Quando entrei vi os lugares quase todos ocupados, havia um assento livre, todavia, ficava muito para cima e no fundo. Decidi quedar-me de pé, lugar que antecede as escadas, para os andares de cima. Foi nessa ocasião que reparei em dois indivíduos, sentados no primeiro andar do lado direito, um usava bigode, moreno e cabelo escuro, muito bem penteado e bem vestido. O outro à esquerda, um rosto charmoso, mais interessante, ainda mais elegante, pele clara, cabelo ondulado, ligeiramente grande. Fiquei rente ao lugar deles, escostada com as mãos sobre o varão, voltada para o janelão. Fiquei de perfil para os dois homens. O que ficava na minha direção, usava bigode chamava-se Carlos, ao lado, era o Miguel, consegui perceber quem era quem. Assim que o veículo retomou o andamento:
- Carlos, como te estava a dizer, estou farto desta situação !
- Miguel, compreendo...só que..
- Só o quê? - tornou Miguel
- Ela é uma amiga muito querida.
- Eu também simpatizo com ela mas sabes como é ... - argumentou Miguel
A conversa entre os dois, não era alta, o ronco ensurdecedor do automóvel, abafava qualquer tentativa de diálogo, então o tom de ambos subiu. Como me encontrava rente e na posição inferior, escutava o que falavam, havia hiatos no respectivo diálogo, em virtude das circunstâncias, ainda assim, era possível captar alguma conversa. Com efeito, não me atrevia a espreitá-los.
- Sei como é e tu sabes o porquê... vamos deixar as coisas assim...
- Ela deve suspeitar... não compreendo...
- Ela ajudou-me imenso em certas ocasiões da minha vida, Miguel!
- Ajudou-te ou já estava de olho em ti?
- Ela de olho em mim e eu de olho nela! A amizade que nos unia tornou-se imensa...
- Tão grande que se despiram e afundaram numa cama de prazeres carnais !
- Não terias feito o mesmo ?
- Não, não teria feito o mesmo!
- Miguel, tu és tu, eu sou eu!
- Queres me dizer que nunca mais vamos ter sossego?
- Nos tempos mais próximos, penso que não!
- Não me agrada nada, ou dentro de ti ainda há sentimento por ela?
- Lembra-te do início, tu vinhas com ela, de mão dada...com a minha namorada!
- Foi ela que me deu a mão! Ficou nervosa por uma briga de cães de rua. Estava aflita porque um deles, o medroso refugiou-se nas saias dela . Eu afugentei-os e ela aliviada agarrou a minha mão.