terça-feira, 16 de abril de 2019

O Inferno de Arthur


O jovem sacerdote Gregório pensou ser mais vantajoso para aquela gente ter alguém a defendê-los; de si próprios, das emboscadas, assaltos e até das investidas de animais perigosos que circulavam naquela região. Apressou-se a solicitar a presença dos populares para auscultar as suas opiniões e transmitir as suas.

Assim que a carroça, puxada por um cavalo branco, foi avistada; grande alarido se levantou, o imenso assombro depositou uma ruga no sobrolho de Gregório.

Chegado ao ponto de encontro, freou devagar o cavalo lento e assustou-se perante o alvoroço de um grupo de homens numa vozearia ininteligível.

Tornou-se pálido ao ver exposto;

paus, facões, espingardas, pistolas…

Imóvel, no banco da carroça, aguardou o desfecho final.

Temeu o pior quando ouviu disparos, depois percebeu que os tiros

tinham sido disparados para o alto. Os homens retiraram-no do banco 

transportaram-no sobre os ombros. Iriam executá-lo? Um tremendo calafrio
percorreu-lhe a  espinha dorsal …  mais à frente  o medo serenou ; atento; notou nos seus rostos demonstração de júbilo e euforia… alguns tocavam-lhe nas mãos, nos braços, no rosto, foi com grande alívio que constatou a alegria com que  o recebiam; à maneira deles ; a ovação comoveu-o e as lágrimas assomaram-lhe aos olhos azuis.

Baixaram-no com desvelo, tratamento dado a um andor.

Agora, frente a frente com a sua gente; dirigiu-lhes palavras de valor e conforto; todos ali o conheciam, sabiam da sua simplicidade, da sua fé, do homem assisado, do seu trabalho; pronto para qualquer chamado, fosse qual fosse o motivo. A fisionomia marmórea benevolente, os cabelos curtos, louros lisos, cova no queixo. Residia ali a beatitude de um altruísta, defensor acérrimo dos ditames de Cristo, um estudioso, complacente e vigilante; possuía um verdadeiro espírito missionário.

Falou-lhes aquilo que precisavam ouvir; O alimento para a alma. Tal como as ovelhas esperam do bom pastor.

Expôs o quanto precisavam de um líder corajoso, a quem escutariam e confiariam os destinos do povoado. Os olhos procuraram entre a multidão à sua frente e encontraram a tal personagem que lhe fazia sentido, fez sinal com a mão. O outro; barbudo, cabelo pelos ombros, olhos escuros, colocou as pontas dos dedos no peito -  Eu?

Sim, ela ele! Saiu de dentro da massa de gente que permanecia em silêncio e foi colocar-se na frente do padre:

- Venha cá, Arthur, vire-se para as pessoas! – aconselhou enérgico.
- Mas eu, padre?  

- Porque não? Conheço-o há tempo suficiente para dizer que tem tudo o que é preciso num líder, então…é a sua oportunidade para demonstrá-lo

- Obrigado padre, por confiar em mim.
- Ei, ouçam, se concordam que o srº Arthur seja o nosso líder aplaudam, se alguém discorda, levante a mão e se pronuncie.
Ladeou Arthur pelos ombros e o outro colocou o braço à volta da cintura do clérigo, esperaram a manifestação das pessoas. Ninguém contra. 

Cumprimentaram-se ambos e Gregório apressou-se a celebrar missa ali mesmo. Ainda tiveram tempo para confraternizar e aos poucos dispersaram; cada um foi aos seus afazeres.

A azáfama retomou o seu habitual; trabalho braçal, cascos de cavalo, carroças rolaram no chão de terra batida, cânticos de louvor a Deus, cânticos de coro, cânticos de amor à terra que dava frutos para viverem, cânticos alegres e abraços calorosos, e diálogos produtivos e alguma prosperidade.

Arthur reunira mais homens para não ser facilmente vencido, cauteloso para não desiludir o amigo Gregório. Passados muitos meses, começou a prestar atenção ao monte à sua frente, subia a cavalo até ao cume, para observar as outras montanhas que se entrepunham à frente daquela. Até que uma madrugada, antes da povoação acordar; mochila às costas, sorrateiramente subiu o dorso do cavalo e pôs-se a caminho.

Assim que os homens notaram a sua ausência, fizeram chegar ao clérigo o seu repentino desaparecimento; uma busca por ali mesmo, talvez tivesse caído por uma ravina ou tivesse sido atacado por um animal feroz, três dias de busca intensa e nada da sua localização, nem uma pista que fosse. O vigário deu o alerta; acaso alguém o encontrasse, que fosse prontamente  socorrido ou corresse a  pedir auxílio.

Passou um mês; comentavam e colocavam todas as hipóteses;  até ter sido morto e levado por um urso.

Certo dia, avistaram um indivíduo a cavalo, a campainha da aldeia soou. Os populares acorreram até ao cimo do monte; uns apostavam que não, outros apostavam que sim! …ali amontoados, o padre pediu licença, colocou-se à frente e afirmou:

- É o sro Arthur!

E foi um alarido de contentamento, o sino da capela tocou e Gregório pediu que o fossem alcançar, podia estar ferido ou muito gasto. Os cavalos saíram numa corrida veloz.

Arthur desceu a montada devagar e ajudado pelos seus homens:
- Padre… - começou o líder…
- Agora não, vá descansar, lavar-se e saciar a fome que bem necessita! Depois conversamos! – aconselhou, pois via ali  um homem extremamente derreado.
Dois dias depois, Arthur veio bater à porta do padre, aparara o cabelo, a barba, roupas frescas…
- Entre, entre, parece um ator de cinema! ficou mais jovem! – observou Gregório com alegria – quer um café?
- Obrigado, não me apetece um café agora, padre! Já estou bem, vim falar consigo, devo-lhe uma explicação.

Os dois sentaram-se à mesa da cozinha:

- Então sro Arthur, que aconteceu? – perguntou morto de curiosidade
- É assim padre, arrisquei demais e sozinho, quis ir  longe e encontrei um desconhecido a cavalo, chamado Frederico, apontou-me logo uma arma …
- Felizmente reconhece que se expos ao perigo e até à morte! - proferiu sério - e esse desconhecido não lhe deu nenhuma chance?
- Nenhuma chance! fui levado para uma povoação maior que a nossa, com outro tipo de construções, mais desenvolvida… e quando percebi que ia mofar na cadeia, fiz o possível e o impossível para escapar e cá estou!
- Que coisa doida, sentiu medo, não?
- Oh, padre! Julguei que não voltaria a ver a luz do sol!
- Quem é esse homem?
- É um homem mau, o governador daquilo lá, ele manda em tudo!
- Pensa que virá atrás de si?… - a aflição do padre era evidente
- Acho que mais dia, menos dia, vem me buscar!
- Deus permita que se esqueça! Falou de nós? Ele sabe que existimos?
- Não, nunca! Apenas disse que me tinha perdido; um ser isolado, longe de casa.
- Isso não me agrada…  que coisa ... mas   provavelmente  acaba por esquecer o episódio! – tentou tranquilizar a sua  alma inquieta.
- Não conte com isso, temos de nos preparar para tudo! Vou armar os homens e os civis têm de colaborar…
- Lá se vai a nossa paz! – lastimou-se profundamente
Havia nos olhos de Arthur uma faísca estranha, uma expressão escura, a possibilidade de um conflito, deixava-o desgostoso, a ele e a Gregório, talvez fosse isso mesmo.
O padre observava o seu líder e aquele espírito beligerante crescente, aquela forma de incitar os homens para um conflito armado, deixava-o desconfiado. Que acontecera com ele? Teria contado toda a verdade?

Até que um dia foi o alvoroço total, alguém anunciou que vinham aí ; muito homem armado!
- Não lhe disse, padre?!
Gregório levou as mãos à cabeça:

- Eu temia isto mesmo! Escute, sro Arthur, evite o confronto, vou içar a bandeira branca!
- Padre! Perdeu a cabeça, agora é o senhor que quer  morrer?
- Tenha calma, tentemos um pacto de paz, eu mesmo irei lá, até eles!
- Idiota, vai estragar os meus planos… - resmungou entre dentes
- Que disse, sro Arthur?
- Nada, eu nem falei!
- Desculpe-me, estou nervoso com esta situação…
- Não se preocupe, eles que venham, nós responderemos e eles vão ver como é!
- Sro Arthur, não fale assim! Não antes de eu tentar…
- O padre é que sabe! – respondeu revoltado
- Que lhe aconteceu, sro Arthur? Está diferente da pessoa que conheci.
- Arrependido por me ter nomeado líder?
- Arrependido não! Aconteceu algo quando se ausentou, voltou outro…! Quer se livrar do que o atormenta? Podemos falar disso! – rematou com humildade
- Ah, padre, julga que é hora de me confessar? – e afastou-se apressadamente, enquanto Gregório examinava-o boquiaberto.

Havia balbúrdia e correria por todo o lado, o pároco, a tremer por dentro, lá foi na carroça desengonçada, a dirigir o cavalo com puxões leves nas rédeas e comandos de voz. Quando chegou a meio campo, levantou-se e ergueu a bandeira branca, nisto um homem da linha inimiga, veio ter com ele a trote calmo. Trocaram impressões, estenderam as mãos e saudaram-se, o recém chegado voltou para os seus acompanhantes  e deu ordem de retirada. Arthur, raivoso, atirou-se discretamente ao chão, rolou num ápice até uma moita, ali perto. Fez pontaria e disparou contra as costas de Gregório, e rapidamente retomou o seu lugar; distraídos; ninguém notara nada. O padre, ainda teve tempo de se voltar, arquejante, olhou para o líder, a bandeira caíra da mão, e com olhos apavorados, compreendeu o terror da traição, os lábios abriram-se e desenharam em silêncio um nome; Arthur, porquê? Os olhos de Gregório fixaram-se nele momentaneamente.

Arthur, incapaz de se mover, cerrou as pálpebras com força, consciente da loucura que acabara de cometer.

 Logo a seguir, Gregorio  tombou da carroça mortalmente para o chão, o líder foi a correr vê-lo, soergueu-o  do chão, tentou tomar-lhe o pulso, estava morto. Abraçou-o em pranto, dizendo baixinho:
- Perdão padre, perdão! Que fiz, Meu Deus!

Todos julgaram que o inimigo havia baleado o padre e insurgiram-se como loucos contra aquele ataque a um homem santo. Inclinado para o cadáver  nos braços, de repente, Arthur levou, uma pancada forte na cabeça e desfaleceu
Vencidos, os que restaram foram levados pelos homens de Frederico, para a outra povoação,longe dali.  Arthur foi com eles.

Isolao,  na prisão, bradava:
- Padre, onde está? Padre, que lhe fiz? Padre, fale comigo! Diga que me perdoa! – e repetia vezes sem conta as frases, ora aos gritos , ora  lavado em lágrimas e em  gemidos. Via-o nas paredes, no teto e chamava-o. Certa vez chegou a suplicar a um dos homens que fazia ronda, que o executasse. E não sossegava; noite e dia. Gritava sem parar, atirava-se contra as paredes, sacudia as grades. Queria falar com o padre Gregório. Só ele podia salvá-lo daquele inferno. A sua alma culpada não encontrava paz, nem sossego! Pedia a morte vezes sem conta. Ninguém o atendia. Até que, sabendo daquela tormenta, Frederico quis que o trouxessem à sua presença:

- Diga-me, de quem se trata?
- Sou Arthur, o responsável pela morte do padre Gregório e das outras pessoas!
- Porque diz isso?
- Eu matei o padre e desencadeei uma guerra estúpida e sem sentido!
- Porque matou o padre?
- Ele queria o contrário de mim!
- E o sro desejava o quê?
- O que era seu!
- Meu? – a perplexidade tomou conta de Frederico
- Sim , do sro – revelou e apontou para o outro
- Explique-se melhor! – pediu calmamente mas incrédulo.

- Certa ocasião aventurei-me e sai de lá sem ninguém saber , avistei-o a si e segui-o e vi que vivia em melhores condições que nós, havia desenvolvimento aqui, quando regressei, a inveja, a cobiça, a  raiva apoderaram-se de mim, já não podia ver ninguém , desprezava  o padre, o melhor amigo que tive na vida. Eu sou apenas um desgraçado  rude, bravio, sem família, um falhado que o padre escolheu para ser líder! Intimamente a vaidade foi-se  entranhando em mim e comecei a sentir vontade de querer mais, aquilo era pouco para mim.

- Ambição desmedida!
- Além de cometer a maior atrocidade da minha vida, provoquei uma guerra; houve baixas do meu lado, houve baixas do seu  e tudo por minha culpa,   culpa que carrego nos ombros. Trai quem confiou em mim ,entende?
- Vou libertá-lo! – decidiu com firmeza
- Não faça isso! Por favor, sou um criminoso, mereço a morte, não vê?
- Vejo um sujeito arrependido, a culpa é o fardo que vai carregar para o resto da vida. Amava o padre? Eu vi-o ser baleado, não fazia ideia de quem tinha disparado. A versão do padre foi invenção sua?
- Foi invenção minha, eu menti mas amava e amo – a voz embargada
Frederico levantou-se da cadeira e foi ao encontro de Arthur e abraçou-o:
- O sro é bom para mim, porquê? o seu gesto aumenta ainda mais a  minha dor e a minha culpa!
- Essa cruz é sua, sro Arthur! Que quer que lhe faça?
- A morte! – respondeu prontamente
-  Não!  acaso serei eu um reles carrasco ? Não! Precisa se regenerar!
- Que mereço, então?
- Olhe, tire essa barba, corte o cabelo, que mais parece um urso e vá para o hospital ajudar a sua gente que ficou ferida, será ajudante dos médicos e enfermeiros, quando terminar essa tarefa, tenho outra missão para si.
- Que missão, sro Frederico?
- Vai igualmente ajudar a erguer uma capela, em memória do padre Gregório, trabalho árduo e de hoje em diante a sua casa será o convento.
- Aceito sim, sro Frederico.
- A sua gente mais perigosa continua presa, uns dois ou três, o resto está fora ou no hospital. Isto não é um castigo, é uma forma de se tornar melhor homem e expiar os seus crimes, o sro Arthur tem um fundo bom, sei que lhe fará bem, é conveniente  para si e para mim.
- Eu sei que é o padre a pedir por mim! Outro, no seu lugar, condenava-me logo à morte.      
- Então agradeça todos os dias ao padre Gregório e a Deus a sua sorte!
- E a si também!
- Se quiser, pode ser! Peça também a Deus por mim! Agora vá cumprir a primeira  parte do nosso trato.

Arthur, ocupou-se  da sua gente, pediu desculpas a todos eles, lamentou a morte de outros, ergueu a capela em memória do sacerdote, aproveitou as horas mortas no convento, onde se exilou, para se instruir, descobriu o seu verdadeiro talento e na parte traseira do jardim, esculpiu  um conjunto de estátuas, dizia que representava uma missa celebrada por aquele que jamais esquecera. Frederico, mandou abrir as portas do convento a quem quisesse admirar as obras e acrescentava que ficariam ali, para quem, de mais distante viesse, pudesse apreciá-las. E assim aconteceu, o nome do escultor correu mundo, recebeu gente de lugares que nem imaginava, deu a conhecer a sua arte, ensinou outros. Tornou-se afável, no entanto, parco nas palavras. Quem passasse à porta da sua cela, ouvia-o todos os dias  a falar com o seu amigo inseparável, por vezes chorava recolhido na sua dor, rezava baixo e provavelmente orava.

 Morreu já com idade avançada, quis se confessar a um dos monges do convento que permaneceu à sua cabeceira até ao fim; contou que Arthur nos momentos finais, balbuciou algumas vezes o nome do tal padre, estendeu a mão direita e acrescentou num fio de voz:

- Padre, veio me buscar? Estou pronto… - um sorriso a desvanecer-se no rosto, os olhos muito abertos, fixos no teto; o estertor da agonia…do canto do olho direito, uma lágrima soltou-se devagar e foi sepultar-se na almofada. Em seguida, o sofrimento parou. Arthur era agora um homem livre. O monge cerrou as pálpebras a um irmão que tinha amado o outro, durante toda a sua vida.
PN 
    
 Desejo a Todos os Amigos, uma Santa e Feliz Páscoa.