-Que me deu de beber
gentil e real cavalheiro...?
Minha boca saboreia um estranho fel!
nublou-se-me a vista!
travou meus passos!
como se à beira do
fim me encontrasse?!
-Não preciosa donzela, deve tratar-se de uma
indisposição vossa...
-Que me deu de beber? Confessai!
-Esse mal estar pertence-lhe; o prenúncio do que
julgais que aí vem…
- Em seu entender, que julgo eu?
-O vosso mal? não sois suficientemente rica,
Sem nome grandioso… Sabeis que toda a
corte se ri de vós ? A vossa mãe demonstra o que sobejamente
conheceis,
o vosso pai, sem instrução, sem terras, sem negócios
promissores…
Consta que existem ascendentes nobres no vosso passado mas o
sangue puro perdeu-se,
não lhes sucederam. A vossa linha não é a mesma,
querem- vos mal. A
mistura de raças…
Nunca poderá haver aliança entre as nossas famílias.
Pena, menina prendada, bela, bons atributos físicos e
com valores morais que aprecio, inteligente e instruída...
Uma fortuna deliciosa para qualquer homem que se preze
-Que propõe que façamos, então?
-Sermos amantes.
-Amantes?! Que horror! Casará com uma daquelas fidalgas da
corte e eu
servirei para as escapadas ?!
Porque não enfrenta o seu pai?
-Ele deserdar-me-ia e passaria a ser um proscrito.
-Somos de famílias rivais devido à condição social.
Amantes, jamais!
-Esse teatro também me desagrada!
Perdoai querida donzela, custa-me pô-la nesta situação;
um atalho sem fim, que desgosto para mim!
-E o vosso pai...tolerai
que vos diga; grande fingido
Teme os céus, profere o nome de Deus em vão,
defende o bem e a justiça
Frequenta igrejas, joelha diante de altares.
Canta no coro e bendiz o Senhor?!
Que fervorosa fé é a daquele homem?
Imita um cristão autêntico, que alma pequena, engano de
pessoa
- Tendes razão!Meu pai influenciou a corte, inventou coisas
a vosso respeito!
Espalhou em cicio a difamação... Sinto vergonha pelo mal que
lhe causa!
-Nem vos atreva ser malvado como ele,
nem ides cochichar
aos ouvidos de ninguém nada dos nossos encontros.
- Jamais!
-Enlamear ainda mais uma inocente! Que tirano!
-Nada vos acusa a consciência, não vos apoquenteis, um dia ele terá
a moeda de troca.
-Um dia, enquanto isso, sou vítima de calúnias e maledicências
e ele sem nenhum dedo a apontar as imperfeições, continua embutido
na sua vaidade
no seu orgulho venéfico,
desfruta dos seus melhores dias…
-Melhores dias?
Não julgue as
aparências, nem tudo é como ele faz crer...
Olhe que algumas vezes, não tão raras assim,
mostra-se sorumbático e indignado. Esqueçamos essa figura
por agora
e diga-me, amada menina
,o que nos guarda, o destino?
-Gostaria de lhe responder, receio nada ter a dizer, nem
saber…
-E se fugíssemos os dois, sem deixar nenhum rasto,
Demorar apenas o tempo certo e partir o mais depressa
possível
-E as consequências de tal acto?
- Refere-se a meu pai, dar-me-á caça por certo mas iremos
para bem longe.
-Sinto-me mal por esta decisão…
-Deixe lá, já sou homem e almejo a minha independência,
amo-vos acima de tudo. Depois, chegou a hora de constituir
a minha família... Tenho
conhecimentos no estrangeiro,
farei uso desta possibilidade.
Dia da partida; encontram-se nas traseiras da quinta. Ela
espera por ele impaciente,
de trouxa na mão,
capa escura, vestimenta discreta. Atira-se para dentro da carruagem.
Beijam os lábios um
do outro à pressa.
Ele incita os cavalos e a carruagem pôs -se em andamento
Mais alguns metros, freia bruscamente os animais.
Um vulto surge do nada.
Ele levanta-se assustado, inclina-se para fora, o coração perturbado:
-Senhor, queira afastar-se da frente, por favor!
O desconhecido retira o capuz.
-Mãe?!
- Meu amado filho, desejo-vos sorte, se é isso que deseja,
vá depressa! Mande notícias!
Menina, o meu marido não aceitará uma descendente de
escravos, lamento. Sejam felizes!
- Muito agradecida, minha senhora!
-Mãe! – enternecido, toma as mãos maternais e leva-as aos
lábios, beija o rosto e envolve-a
num ternurento abraço.
Escuta-se um tiro!
- É seu pai e vem armado!Corra!
- Por favor, meu amado! – chama a donzela
- Mãe, que fará o pai consigo?! – fica preocupado
- Nada temeis, comigo não sucederá nada, filho, vá depressa!
Novos tiros são sibilados.
Os cavalos relincham, a carruagem levanta voo, num desvario
de cascos.
Os olhos do rapaz rasos de água, pregados na figura materna:
- Querida mãe, mandarei novas! – promete num grito
- Fujam, fujam, fujam! - murmura a mulher entre dentes ,
enquanto o homem descarrega as
munições da arma, tentando acertar na carruagem!
Num acesso de cólera e desapontado pelos intentos gorados,
agride a esposa
com a coronha e fá-la resvalar para o chão.
Logo a seguir, apercebe-se que ela não se move, chama por
socorro.
Mirando-se detalhadamente, temendo que alguém o apanhe de
arma na mão
e pense o pior, esconde-a atrás de um tronco.
Baixa-se e tenta reanimá-la sem sucesso,
resolve carregá-la nos braços fortes e à medida que se
aproxima da entrada:
- Acudam a madame, acudam!
PN
Imagem - NET
Personagens da novela " Deus salve o rei"( Não conheço a respectiva)