quarta-feira, 12 de abril de 2023

Confissões de outra mãe

 Separada ,  um filho, e, sem nenhuma vontade de voltar a casar ou me envolver com homens.  Na  juventude  namorei apenas  o meu ex marido,  aquele  doce amuado ; parcos  diálogos, andámos  de mãos dadas. Na minha altura,  olhar fixo, sorriso maroto, meio enviesado, talvez manhoso, um piscar de olho, fazia-me feliz,  era o pó mágico do dia. O meu calcanhar de Aquiles foi  o ciúme, um ciúme doentio. A paixão de uma jovem simples e acanhada .  Era Deus no céu e o Rafael na terra, a minha cegueira impedia  de  ver racionalmente ; nós não tínhamos nada em comum. A minha grande  esperança era mudar a cabeça do Rafael. Ele era o oposto de mim,  o meu marido era ação,  eu teoria. Em comum ? a timidez, a inexperiência da vida a dois,  o que nos diferenciava?  a educação. Eu, uma menina, criada com boas maneiras,  boa aluna, excelentes notas, querida dos professores, querida da família. O modelo de perfeição dececionou os mais próximos  por ter namorado e casado com  o  homem errado, indivíduo com poucos estudos, escassa  instrução,  sem cultura, porém, muito trabalhador, empenhado e despachado, capaz de qualquer empreitada, o oposto de mim. No noivado cometi muitos lapsos dos quais, interrogo-me se  tivesse agido de outra forma, como teria sido a minha vida? Comecei logo com inseguranças e medos infundados. Coloquei um atrelado no pescoço do Rafael ,  proibi-o de se dedicar aos seus hobbys, retirei tudo; jogos de futebol, encontros com amigos, saídas isoladas por  razões individuais  , eu calculava  o tempo que ele deveria demorar. Uma insanidade da minha parte. Ele era interessante a nível físico e isso mexia comigo, quando as outras lhe faziam "olhinhos" eu virava do avesso,  uma tremenda  revolta tomava conta de mim e não conseguia me conter, eram todas umas putas e cabras e reagia em voz alta, procurando indícios nos olhos dele; saber se aqueles olhos verdes  também tinham devolvido olhares às outras.  Quando me volto para trás, tenho pena de não ter acordado mais cedo. Desde o início que o meu casamento estava condenado ao fracasso, vivíamos face to face, a sufocar, eu respirava o oxigénio dele e vice versa.   Passava a vida a inferiorizá-lo e de tanto repetir que ele não era nada sem mim, que tornei-o num ser nulo, neutro, incapaz de resolver qualquer problema sem pedir o meu conselho e isso causava-me um prazer tremendo, era tê-lo na palma da minha mão. Naquela altura, significava  amor para toda a vida. Dali já não sairia, chamava-o  à  atenção por tudo e por nada. Maquiavelicamente, comecei a perceber o quanto ele  era um fantoche nas minhas mãos, flexível, fácil de manobrar. Perante  os familiares e estranhos, eu era vista como a soberana, aquela que tem o comando de tudo; Uma mulher ao volante , uma mulher que não permitia que o idiota do marido fosse mais esperto que ela. E , se por acaso ele tomasse qualquer atitude sem previamente me consultar,  eu atirava logo à cabeça,  depois  lia-lhe  no rosto  a aflição e o arrependimento. Isto dava-me um  tremendo poder.

Engravidei e senti-me maravilhada, o Rafael, um pai dedicado,  à  medida que o filho foi crescendo,  eu comecei a querê-lo  só para mim,  só eu sabia  educar, tudo o resto eram interferências abusivas e desnecessárias,  de repente, a criança  começou a dar jeito, comecei a pô-lo entre nós,  sempre que o Rafael me procurava para ter sexo, aludia que a criança estava ali, nem pensar,  que podia acordar, se chorasse, aconchegava-o,  quando íamos  de férias,  arranjava o mesmo entrave,  a criança vinha para a  nossa cama.  O Rafael  foi perdendo a paciência, o interesse por nós os dois, eu constantemente a apontar defeitos em tudo; nas risadas, nas graçolas, nas conversas, nas ideias, nas decisões. Ele a  tornar-se uma fera muito  mal disposta e isso era um ponto a meu favor. Os que me cercavam odiavam-no pelo mau feitio,  e , eu lastimava a minha sorte por estar atada àquele marido, havia um filho... por isso, por outro lado,  convencia-o  das vantagens de estar a meu lado.   Precisava muito da mão de obra. A relação tornou-se tóxica, e esquecemos que a criança crescia e observava cada gesto nosso, o Rafael  cada dia mais revoltado, a cuspir fogo para todos os lados.  Eu sempre a depositar  toda a desgraça sobre os ombros dele. As discussões aumentaram substancialmente de fervura. Já haviam transbordado. Não o suportava, a presença dele causava-me asco.  Deitei mão a  outros interesses para salvar a minha pele, precisava urgentemente sair daquele caos que eu mesma havia criado, mas cometi outra atrocidade,  levei ambos comigo para onde quer que fosse, convenci-os  e puxei-os à força .  Outras vozes se ergueram  e tentaram me fazer compreender o quanto estava errada. Ninguém me apontasse  falhas, trepava paredes,  eu era  perfeita e todos conspiravam contra mim. Não admitia um reparo, uma observação, nada. Tornei-me impossível.  Comecei a perceber que o filho já não era uma criança, era um  adolescente, no entanto,  interessava-me continuar a tratá-lo como uma criança para poder exercer o meu domínio sobre ele também,  por não saber lidar com ele  de outra forma.  O meu grande receio era perder as rédeas  do que tinha conseguido,  o controlo das várias  situações,  sem perceber que já tinha perdido toda a noção do ridículo, do patético, dos meus limites. Então, assustava-os, amedrontava-os, manipulava-os. Aos poucos , o meu  filho adoeceu emocionalmente, eu precisa de dois bodes expiatórios e consegui no meu imenso narcisismo e ilimitado egoísmo.  Enaltecia   os meus predicados, para que notassem que eu era uma mãe atenciosa e perfeita, o  meu desempenho tinha de aparentar  intocável.

O meu filho já se libertou das grilhetas que o amarravam a mim e ao pai, foi um processo complicado e moroso, passou um mau bocado.  O  Rafael tornou-se o meu eco, tem medo que eu conheça outro homem e eu tenho medo que ele se encante por outra mulher, também sei que estamos juntos porque é importante   para ambas as partes. Que será dele sem mim e de mim sem ele?   Não partilhámos  a mesma cama, de qualquer forma  não o posso perder, é o meu braço direito para tudo. E ele está ciente do estatuto que ganha a meu lado.   Se por acaso, algum dia, eu quiser alguém, tem de ser nas mesmas condições em que estou agora. Viver de outra forma, é tarde demais. Eu teria de renascer.  Quero um Rafael idêntico ao meu.  Sou má, sei que sim, mas  ele não é nenhum santo; conheço-o bem; mentiroso como eu, aldrabão, invejoso como eu, cínico, insubmisso, rebelde, criador de conflitos. Muito provavelmente,   no nosso caso será,   até que a morte nos separe.