Seguro no copo com Whisky
Preguiçosamente a outra mão pelo cabelo
Aliso o bigode grisalho
Tombo sobre o sofá...
Os ponteiros do relógio
contuam a sua rota...
O corpo cansado,entorpecido
um formigueiro nervoso...
uma febre metálica
O tempo encalhado
esmorece na garganta, humedecida pela bebida.
Paixões antigas atormentam-me...
Sopro a raiva ...
Aproximo-me da vidraça
Fito a roupa branca
que ansiosa troça do meu sofrer
Mas aquela visão é alento:
A mulher vulgar do prédio
em frente ao meu...
carcomida pelo tabaco
a roupa amarrotada
amante dos vícios carnais
Sempre lavando e engomando
para fora...
precisa dar de comer
aos gaiatos ranhosos...
Os garotos trepam aos telhados
atiram pedras na rua
Torcem matreiros a cauda aos gatos raquíticos
e os bicharocos vítima das maldades
respingam veneno pelas narinas
Engalfinham-se todos ...
e ela desata aos berros
Grita o nomes deles
e como eles não a escutam
Ela praguejava
amaldiçoando a sorte.
A roupa fica por lá...a tremer.
Vejo-a
quase todas as manhãs...
Sai apressada
blasfemando...
A saia balançando
Ignora o que são números
Nao sabe assinar o nome
Nunca ouviu falar de cultura
Ninguém lhe falou de sonhos
...
Abro a vidraça e ponho a cabeça de fora
Fecho as pálpebras
provo a meiguice do vento e do sol
Sou desperto por uma voz que grita de lá de baixo
"Um bom dia"
Abro os olhos e vejo a mulherzinha magra
que acena como a roupa branca.
Publicado em 87