sábado, 14 de fevereiro de 2026

Viagem XIX (cont)

 Acercei-me da viatura, confirmei a matrícula. 

Abri a porta traseira e dei de caras  com  aqueles  olhos como lanternas, a brilhar para mim: 

- Bom dia, Sr. Luís,  nem associei o seu nome...

- Bom dia, D. Lígia! Bem vinda ! não  associou a fotografia à minha pessoa?

- Sabe , a fotografia da plataforma não é nitida...nem o reconheci

- A D. Ligia estava a ver que Luís era este?! - solta um  riso

Eu sorri. 

- Hoje  vai trabalhar mais cedo ?!

- Não,  nao, hoje não! 

- Pouco importa,  vai à sua vida! - envergonhou-se pela curiosidade

-  Sr. Luís vou arejar os cabelos e abrir os pulmões! 

- Vai arejar os cabelos? o vento encarrega-se de emaranhá-los...e de os sujar de novo.

- E haja água para lavar de  novo!  

- Se o vento parar um bocadinho  ficará um dia estupendo!

- Por isso mesmo Sr. Luís, vou esperar e aproveitar! 

- Ficar muito tempo dentro de  quatro paredes não é bom! 

- Nada saudável!  Abrir as cortinas ,é a renovação mental,  clarear a visao, revela espaços para novas perspectivas , fazer desaparecer  as sombras . Não há coisa pior que um quarto sem  luz . A luz natural, não é a luz  elétrica, a natural   é saúde  e  provoca humor. 

- D. Lígia,  uma pessoa até  se sente mais desperta durante o dia e até dorme melhor à noite.

- Luz é energia .A vitalidade circula livremente e equilibra a energia do lar.

- Luz é riqueza !

- Deus me livre  de viver numa casa escura! Atrai depressões e outras doenças !  

- Já somois dois! Na  minha opinião, neste mundo,  há muita coisa ao contrário,  o homem  foi feito para dormir à noite e viver de dia e ao fim de semana descansar, descansar não é  terminar tarefas da semana, é conviver  com a família,  à mesa e  não   é comer como porquinhos, refeições que demoram quase uma eternidade,  sair da mesa é o que custa mais!  Não vê aquelas  barrigonas , parece que  vão explodir  a qualquer momento, as mulheres é a mesma coisa e as crianças parecem bóias! Um mau estilo de vida! 

Não pude deixar de soltar uma risada ! E ele continou:

- Esta gente come e bebe como se  o mundo acabasse amanhã, o mundo vai acabar mas não é amanhã ! 

Soltei nova risada ! É que tudo nele é engraçado, a voz , os gestos, o rosto. E quando se  volta  para trás,  para mim, ainda se torna mais hilariante. Ao me ver  rir, ele também se  ri , muito bem disposto. É mais jovem que eu, aparenta rondar   os quarenta  e muitos...o cabelo grisalho puxado para trás,  com arabescos à mistura. Naquele rosto os olhos são a parte que mais se destaca, grandes, húmidos, castanhos mel, lábios finos, dentição ligeiramente desalinhada mas nada  assustador.  O Sr. Luís tem um corpo musculado,  de estatura acima da média, todavia,  não frequenta ginásio,  ao fim de semana, a família vai para a fazendinha da avó  que se encontra abandonada, lá, ele e os miúdos sobem  as estacas, os paus deixados  na terra, varas fincadas no solo,  trepam os troncos das árvores de fruto,  correm, entre os regos, atiram- se à terra fofa e rebolam, levantam-se , abrem os braços e respigam terra por todos os lados. Também   praticam  acrobacias e exercícios nas estacas. Enquanto isso,  a mulher e à sogra saem à rua e fazem uma  caminhada numa estrada muito pouco movimentada.  

Após um silêncio , ele rompe:

- A Sr. Lígia, ainda está de luto pela  sua mãe? 

- Sim, estou! 

- Há quanto tempo?

- Oito meses! 

- É  pouco ! Ainda deve sentir muitas saudades dela? 

- Se sinto, só Deus sabe! Às vezes gostava de saber onde está, como está,  se está  bem, só ou acompanhada?  Se tem boas memórias...

- D. Lígia, agarre-se a Deus, tenha fé,  peça por ela! Deus vai ouvi-la. Acredite! A sua mãe era crente? 

- Sim, era muito! 

- Então!?

- Faça a sua parte ! Não pense em mais nada! Faça a sua parte! 

- O meu pai era ateu, a minha mãe custava-lhe encarar que não acreditasse em  Deus. Toda a vida  tentou convencê-lo , ele ria-se de troça.  Quando   percebeu que tinha sido apanhado ...

O seu pai nunca se converteu? 

-  Converteu-se ! 

 - A sério? 

 - A sério,   rezava o terço mas não queria que ninguém soubesse. 

- D. Lígia,  o seu pai salvou-se. Bem lá no fundo, ele acreditava em Deus talvez nem ele mesmo soubesse. Tinha as razões dele para não aceitar,  provavelmente as menos corretas .Deus soube  esperar. Eu sei de gente que nem na hora da morte! Nem na hora da morte! 

- D. Lígia,  chegamos ao destino,  o seu e o meu, por enquanto é ainda aqui na terra. 

Abri a porta , ele desligou o motor. 

- D. Lígia,  lá em cima há Alguém que nos observa atentamente,  mais atentamente do que se julga. O homem esquece-se disso. Se Deus quisesse levaria para o outro mundo  os maus, os que estão a provocar  sofrimento,  destruição e morte mas não faz o mesmo que os homens fazem uns aos outros ,olho por olho  dente por dente. Não me compete a mim julgar os atos de Deus. Eu sim , serei julgado. Deus sabe o que faz. Para os bons não haverá  morte, será que quando partirmos vamos encontrar os entes queridos que já partiram e formarmos famílias renovadas? - encolheu os ombros 

- D. Lígia,  agora pense que está aqui, neste lugar maravilhoso,  desfrute do seu momento, inspire e expire e seja feliz. Aproveite! 

- Sr. Luís,  fique bem e até à  próxima ! Obrigada. 

- Fique com Deus! Obrigado. 

- O  Sr. Luis levantou o braço num aceno, eu levantei o meu num aceno.