sábado, 14 de fevereiro de 2026

Viagem XX ( Fim)

 Fui entrando   planície adentro, como quem remói um assunto, pensamentos dispersos.  É óbvio que tudo o que me foi dito fez  eco numa parte qualquer do encéfalo. Subi suaves declives, montes em  chapéu.  Encontrei uma pedra e sentei-me nela. Suspirei. A minha grande esperança era saber que minha mãe estaria  lá, no tal lugar, ouvi a sua voz nítida: E nunca mais ninguém  vem dizer nada, onde está a pessoa. Que pensamentos assaltavam sua a mente ?  Como seriam? Angustiantes? Assustados? Principalmente aqueles mais íntimos ? Como seria ela com ela mesma? E os antepassados? Para ela que lhes teria sucedido? Até para mim!  E as saudades da mãe? Julgaria ir juntar-se a ela ? e à irmã mais nova? Noites e dias a chamar por ela, incessantemente.  Que rosto teria Deus? Conhecê-lo-ia? E ele a ela? Saberia o seu nome? Se tudo Nele era amor, não havia razão para medo. 

Parei de pensar. Levantei - me, ergui o rosto para o azul fresco do céu e pensei que Deus sabe o que faz. Só Deus me conhecia bem e a todos.  

Distraída ou  com intenção    chamei novo   Bolt. Não me sentia preparada para a aceitar a perda da minha mãe.  Aquele silêncio,  a beleza do lugar entristecia-me. Voltei aos ruídos da cidade.

Viagem XIX (cont)

 Acercei-me da viatura, confirmei a matrícula. 

Abri a porta traseira e dei de caras  com  aqueles  olhos como lanternas, a brilhar para mim: 

- Bom dia, Sr. Luís,  nem associei o seu nome...

- Bom dia, D. Lígia! Bem vinda ! não  associou a fotografia à minha pessoa?

- Sabe , a fotografia da plataforma não é nitida...nem o reconheci

- A D. Ligia estava a ver que Luís era este?! - solta um  riso

Eu sorri. 

- Hoje  vai trabalhar mais cedo ?!

- Não,  nao, hoje não! 

- Pouco importa,  vai à sua vida! - envergonhou-se pela curiosidade

-  Sr. Luís vou arejar os cabelos e abrir os pulmões! 

- Vai arejar os cabelos? o vento encarrega-se de emaranhá-los...e de os sujar de novo.

- E haja água para lavar de  novo!  

- Se o vento parar um bocadinho  ficará um dia estupendo!

- Por isso mesmo Sr. Luís, vou esperar e aproveitar! 

- Ficar muito tempo dentro de  quatro paredes não é bom! 

- Nada saudável!  Abrir as cortinas ,é a renovação mental,  clarear a visao, revela espaços para novas perspectivas , fazer desaparecer  as sombras . Não há coisa pior que um quarto sem  luz . A luz natural, não é a luz  elétrica, a natural   é saúde  e  provoca humor. 

- D. Lígia,  uma pessoa até  se sente mais desperta durante o dia e até dorme melhor à noite.

- Luz é energia .A vitalidade circula livremente e equilibra a energia do lar.

- Luz é riqueza !

- Deus me livre  de viver numa casa escura! Atrai depressões e outras doenças !  

- Já somois dois! Na  minha opinião, neste mundo,  há muita coisa ao contrário,  o homem  foi feito para dormir à noite e viver de dia e ao fim de semana descansar, descansar não é  terminar tarefas da semana, é conviver  com a família,  à mesa e  não   é comer como porquinhos, refeições que demoram quase uma eternidade,  sair da mesa é o que custa mais!  Não vê aquelas  barrigonas , parece que  vão explodir  a qualquer momento, as mulheres é a mesma coisa e as crianças parecem bóias! Um mau estilo de vida! 

Não pude deixar de soltar uma risada ! E ele continou:

- Esta gente come e bebe como se  o mundo acabasse amanhã, o mundo vai acabar mas não é amanhã ! 

Soltei nova risada ! É que tudo nele é engraçado, a voz , os gestos, o rosto. E quando se  volta  para trás,  para mim, ainda se torna mais hilariante. Ao me ver  rir, ele também se  ri , muito bem disposto. É mais jovem que eu, aparenta rondar   os quarenta  e muitos...o cabelo grisalho puxado para trás,  com arabescos à mistura. Naquele rosto os olhos são a parte que mais se destaca, grandes, húmidos, castanhos mel, lábios finos, dentição ligeiramente desalinhada mas nada  assustador.  O Sr. Luís tem um corpo musculado,  de estatura acima da média, todavia,  não frequenta ginásio,  ao fim de semana, a família vai para a fazendinha da avó  que se encontra abandonada, lá, ele e os miúdos sobem  as estacas, os paus deixados  na terra, varas fincadas no solo,  trepam os troncos das árvores de fruto,  correm, entre os regos, atiram- se à terra fofa e rebolam, levantam-se , abrem os braços e respigam terra por todos os lados. Também   praticam  acrobacias e exercícios nas estacas. Enquanto isso,  a mulher e à sogra saem à rua e fazem uma  caminhada numa estrada muito pouco movimentada.  

Após um silêncio , ele rompe:

- A Sr. Lígia, ainda está de luto pela  sua mãe? 

- Sim, estou! 

- Há quanto tempo?

- Oito meses! 

- É  pouco ! Ainda deve sentir muitas saudades dela? 

- Se sinto, só Deus sabe! Às vezes gostava de saber onde está, como está,  se está  bem, só ou acompanhada?  Se tem boas memórias...

- D. Lígia, agarre-se a Deus, tenha fé,  peça por ela! Deus vai ouvi-la. Acredite! A sua mãe era crente? 

- Sim, era muito! 

- Então!?

- Faça a sua parte ! Não pense em mais nada! Faça a sua parte! 

- O meu pai era ateu, a minha mãe custava-lhe encarar que não acreditasse em  Deus. Toda a vida  tentou convencê-lo , ele ria-se de troça.  Quando   percebeu que tinha sido apanhado ...

O seu pai nunca se converteu? 

-  Converteu-se ! 

 - A sério? 

 - A sério,   rezava o terço mas não queria que ninguém soubesse. 

- D. Lígia,  o seu pai salvou-se. Bem lá no fundo, ele acreditava em Deus talvez nem ele mesmo soubesse. Tinha as razões dele para não aceitar,  provavelmente as menos corretas .Deus soube  esperar. Eu sei de gente que nem na hora da morte! Nem na hora da morte! 

- D. Lígia,  chegamos ao destino,  o seu e o meu, por enquanto é ainda aqui na terra. 

Abri a porta , ele desligou o motor. 

- D. Lígia,  lá em cima há Alguém que nos observa atentamente,  mais atentamente do que se julga. O homem esquece-se disso. Se Deus quisesse levaria para o outro mundo  os maus, os que estão a provocar  sofrimento,  destruição e morte mas não faz o mesmo que os homens fazem uns aos outros ,olho por olho  dente por dente. Não me compete a mim julgar os atos de Deus. Eu sim , serei julgado. Deus sabe o que faz. Para os bons não haverá  morte, será que quando partirmos vamos encontrar os entes queridos que já partiram e formarmos famílias renovadas? - encolheu os ombros 

- D. Lígia,  agora pense que está aqui, neste lugar maravilhoso,  desfrute do seu momento, inspire e expire e seja feliz. Aproveite! 

- Sr. Luís,  fique bem e até à  próxima ! Obrigada. 

- Fique com Deus! Obrigado. 

- O  Sr. Luis levantou o braço num aceno, eu levantei o meu num aceno. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Viagem XVIII

 Vem  um vento carregado de frio, espevitado  inunda as  ruas e logo atrás  uma poalha de chuva miúda.  Há necessidade de se cobrir com  mais de um agasalho , refugiar-se   dentro de uma loja de roupas, ou um  café e tomar uma bebida quente , meter-se numa igreja e assistir à missa que está  prestes a começar, os forasteiros   ainda  percorrem  a catedral , em todas as direções passando da nave  central até  aos braços do transepto ,   erguendo o telemóvel para fotografar o altar, as imagens dos santos, das santas,  Cristo e a Virgem. A imponência gótica , estilo manuelino, sobressai pela riqueza dos seus detalhes decorativos e pela preservação histórica,  a atenção dos mais curiosos percorre num deslumbramento   o  interior , a curiosidade sôfrega corre imediatamente  em todas as direções   e voa das  esculturas para as  pinturas.  A vertigem do  teto em madeira, de colossais  dimensões  , decoração que mistura raízes orientais islâmicas  e estilo exclusivamente ibérico , após  as imensas distrações,  chega o  convite à calma e ao recolhimento  divino. 

Sentada num banco, reflito de olhos colados no  Jesus pregado na cruz,  ao  alto,   entre duas pinturas,  medito  na  Ressurreição,  a grandiosa Vitória ,   o grande  triunfo  sobre a morte, o pecado e o mal, a Imortalidade é  o pilar central   da fé cristã na  esperança da vida eterna.  A certeza que a morte não é o ponto final mas uma porta que se abre para  um mundo novo. A ressurreição é a prova de que a morte física foi  vencida por Jesus  e desta forma, aproxima   o homem de  Deus, já  que  se   tornou também  Homem e ressuscitou para a vida eterna. Esta é a grande  expectativa  , pois  proporciona aos cristãos a certeza de que sendo também  eles  filhos de Deus,  hão- de ressuscitar para uma vida inteira, perfeita e plena.  

Estou muito  interessada naquele Cristo,  o rosto inclinado de tão cansado,  fala-se Dele, dos  milagres, da  santidade, da  humildade, da modéstia,   da  compreensão,  da  bondade, da  humanidade, da  tolerância, do  perdão. O exemplo do Filho de Deus foi o mais singular e está  gravado nas páginas  da História. Ninguém pode  apagar mas  os estudiosos do alto da sua sabedoria já se julgam deuses e analisam o comportamento de Cristo, esquecem, no entanto, que é a sua visão, o ponto de vista de homem terreno, pequeno, com limitações e Jesus não é deste mundo. É Filho de Deus.  Nem Deus  pensa como os homens.  A petulância desta gente polida, de grandes estudos, astuta nas suas ilações e argumentos  validados pelos academismos, mestrados, doutoramentos. Por aqui nota-se logo a diferença abismal entre a Divindade e o terreno.  Jesus Cristo foi um Homem séculos à frente do seu tempo, de grande inteligência, de imensa sabedoria,   enviado pelo Pai em missão.  Não obstante, o homem para celebrar o Divino, foi logo se apegar à grandiosidade das construções, imensa pujança, ostentação,  vaidade.... Estará Deus à espera destas megalomanias?  Quererá  Deus que estes impérios o representem? Os sucessivos reis  não serviram  Deus, serviram a  soberba própria do seu génio,   a megalomania.   Escravizaram para atigir os seus propositos,  a opulência, e para apaziguar os ânimos mais exaltados, justificaram como  forma única  de homenagear Deus. Terá sido? Conquistaram  o poder  dos impérios com guerras sangrentas,  intrigas ,  traições, assassinatos...

Jesus nasceu  pobre, viveu   pobre e morreu pobre, o maior legado de Cristo; a palavra,  as ações e os milagres, o ser,   transmitiu de forma inequívoca o seu  amor pela humanidade, deu o seu próprio  exemplo e por esse mesmo amor,  morreu na cruz por nós. Jesus não se unia nem se aliava  à igreja, nem aos  poderes políticos,  criou o seu grupo de homens  simples, que o ouvissem, que acreditassem em si e o seguissem, os apóstolos. Como é  certo  e sabido,  Jesus sentava- se à mesa dos pobres. Convivia  com os mais necessitados, Amava as crianças. "O que fizerdes a um dos mais pequenos dos meus irmãos,  fazeis a mim" .  Contrariamente  ao mundo terreno,  os pobres são apregoados,  defendidos verbalmente, como se brotassem daquelas bocas  alguma verdade ou revelassem  a mínima  bondade para com os mais carenciados. Os grandes deste mundo sempre voltaram as costas aos que mais  sentiam fome . Os excluidos deste mundo, até  são mencionados, mas depois disso, esquecidos, repete-se o fraseado  para ficar gravado na memória do povo, para que a mentira se pareça com a verdade.   Convém que a grande massa popular pense que se faz tudo e mais não  é impossível. Porém,  o povo cego, desesperado e louco ainda acredita que vem aí um santo que vai mudar as suas vidas, não compreende que o falso santo vem desgraçá-los ainda mais.  O santo que esconde a face deformada do mesmo barro que todos os outros e  ainda muito pior. O único caminho é escolher dos piores, o melhor. Não há milagre que nos salve. Chegamos a um ponto sem retorno.

A aplicação indica que o motorista já  chegou. 

Ergo-me e respeitosamente persigno-me em nome do Pai , do Filho e do Espírito Santo e logo a seguir, saio.