sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Conto I

O autocarro   apinhado de gente até à porta?!Ainda estávamos em pandemia! Já  pouca gente a usar focinheira ... açaimos  que não defendem  mas vendem?!Que insanidade!  Anteriormente, excesso de zelo, presentemente,  frouxidão no cumprimento de certas normas. Eu e a mulher, os únicos a usar máscara?! Com aquele  calor, gente sobre  gente a pigarrear, a lançar  espirros desalmados, a tossir desenfreadamente  para as mãos e sobre os outros! Povo desmemoriado,  a doença já não parecia assustar ninguém. Felizmente  o transporte a esvaziar, a se tornar mais leve. Já  conseguia  respirar e mexer o tronco e as pernas, sem esbarrar no vizinho do lado.  Podíamos nos ver melhor, eu e a mulher,  lado a lado, sem sermos  esmagados e espremidos, de qualquer forma,  apesar da liberdade,  fomos   parcos nos diálogos, rostos mais sisudos do que alegres.  Não sei indicar, com precisão, a  parte em que  ela  decidiu se afastar para o lado oposto, paralelamente a mim. Tirou o telemóvel da bolsa e pós-se  a fotografar através da vidraça aberta,   também  depositei  a vista lá fora,  igualmente aberta, ela baixou a máscara e eu  baixei a minha, comecei a magicar frustrado sobre o propósito esquecido da viagem. Outra que julgava amar  Deus sobre todas as coisas... apesar disso,   o telemóvel, objeto adorado, há muito substituído pela divindade. A vida da maioria das gentes  tornada  exibicionismo desejado, tudo é   fotografável,  nunca a  vida privada esteve tão exposta e por vontade  própria. Josefa, persuadida dos  seus dotes, não ia além de uma grande  manipuladora, aquilo é que era  oxigenar  as boas relações entre nós?   só miséria o que nos unia ,  perdera toda a   graça,  nem uma unha  de amizade restava, quanto mais amor!? Porcaria de casamento.   No final   da   travessia de merda , quando chegássemos ao tal lugar que  a mulher  pretendia visitar, ela saía  e eu seguia. Tinha  de me libertar das suas  manhas . Estava  velho e cansado daquela  farsa; o que havíamos  feito à relação? No tempo do encantamento e houve, desenrola-se quase sempre da  mesma forma; prendi-me à tentação; chegou em forma de   menina recatada com algum sal à mistura e eu,  tolo e parvo, caí,  ganhou-me por completo,  todavia, deitou logo  mão à  minha  garganta,  sufocou-me ; Tudo interdito: amigos, diversões,  demoras nos sítios que frequentava. Eu a pensar que era especial, que éramos especiais.  A ilusão cegou-me e tornei-me  um  prisioneiro,  um indivíduo  nulo, neutro, um animal acossado e depois,  perverso. Influenciamo-nos mutuamente, contudo,  fui colonizado, perdi tudo o que era só meu. Nas minhas  costas;uma mulher pequena e tonta como eu.  Nunca foi grande, nem me ajudou a ser. Depressa aprendemos a  usar os outros para  benefício próprio, fizemos o mesmo um ao outro, aos filhos e ensinamo-los dessa maneira.  A nossa história foi sempre  tumultuosa, toda ela. Formamos  uma equipa mesquinha, dois pulhas sem escrúpulos e tremendamente narcísicos. 

 NotaInspirado no  Conto de Sophia de Mello Breyner " A viagem" in " Contos Exemplares"