Gente como nós sente com maior intensidade...
por isso fica no centro das horas obscuras de nevoeiro
a matutar e a contar pelos dedos os ursos que morrem à nossa frente
Olhos de gente, olhos de ursos, rasos de lezíria,
água pesada, luz condoída ...
O desgosto de ter as mãos atadas,
sob pena de voltarem a nós furiosos e de nos matarem
Ursos esfaimados , deveras esfaimados,
tornam-se bravios e perigosos
Mas, vê- los ali, quotidianamente, a fintar à nossa frente,
a tentar a sua sorte; restos da pesca, um peixe esquecido na rede...
Observar os bichos a definhar , magricelas, o pêlo ralo e chamuscado,
já nem ursos são!
A fome a chegar aos dentes afiados, desatam aos urros e rugidos desesperados.
Lambem durante muito tempo as crias fenecidas, à míngua de alimento.
Ursos pensativos, abatidos na sonolência, da claridade frouxa que se apaga
lentamente, sucumbem entre as rochas da baía, estendidos, perdidos de agonia.
Os rugidos muito mais brandos e fracos, numa prece última. ..
Uma faca espetada no peito de gente como nós;
as patas dianteiras seguram a cabeça, passam pelo focinho ranhoso de choro e ali se acabam devagar, em sofrimento lento.
Um qualquer dia, há-de chegar peixe de fartura, parca temporada...nessa altura correm sôfregos a saciar a fome de tanto esperar...depois, a comida volta a faltar.
Gente como nós tem de assistir a isto, a fome e a morte por ali, sempre a rondar.