O jovem sacerdote
Gregório pensou ser mais vantajoso para aquela gente ter alguém a defendê-los;
de si próprios, das emboscadas, assaltos e até das investidas de animais
perigosos que circulavam naquela região. Apressou-se a solicitar a presença dos
populares para auscultar as suas opiniões e transmitir as suas.
Assim que a carroça,
puxada por um cavalo branco, foi avistada; grande alarido se levantou, o imenso
assombro depositou uma ruga no sobrolho de Gregório.
Chegado ao ponto de encontro,
freou devagar o cavalo lento e assustou-se perante o alvoroço de um grupo de
homens numa vozearia ininteligível.
Tornou-se pálido ao ver exposto;
paus, facões,
espingardas, pistolas…
Imóvel, no banco da
carroça, aguardou o desfecho final.
Temeu o pior quando ouviu
disparos, depois percebeu que os tiros
tinham sido disparados para
o alto. Os homens retiraram-no do banco
e transportaram-no sobre os ombros. Iriam
executá-lo? Um tremendo calafrio
percorreu-lhe a espinha dorsal … mais à frente o medo serenou ; atento; notou nos seus rostos
demonstração de júbilo e euforia… alguns tocavam-lhe nas mãos, nos braços, no rosto,
foi com grande alívio que constatou a alegria com que o recebiam; à maneira deles ; a ovação comoveu-o
e as lágrimas assomaram-lhe aos olhos azuis.
Baixaram-no com desvelo,
tratamento dado a um andor.
Agora, frente a frente
com a sua gente; dirigiu-lhes palavras de valor e conforto; todos ali o conheciam,
sabiam da sua simplicidade, da sua fé, do homem assisado, do seu trabalho;
pronto para qualquer chamado, fosse qual fosse o motivo. A fisionomia marmórea
benevolente, os cabelos curtos, louros lisos, cova no queixo. Residia ali a
beatitude de um altruísta, defensor acérrimo dos ditames de Cristo, um
estudioso, complacente e vigilante; possuía um verdadeiro espírito missionário.
Falou-lhes aquilo que
precisavam ouvir; O alimento para a alma. Tal como as ovelhas esperam do bom
pastor.
Expôs o quanto precisavam
de um líder corajoso, a quem escutariam e confiariam os destinos do povoado. Os
olhos procuraram entre a multidão à sua frente e encontraram a tal personagem
que lhe fazia sentido, fez sinal com a mão. O outro; barbudo, cabelo pelos
ombros, olhos escuros, colocou as pontas dos dedos no peito - Eu?
Sim, ela ele! Saiu de
dentro da massa de gente que permanecia em silêncio e foi colocar-se na frente
do padre:
- Venha cá, Arthur,
vire-se para as pessoas! – aconselhou enérgico.
- Mas eu, padre?
- Porque não? Conheço-o
há tempo suficiente para dizer que tem tudo o que é preciso num líder, então…é
a sua oportunidade para demonstrá-lo
- Obrigado padre, por
confiar em mim.
- Ei, ouçam, se concordam
que o srº Arthur seja o nosso líder aplaudam, se alguém discorda, levante a mão
e se pronuncie.
Ladeou Arthur pelos
ombros e o outro colocou o braço à volta da cintura do clérigo, esperaram a
manifestação das pessoas. Ninguém contra.
Cumprimentaram-se ambos e
Gregório apressou-se a celebrar missa ali mesmo. Ainda tiveram tempo para
confraternizar e aos poucos dispersaram; cada um foi aos seus afazeres.
A azáfama retomou o seu
habitual; trabalho braçal, cascos de cavalo, carroças rolaram no chão de terra
batida, cânticos de louvor a Deus, cânticos de coro, cânticos de amor à terra
que dava frutos para viverem, cânticos alegres e abraços calorosos, e diálogos
produtivos e alguma prosperidade.
Arthur reunira mais
homens para não ser facilmente vencido, cauteloso para não desiludir o amigo
Gregório. Passados muitos meses, começou a prestar atenção ao monte à sua
frente, subia a cavalo até ao cume, para observar as outras montanhas que se entrepunham
à frente daquela. Até que uma madrugada, antes da povoação acordar; mochila às
costas, sorrateiramente subiu o dorso do cavalo e pôs-se a caminho.
Assim que os homens notaram
a sua ausência, fizeram chegar ao clérigo o seu repentino desaparecimento; uma
busca por ali mesmo, talvez tivesse caído por uma ravina ou tivesse sido
atacado por um animal feroz, três dias de busca intensa e nada da sua localização,
nem uma pista que fosse. O vigário deu o alerta; acaso alguém o encontrasse,
que fosse prontamente socorrido ou corresse
a pedir auxílio.
Passou um mês; comentavam
e colocavam todas as hipóteses; até ter
sido morto e levado por um urso.
Certo dia, avistaram um indivíduo
a cavalo, a campainha da aldeia soou. Os populares acorreram até ao cimo do
monte; uns apostavam que não, outros apostavam que sim! …ali amontoados, o
padre pediu licença, colocou-se à frente e afirmou:
- É o sro Arthur!
E foi um alarido de
contentamento, o sino da capela tocou e Gregório pediu que o fossem alcançar,
podia estar ferido ou muito gasto. Os cavalos saíram numa corrida veloz.
Arthur desceu a montada
devagar e ajudado pelos seus homens:
- Padre… - começou o
líder…
- Agora não, vá
descansar, lavar-se e saciar a fome que bem necessita! Depois conversamos! –
aconselhou, pois via ali um homem
extremamente derreado.
Dois dias depois, Arthur
veio bater à porta do padre, aparara o cabelo, a barba, roupas frescas…
- Entre, entre, parece um
ator de cinema! ficou mais jovem! – observou Gregório com alegria – quer um
café?
- Obrigado, não me
apetece um café agora, padre! Já estou bem, vim falar consigo, devo-lhe uma
explicação.
Os dois sentaram-se à
mesa da cozinha:
- Então sro Arthur, que
aconteceu? – perguntou morto de curiosidade
- É assim padre, arrisquei
demais e sozinho, quis ir longe e
encontrei um desconhecido a cavalo, chamado Frederico, apontou-me logo uma arma
…
- Felizmente reconhece que
se expos ao perigo e até à morte! - proferiu sério - e esse desconhecido não
lhe deu nenhuma chance?
- Nenhuma chance! fui
levado para uma povoação maior que a nossa, com outro tipo de construções, mais
desenvolvida… e quando percebi que ia mofar na cadeia, fiz o possível e o
impossível para escapar e cá estou!
- Que coisa doida, sentiu
medo, não?
- Oh, padre! Julguei que
não voltaria a ver a luz do sol!
- Quem é esse homem?
- É um homem mau, o
governador daquilo lá, ele manda em tudo!
- Pensa que virá atrás de
si?… - a aflição do padre era evidente
- Acho que mais dia,
menos dia, vem me buscar!
- Deus permita que se
esqueça! Falou de nós? Ele sabe que existimos?
- Não, nunca! Apenas
disse que me tinha perdido; um ser isolado, longe de casa.
- Isso não me agrada… que coisa ... mas provavelmente acaba por esquecer o episódio! – tentou tranquilizar
a sua alma inquieta.
- Não conte com isso,
temos de nos preparar para tudo! Vou armar os homens e os civis têm de colaborar…
- Lá se vai a nossa paz!
– lastimou-se profundamente
Havia nos olhos de Arthur
uma faísca estranha, uma expressão escura, a possibilidade de um conflito,
deixava-o desgostoso, a ele e a Gregório, talvez fosse isso mesmo.
O padre observava o seu
líder e aquele espírito beligerante crescente, aquela forma de incitar os
homens para um conflito armado, deixava-o desconfiado. Que acontecera com ele?
Teria contado toda a verdade?
Até que um dia foi o
alvoroço total, alguém anunciou que vinham aí ; muito homem armado!
- Não lhe disse, padre?!
Gregório levou as mãos à
cabeça:
- Eu temia isto mesmo!
Escute, sro Arthur, evite o confronto, vou içar a bandeira branca!
- Padre! Perdeu a cabeça,
agora é o senhor que quer morrer?
- Tenha calma, tentemos
um pacto de paz, eu mesmo irei lá, até eles!
- Idiota, vai estragar os
meus planos… - resmungou entre dentes
- Que disse, sro Arthur?
- Nada, eu nem falei!
- Desculpe-me, estou
nervoso com esta situação…
- Não se preocupe, eles
que venham, nós responderemos e eles vão ver como é!
- Sro Arthur, não fale
assim! Não antes de eu tentar…
- O padre é que sabe! –
respondeu revoltado
- Que lhe aconteceu, sro
Arthur? Está diferente da pessoa que conheci.
- Arrependido por me ter
nomeado líder?
- Arrependido não!
Aconteceu algo quando se ausentou, voltou outro…! Quer se livrar do que o
atormenta? Podemos falar disso! – rematou com humildade
- Ah, padre, julga que é
hora de me confessar? – e afastou-se apressadamente, enquanto Gregório
examinava-o boquiaberto.
Havia balbúrdia e
correria por todo o lado, o pároco, a tremer por dentro, lá foi na carroça
desengonçada, a dirigir o cavalo com puxões leves nas rédeas e comandos de voz.
Quando chegou a meio campo, levantou-se e ergueu a bandeira branca, nisto um
homem da linha inimiga, veio ter com ele a trote calmo. Trocaram impressões,
estenderam as mãos e saudaram-se, o recém chegado voltou para os seus
acompanhantes e deu ordem de retirada. Arthur,
raivoso, atirou-se discretamente ao chão, rolou num ápice até uma moita, ali
perto. Fez pontaria e disparou contra as costas de Gregório, e rapidamente
retomou o seu lugar; distraídos; ninguém notara nada. O padre, ainda teve tempo
de se voltar, arquejante, olhou para o líder, a bandeira caíra da mão, e com
olhos apavorados, compreendeu o terror da traição, os lábios abriram-se e desenharam
em silêncio um nome; Arthur, porquê? Os olhos de Gregório fixaram-se nele
momentaneamente.
Arthur, incapaz de se mover,
cerrou as pálpebras com força, consciente da loucura que acabara de cometer.
Logo a seguir, Gregorio tombou da carroça mortalmente
para o chão, o líder foi a correr vê-lo, soergueu-o do chão, tentou tomar-lhe o
pulso, estava morto. Abraçou-o em pranto, dizendo baixinho:
- Perdão padre, perdão!
Que fiz, Meu Deus!
Todos julgaram que o
inimigo havia baleado o padre e insurgiram-se como loucos contra aquele ataque
a um homem santo. Inclinado para o cadáver nos braços, de repente, Arthur levou, uma
pancada forte na cabeça e desfaleceu
Vencidos, os que restaram
foram levados pelos homens de Frederico, para a outra povoação,longe dali. Arthur foi com
eles.
Isolao, na prisão,
bradava:
- Padre, onde está? Padre, que lhe fiz? Padre, fale comigo! Diga que me perdoa! – e repetia vezes sem
conta as frases, ora aos gritos , ora lavado em lágrimas e em gemidos. Via-o nas paredes, no teto e
chamava-o. Certa vez chegou a suplicar a um dos homens que fazia ronda, que o
executasse. E não sossegava; noite e dia. Gritava sem parar, atirava-se contra
as paredes, sacudia as grades. Queria falar com o padre Gregório. Só ele podia
salvá-lo daquele inferno. A sua alma culpada não encontrava paz, nem sossego!
Pedia a morte vezes sem conta. Ninguém o atendia. Até que, sabendo daquela tormenta,
Frederico quis que o trouxessem à sua presença:
- Diga-me, de quem se
trata?
- Sou Arthur, o
responsável pela morte do padre Gregório e das outras pessoas!
- Porque diz isso?
- Eu matei o padre e
desencadeei uma guerra estúpida e sem sentido!
- Porque matou o padre?
- Ele queria o contrário
de mim!
- E o sro desejava o quê?
- O que era seu!
- Meu? – a perplexidade
tomou conta de Frederico
- Sim , do sro – revelou e
apontou para o outro
- Explique-se melhor! –
pediu calmamente mas incrédulo.
- Certa ocasião aventurei-me
e sai de lá sem ninguém saber , avistei-o a si e segui-o e vi que vivia em
melhores condições que nós, havia desenvolvimento aqui, quando regressei, a
inveja, a cobiça, a raiva apoderaram-se
de mim, já não podia ver ninguém , desprezava
o padre, o melhor amigo que tive na vida. Eu sou apenas um desgraçado rude,
bravio, sem família, um falhado que o padre escolheu para ser líder!
Intimamente a vaidade foi-se entranhando em mim e comecei a sentir vontade de
querer mais, aquilo era pouco para mim.
- Ambição desmedida!
- Além de cometer a maior
atrocidade da minha vida, provoquei uma guerra; houve baixas do meu lado, houve
baixas do seu e tudo por minha culpa, culpa que carrego nos ombros. Trai quem confiou em mim ,entende?
- Vou libertá-lo! –
decidiu com firmeza
- Não faça isso! Por
favor, sou um criminoso, mereço a morte, não vê?
- Vejo um sujeito
arrependido, a culpa é o fardo que vai carregar para o resto da vida. Amava o
padre? Eu vi-o ser baleado, não fazia ideia de quem tinha disparado. A versão do
padre foi invenção sua?
- Foi invenção minha, eu
menti mas amava e amo – a voz embargada
Frederico levantou-se da
cadeira e foi ao encontro de Arthur e abraçou-o:
- O sro é bom para mim,
porquê? o seu gesto aumenta ainda mais a minha dor e a minha culpa!
- Essa cruz é sua, sro
Arthur! Que quer que lhe faça?
- A morte! – respondeu
prontamente
- Não! acaso serei eu um reles carrasco ? Não! Precisa se regenerar!
- Que mereço, então?
- Olhe, tire essa barba,
corte o cabelo, que mais parece um urso e vá para o hospital ajudar a sua gente
que ficou ferida, será ajudante dos médicos e enfermeiros, quando terminar essa
tarefa, tenho outra missão para si.
- Que missão, sro
Frederico?
- Vai igualmente ajudar a
erguer uma capela, em memória do padre Gregório, trabalho árduo e de hoje em
diante a sua casa será o convento.
- Aceito sim, sro
Frederico.
- A sua gente mais
perigosa continua presa, uns dois ou três, o resto está fora ou no hospital. Isto
não é um castigo, é uma forma de se tornar melhor homem e expiar os seus
crimes, o sro Arthur tem um fundo bom, sei que lhe fará bem, é conveniente para si e para mim.
- Eu sei que é o padre a
pedir por mim! Outro, no seu lugar, condenava-me logo à morte.
- Então agradeça todos os
dias ao padre Gregório e a Deus a sua sorte!
- E a si também!
- Se quiser, pode ser!
Peça também a Deus por mim! Agora vá cumprir a primeira parte do nosso trato.
Arthur, ocupou-se da sua
gente, pediu desculpas a todos eles, lamentou a morte de outros, ergueu a
capela em memória do sacerdote, aproveitou as horas mortas no convento, onde se
exilou, para se instruir, descobriu o seu verdadeiro talento e na parte
traseira do jardim, esculpiu um conjunto de estátuas, dizia que representava uma missa
celebrada por aquele que jamais esquecera. Frederico, mandou abrir as portas do
convento a quem quisesse admirar as obras e acrescentava que ficariam ali, para
quem, de mais distante viesse, pudesse apreciá-las. E assim aconteceu, o nome do
escultor correu mundo, recebeu gente de lugares que nem imaginava, deu a
conhecer a sua arte, ensinou outros. Tornou-se afável, no entanto, parco nas
palavras. Quem passasse à porta da sua cela, ouvia-o todos os dias a falar com o
seu amigo inseparável, por vezes chorava recolhido na sua dor, rezava baixo e
provavelmente orava.
Morreu já com idade avançada, quis se
confessar a um dos monges do convento que permaneceu à sua cabeceira até ao
fim; contou que Arthur nos momentos finais, balbuciou algumas vezes o nome do
tal padre, estendeu a mão direita e acrescentou num fio de voz:
- Padre, veio me buscar?
Estou pronto… - um sorriso a desvanecer-se no rosto, os olhos muito abertos,
fixos no teto; o estertor da agonia…do canto do olho direito, uma lágrima soltou-se
devagar e foi sepultar-se na almofada. Em seguida, o sofrimento parou. Arthur
era agora um homem livre. O monge cerrou as pálpebras a um irmão que tinha
amado o outro, durante toda a sua vida.
PN
Desejo a Todos os Amigos, uma Santa e Feliz Páscoa.