sábado, 18 de dezembro de 2010

Então é natal...




O espírito evoca fenómenos passados

trazidos em grãos de esferovite

Omo branco de neve pura

embebido em água límpida e fresca

o líquido corriqueiro

escorre porta abaixo

corre quintal adentro

galga escadaria acima…

A frescura com cheiro

a ar próprio

arromba as portas antigas da velha casa

lambe as vidraças

em gestos vigorosos e friccionados

Os tapetes com desenhos orientais

submergem no lavadouro

O escaparate comprado ao rei D. Carlos

abre gavetas e saem prateleiras

As loiças tombam, mergulham

dentro do alguidar

num baptismo de água em bolhas coloridas

A massa da farinha incha nos tachos

ao calor da lareira

O sino da capela chama para a missa do parto

E ao fim da noite princípios do dia

olhos pestanejam de sono por dormir

e lábios bocejam

A faca espeta-se nas goelas do porco

E o furo jorra sangue quente

Pobre animal atraiçoado e sacrificado na festa.

E eis que surge a passo lento

Num silêncio devoto

A mãe…

Traz a criança nos braços

A seu lado, ombro com ombro

o pai numa fiel cumplicidade.

A vaca e o burro acercam-se

Cada um toma a sua posição

Como se uma fotografia os retratasse

Os pastores andam trauteando

quadras ao vento…

e ao avistarem tão lindo quadro

curvam-se e adoram maravilhados

o nascimento do menino.

O anjo chega atrasado

e revela atarantado:

- Os reis Magos vêm chegando…

A vaca molengona exclama presunçosa:

- E trazem ouro!

O burro atento completa vaidoso:

- Esqueceste o incenso e a mirra…

O pinheiro alto

rompe o telhado da sala

espeta-se numa estrela

Outros astros estremecem

resvalam de comoção

prendendo-se nos galhos

do esguio pinho.

A espiguilha enlaça-se

E a gambiarra também

O pinheiro alvoroçado

pulsa de agitação

O canto anuncia a missa do galo

Depois

A canja é servida quente

O peru recheado jaz sobre a mesa

Ao lado a travessa de carne vinho e alhos

não faltam as sobremesas

Bolo de laranja, Bolo de família, Bolo de mel…

Broas de manteiga, broas de mel…

Licores viscosos e doces

Sumos…

Vinhos caros

O alvoroço toma conta da família

As crianças brincam sobre o soalho polido de cera

O aroma de ensaião, o aroma do alegra campo,

o aroma das manhãs de Páscoa

e o aroma dos junquilhos

cruzam-se e misturam-se…

O regato chorão contorna

rochas de papelão

o luar solene sopra compaixão…

Cantam rouxinóis hinos de louvor

e assim o presépio lembra o céu…

Àquela hora bendita a campainha ressoa

Apressam-se a atender

É a “muda”, a pobre que vem de longe

De uma outra esquina para pedir de comer

Repartem o pão e o vinho

E estendem-lhe a mão.

Saciada a fome do corpo e da alma

A pobre triste e remendada

Sai dali de alma cheia

E bem alimentada.

E o regato chorão contorna

rochas de papelão

o luar solene sopra compaixão…

cantam  rouxinóis hinos de louvor

e assim o presépio lembra o céu…

Destina-se ao Espaço Aberto - Tema: Então é natal...