domingo, 29 de junho de 2025

Viagem Xll

 Havia poucos passageiros àquela hora, acima do começo da tarde, acontece às vezes, já  que a maioria está nos trabalhos.  O calor abafado, não me incomoda assim tanto, como o frio. A temperatura elevada, sem excessos,  agrada-me,  anuncia o começo do verão. Sempre  tivera fascínio pelos  brilhos desta estação quente, os reflexos dourados, a faísca suave, o ardor leve  até o apertar mais atrevido. O sol a lamber o casario e os telhados...as ruas...a face, a roupa vestida. Os dias mais compridos, numa linha reta, esticada a perder-se no horizonte longínquo.  Afasto a mania  de  deprimir ao antecipar já os dias curtos,  nostálgicos e taciturnos de outono,inverno O que vem depois, há-de chegar na sua altura. Agora,  quero sentir o começo desta estação, sem pensar no que virá.  A tristeza serve para agoniar o coração. E que remédio senão aceitá-la quando chegar e conviver com ela. O autocarro percorre todas as curvas numa pressa louca, tal qual uma criança a correr desalmadamente pela casa e a qualquer instante espetar a cabeça numa parede.  

Ali, na viagem, se acontecesse um despiste, como seria? Que horror! Iriam sangrar algumas cabeças e outras ficariam  em estado grave e até...Ah, a morte, ai a morte! Que momento fúnebre e  trágico! A morte é tão  definitiva, ninguém regressa  para contar aos vivos ... como é e mais importante, se estão bem.   Por alguma razão os vivos nada sabem, é um segredo, é um mistério  por muitas teorias vendido, umas mais caras, outras mais triviais,  nenhuma satisfaz. Por muito que banalizem, a ideia da  morte, será sempre  perturbadora e traumarizante , muito estranha, assustadora para quem parte e para quem fica a ver partir. Há mortes calmas, tranquilas imiscuídas no sono, na cadeira habitual, sem um ai, e há outras demasiado penosas, ruidosas, tormentosas,  resistentes. Porque será que são tão diferentes? A natureza do ser humano? Ou outra razão obscura?  e isso fará diferença para o  que  há-de vir no  outro lado da vida? Desconhecemos.  Cada um passa na sua vez ou alguém antecipa essa vez, muito discretamente,  com   morfina,  inaladores,   pulverizadores...picadas intravenosas... tudo para alívio da dor!? Será  mesmo? Ou causam mais aflição com o intuito de despachar aquele ser,    que está a ocupar uma cama que deveria ser ocupada por alguém mais novo? Não se espera, é tudo muito apressado! Venha o seguinte!  Imagine-se, será  benéfico antecipar o derradeiro momento na terra e  adiá-lo para os céus?  a  medicina interrompe o natural curso da vida, o que acontecerá  posteriormente ? Fará diferença?  A morte é o fim do acordo de paz entre corpo e alma. A carcaça  é  atacada por enfermidades sem remédio,  oxida, já  não pode acompanhar aquela alma, está pesada demais, exausta...a matéria de que somos feitos, o revestimento guarda o  tesouro, a nossa essência mais intima, a índole, o fundamento, a coragem, o valor.   O corpo utilitário fala  e comunica numa linguagem própria.  É este corpo e os órgãos que dão  guarida  durante anos , que trabalham em prol de qualquer ser humano,  aquelas células  que  defendem a existência até ao fim.   Resta saber se ao longo de  todo este tempo , o ser foi capaz de dar  afeto e em troca soube  receber, se conseguiu concretizar a arte  do encantamento, da entrega, da bondade, da delicadeza, da simpatia, da educação, da verticalidade de caráter, da postura correta. Move-se durante dias, semanas, meses , anos por  entre  momentos felizes  e momentos  infelizes.  Se foi capaz  de demonstrar pequenos gestos altruístas  que fizeram  a diferença e palavras de esperança, se confortou outras almas próximas. Aos poucos, o tempo, prega partidas para quem se distrai, e somos surpreendidos pelo surgir da enfermidade. De repente, apesar do cansaço que tomou conta do corpo de uma ponta a outra.  Após alguma falha grave, surge  aquela hora convulsiva do adeus.  Não há volta a dar, nem chance de adiar,  nem de fugir ou escapar.   Deveras pungente, é   imaginar que aquele corpo que se acarinhou, que se serviu, que se lavou,que se beijou que se abraçou  , que se tratou com imensa ternura , carinho, devoção e amor, se estrague, desfaça, apodreça e desapareça.  Mói por dentro refletir neste desfecho. O  que  reconforta, é imaginar que o  amor  dado seja  a bagagem cheia que a alma transporta consigo. 

Quem tem familiares  que estão da partida conhece bem a dor que escava  o paciente,  um fogo aceso, crepitante, lento a crescer com os olhos esbugalhados de viés pedindo clemência, o coração a se contorcer, numa delirante  inquietação, a boca  semi aberta  ensanguentada, os olhos preocupados e  uma melancolia infinita.  Magoa por todo lado,  a aflição é tão forte que já não consegue se  pronunciar e lá se aspiram  as secreções que sufocam a garganta, o peito retoma um andamento mais sereno, mesmo assim, passados quinze minutos;   sobe e desce numa escalada cruel,  uma respiração tormentosa,  como se lhe estivessem a roubar o oxigénio pelas costas, ou um furo a esvaziar os pulmões, com as mãos e os braços fincados em almofadas,  soergue-se  numa luta tenebrosa , como se pedisse ; Por favor,  "Afasta de mim este cálice", Pai!" O corpo todo em tremuras.  Dos pés à cabeça! Porquê? Foram as instruções dadas, duas gramas de morfina!? Ninguém pensou nos efeitos secundários?!    As retinas caídas , abertas  suplicantes.  É o terror, o medo, o desespero do fim que se adivinha próximo. Que  sofrimento atroz! nem um grito, nem uma revolta? A resignação de quem já não pode, já não consegue  pedir socorro, já não há forças  para dizer não!   É um  momento  irrecusável para quem vai e para quem fica. Não há forma de impedir. 

A razão mais forte da missão na terra, julga-se cumprida  pelo amor aos outros, o virtuosismo  do bem e do bom. Na  pressa quotidiana,  ninguém pensa nela. Agora, a  alma, faz o seu caminho para Deus e espera-se que  possa renascer com todas as boas memórias que  leva consigo. Se  há consolo para quem fica, é este, saber que a Divindade estará lá, de braços abertos para receber os que partem, para conceder o perdão e alcançar a vida  eterna. Para quem ainda tem de percorrer o seu caminho terreno,  a missão não termina aqui, urge contribuir para erguer  o bem, não só para si mas em prol  dos outros, ou de nada valerá ter andado  sôfrega, egoísta, apenas voltada para si, como o Narciso inclinado para o  lago. Algumas pessoas, até voam para África, como  se todos os necessitados do mundo vivessem  apenas naquela parte do planeta e não se apoia os mais próximos que necessitam de auxílio! 

Após a perturbação  de  assistir  o ser  trancado no seu eu mais profundo , numa agonia sem limites,  sem poder sequer segurar a mão, com  suavidade , pois, as mãos  estão amarradas em cada lado da cama,   fechadas e inchadas em punhos cerrados de tensão.  E, pela sonda da alimentação enfiada numa das narinas que  cruza a máscara de oxigénio. Não há mais nada a fazer.  Para já,não corre risco de vida, simplesmente, sofreu uma lesão no sistema nervoso central. Mas porquê? Não sabemos. Pode ter sido um AVC   mais  forte ....  E porque não uma medicação demasiado potente? Há  erros assim! Aconteceu em dias posteriores,  ter entrado num estado diferente do normal  e as  reações secundárias não se fizeram esperar, neste caso; alegria esfuziante,  gargalhadas desmedidas, respostas  a estímulos  na ponta da língua. E falar muito, todo o dia e toda a noite.  Ao fim de três,  quatro dias, colapsa irremediavelmente. Agora,  falta oxigénio no cérebro,  rigidez muscular, ainda murmura até ficar sem voz, os membros superiores não mexem, não engole comida, não engole saliva. A sonda provoca secreções que nunca mais findam. muito antes, a gripe veio de fora para dentro de casa.  No domingo, após o raio X : pneumonia bilateral!
 Quem fica,  atravessa um deserto penoso,  sem qualquer bengala,  sem uma gota de consolo, um silêncio ensurdecedor, a perda irreparável de alguém que se amou desmedidamente  e neste tempo que flutua suspenso,  sai um grito  acumulado de dor ;há uma  preocupação constante,  a tentativa genuína de talvez juntar os quês , porquês e os ses,   a culpa , as perguntas sem resposta, o cansaço, a vida já enfiada pelo buraco da agulha. O amor não se perde, não  cessa. Permanece inalterável,  atravessa o palpável e segue até à eternidade, torna-se metafísico . As imagens são   revividas, processadas sem parar,  como selos colados à pele.  Tudo vem  nitidamente , as vigilâncias  sobre os diversos tipos de respiração, a tosse compulsiva,  a expectoração em trovoada  , a cascata de  espirros,  o nariz a pingar, os olhos lacrimejantes e vermelhos, os varios tipos de ressono pela noite fora, saber ler as linhas do rosto. As insónias a despertar a ânsia de falar.  A proximidade, a atenção, a compreensão,  o respeito,  a tolerância,  ter tido  em conta   a comida, o vínculo forte, a proteção,  intensificar a presença,  a confiança,  a intimidade e o reconhecimento mútuo.  As necessidades de quem padece são prioridade,  escutar e acolher. Dar segurança a quem dela necessita.   Ocorre que poderia ter sido diferente,  faz parte da insegurança, do receio, das dúvidas,  se  tivesse feito mais e melhor, no  sentido de tornar a dor suportável.   É o amor a falar mais alto. Não há   fórmulas mágicas de conviver com o  luto. Cada um segue por um caminho,  percorre atalhos, veredas, abismos  com os seus próprios passos. E nesse espaço ao  sentir-se devastado vai carpir e volta a carpir, e tornar a carpir , revoltar-se com o que viu, talvez se fosse feito de outra forma,  assolam confusões e prefere o isolamento  da  paz, para tentar enterrar a cabeça  no desgosto. Afundar-se no luto.    A  travessia terá  de ser feita. Chegarão  sempre  as imagens  daqueles  fatídicos dias.  As visitas  de todos os dias , a corrida para chegar a tempo, mas  é  tarde demais,  findou, logo naquela tarde...dispara o turbilhão emocional, a mistura densa de  nostalgia profunda , a impotência e a incredulidade, os soluços convulsivos e a repetição como se não compreendesse o impensável : " Oh , mãe,  oh mãe,  oh mãe "! O  sofrimento da perda de um  amor imenso.  E a pouco e pouco essa sensação aguda e incomodativa  vai  deixar marcas indeléveis; as saudades vão surgir,  de qualquer forma ,  esse laço nunca se vai desmanchar ou desfazer.  Permanece até à eternidade. Somente Deus é  testemunha ocular do sucedido . Somente Ele. 
Pressinto que alguém ocupou o assento ao meu lado, não senti entrar, nem ficar, só notei quando se levantou e precipitou-se para a  saída.