No começo nem se olhavam. Nem se viam. Ela habitualmente sentada num dos bancos de ferro maciço, com abertura do assento até à dorsal, formando um largo retangulo arejado causando alívio e conforto e uma sensação muito agradável que apetecia demorar ali, gastar tempo e esquecer as horas. Havia quem se debruçasse para as águas num deslumbramento encantado, uma paisagem digna de qualquer pintor, pincéis, tintas, e telas à espera dos barcos, dos mastros , das amarras, das águas calmas , e dos reflexos estentidos. Outros sentavam-se nas costas do mesmo banco a observar os passantes naquele final de Maio e ainda conseguiam avistar a enseada do lado oposto. Alguns barcos simplesmente adormecidos friccionavam e rangiam lentamente uns contra os outros, ou puxavam as amarras, talvez lhes apetecesse navegar mar fora, solitários e sozinhos. Embarcar na aventura sem dono . O passeio dava gozo, a quem visitasse o cais, vida à esquerda, vida à direita, barcos, gente sentada, gente de pé, gente junta, gente a fotografar, a filmar os barcos de recreio. Chegar ao fundo. O cais terminava de forma quase arredondada com grande amplitude, a varanda, um convite aos olhos; ali mesmo à frennte, os navios de cruzeiro que atracavam no porto. E eles, dois perfeitos desconhecidos. Dentro deles, nada havia despertado ainda , não existia nada. Nada os ligava. Trocavam olhares ocasionalmente. Aos domingos, no cais, sentados num banco, um frente ao outro. Às vezes mais afastados. Entre eles passavam rios de gente, ocasiões outras, praticamente uma ou duas almas ou mesmo o cais vazio, só para eles, só deles.
Depois, passaram a ver-se, a trocar olhares mais prolongados, começaram a encarar-se por entre o caudal de várias pernas, braços, troncos, cabeças. Cada um começou a ser notado pelo outro. Durante album tempo, atreveram-se apenas a namorarem à distância. Ela, de estatura baixa, exibia uma elegância natural, cabelo aos caracóis negros, um corte moderno que lhe conferia um ar de boneca, rosto fresco, sem necessidade de pinturas, casaquinho que lhe assentava bem e saia de tecido fino e duplo, bem acima do joelho, lá pelo meio da pernoca, ténis com alguma altura, aguardava ansiosa que ele tomasse uma atitude, a iniciativa cabia-lhe.
Pelas dezoito e trinta da tarde ainda fazia muito calor, o ar abafado.
Casais de estrangeiros aproveitavam para descontrair em família. As crianças, avezinhas soltas, olhinhos vivos claros, as boquinhas lembravam cerejas frescas, gordinhas, do mesmo vermelho boudoir, cabelos ondulantes louros e soltos e lá iam as gazelas saltitantes, ora num pé, ora noutro, alegres, em festa. Algumas em vestidinhos esvoaçantes, ou shorts coloridos a combinar com camisolas suave e leves de acordo com a estação quente. Nos pés chinelos coloridos e argolas coloridas nos braços, de seguida desfazem-se do nós que as prendem aos pais e desatam a correr numa algazarra, as andorinhas alvoroçadas sentem-se seguras, espreitam as águas, o bastante para os pais lhes segurarem as mãos e afastá-las do perigo.
Mais algum tempo e os olhares trocados começam a prolongar-se, tornaram-se demorados, fixos. Os sorrisos dela meio envergonhados, o sorriso dele mais explícito. Também aconteciam desencontros. Ele chegava, ia até ao fundo do cais, sem a presença habitual, rodava e seguia. Ela sentava-se e aquietava-se na esperança que ele chegasse. A partir de certa hora, já não valia a pena aguardar mais, era sinal que não viria. Ela consultava o relógio de pulso e erguia-se determinada.
Houve um final de tarde, ela esperava esquecida, seguindo com os olhos o voo incerto das gaivotas, a forma das nuvens. Permaneceu sozinha no banco durante algum tempo.
Alguém havia se sentado a seu lado. Apoiou as costas à parte de trás do banco, girou a cabeça por curiosidade e surpreendeu-se com a presença do forasteiro. Sorriram ambos. Ficou embaraçada, ele ali tão próximo. Agora podia finalmente apreciá-lo; semi de lado, mais inclinado para ela, o indivíduo alto, magro, perna trocada, alsa da bolsa ao ombro e a parte pesada sobre o assento do banco. Um livro na mão esquerda, seguro pela abertura das folhas. Vestia calça de tecido fino, com varios bolsos, cor indefinida, cinzento azulada talvez, camisa branca também com dois bolsos. O cabelo ligeiramente ondulado e curto, com entradas que lhe conferiam uma certa graça. O nariz geometricamente recortado, as narinas, dois triangulos bem desenhados, na medida certa e pele intensamente branca, porém, o furinho no queixo tornava-o ainda mais atraente, o olho grande castanho claro molhado, as pestanas compridas. Tudo nele era um despertador de curiosidade. Por fim resolveu cumprimentar:
- Olá, boa tarde! - voz grossa, rouca, com falhas.
- Olá, boa tarde! - respondeu num tom desembaraçado.
Ele sorriu desajeitado e quando abriu os labios, ela entreviu que naquela boca de lábios carnudos, faltavam dentes. Reparou nas mãos grandes, os dedos compridos seguravam um livro .
Ele encarou-a de frente. Agora ela encontrava-se tão próxima, sem nenhuma distância, nem outros impedimentos, podia finalmente apreciá-la. Os olhos gulosos devoravam-na calmamente; o rosto oval trigueiro, os lábios finos com uma cor suave, o ar pensativo, os cabelos frescos, em caracóis miúdos, alguns desciam até ao começo do pescoço. E, os olhos verdes, como se a natueza viesse habitá-los, com raios ocre e uma claridade amarelo primário. E a observação continuava lenta; ela era baixa, elegante, recatada, a postura fina. Uma camisola em crochê colorida ponto fechado, manga a ficar a meio do antebraço, o sapatinho raso e mole. A bolsinha de mão clara. Não se conteve com aquela análise silenciosa, soltou um riso nervoso e mostrou os dentes alinhados e alvos. Naquele momento, ele apertou a boca de vergonha:
-A tarde está a entardecer- observou ele - e eu ainda não sei como se chama.
- O meu nome é Álea - pronunciou com orgulho
- Álea ?! estranhou o nome - é a primeira vez que ouço!Já ouvi outros, de onde veio o seu , sabe?
- O meu , foi a minha mãe, quando passava as páginas de um livro, e lá falava de uma rua com árvores de cada lado, a fotografia era fora de série e ela como estava grávida de mim...
- O seu pai concordou com isso?
- O meu pai achou estranho mas apoiou. Eu também gosto.
- Gosta?
- Sim, Álea, azálea , nome de flor e está ligado à natureza.
Ele sorriu:
- Não mudava de nome?
- Por nada, é diferente, é raro, parece que só existe mais uma pessoa com o meu nome. Já agora qual é o seu? - ela legitimamente perguntou
- O meu é vulgar comparado com o seu; José Luís. Mais conhecido por Zeca. Vem sempre aqui? Gosta do mar e de barcos?
- Sempre que posso, entro , umas vezes fico , outras não. Saio mais leve.
- Sabe o que é isso? A energia do mar muito perto do ser humano tem um efeito na saúde física e mental, uma terapia natural, provoca relaxamento profundo. A própria cor azul do oceano, o som rítmico das ondas, ajuda em casos de ansiedade e permite uma desaceleração dos pensamentos acelerados.
- Já parece um médico a falar!
Zeca sorriu de labios apertados.
- Vamos até ao fundo, já tenho o rabo quadrado.
Ele tornou a sorrir, não se conteve e traiu-se e a boca abriu-se mais e foi aí que ela viu grandes falhas de molares dos dois lados da boca. Ele Conteve-se imediatamente, fechou a boca e parou de rir.
- Zeca, vamos lá? - tornou Álea
- É mesmo para ir? - a ele não lhe apetecia.
- Toca a levantar, isso é tudo preguiça?
Zeca, voltou a sorrir com a expressão dela!
Levantou-se e quando começou a caminhar, olhou em frente com um ar grave, mancava do lado esquerdo.
- Magoou-se no pé?
- Não, é defeito de nascença! - explicou ligeiramente contrariado
- Acontece, temos que saber viver com as nossas limitações. Aceitar com e pensar que há situações muito piores.
Iam caminhando devagar.
- Olhe, zeca, não se nota mas por dentro sou uma panela de pressão . Fervo em água fria. Tenho os nervos à flor da pele e ataques de ansiedade...
- Tem a sorte de não ser visível!
- Mas eu sinto! Sabe o que é isso?
- Não sei!
- O Zeca caminha assim mas faz a sua vida?
- Sim Álea e também sinto dores!
- Cada qual com as suas! E há problemas de saúde piores que o seu, muito piores!
- Isso é verdade! - concordou com ela
E lá ia ele balancando como um barco de um lado para outro.
- O que diz faz sentido, ainda estuda? Deve ser boa aluna!
- O que digo faz sentido, obrigada. Sou filha da minha mãe! Não, já não estudo felizmente!
- Não está na Universidade?
- Qual quê? Nem pensar! Tenho o sexto ano e não quero saber mais da escola.
Os olhos dele escureceram de desilusão:
- Não gostava da escola?
- Não, detestava , fazia tudo com grande esforço!
- Em que se ocupa agora?
- Trabalho numa casa de bordados, com a minha mãe e a minha irmã, sei todos os pontos. Não pense que recebemos misérias, não é das casas tradicionais. É uma boa casa, um negócio de uma família nossa vizinha!
- Diga-me Álea, que faz nos tempos livres?
- Vejo televisão e ouço radio!
O rosto do Zeca ia ficando angustiado com o que ouvia.
- E que programas costuma ver?
- Telenovelas brasileiras?
- E notícias?
- Nomalmente na rádio, além do programa "Música Pedida". Está a me fazer um inquérito? - perguntou espevitada
- Não, não, só queria saber de si!
- E eu não quero saber de si!?
Ficou muito constrangido , consultou o relógio de pulso.
- Tenho de ir, peço desculpa, um compromisso urgente espera-me.
- Assim, de repente..- proferiu desconfiada
- Voltamos a ver-nos um dia destes!
- Antes de se ir embora, estuda para quê?
- Para padre! - respondeu ja quase de costas, retirando-se dali o mais depressa possível
Ela continou a olhar para as costas dele e disse a meia voz
- Padre? Mentiroso do estupor!- deu uns passos em direção à varanda, debrucou-se e ficou a murmurar sozinha.
No dia seguinte, Zeca voltou ao cais, precisava de se explicar com ela. Ficou atento a ver se surgia. Não veio, nos dias subsequentes, nada, algum dia Álea viria e falariam tranquilamente.