quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Viagem XVIII

 Vem  um vento carregado de frio, espevitado  inunda as  ruas e logo atrás  uma poalha de chuva miúda.  Há necessidade de se cobrir com  mais de um agasalho , refugiar-se   dentro de uma loja de roupas, ou um  café e tomar uma bebida quente , meter-se numa igreja e assistir à missa que está  prestes a começar, os forasteiros   ainda  percorrem  a catedral , em todas as direções passando da nave  central até  aos braços do transepto ,   erguendo o telemóvel para fotografar o altar, as imagens dos santos, das santas,  Cristo e a Virgem. A imponência gótica , estilo manuelino, sobressai pela riqueza dos seus detalhes decorativos e pela preservação histórica,  a atenção dos mais curiosos percorre num deslumbramento   o  interior , a curiosidade sôfrega corre imediatamente  em todas as direções   e voa das  esculturas para as  pinturas.  A vertigem do  teto em madeira, de colossais  dimensões  , decoração que mistura raízes orientais islâmicas  e estilo exclusivamente ibérico , após  as imensas distrações,  chega o  convite à calma e ao recolhimento  divino. 

Sentada num banco, reflito de olhos colados no  Jesus pregado na cruz,  ao  alto,   entre duas pinturas,  medito  na  Ressurreição,  a grandiosa Vitória ,   o grande  triunfo  sobre a morte, o pecado e o mal, a Imortalidade é  o pilar central   da fé cristã na  esperança da vida eterna.  A certeza que a morte não é o ponto final mas uma porta que se abre para  um mundo novo. A ressurreição é a prova de que a morte física foi  vencida por Jesus  e desta forma, aproxima   o homem de  Deus, já  que  se   tornou também  Homem e ressuscitou para a vida eterna. Esta é a grande  expectativa  , pois  proporciona aos cristãos a certeza de que sendo também  eles  filhos de Deus,  hão- de ressuscitar para uma vida inteira, perfeita e plena.  

Estou muito  interessada naquele Cristo,  o rosto inclinado de tão cansado,  fala-se Dele, dos  milagres, da  santidade, da  humildade, da modéstia,   da  compreensão,  da  bondade, da  humanidade, da  tolerância, do  perdão. O exemplo do Filho de Deus foi o mais singular e está  gravado nas páginas  da História. Ninguém pode  apagar mas  os estudiosos do alto da sua sabedoria já se julgam deuses e analisam o comportamento de Cristo, esquecem, no entanto, que é a sua visão, o ponto de vista de homem terreno, pequeno, com limitações e Jesus não é deste mundo. É Filho de Deus.  Nem Deus  pensa como os homens.  A petulância desta gente polida, de grandes estudos, astuta nas suas ilações e argumentos  validados pelos academismos, mestrados, doutoramentos. Por aqui nota-se logo a diferença abismal entre a Divindade e o terreno.  Jesus Cristo foi um Homem séculos à frente do seu tempo, de grande inteligência, de imensa sabedoria,   enviado pelo Pai em missão.  Não obstante, o homem para celebrar o Divino, foi logo se apegar à grandiosidade das construções, imensa pujança, ostentação,  vaidade.... Estará Deus à espera destas megalomanias?  Quererá  Deus que estes impérios o representem? Os sucessivos reis  não serviram  Deus, serviram a  soberba própria do seu génio,   a megalomania.   Escravizaram para atigir os seus propositos,  a opulência, e para apaziguar os ânimos mais exaltados, justificaram como  forma única  de homenagear Deus. Terá sido? Conquistaram  o poder  dos impérios com guerras sangrentas,  intrigas ,  traições, assassinatos...

Jesus nasceu  pobre, viveu   pobre e morreu pobre, o maior legado de Cristo; a palavra,  as ações e os milagres, o ser,   transmitiu de forma inequívoca o seu  amor pela humanidade, deu o seu próprio  exemplo e por esse mesmo amor,  morreu na cruz por nós. Jesus não se unia nem se aliava  à igreja, nem aos  poderes políticos,  criou o seu grupo de homens  simples, que o ouvissem, que acreditassem em si e o seguissem, os apóstolos. Como é  certo  e sabido,  Jesus sentava- se à mesa dos pobres. Convivia  com os mais necessitados, Amava as crianças. "O que fizerdes a um dos mais pequenos dos meus irmãos,  fazeis a mim" .  Contrariamente  ao mundo terreno,  os pobres são apregoados,  defendidos verbalmente, como se brotassem daquelas bocas  alguma verdade ou revelassem  a mínima  bondade para com os mais carenciados. Os grandes deste mundo sempre voltaram as costas aos que mais  sentiam fome . Os excluidos deste mundo, até  são mencionados, mas depois disso, esquecidos, repete-se o fraseado  para ficar gravado na memória do povo, para que a mentira se pareça com a verdade.   Convém que a grande massa popular pense que se faz tudo e mais não  é impossível. Porém,  o povo cego, desesperado e louco ainda acredita que vem aí um santo que vai mudar as suas vidas, não compreende que o falso santo vem desgraçá-los ainda mais.  O santo que esconde a face deformada do mesmo barro que todos os outros e  ainda muito pior. O único caminho é escolher dos piores, o melhor. Não há milagre que nos salve. Chegamos a um ponto sem retorno.

A aplicação indica que o motorista já  chegou. 

Ergo-me e respeitosamente persigno-me em nome do Pai , do Filho e do Espírito Santo e logo a seguir, saio.