Andre Kohn
Conheci-a,
ainda imberbe e incauto…
aquela eternidade
que trava a proximidade
de um jovem sossegado
a uma jovem citadina; horizontes largos, desempoeirada
Os meus olhos mansos
repousavam distraídos
quando viram outros
que passavam
pelos meus...
Causaram em mim tal
embaraço e perturbação…!
No entanto, os meus encantaram-se por aquela visão;
Vi gaivotas rodopiarem em equilíbrio no puro côncavo
etéreo
e chegaram para hospedar-se nas cordas do meu coração
Eu, navio despreparado, fundeado numa pequena baía marítima
fiquei mesmo
ali, imóvel, sem nenhuma acção,
regozijado naquela doce ilusão.
Certo dia, perdido em pensamentos quiméricos;
passeava devagar na orla do mar; pés nus, ténis ao
ombro
E, de modo
imprevisto, fui atingido por uma explosão;
tomado por um fenômeno estranho;
Medo!
Recuei estonteado, meia dúzia de passos para trás,
quase assaltado
por uma síncope!
Voltei-me para o lado inverso. Ajustei os óculos de
sol,
engoli em seco, mexi as mãos; os dedos gelados
Lá estava ela,
sentada sobre a areia fina, virada para
o mar,
Pernas cruzadas , "à chinês "
Havia nela qualquer coisa de hippie sofisticado
e isso desmoronava-me de susto
Permanecia imóvel ... Estaria a meditar?
A ansiedade crescente escalava uma falésia tenebrosa dentro
de mim,
fiquei a espera de um sinal mais descontraído …
desejava muito agir mas sentia-me pregado ao
chão.
Quando a vi sair daquele estado hipnótico
avancei cauteloso;
o corpo todo a tremer,
dissimulei um encontro inesperado e fui convincente.
Cumprimentamo-nos de forma cordial,
ela convidou-me a ficar e partilhar aquele momento a
seu lado.
Falamos de imensas coisas; a voz dela musical...
Julgo que fui além da conta; um jorro de euforia
brotava de mim. Um frenesim louco mas sem atitudes
precipitadas…
O toque da mão
dela no meu braço; um afago delicioso
tão delicioso
que me calei de repente
Senti-me apanhado por um redemoinho;
ela suavizou o constrangimento abrupto
A minha parte tonta sem chão era um disparate…
foi ali, frente ao mar que tudo começou;
Na transparência das águas, um compromisso!
Selado, num acordo de paz entre corpo e alma
Sentia-me em festa, havia reflexos em tudo
aos meus olhos nus e indefesos!
Naquela tarde, à hora crepuscular, despedi-me dela.
Depois, encontrávamo-nos em todas os lugares da
escola; na sala de aula, mesmo a par,
no pátio, na cantina, no bar , nos corredores…
De noite sonhava com ela....
Um dia, a minha mão pousou inadvertidamente sobre a
dela,
imediatamente a
seguir, um corisco desceu sobre
mim;
o coração sofreu um choque estrepitoso
Quando nos encaramos os dois, olhos nos olhos,
os meus olhos confessaram finalmente ...
e os dela recetivos, responderam implicitamente que
sim,
foi aí que segurei a mão dela com mais
força e nunca mais a soltei.
Poema inspirado num casal que conheci de vista nos meus
tempos de secundário.
Durante muitos anos perdi-lhes o rasto, quando voltei a
vê-los, caminhavam lado a lado na
mesma aparente
cumplicidade.
PN
