No dia do funeral
quando acompanhamos
a viatura funerária ao cemitério
Seguíamos transtornados
olhos ensopados de água
torcidos de mágoa
emotivos com a despedida
pensativos e recolhidos
A morte a guiar-nos na estrada
Nao era um finado qualquer...
era o nosso amado paizinho
Deixamo- lo ...assim, adormecido...
voltamos a casa
a titi tinha-se atrasado
e queria assistir à cerimónia fúnebre
do marido da irmã
A irmã, nossa querida mãezinha
piedosa e atormentada
Sentada no cadeirão, as cinquenta
contas pequenas a passarem entre os dedos
curtos , parando abatida
nas contas maiores...
Dava-se conta da sua viúvez...
a falta já daquela companhia que vinha de longe...
Enquanto o carro rolava
Na ida e na vinda...
ouvimos um som assaz estranho
Como descrever ?
Era um grito, um grito vindo das entranhas
longínquo e imparável... Um pedido de socorro?
Medo do desconhecido? Coisas por dizer?
Atribuiu-se tal facto às colunas do automóvel
posteriormente, a um brinquedo a pilhas que deveria estar a rebolar na bagageira do carro e desta forma ativava a respectiva sonoridade
Após a missa de corpo presente, o paizinho foi sepultado
na fundura da terra; cumpriu-se a sua última vontade
Voltamos ao carro
O que nos incomodou anteriormente, subitamente deixou de pertubar...
Regressamos vazios da presença, estranhamente perturbados
de coração apertado
O grito deixou de se escutar.
Afinal não havia pilhas no brinquedo.