- Há sempre um pugilista de serviço - resmunguei
- Então o melhor é não passar perto dele! - declarou sorridente
- Uma boa estratégia se bastasse passar ao largo. Eles provocam o desacato, querem um pretexto qualquer para atacar e às vezes não estão sós. Quando se armam em grupo, formam uma matilha descontrolada e por vezes mortífera.
- Tem razão - o desconhecido concordou e riu descontraído
- Há sempre motivos para se ficar de costas voltadas. Qualquer coisa serve, como arma de arremesso, infelizmente.
- Há casos muito dramáticos. - o desconhecido acrescentou
- Exatamente. Quem fica a perder?
- Depende das situações, talvez o menos apto, o mais vulnerável ! - exclamou o desconhecido
- O mais baixo hierarquicamente! o pobre povo! quem mais trabalha! quem vota massivamente! quem se submete à vontade de quem reina e ordena.
- Pode ser clichê mas foi sempre assim! - sintetizou o desconhecido
- Repare na forma como diz" foi sempre assim" ...
- E não estou certo ?- uma faísca de irritação nos olhos dele
- A lei do mais forte prevalece sobre o mais fraco, nós já interiorizamos como um fatalismo natural e não é, não tem de ser! Somos uns imbecis, continuamos a repetir indefinidamente os mesmos erros. Rejeitamos o passado antes de o compreender! Rapidamente esquecemos o que comemos ontem, os acontecimentos vão sendo colocados no museu das memórias, a mofar, até o dia da celebração e isto não quer dizer rigorosamente nada. Se calhar nunca saímos verdadeiramente das cavernas. Somos primatas de fato e gravata!
- Já me sinto um chimpanzé! - o desconhecido riu-se novamente - Vence o mais esperto, o que sabe mexer-se, o que se adapta melhor, não lhe parece?
- No meu caso, vence a Josefa - tartamudeei entre dentes
- Que disse ?
- Vence quem tem poder, riqueza, nobreza... Basta prestar um pouco de atenção aos grandes impérios; construções megalómanas, edificadas por quem? Por escravos, tempo de prosperidade à custa da chibata, da opressão, repressão, do medo, rituais abomináveis e diabólicos, exercício tirano do poder . Depois, tombam os impérios, por conspirações e outras e traições internas e externas, dívidas, pobreza, ruína .. e os pobres nunca saem da pobreza, note bem, para conseguir adotar uma medida impopular, basta implementá-la dia após dia, ano após ano... e encaixa que nem uma luva, caso contrário, provocaria uma revolução, ou então apresentar essa medida como dolorosa mas necessária, assim, vai devagar... repare nas missas, sempre inclinadas a dar esperanças ingénuas, de que amanhã tudo vai mudar para melhor, um amanhã que nunca chega. Isto é dar aos cidadãos tempo para se adaptarem à ideia de que humildemente vão ter de aceitar, um sentido diferente de obrigatoriedade. Fazem-nos de parvos e infantilizam-nos e isso é um ponto a favor de quem está na camada superior . Por isso, os grandes impérios conseguem se manter no topo, à custa do suor, lágrimas e muito sofrimento, de uma maneira ou de outra vão tombar. Nós também perdemos a beleza e a juventude, a certa altura, o declínio... e por mais plásticas para suavizar e esconder as rugas, a velhice chega e não há volta a dar.
- Então não acredita no progresso?
- Qual o resultado desse progresso? Para ficarmos soterrados até ao pescoço? O período do ouro, termina inevitavelmente. Na terra dos pulhas, salvam-se os ricos e poderosos. Findo o prazo de validade, amarga como fel. Gasta-se, esbanja-se... o reverso da medalha são os excessos, o tal descontrolo, que ninguém tem mão nele. Até a Santa Inquisição deslumbrou-se com o poder ao ponto de se tornar assassina mas não está isolada.
- O sr. é uma anedota ! - e desatou a rir desalmadamente - muito engraçado mesmo.
- Achou piada em mim? - teria aparentado ser palhaço
- É a forma como se expressa, não me leve a mal - e continuou a rir sufocado
Inspirado encontrava-me, desinspirei-me subitamente.