quarta-feira, 4 de maio de 2022

O sinal ?

 

No dia do funeral
quando acompanhamos
a viatura funerária ao cemitério
Seguíamos transtornados
olhos  ensopados de água
torcidos de mágoa
emotivos  com a despedida 
 pensativos e recolhidos
A morte a guiar-nos na estrada
Nao era  um finado qualquer...
era o nosso amado  paizinho
Deixamo- lo ...assim, adormecido...
 voltamos a casa
a titi tinha-se atrasado 
e queria assistir à cerimónia fúnebre
do marido da irmã
A irmã,  nossa querida  mãezinha
piedosa e atormentada
Sentada no cadeirão, as cinquenta
contas pequenas a passarem  entre os dedos
curtos , parando abatida
nas contas maiores...
Dava-se conta da sua  viúvez...
a falta já daquela  companhia que vinha de longe...
Enquanto o carro rolava
Na ida e na vinda...
ouvimos um som  assaz estranho
Como descrever ?
Era um grito, um grito vindo das entranhas
longínquo e  imparável... Um pedido de socorro?
Medo do desconhecido? Coisas por dizer?
Atribuiu-se tal  facto às colunas do automóvel
posteriormente, a um brinquedo a pilhas  que deveria estar a rebolar na bagageira do carro e desta forma ativava a  respectiva sonoridade
Após a missa de corpo presente, o paizinho foi sepultado
na fundura da terra; cumpriu-se a sua última vontade
 Voltamos ao carro
O que nos incomodou anteriormente,  subitamente deixou de pertubar...
Regressamos vazios da presença, estranhamente perturbados
de coração apertado
O grito deixou de se escutar.
Afinal não havia pilhas no brinquedo.