Inspiro a bruma
o peito sobe...
a névoa pálida
leva-me ao céu
A meio do Inverno
em taças de espuma
sorvemos a bebida
pura,cristalina...
Num rumorejar perene
o nevoeiro galga-me a boca
rendido...entra em mim
Sem pudor...
toma-me por fim
Em gestos bruscos
deixa-me louca...
O vento morde-se de inveja
assaltado por visões imortais
A nostalgia enterra a vergonha na grama
Os reflexos escondem mil cristais
Então o tempo muda
afasta o nevoeiro
e exibe as mãos alvas e esguias
Toma-me de assalto,causa-me arrepios
Sacode os cabelos longos e ondulados
enlaça-me num abraço frio
nos olhos...um fulgor maroteiro
Rasga-me as vestes em tiras de papel
indefesa entrego-me assim...nua
E no desvario da sua expressão
cala-me o pensamento
ruidoso suga-me os mamilos
com total sofreguidão
A chuva penosa chora baixinho
a sua triste canção
As flores encharcadas de água
bocejam com um ar resmungão
Os pinheiros altos
esguedelhados
ondulam excitados
roçam-se contra o ar
esfiapados...
A floresta lúgubre
e embevecida
escoa em sussurros e gemidos
O tempo tomba sobre mim
vencido pelo cansaço
pelo fluído solto
A terra surpreendida palpita docemente
povoada no corpo por biliões
de gotículas minúsculas
com o aroma delicioso.
Destina-se à Fábrica de Letras e o tema de Outubro é "O cheiro da chuva"