sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Em que mundo andará?

 

Passa uma nuvem,
 a visão turva,
o azul esverdeado, tom claro
molhado, escurece
A retina  ausente;
olhos marotos, garotos
sem o saberem
bordados  com o pó  dos anos
As costas em meio arco
descrevem o tempo  dos desenhos ornados à agulha
As toalhas sem fim... pelas tardes adentro
e  puxava a linha alva para si
numa devota inclinação
Seguia-se:
arrumar, limpar, preparar, lavar, varrer,  cuidar...
e de novo: cuidar,varrer,lavar,preparar, limpar...
Obrigações de uma senhora de bem.
deveres sem partilha, a repetição dos gestos,  dos sons...
Tão humana pessoa; as emoções a transbordar
da fisionomia;
O riso aberto, a lealdade  na expressão  e a eloquência na boca
Tolerar  birras,  mandos e desmandos  de marido,
 filhos, sobrinhos, irmãos...
 Vasculhar numa angustiante preocupação
o mais novo que lhe escapou por entre os dedos,
 por pouco não enveredou   por maus caminhos...
Mãos,  à custa de arrancar o gelo do congelador,
 ficaram com frieiras, inchadas, desajeitadas
Por cada  estremecimento
 desassossegos tamanhos
 o peito sacudido
Matutava  a meia voz,
maníaca compulsiva
 sussurro de lamentações ,
 prece religiosa
Que  desígnio de vida?
Os emaranhados,  as confusões
Um dia  a casa muda de lugar ;
Foi levada num silêncio pesado!
cantos e recantos...vasos e vasinhos,
flores e florinhas
Mas se tudo  estava  tão certo...
Bens adquiridos
Agora desconhece rostos,  nomes, nem o seu
as flores mudaram de cor?
Os lábios murcharam
por falta de água ...
Já não consegue verbalizar  o que lhe subtrai  a calma
A vida corre
solta,desvairada...
Pacientemente
fica assim,  à  espera,
sentada, sempre sentadinha
Já não canta como cantava...
Raras sílabas se  soltam
Sons fracos
Até ontem havia festa
Festa de palmas e vivas, canto e gargalhadas
Encantava e tornava a encantar;
Rebatia parede, janelas e portas,
Imaginação prolífica
Criava  personagens e  viagens
Então cresceu do lado de cá , a fantasia
que por milagre ficaria sempre aqui.
Tantas vezes ao fundo
As mesmas tantas subidas
Ir  e voltar
A eternidade reservada para si?
 Como um navio larga o cais;
 lentamente  vai se afastando,   imperceptivelmente
Calada e emocionada escutas; " Primavera das flores ";
parece ter avivado uma memória longínqua...
 






quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

“As grandes mentiras da História “

“As grandes mentiras que mudaram o curso da História

Muitas vezes esquecidas, e raramente punidas, as mentiras dos que estão no poder alcançam sempre os seus objetivos: elas mudam o curso da História.

Desde sempre, os poderosos moldaram a verdade para dar à História o significado que queriam. Porque bem enleadas, as mentiras são incrivelmente eficazes! Nada como uma mentira para preservar um segredo de estado, como uma ilusão para manipular a opinião, ou uma invenção para provocar uma guerra. 
O século XX abre uma nova era: a da comunicação social e dos media, o que torna a mentira uma arma ainda mais poderosa. Ao serviço de todas as ideologias, as mentiras moldaram a nossa época, para o melhor e para o pior: onde estaria a História sem propaganda, sem desinformação, sem dissimulação? Quem são os mentirosos? Chefes de estado, políticos ou líderes militares apoiados pelas suas hierarquias. Eles não têm escrúpulos em mentir na rádio, na televisão, a milhões de pessoas, e até mesmo sob juramento às mais altas autoridades e instituições. Utilizam os serviços secretos, estratégia militar ou agências de comunicação para tornar as suas mentiras mais credíveis. O único lema é: "quanto maior a mentira, mais pessoas acreditarão!". 
Nos assuntos de estado, todo e qualquer meio pode ser utilizado para validar ou mascarar uma operação. As mentiras não são apenas uma questão de palavras ou de silêncio, elas envolvem ações práticas e suporte técnico. Toda a equipa é muitas vezes necessária para construir uma ilusão credível. Ao serviço de uma nação, mentir significa apenas reinventar o mundo.”
"Se todos aceitam a mentira, a mentira entra na história e torna-se verdade" 1984 - George Orwell

O caso do sangue contaminado

A crise das vacas loucas

O escândalo do Amianto 

Entre muitas outras!…

Se puderem reflitam. 

sábado, 24 de dezembro de 2022

Sete e trinta da manhã

Quando os tapassois se abriram, havia  um espesso  esborratado  cinza, um denso e estático nevoeiro. Quase rente aos meus olhos, passou uma gaivota pequena, arrepiadinha, a fugir do pó ralo da chuva...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Alcovitas

 

Mesmo por trás dos prédios, 
a caminho da reta final da  tarde
Inesperadamente
surge um clarão
estala em unhadas de brilhos
Aquele  repentino apogeu
 perturba a visão dos factos
Logo de seguida esmorece
Arrefece o ânimo das alcoviteiras
Mas o vício não cessa
A obsessão teima em voltar indefinidamente,
até sacode as  pulgas sardentas dos entrefolhos
A raiva, o riso, a vingança
Pequenez sinistra  
de quem morre
antes da morte. 

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Nos Tempos do Imperador

 Pedroll sentado na cadeira do rival, Tonico Rocha permanece de pé ( um deputado sem escrúpulos e sem nenhum caráter)

- Magestade ! A que devo a honra? No meu gabinete? 

- Eu estou tentando me colocar no seu lugar. 

- Não entendi.  

- Como alguém é capaz de cometer tantos crimes e agir como se nada tivesse acontecido? O senhor não sente nenhuma dor por ter tirado a vida de outras pessoas? 

- Magestade! E quantas vidas foram perdidas nessa sua guerra ?! 

- O Brasil foi invadido, não havia alternativas e essa guerra podia ter sido evitada se não fosse a sua interferência na embaixada brasileira em Assunção. 

- Painho sempre me dizia que quando um não quer, dois não brigam...

- Seu pai dizia isso na época em que éramos crianças e que me bateu, será que naquele instante você desejava, talvez , tirar minha vida ... será que era isso que queria? 

- Não,  não,  se com aquela surra a minha vida já destrambelhou, se eu  tivesse matado o menino imperador... ai...eu seria o crápula da nação.  

- Seria?

- E vossa majestade é um santo. O modelo da virtude que trai a esposa. Sabe o que o senhor, é? Um hipócrita! 

- Sim, eu tenho defeitos.  Eu cometi erros, cometerei novos erros, porque sou humano. Já o senhor, deputado, é um criminoso, covarde, que espalha mentiras, para talvez tentar manter seu cargo público, pago pelo povo. O senhor é um sujeito nocivo, ressentido, frustrado, que dissemina o mal, para tentar ser notado. E , sabe o que ganhará com isso? O deputado será desprezado por completo, será solenemente esquecido e varrido da História. " 

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Obscura sorte quem lhe calha, canalha desta...

 

O imbróglio nas mãos do inescrupulosamente
estúpido,  colocado no altar por falsos deuses e anões
pretenciosos
Desavergonhados, agarrados a quê?
Espezinham flores!
As mais delicadas? Que absurdo !
Rude gesto,  picador de gelo, ser boçal
Pretenso atingir
a casa alheia...
Provocação desnecessária
Sem medida nem   ponderação
A impor à  viva força
a altivez soberba
Discurso incisivo
E sem razão !
Gente  demoníaca , cuspindo enxofre
Impediedosa e descarada
Inestetica e  maldosa
E muito mal intencionada.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Conto VIII

As horas  passaram , escondi-me nas sombras do  parque  e fiquei aguardar    a reação dela.  Perto da meia noite,devia estar muito desesperada,   veio cá fora, de um lado para outro,  encolhida de medo,  observou desconfiada  para os lados, eu nunca me tinha  ausentado de casa à  noite. A mulher  estranhou.  Percebi que gostaria de me chamar, faltou-lhe a voz, nao teve coragem e para não causar alarido.  Àquela hora, o homem fora de casa... uma efeméride. O acontecimento,  no dia seguinte, cairia na boca da vizinhança.  Ela não ia  querer isso por nada.  Muito transtornada, precipitou-se novamente para dentro, nem tentou procurar  no bar.  Grande cobardia. Armava-se em esperta,  rainha da casa e dona da minha vida.    Pernoitei  no bar,  aquela  noite, estava decidido, ela iria   sentir a minha falta.

 Inspirado no Conto de Sophia de Mello Breyner - " A viagem" in "Contos Exemplares"