Vem um vento carregado de frio, espevitado inunda as ruas e logo atrás uma poalha de chuva miúda. Há necessidade de se cobrir com mais de um agasalho , refugiar-se dentro de uma loja de roupas, ou um café e tomar uma bebida quente , meter-se numa igreja e assistir à missa que está prestes a começar, os forasteiros ainda percorrem a catedral , em todas as direções passando da nave central até aos braços do transepto , erguendo o telemóvel para fotografar o altar, as imagens dos santos, das santas, Cristo e a Virgem. A imponência gótica , estilo manuelino, sobressai pela riqueza dos seus detalhes decorativos e pela preservação histórica, a atenção dos mais curiosos percorre num deslumbramento o interior , a curiosidade sôfrega corre imediatamente em todas as direções e voa das esculturas para as pinturas. A vertigem do teto em madeira, de colossais dimensões , decoração que mistura raízes orientais islâmicas e estilo exclusivamente ibérico , após as imensas distrações, chega o convite à calma e ao recolhimento divino.
Sentada num banco, reflito de olhos colados no Jesus pregado na cruz, ao alto, entre duas pinturas, medito na Ressurreição, a grandiosa Vitória , o grande triunfo sobre a morte, o pecado e o mal, a Imortalidade é o pilar central da fé cristã na esperança da vida eterna. A certeza que a morte não é o ponto final mas uma porta que se abre para um mundo novo. A ressurreição é a prova de que a morte física foi vencida por Jesus e desta forma, aproxima o homem de Deus, já que se tornou também Homem e ressuscitou para a vida eterna. Esta é a grande expectativa , pois proporciona aos cristãos a certeza de que sendo também eles filhos de Deus, hão- de ressuscitar para uma vida inteira, perfeita e plena.
Estou muito interessada naquele Cristo, o rosto inclinado de tão cansado, fala-se Dele, dos milagres, da santidade, da humildade, da modéstia, da compreensão, da bondade, da humanidade, da tolerância, do perdão. O exemplo do Filho de Deus foi o mais singular e está gravado nas páginas da História. Ninguém pode apagar mas os estudiosos do alto da sua sabedoria já se julgam deuses e analisam o comportamento de Cristo, esquecem, no entanto, que é a sua visão, o ponto de vista de homem terreno, pequeno, com limitações e Jesus não é deste mundo. É Filho de Deus. Nem Deus pensa como os homens. A petulância desta gente polida, de grandes estudos, astuta nas suas ilações e argumentos validados pelos academismos, mestrados, doutoramentos. Por aqui nota-se logo a diferença abismal entre a Divindade e o terreno. Jesus Cristo foi um Homem séculos à frente do seu tempo, de grande inteligência, de imensa sabedoria, enviado pelo Pai em missão. Não obstante, o homem para celebrar o Divino, foi logo se apegar à grandiosidade das construções, imensa pujança, ostentação, vaidade.... Estará Deus à espera destas megalomanias? Quererá Deus que estes impérios o representem? Os sucessivos reis não serviram Deus, serviram a soberba própria do seu génio, a megalomania. Escravizaram para atigir os seus propositos, a opulência, e para apaziguar os ânimos mais exaltados, justificaram como forma única de homenagear Deus. Terá sido? Conquistaram o poder dos impérios com guerras sangrentas, intrigas , traições, assassinatos...
Jesus nasceu pobre, viveu pobre e morreu pobre, o maior legado de Cristo; a palavra, as ações e os milagres, o ser, transmitiu de forma inequívoca o seu amor pela humanidade, deu o seu próprio exemplo e por esse mesmo amor, morreu na cruz por nós. Jesus não se unia nem se aliava à igreja, nem aos poderes políticos, criou o seu grupo de homens simples, que o ouvissem, que acreditassem em si e o seguissem, os apóstolos. Como é certo e sabido, Jesus sentava- se à mesa dos pobres. Convivia com os mais necessitados, Amava as crianças. "O que fizerdes a um dos mais pequenos dos meus irmãos, fazeis a mim" . Contrariamente ao mundo terreno, os pobres são apregoados, defendidos verbalmente, como se brotassem daquelas bocas alguma verdade ou revelassem a mínima bondade para com os mais carenciados. Os grandes deste mundo sempre voltaram as costas aos que mais sentiam fome . Os excluidos deste mundo, até são mencionados, mas depois disso, esquecidos, repete-se o fraseado para ficar gravado na memória do povo, para que a mentira se pareça com a verdade. Convém que a grande massa popular pense que se faz tudo e mais não é impossível. Porém, o povo cego, desesperado e louco ainda acredita que vem aí um santo que vai mudar as suas vidas, não compreende que o falso santo vem desgraçá-los ainda mais. O santo que esconde a face deformada do mesmo barro que todos os outros e ainda muito pior. O único caminho é escolher dos piores, o melhor. Não há milagre que nos salve. Chegamos a um ponto sem retorno.
A aplicação indica que o motorista já chegou.
Ergo-me e respeitosamente persigno-me em nome do Pai , do Filho e do Espírito Santo e logo a seguir, saio.