segunda-feira, 8 de março de 2021

O ajuste de contas

 

O telefone ressoa e a secretária atende.
- Bom dia, gabinete do Dro Fera.
- Bom dia, desejo falar com o Dro Fera.
- Quem devo anunciar?
- Lobo Mau, por favor.
- Aguarde um momento...sim?
- Sim.
Pausa.
- Vou passar já a sua chamada!
- Obrigado! 
- Então,  Lobo! - soa a voz entusiasmada do Dro Fera - a operação foi um êxito!
- Como sabe?
- Estou por dentro de tudo! Julgaste que tiraria o olho de ti...
- Nesse caso, não existem novidades a transmitir! Precisamos acertar a minha parte.
- Quero ter o prazer de escutar certos pormenores...
- Dro Fera, está na hora de...
- Detesto que me interrompam! Cala-te e deixa-me terminar o raciocínio! - berra e atropela as palavras, afogado em raiva.
- Desculpe, pode continuar, Dro Fera.-  responde o Lobo, manso
Silêncio.
- Vá,  prossegue! - o Dro Fera recompõe-se e ordena.
- É assim, fiquei mais próximo da dita cuja e ela aos poucos foi-se confessando, e eu naturalmente também me expus...
- Que queres dizer com isso ? !
- Tive que engendrar uma vida para mim! A de Lobo bom,  decente, boas famílias,  caso contrário o plano  esfumava-se.
- Um  cordeirinho por tempo indeterminado e provisório.
- Exatamente, fui obrigado  a agir assim...
- Obrigado?! Quem te obrigou a ...?
- Espere...
-Outra vez a cortar a palavra?! Já te avisei que odeio interrupções, és surdo?- de novo, a voz irada
- Não senhor, Dro Fera, peço desculpa!
- Vá,  siga!
- Siga , para onde?
- Continua a tua narrativa,  estúpido! 
- Retomo a exposição dos pormenores,  confesso que não foi fácil! A dita cuja era o que julgávamos; esperta, inteligente,  atenta... 
- Salta essa parte! Chegaste a casar com ela?
- Sim, casei com ela, uma cerimónia  rápida,  sem ninguém, só nós dois, um falso padre ... por isso, não valeu de nada!
- Apaixonaste-te por ela?
- Jamais,  ela não possuí os requisitos que me atraem!  Sem encantos...A dita cuja é  muito travada!
- E sexo antes do casamento?
- Não! Nem se deixa arrastar para isso! 
- Que idade?
- Dezessete anos!
- Maior de idade!  Não te apeteceu forçar nada?
- O plano esteve sempre presente na minha cabeça!
- No teu lugar, aproveitaria tudo o que estivesse ao meu alcance, comigo, não havia de falhar! - remata folgado
- Ao contrário de si,  eu não queria mesmo! Se a atração faltou...
- És parvo, "a ocasião faz o ladrão "! Adiante!
- A lua de mel era uma surpresa minha, a dita cuja desconhecia que o destino da viagem era a  Sibéria,  embarcou sozinha, fiquei para trás,  esqueci de propósito uma das minhas malas. O avião arrancou sem mim.
- A reacção dela?- ri-se com gozo
- Como vou saber?
- Questionavas a hospedeira!
- Isso que importa!?
- Fiquei curioso, imagino-a atarantada a agir tal qual uma barata tonta! Dá-me prazer!
- Neste momento, nada sei dela!
-  É óbvio, já morreu congelada, nem teve tempo para enfrentar os lobos selvagens! - agora, sufocado em riso, controla-se e pergunta -  Sentes dó da dita cuja?
- Antes ela a dar-se mal que eu, não sinto nada, indiferença absoluta!
- Eu sou Fera mas tu és mesmo Mau!
- Sou Mau ao seu serviço!
- Tu ofereceste-te, ninguem te forçou a nada!
- As circunstâncias forçaram! - explica - Temos pontos a ajustar!
- Lobo Mau, como é possível teres levado... quanto tempo nisso?!
- Três anos!
- Impressionante! 
- Tenho uma lista de nomes importantes, sei de factos inéditos, conheci os amigos dela! Estou na posse de imenso material valioso!
- Calculo, quero isso tudo amanhã, na minha secretária! 
- Então, vou ai?
- Esquece, eu envio alguém da minha confiança à  tua casa, entregas todo o material e desapareces de cena, hás-de receber um bilhete de avião e segues para Paris! Lá, serás encaminhado para um cargo de grande responsabilidade.
- E os suplementos extra que me prometeu? 
- Quais ?  Um cargo vitalício, férias sempre prolongadas, uma  habitação nova e  toda mobilada,  uma conta choruda no banco  ?
- Foi o acordado!
- Empregaste demasiado tempo nessa operação! 
- O tempo necessário!  
- Não  me interessa, o acordo não  viabiliza esse tempo, essa duração! injustificável! Uma eternidade para convencer uma fedelha de dezassete anos!Por favor!
- Aparentemente e só aparentemente uma miúda carente, ingenua,  pacata...
- Problema teu, ou aceitas a minha proposta ou nada, escolhes nada?
- Pensando bem, aceito o que oferece.
- Feito!  - e desliga a chamada.

O Lobo Mau, atira furioso o telemóvel à  parede:
- Animal! Fera maldito! Vais ver como é,  verme!
No dia seguinte, o Lobo Mau, entrega o envelope lacrado e recebe o bilhete.
Mal  o desconhecido se apaga  da vista, corre para dentro, agarra  a mochila, o capacete,  cá fora, monta a moto de alta cilindrada e esfuma-se a toda a velocidade.
Quando o envelope chega às mãos do Dro Fera, este abre e depara-se com folhas em branco, sentindo-se traído,  desata aos berros e espuma pela boca!
Todas as tentativas de encontrar o Lobo Mau, revelam-se infrutíferas:
"Eu apanho-te, rato! Mais tarde ou mais cedo vais cair! Andas a provocar a pessoa errada!"
O Lobo Mau viaja Europa  dentro e a vida corre-lhe de feição,  mais tarde, entra na Índia. Três anos depois, é vítima de atropelamento e morre a caminho do hospital.
Na mesma altura, o Dro Fera, é acusado de vários crimes obscuros. Embora tivesse negado sempre,  é preso.
Quanto à  Capuchinho,  paradeiro incerto, hipoteticamente   conseguiu sair da Sibéria e dizem que se encontra em lugar incerto, algures, na Europa.