Sua eminência arrocha-se no trono
lembra uma construção românica;
rude, sisudo, encorpado, baixote …
Epiderme escura, cabelo curto grisalho
barba farta, queimada pelo fumo…
charuto atarraxado nos lábios balofos .
O caderno, manual de explicação
de Estética, tão clássico…
sempre o mesmo, desde longa data…
réplica de si mesmo;
amarelo encardido , anotações
desbotadas, nem vírgula a mais, nem vírgula a menos,
nem ponto a mais, nem ponto a
menos…
O génio da sabedoria, sem nenhuma
evolução à vista,
enquadra a armação grossa dos
óculos na fachada escura
e discursa num tom ilustre e altaneiro:
- Excluindo meia dúzia de provas,
o resto é pura burrice, vão plantar batatas, dediquem-se à terra. Que fazem
aqui? Como é que se lembraram de tirar um curso superior? Não percebem nada de
Estética!
e vibra de riso, um regozijo
escarninho, uma gargalhadinha enervante…
as suas anotações sobrepõem-se às
respostas dadas
e imiscuem-se nelas, de tal forma
profícuas
que não se distingue nada … não
existem olhos para leituras sobrepostas…
luta titânica de grafismos
Sua eminência informa com algum
enfastio:
- Quem obteve a classificação
acima de oito, ainda se pode propor à oral, os outros, penso que nem vale a
pena!
Imediatamente, olhos jovens
debruçam-se para a folha de teste, em busca da confirmação:
Escutam-se sussurros: - Oito,
virgula dois…por um triz …quase …quase que…, o meu foi nove… consigo chegar à oral…
O dia veio, como outro qualquer,
nem maior, nem mais pequeno…
Naquele castelo de muralhas já muito
envelhecidas e corroídas pela traça
acontece a chamada oral;
a quem entra, a pose de Sua eminência
intimida…
dois fieis escudeiros guardam
aquela relíquia sem brilho, mais caduca que o
caduco dos homens
Os cães a postos, espreitam os
pupilos, um a um …
- Vai começar… – uma voz sussurra
- Somos só quatro?! – outra
rumoreja
-
Que tortura… estou em frangalhos! – a seguinte suspira
- Cala-te! – ordena a quarta
amedrontada
- Medricas! – galhofa uma delas
Sua eminência nomeia quem enceta
o interrogatório.
À medida que questiona, zomba das
respostas dadas e lança bombas de escárnio e maldizer.
Até que irritado, solta mesmo
desadequado:
- Então quer dizer que um
cagalhão é uma obra de arte?
- Não!...não!
- Ah! – exclama numa risota
displicente.
- Diz que sim! Diz que sim! Depende
do rabo que faz!
Olhos escancaram de susto, não
fosse sua eminência ouvir aquela barbaridade
e tudo o que fora dito, anulado.
PN
