sábado, 13 de dezembro de 2008

Pedra Filosofal



Nem ao menos me deixam sonhar!

Desceu a escada e desapareceu ao fundo da rua escura.
Chovia torrencialmente...o céu desabou toda a sua violência naquela tarde que se despedia com um sabor muito amargo.

Recolheu-se na soleira de uma velha casa abandonada e ali permaneceu até a tempestade amainar.
O vento bravio irrompeu desvairado.
Sentiu-se exausto, com fome e frio. Cresceu dentro dele uma vontade imensa de chorar.
Que dura era a vida da gente pobre! Porque razão quisera Deus que ele nascesse?
Viver para quê? Para ser humilhado? escorraçado? Desprezado?
Assim nem valia a pena respirar!
Que doloroso pedir esmola! Estender a mão calejada para umas moeditas que mal chegavam ao valor de um rebuçadito. Se pedisse pão ainda lhe atiravam mais uns trocos. Era proibido mencionar as palavras bolo e bolachas.Repreendiam-no logo.Não tinha direito a saborear algo mais doce?!
Nos momentos mais complicados roçavam-lhe pensamentos negativos. No entanto, bem no fundo ,lá num recantozinho do seu peito crescia uma vontade de viver.Só ele sabia a fúria indomável em que se debatia! Assemelhava-se àquele vento medonho.
Sentou-se no chão molhado e pôs-se a imaginar se o Pai Natal surgisse e num gesto de mágica lhe trouxesse o saco recheado de brinquedos.
Os olhos do rapazinho cintilaram...
- Olá rapaz! - cumprimentou o velho de barbas brancas.
- Leva-me contigo! - pediu o menino.
O gorducho deixou cair uma lágrima na mão da criança e o encantamento principiava a ter lugar...
- Ei, tu aí, vai para longe que me afastas a clientela.- acordou-o uma voz encrespada.
Ergueu-se e Suspirou contrariado:
- Nem ao menos me deixam sonhar!
- O que é tu queres?- tornou o comerciante da voz crespa.
Sem responder correu e subiu de novo a escada sem se atrever a olhar para trás.

Publicado