O homem pobre, escavado pela fome
abatido pela mão negra da sorte
estiolado,
a crepitar de
arrefecimento
a boca sangrando…
Derrubado na berma da estrada
cenho ermo, frio
cinzento e
nos olhos, o sol
esquivado
Pensou alto:
- Não vale a pena continuar!
E eis que nesse instante
passa um jovem forasteiro a cavalo:
-Ouvi-te dizer que não vale a pena continuar?!
-Sim, já nada tenho a perder…
nada me resta…nada!
O forasteiro apoiou as coxas
no selim do animal
esticou o tronco
espreguiçou-se, observou para lá do horizonte
e propôs:
- Vamos fazer um acordo, dás-me um sentido teu
e em troca cedo-te duas montanhas, concordas?
- Sim, sim, pede o sentido, o acordo fica já selado…
- Calma, reflecte, volto daqui a duas horas
e nessa altura terás decidido.
- Com certeza.
O forasteiro puxou as rédeas do corcel
e afastou-se a trote lento.
O pobre tornou a pensar
alto.
- Que sentido devo dar?
Deixa cá ver….já sei, entrego-lhe a audição, isso mesmo…
Não serve para nada…ou serve?
Nunca mais vou ouvir o meu cão latir…
nem a água do riacho a cantar…
nem o vento a assobiar ….
não me parece boa ideia.
Então, e se for o tacto?
Não serve de nada…ou serve?
Nunca mais sentirei o
pêlo do cão
que é tão fofinho…
nunca mais vou sentir a água nos dedos
nem tocar a terra quente
Ah, não sei se gosto disto…
não me parece boa ideia…não quero
Espera aí… ( coçou a barba um tanto embaraçado)
Só se for a visão… é isso mesmo.
Não serve para nada…ou serve?
À noite quando o sono
não chega
estendo-me sobre a
relva
molhada e conto as estrelas …
e agora já não vou poder apreciar
as garinas quando vão lavar roupa na ribeira
em risadas de dentes alvos como a neve,
lindas de morrer…
nem mirar os seixos do fundo do rio….
nem pescar…com a cana afiada
nem apreciar os verdes, os castanhos
Sempre de noite e sem lua? nem estrelas…
Não!
Total escuridão? Sem a claridade do sol?
Basta, nem pensar!
Assim sendo, restam dois;
Ó paladar para que te quero?
Vais tu embora!
Não serve para nada…ou serve?
E o copinho de vinho tinto?
Que sabe tão bem na boca….
E as broas de mel…
que me dão a provar…
Coisas tão boas, doces e salgadas….
Fresquinhas, tenras, meio rijinhas
Que adoro trincar…
Ainda não vai ser este….
Tenho de me apressar
As duas horas vão mesmo escoar….
Vai ter de ser o cheiro…
Não resta outro… (levantou o chapéu, coçou a cabeça,
soprou contrariado)
mas, mas ,mas….
há odores que fazem festa nas narinas…
quando me chamam para entrar na cozinha…
o cheirinho da comida …hum…..
Ai o perfume das flores, das ervas, da terra molhada, seca
Seja que odor for….não, não não!
Que venha o forasteiro.
- Aqui estou, tens o sentido para me dar?
- Não, não tenho nada para te dar. Todos me fazem
uma falta danada. Sei que me vou arrepender se o fizer…
Fim do acordo.
- Felicito-te pela decisão tomada.
Um homem sensato e inteligente
Não foi por acaso que te dei duas horas,
tempo suficiente para ponderar
- E agora?
- Agora vive e pensa na riqueza que ainda tens! Queres vir
comigo?
- Para onde?
- Para longe, para casa.
- Que farei lá?
- Serás meu ajudante nas tarefas caseiras e pagar-te-ei por isso. Aceitas?
- Aceito! - declarou muito contente
- Então sobe! ( Estendeu a mão ao pobre e ajudou-o a montar
o cavalo)