O autocarro apinhado de gente até à porta?!Ainda estávamos em pandemia! Já pouca gente a usar focinheira ... açaimos que não defendem mas vendem?!Que insanidade! Anteriormente, excesso de zelo, presentemente, frouxidão no cumprimento de certas normas. Eu e a mulher, os únicos a usar máscara?! Com aquele calor, gente sobre gente a pigarrear, a lançar espirros desalmados, a tossir desenfreadamente para as mãos e sobre os outros! Povo desmemoriado, a doença já não parecia assustar ninguém. Felizmente o transporte a esvaziar, a se tornar mais leve. Já conseguia respirar e mexer o tronco e as pernas, sem esbarrar no vizinho do lado. Podíamos nos ver melhor, eu e a mulher, lado a lado, sem sermos esmagados e espremidos, de qualquer forma, apesar da liberdade, fomos parcos nos diálogos, rostos mais sisudos do que alegres. Não sei indicar, com precisão, a parte em que ela decidiu se afastar para o lado oposto, paralelamente a mim. Tirou o telemóvel da bolsa e pós-se a fotografar através da vidraça aberta, também depositei a vista lá fora, igualmente aberta, ela baixou a máscara e eu baixei a minha, comecei a magicar frustrado sobre o propósito esquecido da viagem. Outra que julgava amar Deus sobre todas as coisas... apesar disso, o telemóvel, objeto adorado, há muito substituído pela divindade. A vida da maioria das gentes tornada exibicionismo desejado, tudo é fotografável, nunca a vida privada esteve tão exposta e por vontade própria. Josefa, persuadida dos seus dotes, não ia além de uma grande manipuladora, aquilo é que era oxigenar as boas relações entre nós? só miséria o que nos unia , perdera toda a graça, nem uma unha de amizade restava, quanto mais amor!? Porcaria de casamento.
No final da travessia de merda , quando chegássemos ao tal lugar que a mulher pretendia visitar, ela saía e eu seguia. Tinha de me libertar das suas manhas . Estava velho e cansado daquela farsa; o que havíamos feito à relação? No tempo do encantamento e houve, desenrola-se quase sempre da mesma forma; prendi-me à tentação; chegou em forma de menina recatada com algum sal à mistura e eu, tolo e parvo, caí, ganhou-me por completo, todavia, deitou logo mão à minha garganta, sufocou-me ; Tudo interdito: amigos, diversões, demoras nos sítios que frequentava. Eu a pensar que era especial, que éramos especiais. A ilusão cegou-me e tornei-me um prisioneiro, um indivíduo nulo, neutro, um animal acossado e depois, perverso. Influenciamo-nos mutuamente, contudo, fui colonizado, perdi tudo o que era só meu. Nas minhas costas;uma mulher pequena e tonta como eu. Nunca foi grande, nem me ajudou a ser. Depressa aprendemos a usar os outros para benefício próprio, fizemos o mesmo um ao outro, aos filhos e ensinamo-los dessa maneira. A nossa história foi sempre tumultuosa, toda ela. Formamos uma equipa mesquinha, dois pulhas sem escrúpulos e tremendamente narcísicos.
Nota: Inspirado no Conto
de Sophia de Mello Breyner " A viagem" in " Contos Exemplares"