terça-feira, 24 de abril de 2018

Fugitivos de si mesmos


Eles andam a fugir de casa em casa
E a culpa naturalmente é das casas; mal projetadas,
mal construídas, mal situadas; a frente de costas para o sol
Depois, começam a incomodar-se com sinais estranhos;
Vultos passam nas paredes, espantalhos a gargalharem
no cimo de escadas,
janelas que se abrem sem a mão do vento,
portas que rangem nos gonzos sem ninguém lhes mexer…
objetos a deslizar sem serem tocados, outros desaparecem
do seu lugar e reaparecem noutro sítio.
Escutam-se risinhos de crianças, diálogos entre adultos,
numa linguagem impercetível, diluída...
E o sistema nérveo começa a criar medo de fantasmas, de velhos,
de monstros; receio do escuro e emergem pontas soltas de dúvidas…
a irritação surge ininterruptamente, as insónias povoam as noites
de  intrusos, num assalto de  paredes e tetos.
As discórdias esquecem os diálogos pacientes e prazerosos.
O caos toma forma e sobe vidas a trote desastrado;
questionam-se, acusam-se, tornam-se intolerantes e vulneráveis;
Por fim; tomam uma decisão; Procurar um padre exorcista; é preciso oração. 
Levar para longe aqueles incómodos; A casa é benzida.
Não tarda nada as manifestações assombradas regressam.
É pedido ao padre uma explicação;
 não tem resposta para a ineficácia dos seus métodos.
Que fazer então? Voltar-se para onde?
O clérigo aponta na direção da floresta, no fim, há uma bruxa;
muito procurada para casos sem remédio algum.
Sem mais delongas, metem-se na viatura e lá vão.
Começam a perceber que a distância é mais longa
do que a indicada:
- Porque não fazemos mais paragens, há estalagens… - diz a mulher
- Temos urgência em chegar lá, não temos? - responde o homem
- Tenho fome e estou cansada!
- Aguenta-te! – Conclui seco.
A mulher cerra os dentes contrariada
Finalmente chegam, os faróis do carro iluminam um letreiro com a inscrição; “Fim da Floresta”
Há um largo, o carro derrapa com alguma violência; a mulher assusta-se:
- Ui! termina aqui?! – pergunta ela estremunhada
- Parece que sim!
Apeiam-se na escuridão, sobem uns quantos degraus de pedra e eis que surge nova tabuleta com a seta;
“Bem vindos à casa de Heloise”.
- A bruxa tem nome! - comenta o homem entre dentes.
- A nossa sorte é a luz elétrica, mas ainda temos de subir o caminho de terra batida para chegar à casa? 
- Vamos embora! - decide ele.
Duas longas curvas:
- Olha, ali está ela e é rústica, um bom prédio!? - aponta a mulher.
Sobem mais degraus e ela pára:
- Não será vergonhoso virmos pedir ajuda a uma hora destas?
- Estamos aflitos, não estamos?
- Pois…mas …
- Isto são horas de chegar?!- da sombra surge um papagaio de cores exuberantes. 
Apavoram-se ambos:
- Ai o raio do bicho! - irrita-se o homem
O pássaro chama:
- Heloise, tens visitas!
Uma figura feminina aparece à entrada:
- Que quereis?
- Precisamos de uma consulta urgente!- explica o homem
- A esta hora não faço consultas.
- É que viemos de muito longe, passei o dia inteiro a conduzir…
e a minha mulher precisa descansar…por favor!
- Isto aqui não é uma estalagem, mas…está bem, entrem!- convida hesitante
- Não são confiáveis, não são confiáveis - repete o papagaio falante
O casal segue a dona da casa até ao andar de cima
Uma sala ampla, agradável, acolhedora e bem decorada.
Heloise indica os lugares aos recém chegados;
acomodam-se os três à volta de uma mesa redonda.
Foi aí que ambos notaram a beleza rara da anfitriã, elegantemente vestida, alta, magra, uma vintage. Sem vestígios da tradicional bruxa.
- Do que se trata? - pronuncia num tom baixo e sedutor
O homem toma a palavra e descreve tudo minuciosamente;
desde a passagem deles e dos três filhos pelas três moradias;
 as constantes fugas, os fantasmas a incomodarem dia e noite,
a preocupação com as crianças, os sustos, as angustias, as frustrações
vividas, o fadiga sentida pela família.
Heloise escuta-o atentamente, os seus grandes olhos pestanudos saltam do homem para a mulher e vice versa:
- Que sugerem que faça?
- Liberte-nos desta maldição! - solicita a mulher- não vai atirar
cartas? búzios? Nada?!
- Eu vejo nos olhos das pessoas - esclarece Heloísa.- onde estão as crianças?
- Deixamos em casa de um vizinho de confiança - clarifica o homem.
- Felizmente - remata a dona da casa.
- Então, tem algo de novo para dizer? - pergunta a outra mulher
- Tenho novos dados, muito elucidativos! - exclama Heloise intimidatória
- Então, exponha, estamos expectantes! - entusiasma-se o homem
- Tem a certeza que precisa da minha resposta? Que caso insólito…  
- Não percebi! – o homem pôs-se boquiaberto.
- Vocês sabem perfeitamente a que me estou a referir. Quem criou toda esta barafunda dos fantasmas, dos monstros e das almas?!
- Viemos aqui com o intuito que nos dissesse! – adianta-se o homem surpreendido.
- São vocês os dois! - afirma peremptória
Ambos trocam olhares cúmplices, ele ergue-se num salto, como se fosse ter uma síncope, pálido e cadavérico, ela encolhe-se desfeita:
- Que brincadeira vem a ser esta? O vosso jogo termina aqui. Não sei quais os propósitos de tamanha loucura…mas acaba já!
- A senhora é louca! - e avança para Heloise, que nesse preciso instante
estala os dedos e assomam do nada dois homens robustos,
a presença daquela força bruta, detém o homem.
- Vou ligar ao xerife, ele virá cá ainda esta noite e levá-los-á
à delegacia mais próxima e tomarão as diligências necessárias.
- Quem vai acreditar em si? Sua bruxa
mentirosa, charlatã, somos  acusado de quê ?
- Cale-se homem! Remeta-se ao silêncio, como
faz a sua esposa! Está preocupado porquê? Não têm vergonha
de andar a atormentar a vida dos seus filhos, a enloquecê-los?
- E porque faríamos isso?
- Vocês é que devem saber, não eu! Falta de equilíbrio mental…não sei…
O xerife saberá encaminhar o caso.
Num gesto de cabeça pede aos indivíduos para os amarrar.
Entretanto, o homem grita furioso há-de vingar-se dela, a mulher
permanece em silêncio.
Heloise dá as costas e sai da sala perturbada, desce e aproxima-se do papagaio:
- Tu já sabias?
- Soube assim que os vi chegar.
- Boa noite, meu espertalhão.
PN   

  
 Retirada da Internet -  desconheço o autor.