Isso Josefa, em beleza, por acaso és minha mãe?!eu a ser tratado como uma criança, pela minha mulher, na frente de um estranho. Não, não é de agora, vem de longe ; " Atrasado mental", " Não vales de nada ", " Nunca chegarás longe "; " Está calado, não suporto escutar a tua voz", e, outras tantas, estou certo, Josefa? Eu também errei, embrulhei-me na mesma manta de retalhos ; " Acertava-te nesse focinho", Vai para o raio que te parta, demónio", Está calada que não sabes nada, estafermo" , entre outras... olho por olho, dente por dente. As nossas quinquilharias arrastam-se como fantasmas colados a nós, só uma demência para esquecer tamanha torpeza. A própria vida a meio gás ou menos que isso. A única oportunidade que conheço para ser feliz, para se realizar, outra semelhante a esta, onde? Prendemo-nos a coisas que só nos tornaram infelizes e quantos anos, a rondar no mesmo lixo tóxico, sem conseguir sair da sujidade, a adoecer, a padecer, a apodrecer, a exalar mau odor , mau hálito, como se as fezes nos saíssem pela boca... a consentirmos neste absurdo, a envelhecemos precocemente, e a tornarmo-nos senhores das causas impossíveis... Pobres de espírito que somos.
Por escassos instantes estava esquecido do que iria enfrentar, a cruel e dura verdade. Até lá precisava desconfiar de Josefa para me aguentar.
O crepúsculo foi desaparecendo a olhos vistos. A cor esmoreceu devagar, lentamente e as lâmpadas já acesas àquela hora, davam um tom tão díspar da luz diurna.
Para espanto meu, o desconhecido saiu na mesma paragem que nós.
Apeamo-nos, na despedida o desconhecido ainda lançou o convite:
- Se quiserem, estou naquele café. Quem paga sou eu.
- Obrigado, vamos entrar em casa e depois logo se vê!
Entrei disparado, galguei escadas e apressei-me a rodar a maçaneta da porta, numa sofreguidão desalmada, tateei a mesa do escritório, existia papelada, nada de envelope:
- Josefa! - berrei em plenos pulmões
Desci a correr, procurei a mulher e encontrei-a na cozinha:
- Que modos são esses? - repreendeu ela . Circulei à volta da mesa, até ficar de frente para ela , eu de pé, ela sentada:
- Que brincadeira nojenta foi esta?
- Qual? - questionou com espanto
- Não encontrei o envelope!
- Deve ter sido a empregada que sem querer atirou fora!
- Como? A empregada ia atirar fora um envelope daqueles, ela está avisada para não mexer na minha secretária.
- Talvez deixei na minha!
- Tive o cuidado de ver a tua e nada!
- Pedes uma nova via...
- Sabes que estás a mentir descaradamente !
- Tu também mentes !
- Assim? Como tu? É grave o que inventaste!
- Não faças dramas!
- Josefa, não tens remédio, esquece!
- E tu tens?
- Antes que te parta a cara e depois seja incriminado por violência doméstica, prefiro sair, vou ao café da esquina, fazer companhia ao estranho.
- Gostas mais de estranhos que os de dentro de casa.
Sem mais demoras, saí furioso e bati com a porta ruidosamente:
- Grande bruto!- disparou Josefa