segunda-feira, 12 de maio de 2025

Viagem X

 Quando entrei vi os lugares quase todos  ocupados, havia um assento livre, todavia, ficava muito para cima e no fundo. Decidi quedar-me de pé, lugar que antecede as escadas, para os andares  de cima. Foi nessa ocasião que reparei em dois indivíduos, sentados no primeiro andar do lado direito,  um usava bigode, moreno e cabelo escuro, muito bem penteado e bem vestido. O outro à esquerda, um rosto charmoso, mais interessante,  ainda mais elegante,  pele clara, cabelo ondulado, ligeiramente grande. Fiquei rente ao lugar deles, escostada com as mãos sobre o varão,  voltada para o janelão. Fiquei de perfil para os dois homens. O que ficava na minha direção, usava  bigode chamava-se Carlos, ao lado, era o Miguel, consegui perceber quem era quem. Assim que o veículo retomou o andamento: 

- Carlos,  como te estava a dizer, estou farto desta situação ! 

- Miguel,  compreendo...só que..

- Só o quê? - tornou Miguel 

- Ela é  uma amiga muito querida. 

- Eu também simpatizo com ela mas sabes como é ... - argumentou Miguel 

A conversa entre os dois, não era alta, o ronco ensurdecedor do automóvel,  abafava qualquer tentativa de diálogo,  então o tom de ambos subiu. Como me  encontrava rente e na posição inferior,  escutava o que falavam, havia hiatos no respectivo diálogo,  em virtude das circunstâncias, ainda assim, era possível captar alguma conversa. Com efeito, não me atrevia a espreitá-los. 

- Sei como é e tu sabes o porquê... vamos deixar as coisas assim...

- Ela deve suspeitar...  não compreendo...

- Ela ajudou-me imenso em certas ocasiões da minha vida, Miguel! 

- Ajudou-te ou já  estava de olho em ti? 

- Ela de olho em mim e eu de olho nela! A amizade que nos unia tornou-se imensa...

- Tão grande que se despiram e afundaram numa cama de prazeres carnais !  

- Não terias feito o mesmo ? 

- Não, não teria feito o mesmo! 

- Miguel, tu és tu, eu sou eu! 

- Queres me dizer que nunca mais vamos ter sossego?

- Nos tempos mais próximos, penso que não! 

- Não me agrada nada, ou dentro de ti ainda há sentimento por ela? 

- Lembra-te do início, tu vinhas com ela, de mão dada...com a minha namorada! 

- Foi ela que me deu a mão! Ficou nervosa por uma briga de cães de rua. Estava aflita porque um deles, o medroso refugiou-se  nas saias dela  . Eu afugentei-os  e ela aliviada agarrou a minha mão. 

- E eu assim que te vi, Miguel, foi como se um raio me tivesse atingido de cima a baixo.  Um céu aberto, uma nova claridade encheu-me todo a mim e ao dia.
- Fiquei confuso com o teu nervosismo! 
- Na vida, nada semelhante me tinha apanhado daquela forma, foi num estalar de  dedos! 
- E eu sem saber de nada,  quando te dirigiste à  Alice como tua namorada, quem ficou nervoso fui eu, larguei imediatamente a minha mão da  dela. 
- Miguel, foi preciso cavar fundo para te conquistar, não tive caminho fácil. 
- Sempre fui fechado e discreto e tu foste a novidade que  surgiu. Jamais me tinha imginado com outro homem...
- Fui a dentro do armário , puxei-te para fora e iniciei-te no meu mundo gay. 
Não ouvi resposta, depois o Carlos continuou:
- Sabes, o me assustava era quando te via os olhos tristes, isso deixava-me agoniado! Foi um período sofrido para mim, nunca tinha experimentado algo semelhante, tive os homens que quis, as mulheres que quis. Como tenho dinheiro e posição social, não foi difícil.  De repente tu chegaste e  alteraste os meus planos.  Às vezes os teus silêncios ainda me desconcertam. 
- Sou de silêncios,  sou introvertido, sou assim Carlos, mas sou-te fiel, quero muito continuar contigo, sem a Alice entre nós.  
- Isso quer dizer o quê? 
- Carlos, é simples, demasiada Alice. Não suporto as gargalhadinhas eufóricas para te agradar, nem os olhares de esguelha com o intuito de se inteirar se olhas para mim ou para ela, constantemente a fazer-se presente, convida-se para estar connosco, a passar à minha frente, como se fosse quase  invisível. Ela é tua amiga. Entendes? Não tenho paciência para este tipo de situações. 
- Devo-lhe muito, ela foi, uma grande amiga, uma namorada, uma irmã, uma mãe, no entanto, compreendo-te. 
- Tens uma dívida de gratidão para com ela, isso não faz de ti refém. Coloca-lhe limites. 
- Compreendo , mas custa-me...
- A mim também me custa ...
Alguém antecipou-se a mim e tocou a  campainha, antes de descer os degraus da escada, voltei-me para saciar a minha curiosidade. Consegui observar que um olhava numa direção e o outro, noutra direção.