sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Conto V

Aquele fim de semana foi terrível para mim , lutava desesperadamente para esquecer a  veracidade ou não daquele vaticínio, um diagnóstico que me   angustiva.  Tentei ler o jornal,  mergulhar na piscina, apanhar sol, bronzear a pele e moderar a minha tristeza. Meti-me  no quarto a ver televisão, nada me consolava, aquele prognóstico moía- me.   Ela podia estar  a mentir...E se fosse mais uma armadilha para me  manter cativo? E se fosse verdade?  Observei-a em diversas ocasiões e  censurei interiormente a  calma, a descontração invulgar, a satisfação, o  gozo lascivo. Porque raio assustar-me assim? Ela deleitava-se nos seus detalhes de higiene pessoal, demorava a comer gelado no bar, passeava à  volta da piscina. O constante sorriso nos lábios, irritante de tão provocatório. As discussões entre nós haviam suavizado imenso, a minha postura murchara, ela aproveitava a debilidade  em que me encontrava para demonstrar que não se sentia minimamente  atingida:
- Ainda estás a pensar nisso?
 - Outra vez essa pergunta?
 - Esquece isso! - e continuava liberta
Preferi calar-me,  ela que se  imaginasse  vitoriosa contrariamente ao real problema e  crescia dentro de mim a suspeita de que estaria efetivamente a faltar à verdade.  De qualquer forma, ansioso como sou e era, esta dúvida corroía e doía! No domingo, afastamo-nos ainda mais. Finalmente saí do quarto e fui me debruçar na varanda de um pequeno cais,  nas imediações.  Usava óculos de sol, precisava estar só para chorar, chorar tudo, um profundo lamento pela vida que não aproveitara... como seria esquecer a vida ? As porcarias, os bons momentos...os nomes dos filhos, o  próprio nome,  ficar dependente dela, somente dela?Ou de algum dos filhos? Como seria?  E  se me tornasse um peso na vida da família? Um lar? Que  odiosa solução ! À  mercê de gente sem escrúpulos?  gente sem preparação?  gente desumana? Eu a definhar lentamente, louco, sem juízo, à  fome, atirado à cama e amarrado  para não fugir. À minha volta, profissionais  desejosos da minha  morte! Pois,  ali, igualmente, considerado um fardo! Já tinha  vivido, o meu  tempo chegara ao limite,  a  minha vez de seguir.  Ocupar  uma cama se  não se vislumbrava qualquer melhora? Decidiriam por Deus, por mim e até pela família,   abreviariam a minha hora derradeira. Sem suportar mais aqueles pensamentos,  que me  golpeavam incessantes,  arranquei a camisola do corpo e num gemido gritante, atirei-me  à  água e nadei em braçadas furiosas. Ao fim do dia,  preparadas  as  mochilas , fomos  para o ponto, aguardar o autocarro que estava prestes a  passar.  Havia mais pessoas que à semelhança de nós,  tinham deixado o hotel e regressavam a casa. Quando chegou a altura,   colocamos as máscaras, deparamo-nos com alguns  lugares vagos mas  singulares.  Avistei o desconhecido, ainda tentei  fingir que não o reconhecera mas ele chamou-me logo com a mão 
- Então,  de volta a casa? - perguntou efusivamente 
 - Naturalmente - respondi   sem energia 
A mulher sentou-se na bancada à minha frente, imediatamente a seguir . Apesar de ser a hora crepuscular, ainda   levava o telemóvel na mão para registar qualquer situação anómala ou surpreendente.
- E  à rotina também  - adiantou o desconhecido
 - A rotina não é má, é a unica forma de organizar o quotidiano - repliquei