A ENTREVISTA
“Marta, quase o rosto da bandeira de tanta insensibilidade”

“ Um misto de
sentimentos, por um lado, uma tristeza profunda, por ver uma mulher tão bonita nestas
circunstâncias e por outro, profundamente envergonhado, enquanto jurista, se
visse esta reportagem antes de ir para direito, se calhar tinha ido para outra
coisa qualquer. Actualmente, nós temos um sistema legal que é uma autêntica
vergonha nesta matéria, trata as pessoas basicamente como lixo, como é o caso desta
senhora. Esta senhora diz uma coisa que é importante, pode estar nesta situação
por ter sido obrigada a trabalhar num local que tinha amiantos, toda a gente
sabe perfeitamente que havia muitas escolas e que ainda há muitas escolas, que
tem nas suas infraestruturas peças de amianto, uma senhora que é vítima do seu
próprio trabalho, devia-se haver por parte do estado outro tipo de atenção e
não merece. Vamos tentar perceber o enquadramento legal disto; no séc 19 houve
um filólogo alemão Diefen Bier que disse isto; “O trabalho liberta”, para esse
filólogo alemão uma pessoa deve trabalhar até ao fim, independentemente das circunstâncias
de estar a morrer ou não estar a morrer, tem de trabalhar até morrer, porque o
trabalho é libertador, liberta o espírito para uma coisa superior, é o auto
sacrifício de nós termos capacidade de trabalhar até ao fim. Diefen Bier, foi
depois aproveitado por quem? pelos nazis! Em auschwitz, e noutros campos de concentração. Se bem se
recordam, é muito visto nos filmes e documentários, quando aquela gente
desgraçada chegava aos campos de concentração tinham um letreiro a dizer; “ o
trabalho liberta” o que é que isto quer dizer? vais trabalhar até ao fim, até à
morte, é isto que este sistema legal promove. Esta senhora está obrigada a
trabalhar até à morte. E nós temos um sistema legal, que considera uma pessoa cancerosa
em último grau, que tenha resistido a todas as tentativas de cura, já com um
período de vida muito curto para viver, a lei não considera isto, com 100% de
incapacidade para trabalhar. Não considera, está lá escrito. Situam entre 80 e
95 de incapacidade para trabalhar. O que dá margem a estes senhores das juntas
médicas para vir dizer, não tem 100% de incapacidade, ainda tem condições para
trabalhar. Isto é vergonhoso. Eu tenho vergonha do estado em que vivo. Isto é
uma lógica nazi. Isto é uma lógica numérica. Eu vou recuperar aqui uma frase
que foi dita por uma senhora professora de Ovar, que em 2007 se viu envolvida
numa circunstância desta natureza. Esta senhora professora de Ovar, não tinha
metade da língua, tinha cancro na língua, era professora e a junta médica
apesar da senhora só ter metade da língua, considerou que ela tinha de
trabalhar. Esta senhora veio para a comunicação social dizer o seguinte;” É
muito mais barato para a Caixa Geral de Aposentações que eu morra do que estar
a aceitar a aposentação”. Esta é a lógica numérica. O estado mama. E esta
senhora que em 2007 se viu nestas circunstâncias, de ter que ser obrigada a
trabalhar como professora. Eu não percebo o que estes senhores da junta médica
percebem disto, porque uma professora precisa da língua para falar. É o seu
instrumento, é uma coisa que não pode ser mais óbvia. Até dizia que fazia um
esforço para falar e lhe saía sangue pela boca na frente dos alunos. O governo
na altura sensibilizou-se com a situação e foi perguntar à junta médica” Mas
ouça lá isto, não é um bocado de exagero, estarem a obrigar esta senhora a
trabalhar?”E a resposta da junta médica; havia um papelinho onde dizia, capaz
para trabalhar ou incapaz para trabalhar? Sim ou não? E parece que o senhor
doutor na altura veio explicar que se enganou. Eram muitos papéis que estavam à
frente dele e então pôs a cruzinha no sítio errado. As juntas médicas são
integralmente da responsabilidade da Caixa Geral de Aposentações, até 2007 não
eram médicos. Era uma composição mista, em que havia um presidente da junta que
não era médico, agora são todos médicos. E os médicos não se sensibilizam com
esta questão, porque são pessoas muito felizes, estes senhores doutores que
tomam uma decisão destas, são felizes, porque nunca tiveram de trabalhar depois
de fazer uma sessão de quimioterapia ou radioterapia. Se tivessem a
infelicidade de serem obrigados a trabalhar, atenção, que não estou a fazer um
ataque à classe médica, depois de fazerem uma sessão de quimioterapia ou radioterapia,
se calhar tinham uma opinião completamente diferente. Estes senhores têm uma
lei que é permissiva. Bastava haver uma lei que dissesse a estes senhores em
concreto o seguinte; “ Doentes como esta senhora, nestas circunstâncias; três
cancros, a serem submetidas a radioterapia e quimioterapia, são obrigados a
mandar as pessoas para a aposentação”. Estas pessoas não têm condição, tem de
ter uma dignidade enquanto seres humanos que a lei não lhes dá, e depois
agravado pelo facto desses senhores das juntas médicas, não terem a sensibilidade
para perceber que têm na sua mão o poder de dar a aposentação a estas pessoas e
não o dão, porque sai caro ao estado, como é óbvio. Assisti a um caso, de um
senhor que estava a sair de uma junta médica, em muletas, que não tinha as duas
pernas. O senhor estava revoltado e estavam a insultar os médicos porque o
senhor sem as duas pernas foi considerado apto para trabalhar. Aquilo que digo
é basicamente isto, isto, é uma linha de extermínio, isto é nazi, por isso tens
de trabalhar até às últimas, porque se não trabalhares até as ultimas,
tiramos-te o pão para a boca. Estas pessoas que são consideradas aptas para
trabalhar se não aparecem no trabalho no dia seguinte, ficam automaticamente,
por lei, debaixo de um regime, de licença sem vencimento. Há limites de prazo,
no caso desta senhora, depois foi a várias juntas médicas que lhe renovaram
sistematicamente uma baixa, até ao limite previsto na lei. A seguir tem que se
apresentar obrigatoriamente a uma junta médica da Caixa Geral de Aposentações,
sob pena de ir automaticamente para os regimes de licença sem vencimento. E as
pessoas podem perguntar “ E uma pessoa nestas circunstâncias, o que é que pode
fazer, para reagir a uma situação destas?” Antes de 2007, foi criada a junta de
recurso, esta pessoa pode pedir a realização de uma nova junta médica, em
recurso da decisão da primeira, que vai ser integrada por médicos diferentes daqueles
que apreciaram a 1ª vez o caso, com excepção do médico privado que pode estar
na junta médica e esse pode ser o mesmo, mas depois se houver uma reconfirmação
da decisão, se o caso for obviamente de incapacidade, e atenção senhores da
segurança social, se for um caso permanente, então a senhora pode recorrer aos
tribunais administrativos, e dizer, há uma acção específica que é muito utilizada;
uma acção de intimação para a defesa dos direitos, liberdades e garantias de
cada um, e os tribunais o que é que dizem? Quando são casos tão crassos, tão evidentes
que mesmo para um leigo, se perceba que não há condições para esta senhora
continuar a trabalhar, o tribunal, decreta efectivamente a aposentação. Noutros
casos o tribunal diz basicamente que foi uma decisão discricionária dos
médicos, é uma decisão técnica, científica e o tribunal não se mete. O tribunal
só se mete quando há casos tão gritantes, tão grosseiros. Esta senhora tem de
lutar pelos seus direitos e lamentar uma vez mais, nós vivemos num estado em
que as pessoas ou tem de trabalhar até a ultima ou então são condenadas à fome.
Apelo aos senhores políticos que estão no governo, lembrem-se
que temos uma lei que só dá duas alternativas às pessoas que estão nestas
circunstâncias “ Ou trabalham ou morrem à fome”, escolham!
Drº P.P.
(A Marta foi avaliada pela junta médica da Caixa Geral de Aposentações
e, mesmo sem a docente ter estado presente no encontro, determinou que ela
estaria apta para desempenhar funções como professora, apesar de se sentir
incapaz para trabalhar. Marta não foi considerada absolutamente incapaz para o
exercícios das suas funções. Os responsáveis pelo programa de TV, pediram
esclarecimentos à Caixa Geral de Aposentações e ate ao fim da entrevista, não
obtiveram qualquer resposta).