sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Conto VII

Isso Josefa, em beleza, por acaso és  minha mãe?!eu a ser tratado   como uma criança, pela minha mulher, na frente de um estranho. Não,  não é de agora, vem de longe ; " Atrasado mental",  "  Não vales de nada ", " Nunca chegarás longe "; " Está calado, não suporto escutar a tua voz", e, outras tantas, estou certo, Josefa? Eu também errei, embrulhei-me na mesma manta de retalhos ; " Acertava-te  nesse focinho", Vai para o raio que te parta, demónio",  Está  calada que não sabes nada, estafermo" ,  entre outras... olho por olho, dente por dente. As nossas  quinquilharias  arrastam-se como fantasmas colados a nós, só uma demência para esquecer tamanha torpeza.  A própria vida a meio gás ou menos que isso. A única oportunidade que   conheço para  ser feliz, para  se realizar, outra semelhante a esta, onde?  Prendemo-nos a coisas que só  nos tornaram infelizes e quantos anos, a rondar no mesmo lixo tóxico, sem conseguir sair da sujidade,  a adoecer,  a padecer,  a apodrecer, a exalar mau odor , mau hálito,  como se as fezes nos saíssem pela boca... a consentirmos   neste  absurdo, a  envelhecemos precocemente, e a tornarmo-nos  senhores das causas impossíveis...   Pobres de espírito que somos.  Por escassos instantes estava esquecido do que iria enfrentar, a cruel e dura verdade. Até lá  precisava   desconfiar de Josefa para me aguentar. O crepúsculo foi  desaparecendo a olhos vistos. A cor esmoreceu devagar, lentamente e as lâmpadas  já acesas àquela hora,  davam um tom tão díspar da luz diurna. Para espanto meu, o desconhecido saiu na mesma paragem que nós. Apeamo-nos, na despedida o desconhecido ainda lançou o convite:
- Se quiserem, estou naquele café. Quem paga sou eu.
 - Obrigado, vamos entrar em casa e depois logo se vê!  Entrei  disparado, galguei escadas e apressei-me a rodar a maçaneta da porta, numa sofreguidão desalmada, tateei  a mesa do escritório, existia   papelada,  nada de envelope:
 - Josefa! - berrei  em plenos pulmões Desci  a correr,  procurei  a mulher e encontrei-a na cozinha:
 - Que modos são esses? - repreendeu ela . Circulei à volta da mesa, até ficar de frente para ela , eu de pé,  ela sentada:
 - Que brincadeira nojenta foi esta? 
 - Qual? - questionou com espanto 
 - Não encontrei o envelope! 
 - Deve ter sido a empregada que sem querer atirou fora!
 - Como? A empregada ia atirar fora um envelope daqueles, ela está avisada para não mexer na minha secretária. 
 - Talvez deixei na minha! 
 - Tive o cuidado de ver a tua e nada!
 - Pedes uma nova via... 
- Sabes que estás a mentir descaradamente !
 - Tu também mentes ! 
 - Assim? Como tu? É  grave o que inventaste!
  - Não faças dramas! 
 - Josefa, não tens remédio, esquece! 
 - E tu tens?
 - Antes que te parta a cara e depois seja incriminado por violência doméstica,  prefiro sair,   vou ao café da esquina, fazer companhia ao estranho. 
 - Gostas mais de estranhos  que os de dentro de casa. 
 Sem mais demoras, saí  furioso e bati com a porta ruidosamente: 
- Grande bruto!-  disparou  Josefa