És uma gaivota entre muitas outras gaivotas que anseia estrear as asas, experimentar o vôo novinho em folha, porém, há empecilhos que estorvam o natural desdobrar do teu corpo, boicotam os teus intentos, forçam -te a curvares a espinha mal inicias a tentativa ... Incutem pensamentos negativos nessa cabeça sonhadora e, a ganhares mais e mais acanhamento. Desvitalizam cada passo dado. Desvalorizam qualquer esforço. Ao impor obrigações absurdas, sujeitam a tua vontade à vontade deles e comprometem o teu futuro de forma inequívoca. O Outono desce compadecido e põe-se à escuta, a voz embargada, dialoga contigo, mapeiam juntos possíveis caminhos para te livrares dessa asfixia total e sem fim à vista. Ocasiões há, em que prefere recolher-se para prantear sozinho, baixinho, num orvalho contido e sentido, por saber-te apanhada num sofrimento atroz ... e ele pouco pode fazer para que livres desse fardo cruel. O trabalho mais árduo é defender-te de ti própria, da armadilha que ajudaram a criar para ti . E o pior dessa dor, que o atravessa todo, é já não te reconhecer; estás a ficar refilona, azeda, a responder irascível, sempre contrariada, na defensiva.
O outono, ignora se vai a tempo do "conserto" . Assemelhas-te aos teus carrascos e malfeitores. Uma gaivota fortemente perturbada, a nascerem--lhe desejos requintados de malvadez, que só pensa em vingar a sua dor em todos aqueles que te aterrorizaram e continuam a causar-te danos irreparáveis. Perdida, num poço fundo de tristeza ... essa desconfiança vê em cada sombra um inimigo a abater. É preciso muita paciência para tratar-te , empregar diligências e remediar essa cordilheira de estragos... recuperar algo de ti... principalmente o perdão!