quinta-feira, 27 de março de 2025

Viagem VII

 A viagem seguia, uma das   primeiras daquela  manhã. Já  havia abundância de sol àquela hora do dia, tão precoce. O autocarro descia nas calmas,  das   várias janelas, através do vidro, eu via-o e durante os vários intervalos de sombra, saltava de lugar em lugar, dependendo das habitações mais próximas de nós, das árvores, dos muros altos, então,  corria um ar desagradável, para depois voltar a sentir um calor  intenso, todavia, prazeroso.  Dava gozo contemplar os imensos reflexos que entravam olhos adentro, numa magia explosiva de luz,  enquanto me concentrava neste  jogo entre luz e sombra,  pensava que ali estava uma forma de esquecer  as agruras da vida, a escravidão de certas situações familiares,  o sofrimento por não  encontrar quem se procura, por não viver com quem se ama, entristecer porque a existência se vai escoando na companhia de quem não tem o dom da   compreensão. É triste estar tão perto, e as almas estranharem- se mutuamente, até aquelas que usam o mesmo sobrenome, estranho quando almas estão juntas, porque  julgam  se conhecer mas e  na realidade se desconhecem por completo. Quantos dramas numa manhã banhada  de sol , muitos, tantos, espalhados pela   agonia da espera,  diante de uma porta que nunca se abre, das intrigas feiticeiras, da difamação malidecente, do grotesco, das guerras sangrentas que ceifam  vidas inocentes, soldados confusos sob ordens absurdas, forçados a matar. Há  oportunidades que mirram  bem antes de refilar.  O mistério da vida e da morte, tão antagónicos , em princípio, díspares. A vida completa de vicissitudes amargas e doces e  no fim todos vamos passar por esse portal, de uma maneira ou de outra,  que nenhuma teoria consegue desvendar, por mais de sofisticada que seja a tecnologia, não chega para  adivinhar. A porta do fim permanece desde sempre, do início dos tempos, na total obscuridade,  eterna,  no mais cerrado segredo, quiçá desvendado só  por  aqueles  que por ela passam, jamais regressaram para contar o que é  efetivamente passar para o lado de  lá.  Alguém veio ocupar o banco ao meu lado: 

- Bom dia! - cumprimentou uma senhora

- Bom dia! - cumprimentei eu 

É raro pessoas estranhas me saudarem. Já não é moda. Se fosse, tratariam de  colocar na ordem do dia. Até se  deixa de  cumprimentar quem já se conhece, sem nenhuma razão,  ou quando a saudação acontece dia sim , dia não, julgo ser mais correto  decidir entre o sempre e o nunca. 

- A Sra também vai lá abaixo? - começou simpática todavia, felina 

- Sim, vou! 

Era uma senhora já de  idade avançada, muito magra, o rosto iluminado  por um  sorriso plástico,  tez amarela, muito expressiva, o cabelo castanho claro armado como uma peruca,  saia  longa e plissada castanha escura, muito abaixo do joelho,   casaco em malha, justo,  de um castanho mais claro que a saia,  por dentro uma blusa de um amarelo  muito suave. Nos pés, um par de sapatos de verniz e a bolsa da mesma cor. 

De repente fiquei admirada quando  voltou a dirigir-me a palavra: 

- Lindo dia de sol! - tom de voz  baixo e fino, lembrava uma nota musical, de um qualquer  velho piano. 

- Digo o mesmo!- respondi eu 

- Por esta altura, antigamente,  chovia muito! - diz sem olhar para mim, como se estivesse a resmungar para si mesma

- Também na minha altura! - acrescentei 

- Não entendo esses  alertas cada vez que chove! 

- É que as chuvas são muito intensas! 

- Lá isso é verdade. No meu tempo chovia um dia inteiro, semanas e um mês! A diferença parece que está na quantidade e  na velocidade. 

- É isso mesmo, agora são diluvianas e de curta duração. 

- Olhe, isto anda tudo alterado, em praticamente todos os sentidos, às  avessas, vai pensar que é por eu ser velha, ando minimamente informada, é mesmo o mínimo, afetam-me certas imagens, afetam-me certos ruídos, a TV quase sempre está desligada. Tenho os meus filhos e netos, tenho a amizade  do meu ex marido, tenho amigos, conhecidos e vizinhos, tenho o meu jardim, tenho o meu cão e o meu gato que até são amigos, tenho os meus livros, tenho o meu piano, gosto de cantar também,   tenho que responder às  cartas dos familares embarcados e amigos que viajaram para o exterior. 

- Toca e canta onde? 

- Na minha casa, na casa de certos familiares, na casa de alguns  amigos...sem nenhuma pretensão. Dá-me prazer, apenas isso. 

Enquanto  falava, não olhava para mim, a cabeça, sempre a observar em frente, como se procurasse saber em que lugar  estava  a passar. Agarrada às costas da bancada da frente, ora com uma mão ora com as duas. Por breves instantes,  calou-se, como se estivesse muito entretida  no que acabara de ver. Ou se esquecesse que me encontrava ali, ou se pura e simplesmente se aborrecesse da conversa. Subitamente senti que a ligação àquela senhora ficou suspensa, nem me atrevi a quebrar o direito dela  de se manter em silêncio. 

A certa altura, já eu percorria outros mundos quando ouço-lhe  a voz : 

- Isto, de viajar assim, também tem o seu interesse! 

- Diga?  - surpreendi-me com a iniciativa 

- Estou a gostar disto. 

- Nunca andou  de autocarro? 

- Eu tenho o meu Carocha ! - pronunciou  entusiasmada 

- Então conduz? 

-Sim, adoro, é a  liberdade, é a  independência, é a autonomia ...fascina-me. Você não? 

- Não! 

- Então não sabe o que perde! 

- Sei sim , mas não posso alterar isso. 

- Alguma razão especial?

- Saúde. 

- Que pena! É muito raro eu viajar de autocarro mas acho-lhe muita piada. 

Fiquei calada, sem saber muito bem o que responder, porque não tem piada nenhuma viajar de autocarro, a senhora não deve  saber como são os pontos de paragem, abertos, preparados  para o Verão, sem nenhuma proteção para o inverno, os passageiros ficam molhados, o que é extremamente desagradável e revoltante.  Como ignora certas zonas em que o autocarro passa superlotado de gente, porque o motorista parece que transporta mercadoria ou carne pendurada para um qualquer talho. A força necessária para se segurar e não tombar devido às  curvas apertadas. Também não deve imaginar o que é o massacre da espera quando se atrasam, nem quando se perde uma viagem e é  necessário  esperar pela próxima. Subitamente,  retomou a  narrativa : 

- Não tenho medo de praticamente nada nesta vida, a não ser a doença e depender da boa ou má vontade dos outros. É o que mais me assusta. A morte ?  vamos passar por ela...- rematou num encolher de ombros 

- Mas... será que o porta é o mesma para todos? E vamos passar de igual forma?  Será a morte idêntica  para toda a gente ?  É que falar da morte, imensa gente fala, tudo conjeturas de acordo com  crenças,  de acordo com teorias - senti-me no direito de expressar a minha opinião

- Quem sabe? Nem a senhora sabe, nem eu, essa é a sua teoria também ! - respondeu  irritadiça, todavia,  não compreendi a reação dela.

- Exatamente, não sei, do outro mundo, nenhuma alma embarcada , voltou sequer para me segredar o que se passou ou o que se passa...

- Não sabe de nada. A senhora e eu  estamos empatadas! - continuou com uma pontinha de sarcasmo 

Não me apeteceu responder, nem havia nada a acrescentar.  Ela rompeu de novo:

- A minha sorte é ter uma família maravilhosa, uma perfeita almofadinha. Há sempre umas coisinhas...mas nada que não seja superável - e riu-se cínica 

- Refere-se quando ficar sem faculdades, quem cuidará  conta de si.

- Percebeu o que eu quis dizer! - agora , a senhora aparentava ser uma boneca insuflada de vaidade. 

- E se a família falhar? 

- Ainda coloca essa hipótese! - argumentou beliscada,  com uma vermelhidão espalhada pelas faces e com os olhos esbugalhados, semelhante aos de um morcego. 

- Desculpe, não quis ofendê -la mas continuo pondo a hipótese da família  não ter disponibilidade. Um lar ou cuidadora? 

- Venha o diabo e escolha! Um lar, jamais !essa hipótese é o pior dos cenários, a cuidadora, depende da formação, que pode ser em Geriatria,  do caráter.  

- Sei de casos complicados que envolvem cuidadoras, se a família optar pela formação da cuidadora,  tem de pagar mais caro, nem sempre ao alcance do cidadão médio. A grande maioria não possui formação, nem caráter,  nem dignidade. É necessária a supervisão de um familiar próximo. À falta dos requisitos que lhe mencionei, ainda se pode acrescentar a instabilidade, às  vezes acontece, pelas mais variadas razões,  a cuidadora sai sem avisar. 

- A legislação não é  respeitada?! 

- Nem por sonhos, se não há  supervisão! 

- No meu caso,  não tenho de me preocupar com isso! 

- Que bom para si! 

- Vamos mudar de assunto, este deixa-me enervada! 

- Não, não vamos continuar, eu já  vou sair aqui mesmo. 

- Oh! Emitiu um som contrariado.  Saudei-a, a senhora mastigou  qualquer coisa semelhante a um cumprimento, saltei e  segui a pé.  


sábado, 15 de fevereiro de 2025

Viagem VI

 Havia algumas cabeças à minha frente de homens, de mulheres, cabeças mais velhas, cabeças mais jovens , umas mais interessantes e escultóricas, outras menos atrativas, carecas, toscas e gastas. Dir-se-ia que eram cabeças de vários  tamanhos  e formatos ,  cabelos de tons diferentes, penteados diversos, vi  raros apanhados no alto, enrolados em caracol,  no feminino ou no masculino torna-se exótico assenta extremamente bem, dá um toque poético e sensual à  caixa craniana,  ao pescoço, à figura.   Avistei clássicos; perucas a revistir a moleira, vi grande quantidade de  lisos esticados, lisos espadas, lisos mal lavados, até lisos  ondulados  para tomarem o aspeto que a moda exige,  uma tendência que atravessa gerações inteiras.   Atrás de mim, mais  alguns bustos  que naturalmente eu não via. Numa das paragens, subiu  um indivíduo, alto, folgazão, provavelmente, um quarentão de óculos de sol,  as lentes  tão escuras  que os olhos eram dois buracos negros, cara rapada quadrada.  Exalava um perfume intenso. Calça de ganga azul e por cima um polo rosa claro.   Numa das mãos o telemóvel, na outra, não havia nada. Usou-a para se segurar por onde passava até chegar ao lugar que ocupou, à minha frente. Cumprimentou o indivíduo que já  se encontrava no assento colado ao seu: 

-  Xavier, onde tens andado, nunca mais te pus os olhos em cima! ?

- Olha, quem chegou? O Carlos! Ando sempre pelos mesmos lugares. 

Eu mal via o Xavier,  de cima eu conseguia ver a camisa xadrez  vermelha e preta a  percorrer os ombros largos , já que se  encontrava mesmo na minha direção, de qualquer forma  percebia a sua  cabeleira ondulada, fresca e luzidia, o rosto de perfil, fazia imaginar  que talvez fosse um rapaz carinhoso,  com alguns pêlos na pele fina. Tinha voz aguda e tom baixo, ao contrário do outro, que tinha uma  sonoridade grave e descuidada. 

- Como é que vai isso? 

- Uma bosta, Carlos , uma bosta. E tu? 

- A mesma porcaria, cheira tão mal como a tua! 

-  Como sabes que a minha e a tua têm o mesmo cheiro? 

- Não sei, calculo...

- Carlos, estou numa merda de separação...

- Xavier e eu meti o pé na fossa e agora fui expulso de casa. 

- Sendo assim, nós  os dois estamos metidos em apuros! 

- Pois estamos , cada um à sua maneira. 

- Talvez não tenha nascido  para ser pai! Nem sei  se estou a agir bem, já que  a minha mulher todos os dias faz-me sentir um verdadeiro paspalho!  O meu pai foi de outra geração, ele mandava e a minha mãe calava-se, foi educado para ser servido, obedecido e eu quando vim ao mundo, as minhas irmãs mais velhas faziam tudo por mim, até a minha mãe entendia que a família mais próxima deveria se curvar  a  mim como se eu fosse uma majestade! 

Apesar de estar a escutá-los, voltei o rosto para o lado da  janela, para que, se olhassem para mim, desconfiados eu não demonstrasse que estaria  realmente a ouvi-los, sentia-me envergonhada. 

- Xavier! Um reizinho em casa! - risos 

- Mas não foi bom para mim. Só me estragou! Uma pessoa habitua-se e depois torna-se depende dos outros e segue pela vida fora assim...

- Deixa-me ver se percebi, foste mimado? E agora és um homem que tomou consciência disso, é só tirares a fralda e vestir a cueca!  não é facil? 

- A sério,  Carlos, eu não sei fazer nada em casa. 

- Aprendes com a mulher! 

- Eu não gosto de ser arrumado. Não tenho paciência, não tenho inclinação para trabalhos domésticos  e ela é da opinião que deve ser partilhado. 

- Mas gostas de estar casado? 

- Gosto de estar casado com ela, gosto dela, todavia, não chega. Ela precisa de um homem e eu...

- Não és  homem?! - risos 

- Sou homem, sou macho! A questão não é essa! - defende-se

- Hum?! 

- Não sou o tipo dela! 

- Vocês namoraram e conheceram-se, não? 

- Eu prometi que mudaria...

- Nós somos como os politicos, mentimos muito, quando nunca o devíamos fazer.

- Tens razão, Carlos, mentimos a nós e enganamos os outros. 

- Esquecemos que já estamos a dar mau exemplo. Passamos a vida a cair em descrédito, um dia quando falarmos a verdade, ninguém acredita em nós.  

- Por isso, esta separação está  a custar-me muito. 

- Foi ela que te  pediu a separação? 

 - Sim , foi ela e cometi outra gafe, tentei convencê-la a ficar pelo dinheiro que herdei da  minha mãe. 

- Eu, no lugar dela teria ficado...o dinheiro é o deus do mundo e faz imensa  falta- risos  

- Ela não pensa assim, discutimos feio, foi  bravo,   a corda esticou e rebentou.  

- Foi para os braços de outro? 

- Não, vive com a mãe dela. Sei que ainda gosta de mim. 

- E o teu filho? 

- Está com ela e a avó! 

- Julgas que volta para ti? 

- Não volta, Carlos, com muita pena minha! 

- Mas se gosta de ti...

- Esta mulher tem fibra,  conhece-me. Sabe o que quer num homem


- O que é que ela quer  num homem ?

- Maturidade,  responsabilidade,  cumplicidade, respeito

- Tens a certeza que não reunes nenhuma? 

- Não, não sou maduro, nem responsável, como posso ser cúmplice? E como posso respeitá-la se ela é a força única de trabalho e educação em casa e eu vou fazer parte apenas das horas de lazer? 

- Não consegues ser nada disso? ! -  voz de espanto e galhofa

 - Ela  é exigente e tem razão! 

 - Ela deve ter defeitos que tu não aprovas,  Xavier,  já  pensaste nisso? 

- Espera aí,  não há nada nela que seja insuportável! Que me cause repulsa.

- E no teu caso, sim? 

- Uma mulher que não pode contar  com o apoio do marido nas questões principais da casa... sirvo para quê? 

- Xavier, sei se mulheres que aceitariam as tuas condições! 

- Carlos, há muita mulher parva, então quer um companheiro ou adoptar  um filho? 

- Repito, conheço algumas que te aceitariam sem pestanejar.  

 - Infelizmente sou muito imaturo e muito medroso. Mulher que se preze não me aceita. 

- Xavier, não és traidor?

- Não! 

- Não és mau carácter?

- Não! 

- Não lhe foste infiel?

- Não!

- Então porque é que ela se separa por essas razões? 

- Para ela as razões  pesam, entendes? 

- Pensa comigo, Xavier, a tua forma de ser não é grave, é o que me parece! Eu sim, tenho a família toda  contra mim, porque traí a confiança da minha mulher e o respeito dos meus filhos, primeiramente deveria ter tido a coragem para um diálogo franco com a ela, para sair de casa de cabeça erguida, tu , tu és...

- Eu sou um inútil que não sabe ser de outra forma! E isto mexe com o sistema nervoso das pessoas, principalmente o dela. 

- Tu é que sabes, Xavier! É a tua vida!

-  Não tem como...

Cheguei ao meu destino. 




terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Viagem V

 Subo os degraus à entrada do autocarro e volto a subir mais degraus para me instalar,  não vejo vantagem alguma em subir tantos degraus, nem facilita a acomodação dos mais velhos. Pelo contrário, dificulta mais e muito. Os passageiros entram devagar e em silêncio, como se dirigissem a um velório . Logo a seguir o transporte sai lentamente. Alguém  instala-se a meu lado, nem presto atenção, porque estou concentrada na cena que visualizo através da janela; um  casal de jovens a agridirem-se mutuamente,  à bofetada. Tento seguir a cena, ainda estico o pescoço,  os meus olhos de esquina, a fita   desaparece à medida que o autocarro desliza para iniciar o seu percurso. Que terá sucedido? Alguém deve tê-los afastado... Para chegar à violência é que já  sucederam precedentes nada dignos de um casal .   Encontro-me  eu  em suposições quando alguém dispara:

- Que tipo de  mulher  seca tudo à volta e consome a água  dos outros? 

-  É uma  filha  da puta! - responde outra voz

Algumas cabecas curiosas voltam-se para trás à procura do indivíduo que se pronuncia,  efetivamente não sei se   vêm o rosto,  não me mexo, apenas espreito para o meu lado direito e dou de caras com a senhora sentada contígua a mim com um ar sereno. 

- Este sujeito deve pensar que está na tasca - voz  calma e firme

- Se fosse um miúdo, era logo  "apedrejado" de mal educado...- digo eu. 

- A sociedade de hoje é uma lástima! 

- A cair de podre! 

Cai um silêncio , depois arqueia as sobrancelhas, inclina a cabeça na vertical, atribuindo-me razão. Só agora observo detalhadamente o semblante altivo  desta senhora,  tez amarelada assaz  vincada, olhos negros, líquidos, vivos , lábios semi finos,   o cabelo louro claro falso mas  bem cuidado, desce até aos ombros, fisicamente em muito boa forma . Vestuário desportivo  feminino; calça comprida castanha escura de  bombazine justa, casaco de linho bege claro, com botões castanhos escuros, a mesma cor nos sapatos . Por dentro, a blusa justa em algodão  castanha, brincos discretos, os dedos decorados com anéis, uma maquiagem suave, no entanto,  perceptível.  A senhora traz consigo um odor perfumado maravilhoso. Apetece permanecer ao seu lado. 

As vozes chegam até nós  e diluem-se entre novas conversações. 

- Logo pela manhã  esta gente fala imenso! - disse pausadamente 

- Concordo consigo, as pessoas falam mesmo muito alto e nem se dão de conta. 

- É um mal geral! Cada um julga que pode trepar sobre o outro! Todos  querem  impor o seu ponto de vista. Como se fossem todos doutores. Toda a gente opina! Os sabidos...É que falar mais alto, dá para notar, percebe? Anda tudo a fazer o mesmo. 

- Há uma impaciência no ser humano, cada vez mais crescente, uma irritação...

- Tudo o que não sou! Pelo menos, penso que não. 

- Eu também não! Não há necessidade, quero seguir em paz. 

- Olhe que bem, que sintonia entre nós , duas desconhecidas. 

Sorrimos ambas. 

- Também vai à baixa? - pergunta ela descontraidamente 

- Sim, vou. 

- Sempre viveu aqui  e gosta ? 

- Sim, sempre vivi nesta maldita gaiola, uma parca gaiola, uma mesquinha gaiola, uma miserável gaiola, onde todas as coisas são demasiadamente fechadas a fingir de abertas!  

- Não gosta mesmo disto!? 

- Não,  nada, odeio! 

- Se foi assim tão mau porque permaneceu? 

- Por causa do clima! Em boa parte bom para a minha  saúde! 

- Compreendo. Eu vivi alguns anos no Canadá! 

- Gostou  de lá ter estado? 

- Não, o meu primeiro marido era muito ciumento e não me permitia sair de casa! Era casada com ele nessa altura,  isso deixou-me de rastos, soube-me a pouco ou a nada. Não nasci para ser prisioneira de homens e aprendi a me defender de chantagens. 

- Quantos anos esteve por lá? 

- Sete anos. Foi um dos  piores momentos da minha vida. 

- Pois... efetivamente.  

- Admiro o sexo masculino, gosto desta parceria; homem, mulher, adoro a intimidade. Todavia, cortar as minhas asas,  ameaçar,  impedir todo e qualquer movimento,  como se eu fosse uma criminosa, só me trouxe desgosto. 

- Não podia ter fugido? 

- Se pudesse acha que não teria tentado? É que temos dois filhos em comum. Ir para outro país, livrar-me daquele estorvo, sabe, viajar é  maravilhoso, ver outras realidades,  você capta  a beleza das coisas,  areja e volta cheia de outras imagens de lugares e cores diferentes, de rostos desconhecidos,  outros sabores, outros odores, outras vozes... e regressa diferente. 

- Tem razão ! disse eu terrivelmente encantada 

- Nao usa  um livro de viagens? 

- Não . 

- Eu tenho o meu, com fotografias, legendas, com apontamentos dos lugares que visitei, onde permaneci. Pessoas com quem falei, os assuntos. Pretendo continuar a viajar e sobretudo bem acompanhada, consegue ser uma mais valia. Olhe, aproveito a oportunidade - ela abre a bolsa, graciosamente e segura de si, retira um cartão do porta moedas e estende-me: 

- O meu cartão, aqui tem,  é assim,  eu e o meu companheiro  somos organizadores de eventos e decoração. Ele organiza e eu decoro. Temos uma excelente  formação na área. Ligue-me  para combinarmos um café, um chá, qualquer coisa. 

- Se tiver disponibilidade...sim. 

- Arranje um tempo para si, para estar bem. Ofereça a si própria umas horas de bem estar , conforto e descontração. Você tem bom ar, é bonita, se quiser podemos engendrar um evento a seu gosto, deve ter namorado, noivo ou é casada... ou até que seja só para si, há amigos com certeza, ou até familiares, é  só combinar e aproveitamos para acertar  os preços, é  dinheiro que vale a pena, está a investir em si, na sua felicidade. 

- Está bem, agradeço a amabilidade.

- É uma gentileza minha, não é habitual ter este tipo de gestos, você parece uma pessoa que precisa arrebitar, um estímulo,  aqui está ele! 

-  Já saio a seguir,  na próxima paragem- esclareço 

- Quero que saiba que gostei muito desta nossa abordagem. É simpática e eu também . Está a ver, que alegria! vai ser este o momento da sua vida. É  verdade, estou a apostar no meu negócio mas estou também a apostar em si. Eu ganho e você .  Medite com carinho na minha proposta, aguardo uma resposta sua. 

- Eu também gostei e entrarei em contato consigo.

- Óptimo,  faça isso e não se arrependerá, confie em mim! 

Cá fora, observo minuciosamente  o cartão,  especialmente o verso , onde constam os valores e quedo-me estarrecida com  os preços praticados, desencantada atiro  o bocado de papel  para o balde do  lixo. 


terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Viagem IV

 O autocarro segue  apinhado de gente e  as conversas entre os passageiros passam por mim. Fala-se alto e sem nenhuma reserva porque se supõe  que mais ninguém as  escuta, a  cacafonia geral  provoca a sensação que é pouco provável que alguém em particular os consiga escutar. Endireito as minhas costas nas costas do banco, recosto-me devagar, inclino a cabeça para trás e respiro fundo. Deixo as pálpebras descerem como asas de borboletas  leves e lentas , como se estivesse a dormitar.  Soltam-se gargalhadas longínquas, outras bem próximas. 

De repente, eis que: 

- ...Sua Santidade, o Papa?! santidade em quê?! 

- O Papa representa Deus naTerra! 

- Sou ... mas...( as vozes vão  para longe, a curva aperta o transporte e o guincho é explosivo) ... representa? Papa nenhum representa Deus!

- Ai não? 

- Os Papas de todos os tempos, são homens, apenas isso, homens, como nós  ligados à hierarquia da igreja e ao poder ( as vozes aproximam-se e afastam-se, diluem-se por entre os outros sons).

E chegam novos protagonistas: 

- ...eles sabem lá o que é o amor! 

- Se eles casaram devem saber o que é o amor... 

- Não é a celebração que dita o bom estado da relação. É a forma como se dão um ao outro...

- E então? 

-  Então? a grande maioria desconhece o que é amarem-se um  ao outro. Veja bem, o amor não existe. Há ódio, há dor, amor não! 

- Que barbaridade é essa? ! 

- Ah! A verdade é que uma barbaridade? Onde é que vê  amor? A observar pelo aumento dos  divórcios,  de casais que coabitam sob o mesmo teto ou até  casados e discutem como doidos, marido e mulher e  a  violência doméstica?  sem falar no resto da família...filhos, irmãos, tios, avós. .. lembre-se do tempo em que toda a gente foi obrigada a ficar trancada em casa. Uma oportunidade rara e única para estarem juntos e que sucedeu?! 

- O confinamento correu mal, porque as pessoas ficaram asfixiadas!

- Mas antes queixavam-se da falta de tempo, não havia maneira de se reunir! 

- Foi uma situação atípica! 

- Muito mal aproveitada,  porque lamuriavam-se da distância, dos horários desencontrados mas afinal  até gostavam do afastamento,  não  tinham coragem para admitir! E isto é amor? Repito, não existe amor ,  nem respeito... os bons sentimentos estão mortos e ninguém ousa abrir a boca para falar a verdade. Preferem acreditar no engano, na ilusão, na mentira que criaram e isto é  à  escala global! 

- O senhor  parece um filósofo,  padre não! Os padres acreditam no amor...

De novo uma travagem ensurdecedora e  acontece uma pausa entre os dois homens.  

Neste vai vem de conversas vem ter comigo outra:

- ... essa mulher é o diabo em trajes de gente, ardilosa, uma raposa manhosa. 

- E mais, perigosa, a especialidade  dela são as tramóias.  Acende a fogueira e fica a delirar com os efeitos provocados... 

- É isso mesmo! 

- Arma as confusões e veste o papel de ingénua,  de inocente e mete os outros uns contra os outros! 

-Pois, um dia a casa vem a baixo! Um dia ela prova um pouco do próprio veneno que destilou. 

- Qual veneno? Aos anos que continua a fazer das dela e vive bem. 

- E paz reina naquela casa? Não!  E os outros da família  são muito semelhantes....

- Lume perto da estaca... o contágio. 

- Uma mão lava a outra... 

- Uma mão é tão suja quanto a outra. ..

Outra guinada e o carro corre  veloz pela estrada adentro, abro o olho para espreitar onde me encontro. 

Torno a cerrar as pálpebras, de repente :

-... São novinhas e já tão mal educadas!

- Atenção ao que disse! 

- O quê? 

- Novas e mal educadas! 

- Que tem? 

- A má educação vem de onde? 

- De casa! 

- Do meio familiar. A sociedade é composta por essa massa de gente! 

- Por essa razão a nossa sociedade é o que é! E está a mudar sempre  para  muito pior! 

- Eles e elas! Agora é tudo igual! 

- Repare, passam a vida a alisar os cabelos, lá em casa observo dessa qualidade! O telemóvel não lhes sai das mãos, as tarefas caseiras não é com elas...

- Eu sei que é! O meu filho é um perdido pelos jogos, é um homem e é pai... e o meu neto segue as mesmas pégadas. 

- Vê como o exemplo vem sempre de dentro de casa! 

Repentinamente,  deixo de os escutar após uma paragem. Talvez tenham saído.  Atrás de mim senta-se alguém,  uma pessoa  já lá estava,  de seguida, percebo que são duas mulheres a cumprimentarem-se ruidosamente, os beijos repenicados nas bochechas,  snobes, falam muito alto das vidas pomposas, das viagens por ocasiões  festivas, uma delas  demonstra irritação por ter de se deslocar de transporte público, o carro infelizmente encontra-se em reparação,  a outra habitualmente  é transportada pelo marido, que naquela altura foi a Espanha,  em trabalho. Tagarelam tão alto que as outras vozes se calam, a certa altura, após um espasmo violento do motor, escuto:

- Olha, quando fui a Sintra, a semana passada não imaginas  com quem me cruzei?!

- Não faço ideia! 

- O André  Casal! 

- Encontraste o André, o teu ex !? Afinal o mundo é pequeno! Acompanhado? 

O tom  baixa consideravelmente,  como estão muito próximas de mim, ouço  nitidamente, talvez se tivessem esquecido desse pormenor:

- Sim, estava acompanhado de outra! 

- Conheces a outra? 

- Não sei, parece alguém que  já vi... talvez da TV, muito rococó! Mais uma vítima como eu.  Os homens pertencem todos à mesma estirpe,  quando namoram com uma mulher mais nova, salivam, eles, uns velhotes reciclados,  mal reciclados ainda por cima, tornam-se parvinhos, tontinhos mesmo. Conheces outra espécie, mais estúpida que a humana? - duplos  risos 

- Tu ainda  és nova cherie, e estás aí para muito, tens o  belo Miguel! 

- O Miguel é um cafezinho morno  ... atraio homens errados...

- O André era um café forte? 

- Ui se era, apesar de muito mais velho. Primeiro conheci um cavalheiro, depois revelou-se um  grande velhaco deu-me cabo da auto estima, maldito poeta!  Sem sentimentos nenhuns,  fui  parva,  criei a ilusão como imensa gente de que são seres especiais. Qual quê,  puro teatro, uns fingidos! Tudo se resume a dinheiro, fama e glória! E quem pensa o contrário, desengane-se! Alguns nem sequer  demonstram qualquer talento para as artes...mas escolheram os amiguinhos que lhes vão facilitar esse passo, por intermédio das pessoas certas, surgem em programas de TV, é meio caminho percorrido, a seguir, a comunicação social encarrega-se do resto:

- Tu conheceste muita gente do meio naquela altura, chegaste a comentar comigo sobre isso. 

- Lembro-me  de ter chorado no teu ombro! 

- Tempos que já  lá vão,  cherie! 

- Eu e o André  viajamos juntos,   trabalhamos e convivemos e a conclusão que eu chego hoje é que não existe nenhum fundo de verdade naquelas palavras, nem naquelas bocas banais e mentirosas, qual amor? qual parceria? Traidor e até me chegou a bater!  São completamente  diferentes das letras das músicas que compõem. O André dedicou-me poemas, depois soube de fonte certa que entre amigos homens não perdia oportunidade de  me enxovalhar com piadas porcas, puxou-me o tapete, invejou-me e invejou  amigos, falava mal de mim e fazia o mesmo aos amigos

- Quanta mágoa,  cherie...

- Não sei se é mágoa, penso que não, revolta sim, do que  qualquer outra coisa. Perdi muito tempo na companhia do estafermo. No fim da relação,  só me  tratava por  palavrões , boca podre.

- A chatice é idolatrar, a cegueira faz mal. Endeusar, jamais! 

- Isso foi a minha loucura, a minha perdição! 

- Afinal o André  nem é um poeta como convém. 

- Ele  desejava copiar os passos do pai,  esse sim, escrevia divinamente, ele  não, nunca. 

-  Talvez a tua vida pudesse ser diferente, se me desses uma chance...

- Lá vens tu outra vez  com essa conversa... sempre te vi como amiga e conselheira. 

- Podíamos ter tentado...

- Sabes que gosto imenso de ti mas não da maneira  que gostarias. 

- Respeito a tua vontade! Nunca agi de forma a te separar do teu marido, nem te forcei a nada, nem te convenci de nada. 

- Gostaria que encontrasses uma mulher bonita como tu e te apaixonasses a sério por ela e ela por ti,   tu mereces muito ser amada. 

De seguida cumprimentaram-se da mesma forma snob e cheia mimices, uma delas saiu, a outra logo a seguir,  eu continuei  viagem. 


 





quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Viagem III

 Sento-me devagar  no banco .  Por enquanto,   não há sombra de  passageiros  para  seguir viagem.  Aguardo a hora pacientemente.  Há  imensa gente a passar diante dos meus olhos. Uns para um lado,  outros para o outro.   Estrangeiros e residentes.  Mesmo à minha frente, uma faixa , duas filas de carros para a direita, a meio a separar as faixas , jardins estreitos e compridos, do outro lado,  uma faixa, duas filas de carros, em sentido inverso.   O movimento e o ruído das gentes, dos automóveis e autocarros , as respectivas   buzinas  disparam e ensurdecem.  Sobre mim pesa uma   abóboda de responsabilidades,   a erosão das preocupações,  das patologias crónicas, das amarguras e incompreensões, das injustiças persistentes e  como consequência,  um  sistema nervoso debilitado. Apesar de em parte ser proveniente do  histórico herdado, mas  sou forçada a  seguir  sobre o lodo obscuro e incerto, sem nenhum corrimão  ou vão de porta ou janela  a que tivesse podido deitar a mão,  não obstante, sigo agarrada à prática do bem, da verdade e a um facho de esperança. 

Os  transeuntes, residentes e estrangeiras vão  chegando, homens, mulheres e  jovens.   Entretanto, aglomeram-se frente à porta ainda fechada. O motorista prepara- se para a nova viagem. Subitamente a porta abre e lá  vou eu na minha vez.                   

Ocupo  um  lugar ,pouso os meus olhos embaciados de cansaço   através da vidraça,  lá fora   a cidade continua a respirar;  os seus habitantes,  visitantes,  movimentos e ruídos, sons sibilantes e distantes...quedo-me  esquecida   da fila de gente que ainda  dá entrada no autocarro. O transporte continua parado. O relógio roda lento.  

E ouço nitidamente atrás das minhas costas: 
- Sr.  Sousa ! 
- Sr. Celestino! 
Os dois homens cumprimentam-se efusivamente, deduzo apertos de mãos e escuto palmadinhas nas costas.
- Como vai a vida? A sua saúde, Sr. Celestino?
- A vida... razoável,  a saúde? Ai a saúde... Necessitar de médicos é uma tremenda chatice!  O sistema é antigo,  poupa os afortunados e queima os fracos. Aqui , na terra, o dinheiro é a salvação dos grandes! A não ser uma daquelas doenças graves e sem remédio, aí  não há medicina  que lhes  possa valer. Isto nunca foi  diferente e nunca será. Desengane-se quem se ilude. 
- É  preciso ter algum algum conforto a nível económico, não ser apanhado por essas  patologias cabeludas, senão o indivíduo está arrumado. Sem dinheiro é mais complicado. As hipóteses reduzem-se substancialmente. A minha situação é ligeiramente mais  desanuviada porque o meu salário e o da minha esposa permitem certos investimentos...
- E  a família como está,  Sr. Sousa?
-  Confesso que nem lhe sei dizer... Nenhum dos meus filhos mora por baixo da ponte, cada um tem  habitação própria,  no entanto, são muito desunidos, puxaram o lado da mãe, é uma gente estranha,são  rancorosos uns para os outros.  sempre foram e quando aconteceu a divisão de  bens, a casa da minha mãe foi vendida,  o humor foi de feras. Como pai sinto pena, nunca pensei falar semelhante coisa...
- Não se preocupe, Sro Sousa, fique à vontade! 
Concentro- me ainda mais na conversa daqueles dois homens , não lhes vejo  o rosto, nem as características fisicas. Apenas as vozes, timbres sem nada de relevante, apenas vozes de dois conhecidos. 
  - ...Pelo menos a minha mulher tem sido  muito companheira, ela é diferente daquela família. Já não posso dizer o mesmo dos  nossos filhos... a educação deles falhou, infelizmente cometemos alguns erros... chatice!  Casei cedo, não sabia nada de nada, nem ela... não estavámos ainda preparados, éramos dois imaturos, com muitos ideais na cabeça. O casamento deve ser celebrado quando  os dois  já adquiriram  uma boa maturidade. .. caso contrário vão  tramar as próprias vidas e tramar a dos seres  que vão gerar, para além da genética. 
- No meu caso, como sabe, eu  e a Celina   não tivemos filhos, por impossibilidades da saúde dela. No entanto,tem razão,  quando se é jovem não se faz  ideia das intempéries que  vamos enfrentar e da coragem necessaria para lidar com esses obstáculos  e problemas de toda a ordem. As dores de cabeça começam aí e  dificilmente desaparecem, é preciso arregaçar as mangas  e enfrentar o touro pelos cornos ... 
- É  isso mesmo, Sr Celestino!  
- Sabe, ontem, o seu genro foi me procurar ao escritório  para  lhe facilitar a burocracia e despachar um documento relativo à casa. Neguei-me porque não está nas minhas mãos.  
- Ah sim? 
- Sr Sousa, não imagina a cena que ele me fez ! Eu a explicar e ele a desconfiar da minha palavra. 
- Imagino, Sr.  Celestino... aquele urso fora da toca...dentro da toca ele baixa mais  o volume, tem mais calma...
- Porquê? 
- Teme  que a minha filha o deixe, ainda não percebeu que  ela nunca vai se separar dele! O patife nem isso atinge. 
-  É  um tipo deveras estranho... parece um louco. A sua filha de que se agradou... desculpe, Sr Sousa falar do seu genro desta forma! 
- Ele merece, sr Celestino, a minha filha deu a maior cabeçada da vida dela, é uma casmurra! Foi casar  com aquele  autêntico bandido, um tipo sem escrúpulos e sem interesse nenhum. Ele vive na sombra dela, fareja  o que ela ganha e  o que ela herdou da família. Tudo o que ela possui também é dele. Casaram com comunhão de bens, belo serviço!Ele chegou sem nada e continua sem nada. Que ele não  possuísse bens materiais, nem dinheiro mas ao menos carácter e dignidade, neste caso, é nada mesmo! 
- Diga-me,  como é que a sua filha consegue estar casada com ele? 
- Todos pensam que ele é quem manda, ele  é demasiado prepotente, espalhafatoso,  dá nas vistas, pobre diabo! Ali, quem comanda é  ela, ele executa. 
- Ninguém diria! 
- Ela sabe jogar com as fraquezas dele! 

- Então a sua filha é habilidosa?
- Não, é uma criança num corpo adulto, estúpida e cheia de birra. 
- Mas se ela tem jogo de cintura é uma mais valia para ela, não? 
- Sim, é , logicamente ele aprendeu a fazer o mesmo com ela. 
- Ela gosta dele assim? 
- Ela gosta quando lhe convém, inferioriza-o quando convém , incapacita-o e chinga-o quando convém ...e dá-lhe  ordens. 
- Sr Sousa, eles alguma vez  se amaram ? 
- Nem sei se alguma vez se amaram,  ela serve-se dele como um capacho, um serviçal,  desde o começo que anulou  toda a liberdade dele! Asfixiou-o completamente ! Ele permitiu porque se apercebeu que ela era um passaporte para uma vida melhor. Como ele veio do zero... está a ver... ela não fez dele um homem melhor porque ela também é do mal. Transformou-o num ser idêntico a ela, no entanto, ela é que tem  de brilhar ou julga que  brilha,  sempre brilhou mais porque  atira todo o lixo para ele, o  lixo é  sempre dele, até o dela! Ele nunca poderá estar acima, terá de se contentar com a inferioridade e tem uma forma de lidar com a família e o exterior, muito esquisita. 
- Que quer dizer?
- Ela vive numa realidade fictícia, que não existe, criou uma bolha, onde só ela está dentro... ninguém mais. Ali ela reina e sente-se superior diante dos fracos e  curva-se aos fortes. Sendo o eco dela, ele faz o mesmo...
- Como é que lida com essa filha?
- Nós não nos damos bem. Quando  vão  lá a casa, procuro ausentar-me. Se tentarmos conversar, acontece sempre  discussão. Somos o oposto. Ela combina bem com a mãe. Apaparicam-se uma à outra mas isso não me perturba. Convivo bem com a relação das duas. São mãe e filha, por isso...
- Que é feito do seu neto? 
- O filho deles é um caso muito complicado. E poderíamos esperar que assim não fosse?  Está trancado dentro de casa para não causar problemas à mãe. 
- Sr. Sousa que quer dizer?
- O rapaz não convive com ninguém, está voltado para os dois, pai e mãe. Só vem para o exterior na companhia deles. E eles compram-lhe tudo, efetivamente ele não precisa de fazer nada...
- Então não trabalha? 
- Não,  não consegue ! 
- Esse rapaz é seguido por algum ...? 
- Até a psicóloga foi escolhida pela mãe! 
- A sua filha como mãe está a prejudicar muito o filho! O que vai ser do futuro dele?
- O problema é que nem um, nem outro  parecem preocupados com isso. Eles preferem assim. 
- Que horror ! Pobre rapaz... na flor da  juventude a perder tudo a que tem direito e sem aprender o que é a vida!  que pena! 

Concentrei-me de tal forma naqueles dois homens,  que  tornei-me alheia a todo o percurso da viagem, quando me preparo para sair, olho de esguelha para saciar a minha curiosidade , de nada serve a intenção,  não consigo, naquele instante, as cabeças de ambos viradas  para a vidraça. Em sentido contrário do que posso visualizar .  Pelo que ouvi, o Sousa ocupa o lugar da janela e o Celestino,  do lado de fora. Sem mais demoras, preciso apear rapidamente. Por algum tempo, aquela conversa fica a dar voltas à minha cabeça.
                           

domingo, 6 de outubro de 2024

Viagem II

 Observo a paragem do autocarro, ainda faltam trinta minutos, naquele preciso instante desvio o olhar para a esquerda e o meu ângulo de visão tem uma  amplitude horizontal alargada,  atinge o fim do cais. Há pouca gente àquela hora, o sol  de verão cai tórrido, sinto-me a incendiar e  desafiando o calor abrasivo, entro desejosa que o mar galgasse as muralhas protetoras e chegasse a molhar os meus pés. Caminho sem pressa, sufocada, devido ao fogo que me atinge e aniquila qualquer movimento mais rápido.  Os meus olhos vão se detendo aqui, ali, acolá... são os barcos na enseada, que balançam tristemente ancorados, presos  pelas cordas. Do lado oposto, as embarcações de recreio,  carregadas de turistas para avistar golfinhos  em alto mar e  aproveitar  para um mergulho mais profundo e arrojado.  O navio de cruzeiro desperta a minha curiosidade; ocupa praticamente todo o comprimento do porto; é  enorme, possante, de proporções  semelhantes a uma  baleia, o gigante dos mares. Da ponta do cais, observo-o mesmo à minha frente, até  parece que consigo alcancá-lo, basta para isso, esticar o braço, debruçada sobre a varanda fico ali, esquecida dos raios de sol fortíssimos que parecem estar a querer derreter-me toda. Fixo as águas, a parte do navio onde a luz do sol quebra.    Há ali  uma escuridão sinistra e de  dentro de mim, do fundo da memória, num relampejar de claridades profundas e assustadoras, surgem imagens de mares  sonhados em noites agitadas de pesadelos.  Uma tristeza infinita assola a minha mente, um  medo a apoderar-se  das entranhas, uma angustia inexplicável.  Sinto um aperto no estômago  e para fugir àquele estado de espírito,   consulto o relógio e desperto para outra realidade. A passos lentos deixo o cais, caminhando afogada pelo calor, demasiado atípico mesmo para o pico do verão. O autocarro já lá está no ponto, de porta aberta, apresso-me a entrar, para fugir à intensa fritura. 

Após descarregar a viagem do meu cartão eletrónico, vou ocupar um assento na parte de traseira da viatura, por isso subo alguns degraus e instalo-me. Sinto o ar condicionado fortemente  ativo  e isso causa-me irritação . Não me agrada nada chegar num estado de aquecimento terrível  e agora receber o oposto, um chuveiro de vento frio. Podia ser refrescante se fosse mais calmo e em pequenas doses. Com efeito, alguns passageiros que começam a entrar mostram uma viva satisfação. Deliciam-se, regalam-se , como se estivessem a banhar- se numa qualquer praia  maravilhosa. 

A meu lado, acomoda-se um homem idade avançada,  de relance, vejo a calva num arco perfeito  e o bigode cuidadosamente aparado sobre o lábio fino, os seus olhos vivos, claros e sorridentes passam pelos meus como se  me conhecesse,   do lado oposto,  paralelamente, logo a seguir à corredora do transporte, no outro assento, outro homem tem uma amplidão pançuda, no rosto uma barba negra cerrada e no lado da janela, uma  mulher, que mal se consegue descortinar. 

O autocarro arranca serenamente e inicia a viagem , o homem da calva perfeita  dirige-se ao homem de amplidão pançuda:

- Bom dia, sro Santos!  Não tenho memória de um calor tão excerbado! - e sopra aflito

- Viva Dro João Paulo, por aqui?!

- O meu   carro avariou quando ia  a caminho de casa, por isso aqui estou. É  muito triste que estejamos  a assistir à morte lenta do planeta,  impávidos e serenos, como se não nos dissesse respeito.

-  E olhe que de ano para ano, vai ser sempre  a subir! 

- Como foi possível termos  chegado a este estado!?- desabafa o da calva perfeita 

-  Isto faz parte da natureza e das suas transformações- acrescenta o de  amplidão pançuda , o som alto da  voz  alta, convencido da sua verdade 

- A natureza,  as suas transformações?! E as que o homem tem provocado ao longo dos séculos ? -  remata o da calva perfeita . 

-Dro João Paulo,  somos  todos uns desleixados para  com o meio ambiente  - responde num tom sibilante, tão alto como a sua proeminente barriga. 

- Nós pertencemos à terra, fazemos parte dela. Se ela morre, nós também. 

- Dro João Paulo, o senhor vai se preocupar com isso, agora?nesta altura da vida? 

Entretanto, entram mais passageiros, fora do ponto de paragem. Gera-se uma certa confusão, um grupo de ingleses,  jovens, descontraídos,  folgados, altos e bonitos, um deles pede ao motorista um  bilhete para o " Garden Botanik". Vão à procura de frescura, da sombra das árvores, dos cantos e recantos verdes, das plantas e jardins floridos, da esplanada acolheradora,  cujos chapéus trazem sombra.  

-  E como evitar  a preocupação? Ainda não estou senil para fingir que  não sinto medo pelos  filhos e netos, pela  vida na terra. O que significa e as  suas  consequências! Está tudo interligado e nós fazemos parte do conjunto - torna o homem da calva perfeita - Não podemos continuar a dar péssimos exemplos e esperar que seja a geração mais nova, a salvadora do planeta. Isto é patético! Não é possível,  até porque a sua ação está interdita e sistematicamente boicotada. 

O de amplidão  pançuda cala-se do alto da sua  indiferente estupidez , o da calva perfeita volta a cabeça para a frente e ergue o rosto numa atitude  de superioridade  defensiva. 

Agora sobressai o ruído do motor,  quase abafado pelas  conversas murmuradas, altas,  distantes, próximas, risadas, uma vozearia crescente. 

O homem da calva perfeita insatisfeito, volta o rosto para mim,  os nossos olhos cruzam-se e nesse piscar de  cílios,  observo instantaneamente os seus lindos olhinhos claros: 

- Eu não tenho razão?! Parece que falamos para o vento e vão-se as palavras...

- É  óbvio que sim! 

- Pois, pois! São poucos os que se interessam, como se o que se passa cá em cima não lhes dissesse respeito. 

Quando nos enfrentamos novamente vejo  com mais acuidade a beleza que o envolve.   E essa  beleza vem pelo sorriso, do bigode totalmente grisalho mas muito bem recortado sobre o labio inferior e pelo  olhar. É um doce olhar, enternecido, encontro  ali finura, inocência, bonomia. Quando aqueles dois lábios descerram e deixam brilhar o esmalte,  apercebo-me do quanto me sinto surpreendida . 

Fixa-me pensativo e assusta-me  o que me irá dizer:

- Já se apercebeu da  quantidade de ruído desta gente? É  sempre assim?

- Não, não é sempre assim. Alguns são amigos,  ou vizinhos, ou  parentes, ou conhecidos,  outros desconhecidos como nós. 

- E precisam desta gritaria , se fizer silêncio, será facil ouvir algumas dessas conversas, algumas íntimas. 

- Compreendo a sua observação e concordo. 

- Nós não sentimos necessidade  de gritar um com o outro e  conseguimo ouvir-nos  bem, apesar do zumbido das abelhas. 

Nova paragem, um indivíduo de meia idade apea-se com  dificuldade. O calor  cá dentro está   controlado pelo  ar condicionado, quando a porta se abre, um bafo quente invade e sentimos que as labaredas perseguem o autocarro pelo  lado de fora. 

De relance, noto que o homem da calva perfeita observa atentamente o indivíduo que sai e depois volta-se para mim:

-  Isto de adoecer é uma chatice! Especialmente as incapacitantes... 

- As pessoas deveriam fazer caminhadas e movimentar-se muito mais.  

- Exatamente, não obsessivamente, subjacente a ideais de beleza... 

- Então não é  pela saúde que se corre!? 

- Infelizmente não é! Corre-se atrás da beleza e da eterna  juventude! 

Entretanto, algumas pessoas vão saindo, o som sibilante dos jovens barulhentos diminui e dispersa-se, ocupando agora lugares  distantes uns dos outros e assim sendo, o transporte torna-se mais leve e o ruído das vozes baixa de tom. 

- Confesso-lhe,  o que mais me aterroriza  é ficar incapacitado e depender dos cuidados e da vontade  alheia, familiares ou não. 

- É o meu medo! 

- Acredito, e,  que possam tomar decisões por mim, sem eu conseguir expressar a minha reprovação ou  aprovação, julgam pelo livre arbítrio das suas vontades, das suas  necessidades, das suas prioridades, porque o  paciente já não consegue comunicar... como vai ser ? E se preferir uma morte assistida?

- Lamento , essa frase não me soa bem, imagine apenas isto, que esse sofrimento seja necessário,que seja  a purga para alcançar a outra vida. 

 antecipar a morte para cortar o sofrimento pode ser mais um erro tremendo da humanidade. Não é possível viver sem dor. 

- Mas é legal e já se pratica , muito anterior à lei ser aprovada. 

- Sabe, o ser bumano foge do sofrimento e há muita dor que  depende em grande medida de quem  cuida,  da família, recolher o parente idoso e indefeso e tratá-lo com compaixão,  amizade e amor. Não se aposta nos cuidados à velhice. 

- Falou em quem cuida mas e se tiver sido um paciente daqueles muito mauzinhos ?

- A vingança é a pior aliada e muito  má conselheira. Nunca dá bons frutos retribuir na mesma moeda pode trazer um rol de  problemas, sem fim à vista.  Trata-se de um ser humano  indefeso, debilitado e sofrido.Onde fica o perdão?  Parece-me que  Deus pensa desta forma e Jesus Cristo   praticou o bem a quem o amava e a quem o perseguia. Esta forma de agir e pensar é complexa mas dá frutos; a paz! 

- Então é uma crente ferverosa de  Deus? 

- Sim, sou. Acredito. A morte é  fechar uma porta e depois abrir outra. A morte não é definitiva. Ninguém morre para sempre. Há  a eternidade. É  lá que habitam as almas dos nossos antepassados. 

-  Enfrentar o desconhecido ...

- Só vamos saber quando chegarmos lá! Julgo que é perda de tempo pensarmos no fim, não é verdade? Ter missão cumprida em vida, é raro, no entanto,  fundamental. 

- Está certa! Refere-se aos atos, às oportunidades?!

- Sim, quanto mais longa é  a vida, mais chances  de aperfeiçoar.

- Diga-me , está perto de sair?

- Estou quase! 

- Gostava de lhe dar o meu contato. E dá-me também o seu, para o caso de não me ligar! Quero conhecê-la melhor, se me permite! 

- Está  bem, se quiser...

- Já  agora, é tão jovem e bonita! 

- Sou uma  jovem de sessenta anos ! 

- Como?Está a brincar comigo! Parece muito mais nova que isso! 

-  Que bom para mim  que aparento ser mais jovem mas  vou mesmo ter de  sair. Vai me dar licença,  sim? A minha paragem é  aqui. 

- Ah, pois! Com certeza. Já me levanto. 

Passo  pelo homem da calva perfeita e reparo  que os seus olhos desviam dos meus e  tornam-se  escuros repentinamente. 

Deseja-me um dia feliz e eu retribuo, num ápice observo que vai sentar-se rapidamente   ao lado de uma menina nova, num  banco mais à frente. Quando salto, sinto novamente o mesmo calor abrasivo, é como sair de uma arca frigorífica  para uma sauna. E vou  caminhando devagar, vergada sob o calor do sol e a ruminar como a maioria dos  homens de idade avançada,  de todas as classes sociais, são estúpidos e são  ridículos, extremamente ridículos e patéticos e toda esta tontice vem de longe, de muito longe... é um  clássico a cair de podre,  nunca se modernizou,  traduz a  cultura de uma sociedade que é incapaz de se modificar,  incapaz de  se refazer, uma sociedade que apoia, aplaude  e reforça o papel do  machão; o vilão,   o sujo, o imundo, a inversão de valores e atitudes, de um  conservadorismo hipócrita  e  quem educa para esta e outras palermices são as próprias mulheres, não exclusivamente mas em grande medida,  as mães e outras mulheres da família. 





    





 


quinta-feira, 4 de julho de 2024

Viagem I

 Viajar de autocarro, avistar  cá de baixo,  através da janela, as serras azuis ,  esfumadas lá ao alto, recortadas como pano de fundo e logo,  mais a baixo, os morros,   aqui e ali  salpicados  pelo casario,  sem grande preocupação. À minha frente   aglomerados habitacionais sem estética organizacional, a sufocar as bermas da  estrada,  serras e casas,  parecem-me refletir um  aspeto  desagradável,  quiçá  eu me projetasse nelas.  Estávamos a meio do Outono, sentia uma tristeza, uma mágoa cavada. Os céus  pesados,  manchados  e riscados acentuavam ainda mais o meu estado de espírito.   A viatura rolava agilmente  de uma curva a outra, metia por troços apertados, desviava cautelosamente quando vinha outra em sentido inverso. Dava mesmo a impressão de que  instantaneamente chocariam e  por uma fração de segundos o acidente ficava suspenso.  Apesar dos sobressaltos,  ia sentindo um certo adormecimento cerebral  produzido pelo rolar invariável  e arrastado do  motor. Talvez o  quebranto  das noites mal dormidas, ou   a influência da paisagem, ou os rostos desconhecidos dos outros passageiros...havia um entorpecimento no  ar, qualquer coisa semelhante a  um balão cheio de gás poluído a espalhar o pó maligno das alturas. Sei que não sei se  sou  negativa em consequência das vicissitudes da vida mas a vertente  realista faz parte de mim  e existe no fundo de cada um de nós, mesmo que rudemente educados, uma certa crença, o misticismo  é uma apetência de muitos de nós,  agnósticos ou não. Basta surgir diante dos nossos olhos, uma montanha coberta de neve, uma  tarde estranhamente  cerrada   de nevoeiro, um céu noturno  cheio de pontos estrelados,  cujo encanto é inegável.  A gritaria das gaivotas,  e, o pano místico sobe  e invade como uma espessa cortina de fumo. Subitamente, chegam até mim fragmentos de conversas dos outros passageiros; " ...você assiste à missa e ouve o padre dizer ; Meu filho tem paciência, amanhã vai  ser diferente, tenha esperança..."

"E  um tipo espera, espera e nada!"-  risos
" Passa a vida a escutar essa frase e naturalmente  habitua-se a ela, o pior é que , acredita nela. Ah! Torna-se escravo dessa  treta!
" Mas não deve ter esperança? "
" Esperança naqueles que metem a mão no seu e no meu  bolso? Eles não deixam de roubar!"
" Pelo menos acreditar que dias melhores virão!"
" Virão? Quando? Se o senhor quiser sonhar e sobreviver à custa desses  sonhos vazios...que nunca se vão concretizar. "
" Sempre podemos viajar, aprender, conhecer..."
" Tem dinheiro para viajar? "
" Ganho o suficiente para fazer uma viagem por ano, o patrão paga com atraso."
" Ah! Os patrões são todos iguais, querem pessoal para o seu negócio lucrativo mas choram lágrimas de crocodilo na altura do pagamento...odeio patrões! E, está a compreender como tenho razão? E os seus sonhos? "
" Os  sonhos adoçam a vida, não, não me quero tornar amargo. Tive e tenho esperança que aquilo que faço dá frutos, na pessoa que me tornei, na minha família, nos meus passatempos..."
" Vai me dizer que não adoraria ser famoso e rico?"
" Não, ser famoso às vezes é uma tremenda dor de cabeça, quantos suicídios de gente famosa e rica..."
" E gente a viver à grande e à francesa!"
" Vivo bem com o que tenho e não quero perder até que...
 
Depois as vozes foram para longe,  misturaram-se com o   ronco feroz do motor do autocarro.  De  repente, chegou até mim outra música; agora eram senhoras;" ...essa gente é do piorio, ele e ela, olhe, ele quis se dar bem na vida..."
" Nunca estiveram separados?"
" Nunca! Mas  são infelizes! "
" Quando o pai ainda andava por este mundo, parece  que a família aparentava estar bem..."
" Uma família  muito desequilibrada "
" Não sei, não os conheço assim tão bem mas  são pessoas com nível de instrução  considerável  e bem de vida!..."
" E isso é tudo? "
" É uma família bem formada, pelo que sei."
" Olhe que não,  olhe que não! Há ali problemas cabeludos"
" Não fazia ideia que fosse assim!"
" É uma gente que vive de aparências..."
De repente juntou-se uma sonoridade diferente, grossa:
" Vizinhas estão a falar da minha cunhada e do meu irmão?! "


" Sro professor rocha! Não fazia ideia..."
" Estou mesmo atrás das senhoras, ouço-as bem! mas não se preocupem,  também não me ligo a essa gente, de quem falam. Somos  família pelo  sobrenome e corre-lhes nas veias o mesmo  sangue que o meu, de resto, nada nos prende. É melhor assim.
" Agora senti-me envergonhada, até apanhei um susto!"
" Eu tambem não esperava !"
" Descansem, o susto já passou e é verdade,  ( chegou-se para a frente em jeito de confidencia ) essa gente é pouco recomendável; a mim é que me envergonha desabafar convosco assuntos desta natureza... faço-o porque são vizinhas e amigas mas efetivamente o meu.... "
Na curva, o   motor do autocarro  guinchou,  assemelhante  à  matança do porco,  um grito ensurdecedor  a riscar definitivamente todas as vozes. Levantei-me rapidamente para  carregar o botão da campainha.