domingo, 26 de setembro de 2021

Gente e ursos

 Gente como nós sente  com maior intensidade... 

por isso fica no centro das horas obscuras de nevoeiro 

a matutar e a contar pelos dedos os ursos que morrem à nossa frente

Olhos de gente, olhos de ursos, rasos de lezíria, 

água pesada, luz condoída ...

O desgosto de ter as mãos atadas, 

sob pena de voltarem a nós furiosos e de nos matarem

Ursos esfaimados , deveras esfaimados, 

tornam-se bravios e perigosos

Mas, vê- los ali, quotidianamente,  a fintar à nossa frente,

a tentar a sua sorte; restos da pesca, um peixe esquecido na rede... 

Observar os bichos a definhar , magricelas, o pêlo ralo e chamuscado, 

já nem ursos são! 

A fome a chegar aos dentes afiados, desatam aos urros e rugidos desesperados.

Lambem durante muito tempo as crias fenecidas, à  míngua de alimento. 

Ursos pensativos,  abatidos na sonolência, da claridade frouxa que se apaga

lentamente,  sucumbem entre as rochas da baía, estendidos, perdidos de agonia.

Os rugidos muito mais brandos e fracos, numa prece última. ..

Uma faca espetada no peito de gente como nós;

 as patas dianteiras seguram a cabeça,  passam pelo focinho ranhoso de choro e ali se acabam devagar, em sofrimento lento. 

Um qualquer dia, há-de chegar  peixe de fartura, parca temporada...nessa altura correm sôfregos a saciar a fome de tanto esperar...depois, a comida volta a faltar.

Gente como nós tem de assistir a isto, a fome e a morte por ali, sempre a rondar.