Pintura de Monika Luniak
O odor a podre já vai longe
As ratazanas passeiam no Vale do Porco
Rosnando defensivas, deixando um rasto de avisos
O lugar é delas, nada de atravessar a área
Os saltos afiados e laminados roçam imediatamente a corda
na tentativa maldosa de não permitir que outros consigam
subir
O touro murcho de ignorância e mal dizer
incha e distribui açucenas
às ratas e ratinhas, às baratas e baratinhas
As araras deliram dançantes
dispostas a tudo por uma açucena!
As corujas são mais matreiras, mais espertas, espírito
empreendedor
Caprichosas e desavergonhadas ...
colecionam plantações das ditas flores
dão o couro cabeludo para preservar as culturas
extremosas beatas do inferno, inspiram
e espreitam de soslaio, a ver se outra beata
cobiça o que é delas. Sôfregas por mais e mais!
Lamuriam-se enfadadas pelo trabalho despendido,
cansadas, a arfar de tanto alisar as pétalas da vaidade
perigosas e maldosas.
Minorcas, metem estacas nos pés
para parecerem maiores, muito maiores...ainda assim…
O corvo, ronda por ali, de galho em galho, manhosamente cortês,
apanhando grãos dispersos e valiosos
dando o ar da sua graça, exibe um trabalho de “mestre”
Dá-se a todos, mas não gosta de ninguém
tentador, ansioso
por trepar…a galhos mais altos e seguros
Move-se perspicaz por entre as mais complexas sinuosidades
com a ligeireza de um príncipe e ronha disfarçada
A grande maioria vende a alma por uma açucena, o corvo
também, mas é cauteloso...
Ele recebe as flores, exibe-as na mesma, no entanto, finge
modéstia, ufana-se pouco e guarda-as sem causar grande alarido.
Teatraliza, simula, coloca-se a par, espera que a próxima
abelhuda não o pique e afasta-as devagar.
Aguarda pacientemente o momento certo, aquela
distracçãozinha do touro míope e tonto
E aí sim, espeta-lhe
a bandarilha. Anda de olho naquele lugar…
Aprende, oportunamente há-de exercer o mesmo tipo de tirania...
O corvo tem habilidade de trapezista, passa por bonzinho,
aplicado e humor
refinado. Agradável e inteligente
O touro murcho, fica-lhe atrás, falta-lhe perfil de líder
Por isso a sujidade bafeja no Vale do Lobo Porco
O touro arma-se, mas não tem estofo...as suas armas? ser
vingativo e mau!
Inclina-se para os bastidores, onde age à calada
Sem escrúpulos, sacode árvores, deixa os frutos virem ao
chão
Dispõe, a lei inquinada, nada a fazer, existem as açucenas
pelo meio…
Lá estou eu, atravesso a tua garganta como uma lança de
denúncia,
Olhos nos olhos e as
minhas estruturas tremem à tua frente, sou a filha
mal amada… um pai ditador. Por isso escondo o temor
Levantas os abraços, esbravejas, intimidas
Retiras-me todos os argumentos, és dono de quê? tua verdade!
Da minha não! E a verdade está do meu lado!
Brincas cruelmente com a minha vida, como bem te aprouve
O sistema defende e acoberta pulhas como tu
Somos tão diferentes! Que bom!
Empurras-me e continuas a empurrar e eu a escorregar…
Tropeço no lodo, tropeço de novo
Sucessivamente rasteirada em quedas medonhas
A espinha dorsal endireita à custa do meu escudo interior
Equilibro-me no fio e penso e repenso que o abismo mora ao
lado
Sei que aguardas… no
entanto, nunca caio nas tuas ciladas!
PN

