneceu a vida toda. No entanto, não lamento nada. Sei que deveria acontecer um afastamento e um regresso. Não tive ânimo para dar o salto. Deixei-me vencer pelos fantasmas. Inconscientemente boicotei-me por dentro criando impossíveis, para deste modo justificar a falha em atender aos chamados. As grandes alterações assustam, mexe-se numa pedra e todas as outras rolam. A tendência é não tocar, porque ao correrem vão provocar ruído, desorganizar o que se dá como arrumado e intocável, os sons perturbam mentes que se assustam facilmente , preferem que tudo permaneça igual e estático. Também há gente medrosa que se manifesta de forma contrária ao que os maxilares audazes e perspicazes expressam. De qualquer forma, não fui mas encontrei formas de cavar túneis e pontes com acesso ao lado de lá. Houve muita correspondência trocada que me enriqueceu como pessoa.
Pela janela, reparei na montanha densa de nevoeiro compacto a resvalar das serras para a parte sul, precipitando-se de forma rala sobre a cidade, a desvanecer lentamente. Esta imagem remeteu-me para um dia em que choveu torrencialmente, desde as três horas da tarde , com algumas pausas breves que mal se notaram e depois continou sem cessar , quando eram dezoite e vinte tomei a real consciência do que se estava a passar lá fora, um dia de inverno incomum e invulgar. A escuridão, as luzes emanando reflexos embaciados. Subi de uma rua para outra para conseguir um refúgio, parei e o meu guarda chuva soava a um toldo encharcado. O consolo eram as lojas abertas mas havia no ar uma inquietação, um desassossego nas pessoas que entravam e saíam a correr. A água parecia querer infiltrar-se pelos poros, tomar de assalto os músculos , chegar aos ossos e encher a corrente sanguínea. Tinha-se tornado assustador. O trânsito automóvel lento, demasiado lento, mexia com o sistema nervoso. Os canteiros das flores transbordavam, até parecia que a força da água queria arrancar as flores pela raíz. Comecei a ligar para os meus contatos, todos indisponíveis. Recolhi-me à porta de uma das lojas, depois vi que se tratava de antiguidades, entretanto para disfarçar o nervosismo, eu e a dona, uma senhora atraente com olhos sorridentes ainda trocamos alguma conversa. Mostrou-se simpática e amável e também ela preocupada comigo, procurou estabelecer ligação com os seus contatos. Após várias tentativas infrutíferas, lá conseguiu que um primo taxista viesse, no entanto, devido aos caos instalado, teria de esperar.
E aguardei, não sei quanto tempo, um tempo interminável, a chuva não dava tréguas, a dona da loja inquieta por mim, pelo primo que se atrasava, olhava para a rua apreensiva ...de seguida, colocava-se atrás do balcão, atendia um ou outro cliente mais corajoso , indiferente a toda a agitação violenta que se desenrolava, logo a seguir dirijia-me a palavra, tentando animar: Não se preocupe, o meu primo está quase a chegar e já a leva a casa, porém , a minha casa ficava longe dali e isso agoniava-me. Quando finalmente escutei umas quantas buzinadelas , cheguei-me à porta. Devia ser ele, a dona da loja confirmou, corra, disse ela, ainda tive tempo de me voltar e agradecer convenientemente o favor e a gentileza, tinha sido um anjo, de outra forma não sei como voltaria . Quando entrei no taxi cumprimentei o primo da dona da loja e foi aí que entrei em estado de grande perturbação. Através dos vidros fortemente embaciados, uma escuridão de bréu e água a fustigar as vidraças, não distinguia por onde passava, as ruas familiares, agora irreconhecíveis, o taxi seguia em marcha lenta, apenas percebia as luzes trémulas e pouco nítida dos faróis, reflexos no meio do nada, as claridades das ruas as luzes dos prédios. O meu coração tremia, por não ter referências exteriores. O que apaziguava era a voz tranquila do motorista, descrevia sem lamentações ruidosas o quanto fora difícil chegar à loja, o estado das estradas, das ruas, os carros numa grande confusão. À medida que seguia menos pontos de referência se avistavam. Quando finalmente entrámos na via rápida, fiquei alarmada, a chuva deu lugar ao nevoeiro cerrado, continuei cega. Só notava o automóvel da frente pela luz fraca dos faróis. Por fim, cheguei, destranquei a porta da rua e subi as escadas do edifício numa corrida, tanto quanto as forças me permitiam. Que grande alívio entrar em casa. Fui a uma das janelas , pela vidraça avistei um fumo branco como uma cortina , impedia de ver os prédios da frente. Que sensação estranha. Um cenário irreal como se lá fora não existisse nada e até eu própria pertencesse a um mundo suspenso e inexistente.
terça-feira, 23 de setembro de 2025
Viagem XV
Estou a sair da cidade rumo a casa . Sei que quando lá chego só encontro aquele silêncio asfixiante, perturbador, incomodativo. A sensação viva e a consciência de que falta a presença habitual, a alma da casa, as notas coloridas já não estão , é tão triste, muito triste, a lembrança e o sentimento que deixou cá, o lugar vago que ninguém pode preencher. Dos cantinhos dela erguem-se montanhas de silêncio, são vazios abissais. Olha-se em redor, a cama articulada vazia, as almofadas sem uso, as cadeiras sem o corpo. Algo ali murchou para sempre.
Cumprida a minha missão , resta seguir por outro atalho. Outro caminho, procurar outro espaço que me pertença.
Li algures sobre a reencarnação, para mim é impensal, uma idosa vai habitar um corpo de uma vida nova? Não me faz sentido nenhum, que absurdo, ainda mais absurdo que aquela do nosso primo afastado ser um primata. Cada tese bizarra! E ainda há quem embarque nestes inventos pouco ortodoxos .
Espreito pela vidraça grupos de mulheres e homens agarrados às sombras. É que o fogo crepita pernas fora, como se o asfalto tivessem incendiado , a cozer-nos os calos, como se estivéssemos a caminhar dentro de uma enorme frigideira, e a sermos fritos, sente-se o inferno à volta, a derreter-nos, o calor dos incêndios imiscuído nas temperaturas temerárias, devoram estranhamente. Escapar é meter-se a correr em abrigos frescos, há os que arriscam caminhar por entre estas lebaredas, nao sei como suportam...
O autocarro desanda após cada paragem, a sentir o mesmo fogo. Por isso o carrossel continua a sua viagem sem freios.
Através da vidraça encontro o sorriso da minha mãe. Há lá fora uma senhora, tão semelhante, num impeto era atirar-se porta fora e ali mesmo, dar-lhe um abraço apertado e chorar e rir e rir e chorar. De repente, a senhora volta o rosto num outro sentido e aí, constato que não é ela. Não é a primeira vez que sucede , deve acontecer com toda a gente. Já me pareceu ter visto outros familiares falecidos. Espero que estejam todos reunidos no Paraíso, local sagrado ou como ela mesma dizia, que todos os mortos iriam habitar uma nova Jerusalém. O autocarro arranca devagar, a cidade continua o seu percurso ora lento, ora veloz. Parecem formigas dispersas, que se vão evitando umas às outras para não chocarem. E regresso à minha mãe, a mágoa de não estar presente no último adeus. Não me conformo. Julgo que nunca me hei-de conformar. Metade de mim, está com ela, metade dela está comigo. Um dia, quando nos voltarmos a encontrar, as duas metades vão completar numa só. Unidas para sempre, de mãos dadas. Em Paz, finalmente, por toda a eternidade. Tal como o Pai e o Filho. Entretanto, a viagem segue. Após muitos anos sem entrar numa igreja, o meu problema é com os padres, nunca com Deus. Penso numa missa por ela e fico surpreendida, não acredito no negócio que ali entra, por cada nome citado, quanto custa ao cidadão comum. E ainda há o peditório durante a missa. Das minhas mãos não cai uma moeda por mais pequeno que seja o seu valor. O estado mete os tentáculos no nosso bolso e a igreja vai pelo mesmo caminho? Não, não embarco nessa, Deus conhece as minhas intenções. À porta da igreja, há pobres que estendem a mão, são os pobres ignorados pelos padres. Mais depressa, os estrangeiros socorrem ou um ou outro residente.
A viagem prossegue e a tarde continua a arder.