Vitória cerrou
as pálpebras e percorreu o jardim da sua meninice. Os dedos tacteando
as pétalas sedosas das flores e os troncos encarquilhados das árvores. Inspirou os aromas e mexeu os lábios saboreando-os. Abriu os braços e rodopiou,
as pregas da saia curta abriram-se formando uma corola. A natureza pulsou, trespassando
o corpo ainda franzino como se de um vitral se tratasse. A miscelânea de
verdes, castanhos, amarelos invadiu-a e provocou-lhe
vertigens. Embriagada pela voracidade do redemoinho, cambaleou estonteada com
tanto brilho e cor resvalando para o chão. E assim ficou toda colada à terra,
numa reciprocidade quase perfeita. Os olhos abertos esgazeados, apontados ao
céu. O coração frenético arremessado a alta velocidade. Deixou-se afundar na
terra molhada e fofa submergindo lentamente. As brincadeiras da garota não
ultrapassavam os muros altos do jardim, temeu os castigos da mãe e respeitou os
conselhos da tia.
No entanto, a
curiosidade por novas brincadeiras levou-a a trepar as árvores e espreitar para
o lado de fora. Depois cresceu uma vontade insuportável de saltar o muro, ela
resistiu ao sabor da aventura e voltou a casa imensamente frustrada. Já
fatigada por tantas tentativas goradas, um dia resolveu
pôr termo aos receios. Subiu a árvore como sempre e pela primeira vez colocou o
pé sobre o muro. A emoção vibrou de tal forma que a fez arrepender do passo
dado, receava que o coração estilhaçasse e morresse de forma trágica, sentiu
pena da avó, o desgosto matá-la-ia com certeza. Mas atreveu-se e finalmente
escorregou para o exterior. Agora não sabia o que fazer, o pânico aturdiu-a.
Reconheceu aquele lado da rua, já o tinha atravessado com a mãe e a tia. Julgou
que a sensação de liberdade fosse outra. Aquela impressão não lhe agradou.
Principiou a escalada quando subitamente uma menina se aproximou para espiá-la.
Surpreendida desistiu de subir e acercou-se da outra criança. Questionou-a
sobre a sua presença ali e não obteve resposta. Vitória pensou que aquele
silêncio poderia ser sinónimo de conspiração. Começou a impacientar-se. Ameaçou
agredi-la se abrisse a boca. De nada lhe valeram as injúrias maldosas. Vitória achou-se
demasiado ansiosa e descontrolada. Por fim, a outra afastou-se e ela galgou o
muro de regresso a casa.
(Excerto do romance a publicar)
Nota explicativa :(Peço imensa desculpa pelas incorreções, pois a versão colocada não é a final) Grata pela compreensão.
Nota explicativa :(Peço imensa desculpa pelas incorreções, pois a versão colocada não é a final) Grata pela compreensão.
P.N.