sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Conto III

-  Há sempre um pugilista de serviço - resmunguei 
-  Então o melhor é não passar perto dele! - declarou  sorridente 
-  Uma boa estratégia se bastasse passar ao largo. Eles  provocam o desacato, querem um pretexto qualquer para atacar e às vezes não estão sós. Quando se armam  em grupo, formam uma matilha descontrolada e por vezes mortífera. 
 -  Tem razão - o desconhecido concordou  e riu descontraído 
 -   Há sempre  motivos   para se ficar de costas voltadas. Qualquer coisa serve, como arma de arremesso,  infelizmente. 
 - Há casos muito  dramáticos.  - o desconhecido acrescentou
 - Exatamente. Quem fica a perder?
 - Depende das situações, talvez o menos apto, o mais vulnerável ! - exclamou o desconhecido
 - O mais baixo hierarquicamente! o pobre povo!  quem mais trabalha! quem vota massivamente! quem se submete à  vontade de quem reina e ordena.
 -  Pode ser clichê mas  foi sempre assim! - sintetizou  o desconhecido 
 - Repare na forma como diz" foi sempre assim" ... 
- E não estou certo ?- uma faísca de irritação nos olhos dele
 -  A lei do mais forte prevalece sobre o mais fraco, nós já interiorizamos como um fatalismo natural e não é,  não tem de ser! Somos uns imbecis, continuamos a repetir indefinidamente  os mesmos  erros.  Rejeitamos o passado antes de o compreender!  Rapidamente esquecemos o que comemos ontem, os acontecimentos   vão sendo colocados no museu das memórias, a mofar, até o dia da celebração e isto não quer dizer rigorosamente nada.  Se calhar  nunca  saímos verdadeiramente das cavernas. Somos primatas de fato e gravata!
 - Já me sinto um chimpanzé! - o desconhecido riu-se novamente  - Vence o mais esperto, o que sabe mexer-se, o que se adapta melhor, não lhe parece?  
 - No meu caso, vence a Josefa - tartamudeei entre dentes
 - Que disse ?
 - Vence quem tem  poder, riqueza, nobreza...  Basta prestar um pouco de atenção aos grandes  impérios; construções megalómanas, edificadas por quem? Por escravos, tempo de prosperidade à custa da chibata, da opressão, repressão,  do medo,  rituais abomináveis e diabólicos, exercício tirano  do poder . Depois, tombam os   impérios,   por  conspirações e outras e traições   internas e externas, dívidas, pobreza, ruína ..  e os pobres nunca saem da pobreza, note bem, para conseguir  adotar uma medida impopular, basta implementá-la dia após dia, ano após ano... e encaixa que nem uma luva,  caso contrário,  provocaria uma revolução, ou então apresentar essa medida como dolorosa mas necessária, assim, vai devagar... repare nas missas, sempre inclinadas a dar esperanças ingénuas, de que amanhã tudo vai mudar para melhor, um amanhã que nunca chega. Isto é dar aos cidadãos tempo para se adaptarem à ideia de que humildemente vão ter de aceitar, um sentido diferente de obrigatoriedade.   Fazem-nos de parvos e infantilizam-nos e isso é um ponto a favor de quem está na camada superior .   Por isso, os grandes impérios conseguem se manter  no topo,  à  custa do suor, lágrimas e muito sofrimento,  de uma maneira ou de outra vão tombar. Nós também perdemos a beleza e a juventude, a certa altura, o declínio... e por mais plásticas para suavizar e esconder as rugas,  a velhice chega e não há volta a dar.
 - Então não acredita  no progresso? 
 - Qual o resultado desse progresso?  Para ficarmos  soterrados  até ao pescoço? O período do ouro, termina inevitavelmente.  Na terra dos pulhas, salvam-se os ricos e poderosos. Findo o prazo de validade, amarga como fel. Gasta-se, esbanja-se... o reverso da medalha são os excessos, o tal descontrolo, que ninguém tem mão nele. Até a Santa Inquisição deslumbrou-se  com o poder ao ponto de se tornar assassina mas não está isolada.
 - O sr. é uma anedota ! - e desatou a rir desalmadamente  - muito engraçado mesmo.
 - Achou piada em mim? - teria aparentado ser palhaço
 - É a forma como se expressa, não me leve a mal - e continuou a rir sufocado
Inspirado encontrava-me, desinspirei-me  subitamente.