domingo, 5 de abril de 2026

Deus criou uma" casa "para nós e em troca como temos retribuído?

Hoje, que sentirá Deus diante desta  criação feita para a Humanidade, a sua Humanidade? Chegou a enviar  o Seu próprio filho , que nasceu humano, entre os humanos,   numa missão de Paz, Humildade, Amor, Exemplo, Ensinamentos!  Em troca  Crucificaram-no !? Mataram Jesus! ? Num acto de Grande  compaixão, Jesus Ressuscitou, para nos dar a conhecer que nós também vamos ganhar uma nova  vida! Que melhor Perdão?  Deus criou o universo com planetas e sóis e estrelas para nos mostrar que está lá presente, observa e não estamos sós! Contudo, precisamos  de acreditar e ter fé! Que Pai misericordioso e  bondosíssimo.  Santo mistério. 

A todos, um Domingo libertador. 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Viagem XX ( Fim)

 Fui entrando   planície adentro, como quem remói um assunto, pensamentos dispersos.  É óbvio que tudo o que me foi dito fez  eco numa parte qualquer do encéfalo. Subi suaves declives, montes em  chapéu.  Encontrei uma pedra e sentei-me nela. Suspirei. A minha grande esperança era saber que minha mãe estaria  lá, no tal lugar, ouvi a sua voz nítida: E nunca mais ninguém  vem dizer nada, onde está a pessoa. Que pensamentos assaltavam sua a mente ?  Como seriam? Angustiantes? Assustados? Principalmente aqueles mais íntimos ? Como seria ela com ela mesma? E os antepassados? Para ela que lhes teria sucedido? Até para mim!  E as saudades da mãe? Julgaria ir juntar-se a ela ? e à irmã mais nova? Noites e dias a chamar por ela, incessantemente.  Que rosto teria Deus? Conhecê-lo-ia? E ele a ela? Saberia o seu nome? Se tudo Nele era amor, não havia razão para medo. 

Parei de pensar. Levantei - me, ergui o rosto para o azul fresco do céu e pensei que Deus sabe o que faz. Só Deus me conhecia bem e a todos.  

Distraída ou  com intenção    chamei novo   Bolt. Não me sentia preparada para a aceitar a perda da minha mãe.  Aquele silêncio,  a beleza do lugar entristecia-me. Voltei aos ruídos da cidade.

Viagem XIX (cont)

 Acercei-me da viatura, confirmei a matrícula. 

Abri a porta traseira e dei de caras  com  aqueles  olhos como lanternas, a brilhar para mim: 

- Bom dia, Sr. Luís,  nem associei o seu nome...

- Bom dia, D. Lígia! Bem vinda ! não  associou a fotografia à minha pessoa?

- Sabe , a fotografia da plataforma não é nitida...nem o reconheci

- A D. Ligia estava a ver que Luís era este?! - solta um  riso

Eu sorri. 

- Hoje  vai trabalhar mais cedo ?!

- Não,  nao, hoje não! 

- Pouco importa,  vai à sua vida! - envergonhou-se pela curiosidade

-  Sr. Luís vou arejar os cabelos e abrir os pulmões! 

- Vai arejar os cabelos? o vento encarrega-se de emaranhá-los...e de os sujar de novo.

- E haja água para lavar de  novo!  

- Se o vento parar um bocadinho  ficará um dia estupendo!

- Por isso mesmo Sr. Luís, vou esperar e aproveitar! 

- Ficar muito tempo dentro de  quatro paredes não é bom! 

- Nada saudável!  Abrir as cortinas ,é a renovação mental,  clarear a visao, revela espaços para novas perspectivas , fazer desaparecer  as sombras . Não há coisa pior que um quarto sem  luz . A luz natural, não é a luz  elétrica, a natural   é saúde  e  provoca humor. 

- D. Lígia,  uma pessoa até  se sente mais desperta durante o dia e até dorme melhor à noite.

- Luz é energia .A vitalidade circula livremente e equilibra a energia do lar.

- Luz é riqueza !

- Deus me livre  de viver numa casa escura! Atrai depressões e outras doenças !  

- Já somois dois! Na  minha opinião, neste mundo,  há muita coisa ao contrário,  o homem  foi feito para dormir à noite e viver de dia e ao fim de semana descansar, descansar não é  terminar tarefas da semana, é conviver  com a família,  à mesa e  não   é comer como porquinhos, refeições que demoram quase uma eternidade,  sair da mesa é o que custa mais!  Não vê aquelas  barrigonas , parece que  vão explodir  a qualquer momento, as mulheres é a mesma coisa e as crianças parecem bóias! Um mau estilo de vida! 

Não pude deixar de soltar uma risada ! E ele continou:

- Esta gente come e bebe como se  o mundo acabasse amanhã, o mundo vai acabar mas não é amanhã ! 

Soltei nova risada ! É que tudo nele é engraçado, a voz , os gestos, o rosto. E quando se  volta  para trás,  para mim, ainda se torna mais hilariante. Ao me ver  rir, ele também se  ri , muito bem disposto. É mais jovem que eu, aparenta rondar   os quarenta  e muitos...o cabelo grisalho puxado para trás,  com arabescos à mistura. Naquele rosto os olhos são a parte que mais se destaca, grandes, húmidos, castanhos mel, lábios finos, dentição ligeiramente desalinhada mas nada  assustador.  O Sr. Luís tem um corpo musculado,  de estatura acima da média, todavia,  não frequenta ginásio,  ao fim de semana, a família vai para a fazendinha da avó  que se encontra abandonada, lá, ele e os miúdos sobem  as estacas, os paus deixados  na terra, varas fincadas no solo,  trepam os troncos das árvores de fruto,  correm, entre os regos, atiram- se à terra fofa e rebolam, levantam-se , abrem os braços e respigam terra por todos os lados. Também   praticam  acrobacias e exercícios nas estacas. Enquanto isso,  a mulher e à sogra saem à rua e fazem uma  caminhada numa estrada muito pouco movimentada.  

Após um silêncio , ele rompe:

- A Sr. Lígia, ainda está de luto pela  sua mãe? 

- Sim, estou! 

- Há quanto tempo?

- Oito meses! 

- É  pouco ! Ainda deve sentir muitas saudades dela? 

- Se sinto, só Deus sabe! Às vezes gostava de saber onde está, como está,  se está  bem, só ou acompanhada?  Se tem boas memórias...

- D. Lígia, agarre-se a Deus, tenha fé,  peça por ela! Deus vai ouvi-la. Acredite! A sua mãe era crente? 

- Sim, era muito! 

- Então!?

- Faça a sua parte ! Não pense em mais nada! Faça a sua parte! 

- O meu pai era ateu, a minha mãe custava-lhe encarar que não acreditasse em  Deus. Toda a vida  tentou convencê-lo , ele ria-se de troça.  Quando   percebeu que tinha sido apanhado ...

O seu pai nunca se converteu? 

-  Converteu-se ! 

 - A sério? 

 - A sério,   rezava o terço mas não queria que ninguém soubesse. 

- D. Lígia,  o seu pai salvou-se. Bem lá no fundo, ele acreditava em Deus talvez nem ele mesmo soubesse. Tinha as razões dele para não aceitar,  provavelmente as menos corretas .Deus soube  esperar. Eu sei de gente que nem na hora da morte! Nem na hora da morte! 

- D. Lígia,  chegamos ao destino,  o seu e o meu, por enquanto é ainda aqui na terra. 

Abri a porta , ele desligou o motor. 

- D. Lígia,  lá em cima há Alguém que nos observa atentamente,  mais atentamente do que se julga. O homem esquece-se disso. Se Deus quisesse levaria para o outro mundo  os maus, os que estão a provocar  sofrimento,  destruição e morte mas não faz o mesmo que os homens fazem uns aos outros ,olho por olho  dente por dente. Não me compete a mim julgar os atos de Deus. Eu sim , serei julgado. Deus sabe o que faz. Para os bons não haverá  morte, será que quando partirmos vamos encontrar os entes queridos que já partiram e formarmos famílias renovadas? - encolheu os ombros 

- D. Lígia,  agora pense que está aqui, neste lugar maravilhoso,  desfrute do seu momento, inspire e expire e seja feliz. Aproveite! 

- Sr. Luís,  fique bem e até à  próxima ! Obrigada. 

- Fique com Deus! Obrigado. 

- O  Sr. Luis levantou o braço num aceno, eu levantei o meu num aceno. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Viagem XVIII

 Vem  um vento carregado de frio, espevitado  inunda as  ruas e logo atrás  uma poalha de chuva miúda.  Há necessidade de se cobrir com  mais de um agasalho , refugiar-se   dentro de uma loja de roupas, ou um  café e tomar uma bebida quente , meter-se numa igreja e assistir à missa que está  prestes a começar, os forasteiros   ainda  percorrem  a catedral , em todas as direções passando da nave  central até  aos braços do transepto ,   erguendo o telemóvel para fotografar o altar, as imagens dos santos, das santas,  Cristo e a Virgem. A imponência gótica , estilo manuelino, sobressai pela riqueza dos seus detalhes decorativos e pela preservação histórica,  a atenção dos mais curiosos percorre num deslumbramento   o  interior , a curiosidade sôfrega corre imediatamente  em todas as direções   e voa das  esculturas para as  pinturas.  A vertigem do  teto em madeira, de colossais  dimensões  , decoração que mistura raízes orientais islâmicas  e estilo exclusivamente ibérico , após  as imensas distrações,  chega o  convite à calma e ao recolhimento  divino. 

Sentada num banco, reflito de olhos colados no  Jesus pregado na cruz,  ao  alto,   entre duas pinturas,  medito  na  Ressurreição,  a grandiosa Vitória ,   o grande  triunfo  sobre a morte, o pecado e o mal, a Imortalidade é  o pilar central   da fé cristã na  esperança da vida eterna.  A certeza que a morte não é o ponto final mas uma porta que se abre para  um mundo novo. A ressurreição é a prova de que a morte física foi  vencida por Jesus  e desta forma, aproxima   o homem de  Deus, já  que  se   tornou também  Homem e ressuscitou para a vida eterna. Esta é a grande  expectativa  , pois  proporciona aos cristãos a certeza de que sendo também  eles  filhos de Deus,  hão- de ressuscitar para uma vida inteira, perfeita e plena.  

Estou muito  interessada naquele Cristo,  o rosto inclinado de tão cansado,  fala-se Dele, dos  milagres, da  santidade, da  humildade, da modéstia,   da  compreensão,  da  bondade, da  humanidade, da  tolerância, do  perdão. O exemplo do Filho de Deus foi o mais singular e está  gravado nas páginas  da História. Ninguém pode  apagar mas  os estudiosos do alto da sua sabedoria já se julgam deuses e analisam o comportamento de Cristo, esquecem, no entanto, que é a sua visão, o ponto de vista de homem terreno, pequeno, com limitações e Jesus não é deste mundo. É Filho de Deus.  Nem Deus  pensa como os homens.  A petulância desta gente polida, de grandes estudos, astuta nas suas ilações e argumentos  validados pelos academismos, mestrados, doutoramentos. Por aqui nota-se logo a diferença abismal entre a Divindade e o terreno.  Jesus Cristo foi um Homem séculos à frente do seu tempo, de grande inteligência, de imensa sabedoria,   enviado pelo Pai em missão.  Não obstante, o homem para celebrar o Divino, foi logo se apegar à grandiosidade das construções, imensa pujança, ostentação,  vaidade.... Estará Deus à espera destas megalomanias?  Quererá  Deus que estes impérios o representem? Os sucessivos reis  não serviram  Deus, serviram a  soberba própria do seu génio,   a megalomania.   Escravizaram para atigir os seus propositos,  a opulência, e para apaziguar os ânimos mais exaltados, justificaram como  forma única  de homenagear Deus. Terá sido? Conquistaram  o poder  dos impérios com guerras sangrentas,  intrigas ,  traições, assassinatos...

Jesus nasceu  pobre, viveu   pobre e morreu pobre, o maior legado de Cristo; a palavra,  as ações e os milagres, o ser,   transmitiu de forma inequívoca o seu  amor pela humanidade, deu o seu próprio  exemplo e por esse mesmo amor,  morreu na cruz por nós. Jesus não se unia nem se aliava  à igreja, nem aos  poderes políticos,  criou o seu grupo de homens  simples, que o ouvissem, que acreditassem em si e o seguissem, os apóstolos. Como é  certo  e sabido,  Jesus sentava- se à mesa dos pobres. Convivia  com os mais necessitados, Amava as crianças. "O que fizerdes a um dos mais pequenos dos meus irmãos,  fazeis a mim" .  Contrariamente  ao mundo terreno,  os pobres são apregoados,  defendidos verbalmente, como se brotassem daquelas bocas  alguma verdade ou revelassem  a mínima  bondade para com os mais carenciados. Os grandes deste mundo sempre voltaram as costas aos que mais  sentiam fome . Os excluidos deste mundo, até  são mencionados, mas depois disso, esquecidos, repete-se o fraseado  para ficar gravado na memória do povo, para que a mentira se pareça com a verdade.   Convém que a grande massa popular pense que se faz tudo e mais não  é impossível. Porém,  o povo cego, desesperado e louco ainda acredita que vem aí um santo que vai mudar as suas vidas, não compreende que o falso santo vem desgraçá-los ainda mais.  O santo que esconde a face deformada do mesmo barro que todos os outros e  ainda muito pior. O único caminho é escolher dos piores, o melhor. Não há milagre que nos salve. Chegamos a um ponto sem retorno.

A aplicação indica que o motorista já  chegou. 

Ergo-me e respeitosamente persigno-me em nome do Pai , do Filho e do Espírito Santo e logo a seguir, saio. 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Viagem XVII

 Há uns anos senti necessidade de viajar através de outro meio de transporte. Por isso uma manhã sombria, chamei um Bolt, mas  comecei muito antes  pelo  táxi, é um transporte de luxo, no entanto, alguns deles, o interior,  é tal e qual uma sucata desleixada,   normalmente o motorista é antipático,  caraça  de elefante indisposto, torna-se  doença crónica, ar bárbaro,  a dúvidas colocadas responde resmungão  por monossílabos, não  se perturba com a comodidade do passageiro. Outros há que conduzem carros  sofisticados,  mas não passam de troncos toscos.   Durante remotos  anos recorri ao táxi ,  como se não bastasse, o meio onde vivia,  era um lugarejo  mesquinho.  A impressão de um passa para outro  e  começam a ver pelo mesmo retângulo e vão  partilhando a  intriga, a difamação e a bisbilhotice  é recolhida  uns para os outros, depois deixam de ser os mesmos, passam a seres adulterados.  Cruzei-me igualmente com taxistas muito simpáticos e atenciosos, embora muito raros. Com alguns  travei amizade. Hoje não sobra pedra sobre pedra. 

Aguardo uns minutos e fico atenta ao telemóvel, para fixar principalmente a matrícula da viatura e o nome de quem está ao volante.  Observo o ecrã e efetivamente está confirmada.   Há os mais  afáveis, risonhos,  capazes de soltar uma boa gargalhada,  abrir  o interior com cautela e arriscar  algumas confissões, especialmente se voltarem a fazer mais serviço para o mesmo passageiro.  Há os sisudos, mais reservados, que se focam na direção e  guardam  silêncio até o fim da viagem.  Surgem também aqueles que disfarçam o embaraço do silêncio com música a meio tom, ou por  sentirem que  é mais agradável e preferível  a qualquer  comunicação com alguém que desconhecem,   há músicas  que revelam o raso cultivo  de quem as consegue escutar.  Neste tipo de serviço, as senhoras são aves raras, as poucas com quem me cruzei,  autênticas  múmias,  nem o cumprimento, nem  lhes  vi o rosto.  lembro-me provavelmente   de uma, duas ou três  em que a viagem foi um prazer, 

Assim que abro a porta de trás, cumprimento imediatamente  o motorista. A partir daqui depende de quem vai à frente.  Se lhe apetecer uma boa cavaqueada, entro  também  no cavaco. Tenho sido  surpreendida  por  muitos deles, agradáveis , afáveis,  bem falantes, bem dispostos,  independentemente da idade. São pessoas com brio e profissionais com  boas classificações.  A minha experiência é rica neste aspeto. No fim da  viagem    sou convidada a fazer a avaliação do serviço,  do grau de agradabilidade e o direito à opinião pessoal, acrescentar  algo que considero adequado, valorizo a simpatia, a afabilidade, o humor, a inteligência, a educação e naturalmente o respeito. Não tolero grosserias. Há outros detalhes que se pode considerar na avaliação,  o estado da viatura, a  apresentação   do veículo, se se encontra preparado  para transporte de clientes. 

Às vezes gostaria de gravar certas conversas, de tão interessantes que se tornam. Há motoristas que nos marcam pela delicadeza, pela atenção, pela diferença, pela compreensão. Há  bons profissionais e boas pessoas nas áreas em que menos se espera. 

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Viagem XVI

 A viagem fez-se comigo dentro, sem ter visto ninguém,  tendo pressentido apenas sombras. As conversas iam e vinham num fluxo  ininteligível e monocórdio.  Não era o sono que me agrilhoava. Era uma tristeza funda que me prendia. A meio da tarde, para lá do meio da vida, imaginava se tivesse aceite os convites para  partir e tentar a sorte além fronteiras. Aconteceram propostas decentes e outras menos decentes.  Nem umas, nem outras. Declinei uma por uma. Que vida teria? Como seria o meu quotidiano? Em quem me transformaria? Adaptar-me-ia às novas circunstâncias  ? Que gentes e conhecimentos iria adquirir? Arrepender-me-ia mais tarde? Naquela altura havia dentro de mim muito receio,  pavor do desconhecido. Hoje, agora, penso como seria  importante para mim se ao menos tivesse tentado.  Nesse tempo,  a família  estava viva e boa saúde e alguns  até já  se tinham emancipado, alguns casado ou seguiram outros caminhos, outras estradas,  eu fui ficando. Não era nenhum drama, compensavam as visitas  periódicas. Também naquele altura,  os valores eram outros  que com o passar do tempo  se desfizeram, passaram de prazo.   No  meu  tempo   já  havia   filhos tornados reféns dos pais que cresciam no banco de trás  do carro, sem nenhuma liberdade mas  sem sinal de ecrãns viciantes, havia tempo para pensar, para refletir  sobre o sentido da vida.  Infelizmente era eu com os meus  receios. Uma  alma paralítica, paralisada fruto de construções periclitantes, frágeis e quem  muito  vacila e hesita não chega a lado nenhum. O enlace  do cordão umbilical  permaneceu  a vida toda.  No entanto, não lamento  nada. Sei que  deveria  acontecer um afastamento e um regresso. Não tive ânimo para dar o salto.   Deixei-me vencer pelos fantasmas.   Inconscientemente  boicotei-me por dentro  criando impossíveis, para deste modo justificar a falha em   atender aos chamados. As grandes alterações assustam,  mexe-se numa pedra e todas as outras rolam. A tendência é  não tocar, porque ao correrem vão provocar ruído, desorganizar  o que se dá como arrumado e intocável,   os sons perturbam mentes que se assustam facilmente , preferem que tudo permaneça igual e estático. Também há  gente  medrosa que se manifesta de forma contrária ao que os maxilares  audazes e perspicazes expressam. De qualquer forma, não fui mas encontrei formas de cavar túneis e pontes com acesso  ao lado de lá. Houve muita correspondência trocada que me enriqueceu como pessoa. 

Pela janela, reparei na montanha densa de nevoeiro compacto a resvalar  das serras para a parte sul,  precipitando-se de forma rala sobre a cidade, a desvanecer lentamente.  Esta imagem  remeteu-me para um dia  em que choveu torrencialmente, desde as três horas  da tarde , com algumas pausas breves que mal se notaram   e depois continou sem cessar , quando eram   dezoite e vinte tomei a real  consciência do que se estava a passar lá  fora,  um dia de inverno  incomum e invulgar. A escuridão,  as luzes emanando reflexos  embaciados. Subi de uma  rua para outra para  conseguir um  refúgio, parei e o meu guarda chuva soava a um toldo encharcado.  O consolo eram as  lojas abertas mas havia no ar uma inquietação,  um desassossego nas pessoas que entravam  e saíam a correr.  A água parecia querer  infiltrar-se pelos poros, tomar de assalto os  músculos , chegar aos ossos e encher a corrente sanguínea. Tinha-se tornado assustador. O trânsito automóvel  lento, demasiado lento,  mexia com o sistema nervoso.  Os canteiros das flores transbordavam, até parecia que a força da água queria  arrancar  as flores pela raíz.   Comecei a ligar para os meus contatos, todos indisponíveis. Recolhi-me à porta de uma das lojas,  depois vi que se tratava de  antiguidades, entretanto para disfarçar o nervosismo, eu e a dona, uma senhora atraente com olhos  sorridentes  ainda trocamos alguma conversa.  Mostrou-se simpática e amável e também ela preocupada comigo, procurou  estabelecer ligação com os seus contatos. Após  várias tentativas infrutíferas, lá  conseguiu que um primo taxista viesse, no entanto, devido aos caos instalado, teria de esperar. 

E aguardei, não sei quanto tempo, um tempo interminável, a chuva não dava tréguas, a dona da loja inquieta  por mim, pelo primo que se atrasava, olhava para a rua  apreensiva ...de seguida, colocava-se atrás do balcão, atendia um ou outro cliente mais corajoso , indiferente a toda a agitação violenta que se desenrolava, logo a seguir dirijia-me a palavra, tentando animar: Não se preocupe, o meu primo está quase a chegar e já a leva a casa, porém , a minha casa ficava longe dali e isso agoniava-me. Quando  finalmente escutei umas quantas  buzinadelas , cheguei-me à porta. Devia ser ele, a dona da loja confirmou, corra, disse ela,  ainda tive tempo de me voltar e agradecer convenientemente o favor e a gentileza, tinha sido um anjo,  de outra forma não sei como voltaria . Quando entrei no taxi cumprimentei o primo da dona da loja e foi aí  que entrei em estado de grande perturbação. Através dos vidros fortemente embaciados, uma escuridão de bréu e água a fustigar as vidraças,  não distinguia por  onde passava, as ruas familiares,  agora irreconhecíveis, o taxi seguia em marcha lenta, apenas percebia as  luzes trémulas e pouco nítida dos faróis, reflexos no meio do nada, as claridades das ruas as  luzes dos prédios. O meu coração tremia, por não ter  referências exteriores. O que apaziguava era a voz  tranquila do motorista, descrevia sem lamentações ruidosas  o quanto fora difícil chegar à loja, o estado das estradas, das ruas, os carros numa grande confusão.  À medida que seguia menos pontos de referência se avistavam. Quando finalmente entrámos na via rápida,  fiquei alarmada, a chuva deu lugar ao nevoeiro cerrado, continuei cega. Só notava o automóvel da frente pela luz fraca dos faróis.  Por fim, cheguei, destranquei a porta da rua e subi  as escadas do edifício numa corrida, tanto quanto as forças me permitiam. Que grande alívio entrar em casa. Fui a uma das janelas , pela vidraça avistei um fumo branco como uma cortina , impedia de ver  os prédios da frente. Que sensação estranha. Um cenário irreal  como se lá  fora não existisse nada e até eu própria pertencesse a um mundo suspenso e inexistente.  


terça-feira, 23 de setembro de 2025

Viagem XV

 Estou a sair da cidade rumo a casa . Sei que quando lá  chego só encontro aquele  silêncio asfixiante,  perturbador, incomodativo. A sensação viva e a consciência de que falta a presença habitual, a alma da casa, as notas coloridas já não estão ,  é tão triste, muito triste, a lembrança e o sentimento que deixou cá, o lugar vago que ninguém pode preencher. Dos cantinhos dela erguem-se montanhas de silêncio, são  vazios abissais. Olha-se em redor, a cama articulada vazia, as almofadas sem uso, as cadeiras sem o corpo.   Algo ali murchou para sempre. 

 Cumprida a minha missão , resta seguir por outro atalho. Outro  caminho, procurar outro espaço que me pertença. 

Li algures sobre a reencarnação,  para mim é impensal, uma idosa vai habitar um corpo de uma vida nova? Não me faz sentido nenhum, que absurdo,  ainda mais absurdo que aquela do nosso primo afastado  ser um  primata. Cada tese bizarra! E ainda há quem embarque nestes inventos pouco ortodoxos . 

 Espreito pela vidraça grupos de mulheres e homens agarrados às sombras.  É que o fogo crepita pernas fora,  como se o asfalto tivessem incendiado ,  a cozer-nos os calos,  como se estivéssemos a caminhar dentro de uma enorme frigideira, e a sermos  fritos, sente-se o  inferno  à volta, a derreter-nos, o calor dos incêndios imiscuído nas temperaturas temerárias, devoram estranhamente.  Escapar é meter-se a correr em abrigos  frescos, há  os que arriscam caminhar por entre estas  lebaredas, nao sei como suportam... 

O autocarro desanda após cada paragem, a sentir o mesmo fogo.  Por isso o carrossel continua a sua viagem sem freios. 

Através da vidraça encontro  o sorriso da minha mãe. Há lá fora uma senhora, tão semelhante,  num impeto  era atirar-se porta fora e ali mesmo, dar-lhe um abraço apertado e chorar e rir e rir e chorar. De repente,  a senhora volta o rosto num outro sentido e aí,  constato que não é ela. Não é a primeira vez que sucede , deve acontecer com toda a gente. Já me pareceu ter visto outros familiares falecidos. Espero que estejam todos reunidos no Paraíso,  local sagrado ou como ela mesma dizia, que todos os mortos iriam habitar uma nova Jerusalém.  O autocarro arranca devagar,  a cidade continua o seu percurso ora lento, ora veloz. Parecem formigas  dispersas, que se vão evitando umas às outras para não chocarem. E regresso à minha mãe,  a mágoa de não estar presente no último adeus. Não me conformo. Julgo que nunca me hei-de conformar. Metade de mim, está com ela, metade dela está comigo. Um dia, quando nos voltarmos a encontrar, as duas metades vão completar numa  só. Unidas para sempre, de mãos dadas. Em Paz, finalmente,  por toda a eternidade.  Tal como o Pai e o Filho. Entretanto, a viagem segue. Após muitos anos sem entrar numa igreja, o meu problema é com os padres, nunca com Deus. Penso  numa missa por ela e fico surpreendida, não  acredito no negócio que ali entra, por cada nome citado, quanto custa ao cidadão comum. E ainda há o peditório durante a missa. Das minhas mãos não cai uma moeda por mais pequeno que seja o seu valor.  O estado mete os tentáculos no  nosso bolso e a igreja vai pelo mesmo caminho? Não, não embarco nessa, Deus conhece as minhas  intenções. À porta da igreja, há pobres que estendem a mão, são os pobres ignorados pelos padres. Mais depressa, os estrangeiros socorrem ou um ou outro residente. 

A viagem prossegue e a tarde continua a arder.