Aquele fim de semana foi terrível para mim , lutava desesperadamente para esquecer a veracidade ou não daquele vaticínio, um diagnóstico que me angustiva. Tentei ler o jornal, mergulhar na piscina, apanhar sol, bronzear a pele e moderar a minha tristeza. Meti-me no quarto a ver televisão, nada me consolava, aquele prognóstico moía- me. Ela podia estar a mentir...E se fosse mais uma armadilha para me manter cativo? E se fosse verdade? Observei-a em diversas ocasiões e censurei interiormente a calma, a descontração invulgar, a satisfação, o gozo lascivo. Porque raio assustar-me assim? Ela deleitava-se nos seus detalhes de higiene pessoal, demorava a comer gelado no bar, passeava à volta da piscina. O constante sorriso nos lábios, irritante de tão provocatório. As discussões entre nós haviam suavizado imenso, a minha postura murchara, ela aproveitava a debilidade em que me encontrava para demonstrar que não se sentia minimamente atingida:
- Ainda estás a pensar nisso?
- Outra vez essa pergunta?
- Esquece isso! - e continuava liberta
Preferi calar-me, ela que se imaginasse vitoriosa contrariamente ao real problema e crescia dentro de mim a suspeita de que estaria efetivamente a faltar à verdade. De qualquer forma, ansioso como sou e era, esta dúvida corroía e doía!
No domingo, afastamo-nos ainda mais. Finalmente saí do quarto e fui me debruçar na varanda de um pequeno cais, nas imediações. Usava óculos de sol, precisava estar só para chorar, chorar tudo, um profundo lamento pela vida que não aproveitara... como seria esquecer a vida ? As porcarias, os bons momentos...os nomes dos filhos, o próprio nome, ficar dependente dela, somente dela?Ou de algum dos filhos? Como seria? E se me tornasse um peso na vida da família? Um lar? Que odiosa solução ! À mercê de gente sem escrúpulos? gente sem preparação? gente desumana? Eu a definhar lentamente, louco, sem juízo, à fome, atirado à cama e amarrado para não fugir. À minha volta, profissionais desejosos da minha morte! Pois, ali, igualmente, considerado um fardo! Já tinha vivido, o meu tempo chegara ao limite, a minha vez de seguir. Ocupar uma cama se não se vislumbrava qualquer melhora? Decidiriam por Deus, por mim e até pela família, abreviariam a minha hora derradeira. Sem suportar mais aqueles pensamentos, que me golpeavam incessantes, arranquei a camisola do corpo e num gemido gritante, atirei-me à água e nadei em braçadas furiosas.
Ao fim do dia, preparadas as mochilas , fomos para o ponto, aguardar o autocarro que estava prestes a passar. Havia mais pessoas que à semelhança de nós, tinham deixado o hotel e regressavam a casa.
Quando chegou a altura, colocamos as máscaras, deparamo-nos com alguns lugares vagos mas singulares. Avistei o desconhecido, ainda tentei fingir que não o reconhecera mas ele chamou-me logo com a mão
- Então, de volta a casa? - perguntou efusivamente
- Naturalmente - respondi sem energia
A mulher sentou-se na bancada à minha frente, imediatamente a seguir . Apesar de ser a hora crepuscular, ainda levava o telemóvel na mão para registar qualquer situação anómala ou surpreendente.
- E à rotina também - adiantou o desconhecido
- A rotina não é má, é a unica forma de organizar o quotidiano - repliquei