quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Confissões de Mulheres&Mães

 Viúva, cinco  filhos, frequentei a instrução primária com imensa dificuldade, devido às minhas limitações, no entanto,  estive sempre  atenta ao que se passava à  minha volta, ao que me aconselhavam e narravam, mais tarde, mesmo depois de velha,  aprendi igualmente  com os meus filhos, foram  uma segunda escola para mim.  Em nova tive que me   desenrascar e  estar  preparada para o mundo do trabalho. Gostei de ser útil  na minha profissão; para os meus e para fora.    Procurei  fazer o melhor  que sabia e  exigiam de mim e  ficava  a par das novidades através das revistas da altura.

 Lamento a  infelicidade de ter sido  marginalizada,  um tratamento desigual  por não ser  inteligente, não  possuir  os tais atributos físicos, que nos dias de hoje, continuam cada vez mais em alta,   todos ambicionam a beleza exterior, a interior, poucos pensam nela. Sou baixa, roliça e senti na pele os risos de troça, as alcunhas...tudo isso!
O meu marido, foi o oposto de mim; estatura  acima da média, manteve-se  elegante  até partir deste mundo, nunca o vi de outra forma; magro ou muito magro, aquele   olho azul mar espantoso, aqueles lábios grossos...Naquela altura não me cansava de o contemplar. Sempre asseado e cheiroso,  tinha cuidado com o seu aspecto, as unhas das mãos e dos pés cortadas e bem limadas, os  pêlos do nariz, e das orelhas não espetavam  para fora, e as sobrancelhas aparadas. Há homens com arbustos por cima dos olhos, o que lhes fica imensamente mal, não custa nada endireitar. Fazia a barba com frequência,  aquele rosto sempre impecável.  Aplicava brilhantina no cabelo negro e penteava-o  para trás e dava-lhe  uma boa apresentação.  Ele era bonito e conservou a sua beleza até ao fim. Casei aconselhada pelo médico,  devido a ataques e  convulsões  que me assaltavam amiúde. Comecei a namorar o pai dos meus filhos nos bancos da igreja; primeiro, troca de olhares, depois encontrava-me com ele no adro e aí  já havia tentativa de introduzir conversa, ele era muito fechado, mais tarde acompanhava-me a casa, ou esperava por mim lá na porta. Não falávamos muito, apenas diálogos curtos mas encantadores. Eu derretia-me toda com aquele jeito tímido e cabisbaixo. Com o tempo,  começaram os desabafos sobre a sua vida familiar e eu sobre a minha.  Sinal  que ambos confiavamos um no outro  e isso fazia-me apaixonar ainda mais por ele e vice versa.  O meu marido apesar de ter, tal como eu, a instrução primária,  era um homem  muito inteligente  e muito dedicado ao trabalho.
Não conheci outros rapazes, apenas aquele. Quando ficámos noivos, começou a mostrar outras facetas que até então desconhecia, proibiu-me de usar saia acima dos joelho,  blusas sem manga ou decote, nem um baton nos lábios,   tinha apenas autorização para continuar a costurar mas sair de casa, nem pensar, apenas para o estritamente necessário, só  em caso urgente. O meu lugar?  Confinada às tarefas do lar. Submeti-me à  vontade dele, esperançada  que com o casamento acontecesse uma mudança .   A cerimónia  foi marcada  para de madrugada, mais uma vez, por decisão dele. Fiquei triste, um casamento celebrado  às seis horas da manhã ,  sensação estranha  ... talvez não quisesse que ninguém nos visse. O casamento descobre  tormentos; tudo muito encoberto. Subitamente, o meu falecido marido mostrou nitidamente que o seu espírito de monge não se encaixava no papel de marido.

Ele queria viver longe de  tudo e de todos, num deserto.  A ideia seria ter filhos  junto de mim, sem instrução, descalços,  bocas famintas, babosos, ranhosos, a fungar, a pele arranhada e maltratada... Para poupar?!  Quando comecei a escutar isto, arrepiei-me, assustei-me deveras, comida a lenha?! Com que espécie de homem tinha eu casado? Um eremita? Socorri-me de  uma irmã e desabafei com ela. Que poderia fazer? Enfrentá-lo sozinha ? Com que armas? Não tinha genica!  Ele prometia que me batia, usava frequentemente violência verbal para me intimidar.  Quando levantava aquela voz de trovão, as paredes tremiam, eu  tentava argumentar até  certo ponto, depois disso calava-me. Temia que passasse à ação. Cada vez mais aproximei-me de minha mãe, já viúva na altura  e da  minha irmã mais nova, ambas a viverem na mesma casa. A minha irmã,  marcada por um divórcio que lhe  tinha caído mal. Havia  visitas nossas  periódicas  lá a casa. O meu marido nutria pela minha querida e saudosa mãe um grande  respeito e  muita  admiração. Quando  ela  faleceu percebi que tinha perdido uma âncora, perdi o meu sustento emocional.  Já que a  minha irmã ficou só,  para me defender melhor  das investidas dele,  convidei-a  a viver na nossa casa. Ele   detestou a ideia porque conhecia-a bem e sabia  que ela era diferente de mim. A princípio até me senti amparada. Ela fazia-lhe frente e media forças com ele, não permitia que ele se sobrepusesse nem a ela, nem  a mim. Cedo compreendi que havia um preço a pagar; a minha família  já não me pertencia.  Ela  reinava dentro de casa,  decidia sobre todas as coisas.  Ele calou-se, eu apoiei-a. Os meus filhos foram à escola pelo pulso dela. À medida que surgiam situações; ela na dianteira , eu nas traseiras. O que me frustrava  era sentir que  os filhos já não eram meus,  nem do pai, eram dela, só dela.  Deixei de ser  mãe  para voltar  ser a  criada.  A minha irmã  proveitou-se das minhas fraquezas para ganhar uma vida que até então não tinha conseguido. Julgo que nem eles saberiam de qual das duas deveriam amar mais. Os conflitos começaram a aumentar de volume  porque ela era muito autoritária e tratava com desdém  uma das minhas filhas.  A casa de minha mãe  foi finalmente vendida e a herança distribuída pelos vários filhos,  o que me revoltou foi  ela   ter ganho mais duas heranças além da sua,  de outros dois irmãos. As  duas que recebeu eram-lhe destinadas. Eu  respeito mas  podia  divididir um bocadinho comigo. Fui  sempre a irmã  pobre, ela, a irmã rica. Tudo,  em parte para fugir ao marido e à vizinhança que era péssima. Não esqueço o quanto devo à minha mãe. Foi a pessoa que mais me compreendeu, não  tenho dúvidas que mora no céu,  era uma excelente pessoa  para todos; família,  vizinhos, amigos, conhecidos. Apesar de tudo, a minha irmã foi uma mais valia mas as heranças deram-lhe  a volta à cabeça ,   mudou muito, tornou-se impossível, o que antes nos unia, agora,  até isso nos separava. Fiquei sem aliada, naquela casa ninguém se entendia. Foram anos de verdadeira  guerra. Tornou-se amor e ódio.  Não nos suportavamos uns aos outros.    Passei a ser rotulada pelos dois de invejosa, desajeitada e por aí abaixo...  E onde vivia  ela ? sob o nosso  teto;  cama, mesa e roupa lavada. Nunca experimentou  ser independente.

Depois, foi estudar e trabalhar fora, viajar, divertir-se com os meus filhos, conheceu um homem depois da idade, ia passar o seu mês de férias com ele,  mas   regressou sempre para nós . Ao fim de dez anos, o arranjinho acabou tal e qual uma bola  de sabão. As relações são assim; arrefecem, enfraquecem  e morrem.  Quando os meus filhos, eu e ela saíamos, o meu marido recusava-se a acompanhar-nos,  eu aparentava ser  viúva,   ou divorciada.  Ele só  saía de casa para trabalhar de forma incansável, tudo  para sustentar a família, nunca nos faltou refeições à mesa, foi sempre um trabalhador honrado e honesto,  eu ajudava com a costura até ao momento em  que adoeci da minha cabeça.  Nem sei explicar; sentia-me angustiada, aborrecida, tornei-me sombria, sem remédio .  Entristecia-me perceber que os meus filhos preferiam  a tia, ela sabia seduzi-los; era a irmã mais vaidosa, a mais  bem falante, rodeada de amigos, conhecidos e havia quem imaginasse que   ela era  a mãe deles.  Ah, francamente! Chegou uma altura em que saturei daquela vida de  clausura e fui firme, desabrochei  e comecei a sair também, a ir ao café, o meu marido criticava-me severamente porém  deixei de me  importar com isso, ao princípio sozinha, sem a companhia deles, de nenhum filho. Sentiam  vergonha de mim, eu era o oposto dela; nesta ocasião já me vestia  melhor, no entanto,  viam-me como uma tonta, sem o brilho dela, sem  aquela  lábia, eu, uma atrasada mental a tentar sair da concha numa idade tardia. Os dois... ai aqueles dois,  irmã e  marido   haviam-me  empurrado para aquele isolamento. Depois,  a partir dali,  cada um saía só; eu, o marido e ela.   Os filhos tornaram-se  independentes, no entanto,  visitavam-nos regularmente. Então, essa filha, aquela que foi rejeitada por ela e por todos nós,  acompanhava-me para todo o lado,  já me perdia  na confusão das  ruas, já  não era  capaz de caminhar sozinha, essa filha  nunca mais me abandonou. Os outros também não.  Por isso  tenho um  orgulho infinito neles .Fui piorando,  surgiram outras complicações de saúde,  tornei-me  incapaz , fui hospitalizada em  muitas ocasiões; sempre amparada pela filha e pela irmã, que também envelhecera e já não conseguia ser  a mesma,  eu restabelecia, começavam as farpas espetadas da parte dela e da minha, sol de pouca dura... Não havia forma de melhorar o  ambiente entre nós, uma desgraça.  Contaram-me que certa ocasião, o meu marido vergou e pela primeira vez, verteu   lágrimas ao ver o meu estado. Apesar  daquele manicómio,  provocado por nós três,  o meu marido , eu e a minha irmã fizemos muito pelos filhos, semeamos tudo o que conseguimos semear e por isso hoje, estamos a colher. O que eles  censuravam em nós eram as sucessivas discussões, por tudo e por nada havia  gritaria, não lhes retiro a razão.  Quando ele  adoeceu gravemente e faleceu , ficamos as duas e aí foi novamente medonho, ela gritava comigo, eu gritava com ela. Pareciamos duas loucas numa disputa enorme e assustadora. Podíamos  nos acabar ali...

Ainda assim, ela saía de casa, toda coberta de luxo, com aquele ar empertigado,  apesar de já aparentar um desgaste  evidente, senhora de si, ia passear e eu ali,  impotente, remetida à prótese que me tinha travado os movimentos. Ela troçava muito de mim,  dizia-me coisas que... Deus sabe como feriam ... eu também lhe respondia, não era santa. Logo a seguir  cobria-me um manto de tristeza e as memórias   de antigamente... Não tinha que me submeter às provocações dela, ser novamente mal tratada,  depois de velha e doente, não se admite! Criava  coragem e respondia de forma igual! Descemos ambas ao inferno. Alguns anos depois,  ela  adoeceu , depois disso acalmou mais,  ficou em pior estado que eu,  apesar de ser  mais nova. Tudo foi perdoado,  ela  perdeu a  fala, coitada,  foi-se a genica,  encontra-se  presa à cama e eu aqui sentada. Uma ao lado  da  outra. Confesso, gosto da companhia dela. Sinto muita pena  que seja desta forma, o que se há-de fazer?  Finalmente sou aquilo que me caracterizou e andou perdido a vida inteira : posso ser alegre e divertida, faladora e simpática, dizem que sou muito inteligente, quem diria?  Eu nem sabia! Neste momento  é permitido dizer o que me apetece , sem freios, sem vergonhas, sem medos, sem entraves, sem críticas maldosas.  Os meus filhos não proibem, pelo contrário,  estimulam, nem eu, nem ela  pesamos nas vidas deles,  nenhum se queixa,  sinto- me amparada e amada, temos um lugar e um espaço,  estou em  paz e sinto leveza...  A grande mágoa;  gostaria que tudo tivesse sido  diferente;  sermos mais amigos uns dos outros , no entanto,  faltou o mais importante; o  respeito. O legado? Infelizmente os filhos imitaram-nos,  não se dão uns com os outros! Os cinco de costas voltadas. Daqui para a frente, seja o que Deus quiser, enquanto ela aqui estiver e eu... vamos vivendo, eu pelo menos continuo  a viver e a querer viver, a morte já me rondou diversas vezes  ao longo da minha  vida, penso que Deus achou que não  era a minha hora  e Deus tem  as suas razões que eu aceito.  O que não vivi antes, vou aproveitar agora  e isso faz de mim uma pessoa  mais feliz. O passado? está definitivamente esquecido e enterrado. E quando partirmos que seja, ela na sua cama e eu aqui sentada. Acenamos uma à outra, atiramos beijos com a ponta dos dedos e fechamos os olhos , um anjo há- de vir ao nosso alcance e guiar-nos céu fora, nós de mãos dadas, eu arrastando-me ao lado dela e  minha mãe à nossa espera...