quinta-feira, 21 de junho de 2018

Tenho notado que passamos grande parte do tempo a olhar,a notar, a verificar,  a criticar, a ficarmos  chocados com o que se passa em casa do vizinho, enquanto esquecemos que outras aberrações se passam mesmo dentro da nossa própria casa e às vezes, somos mesmo os protagonistas principais desse terrível desequilíbrio  mas, se alguém nos alerta para isso , sacudimos logo a água do capote e aquela pessoa passa a ser nossa inimiga. 

PN

Glenn Brown - Pintura distorcida

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Queres um abraço agora ?! Como? Com o passar dos anos,  afastaste os teus braços de outros braços e os corpos criaram distâncias. Os laços  secaram. Hoje são dois estranhos. É  preciso muito mais para tocar um coração.  PN

Desenho- Guia Dia dos Pais- Part1. Estilo Bifasico.Internet


sexta-feira, 18 de maio de 2018


o- PANDORA-VDEO- facebook

Não bata no ceguinho por ser cego, bata em quem lhe provocou a cegueira - PN

Comentario - jovem-03

domingo, 6 de maio de 2018

Teresa, mãe solteira




Deitou-se com um cobrador de bilhetes de autocarro;
pariu três  rebentos, todas fêmeas.
depois, o tipo assustou-se e pôs-se a andar,
Encontrei-a muitas vezes na rua;
sempre sozinha, alegre, bem disposta,
a carregar tralha; sacos, bolsas ou malas.
Quem sabe conta que ela nunca deixou de ser discípula;
não  gostava de estudar, que maçada !
Então, deitava mão aos registos dos outros colegas.
e se possível  sugava até  as cábulas,  repetindo a mesma ladainha:
" Sou sozinha, tenho a meu cargo três  filhas, pai e mãe, 
é  uma cruz demasiado pesada para mim" - rematava em lágrimas lavada.
Não  se fartava de carpir mágoas; chorando e gemendo elucidava;
mãe  doente, pai doente, filhas diabretes.
Teresa; uma mulher redonda, baixa, sem beleza exterior, nem interior
tinha dado à  costa... uma barcaça encalhada.
Mas sonhava alto ; e furou  barreiras rumo ao ensino superior.
Todos os anos, a cada passo mais duro, o mesmo drama citado;
com o acréscimo do pai adoentado, a mãe  acamada,
as filhas ausentes nos momentos críticos;
Que dura sina!
E chegou mesmo a solicitar a presença de colegas para
não  estudar só; como se não  bastasse ; dava jeito que lhes
ditassem  as cábulas.
O aborrecimento tinha os dias contados. O estudo cessara,
altura de colocar os conhecimentos em prática. 
Ia ser professora! Que honra e apanágio dos que se debatem
por causas meritórias. 
Que alívio! E agora?
Batalhar por uma vaga perto de casa. Como? Oferecendo cabazes
a divindades terrenas?!
Nos primeiros anos, ela mesma, sem pudor, curvara-se perante os mesmos 
deuses, receosa de perder o lugar, em vez de um cabaz , levava mais oferendas.
Era preciso comprar aqueles deuses e convencê-los  das suas vicissitudes;
a vida? ; uma tragédia  sem igual, destino agourado.
Quem passasse nas ruas , surprendia-se ao vê-la nos cafés ;
alegre, vivaca, cheia de manias e tiques de superioridade.
Mas, chegaram os imbróglios com alunos e colegas; confusões, trapalhadas…
a forma de resolver; arranjar escudos humanos; delegar embaraços
aos seus pares ; ela tinha pai doente, mãe acamada e três filhas diabretes.
E só possuía dois braços!
Truques inglórios. Os pares cansaram-se de responder por ela.
Inábil para enfrentar as nuvens que pairavam sobre a cabeça,
teve outra ideia; adoecer também. Tinha de se livrar daquele pesadelo.
Socorreu-se d' uma depressão profunda; seria considerada inapta,
voltaria a frequentar cafés, daria passeios, e divertir-se-ia à  brava,
sem o peso daquela miserável  profissão para a qual
não  sentia a menor disposição  de espírito.
Afinal equivocara-se no caminho. Grande chatice!
Tornava-se urgente sair dali o mais depressa possível.
A psiquiatria parecia-lhe a única opção;
Veio uma voz ciciar-lhe ao ouvido;
" Não  é  parecer, é  ser. Convence- te disso! não  tens alternativa ; "
" Posso mudar de profissão "
" Iludes-te, cara colega, com essa idade ninguém te contrata para nada"
" É tarde para começar?"
" Abre a pestana, é óbvio e o teu atestado tem de se prolongar,
caso contrário, perdes montanhas de dinheiro. Se eles decidem que
  estás  bem, voltas, ou então,  simulas  que tomas os químicos,
atiras  sanita abaixo e a cada encontro, queixas-te
que apesar das porcarias que tomas, continuas mal e aí
sairás  sortuda. "
Teresa, fortalecida pelo conselho foi a um encontro.
" A professora parece-me bem, boa cara! "
" Subscrevo, olhe que regressar vai fazer-lhe bem!"
A mulher entrou em pânico, não,  não  ,não  podia ser!
" Entendam, pareço bem porque a alma do meu pai
veio habitar em mim".
"Como disse? O seu pai já  faleceu!"
"Por isso mesmo, eu sei , mas não  subiu ao céu,  fala pela minha voz
e fala comigo". Estou possuída! "
" Tem a certeza? "
" Tenho, ele indica-me o caminho a seguir."
" Neste caso, reforço  de medicação  e internamento "
" Para onde vou ? "
" O seu lugar é  no manicômio mas não
se sinta afetada, vão  tratá-la bem !"
Teresa ficou sem voz, horrorizada com
a perspetiva anunciada ,que caiu sobre ela
como uma  espada gelada.
E assim foi, inchou muito, tornou-se um balão .
Cabelo mal cortado, olhos esbugalhados e vai  partilhando
ideias e pensamentos irracionais
Da última  vez  que me falaram dela,
havido fugido do manicômio. 
Terá  mesmo enlouquecido ?
PN

Nota- Encontrei na Internet mas desconheço o autor 
        Baseado em factos reais.



terça-feira, 24 de abril de 2018

Fugitivos de si mesmos


Eles andam a fugir de casa em casa
E a culpa naturalmente é das casas; mal projetadas,
mal construídas, mal situadas; a frente de costas para o sol
Depois, começam a incomodar-se com sinais estranhos;
Vultos passam nas paredes, espantalhos a gargalharem
no cimo de escadas,
janelas que se abrem sem a mão do vento,
portas que rangem nos gonzos sem ninguém lhes mexer…
objetos a deslizar sem serem tocados, outros desaparecem
do seu lugar e reaparecem noutro sítio.
Escutam-se risinhos de crianças, diálogos entre adultos,
numa linguagem impercetível, diluída...
E o sistema nérveo começa a criar medo de fantasmas, de velhos,
de monstros; receio do escuro e emergem pontas soltas de dúvidas…
a irritação surge ininterruptamente, as insónias povoam as noites
de  intrusos, num assalto de  paredes e tetos.
As discórdias esquecem os diálogos pacientes e prazerosos.
O caos toma forma e sobe vidas a trote desastrado;
questionam-se, acusam-se, tornam-se intolerantes e vulneráveis;
Por fim; tomam uma decisão; Procurar um padre exorcista; é preciso oração. 
Levar para longe aqueles incómodos; A casa é benzida.
Não tarda nada as manifestações assombradas regressam.
É pedido ao padre uma explicação;
 não tem resposta para a ineficácia dos seus métodos.
Que fazer então? Voltar-se para onde?
O clérigo aponta na direção da floresta, no fim, há uma bruxa;
muito procurada para casos sem remédio algum.
Sem mais delongas, metem-se na viatura e lá vão.
Começam a perceber que a distância é mais longa
do que a indicada:
- Porque não fazemos mais paragens, há estalagens… - diz a mulher
- Temos urgência em chegar lá, não temos? - responde o homem
- Tenho fome e estou cansada!
- Aguenta-te! – Conclui seco.
A mulher cerra os dentes contrariada
Finalmente chegam, os faróis do carro iluminam um letreiro com a inscrição; “Fim da Floresta”
Há um largo, o carro derrapa com alguma violência; a mulher assusta-se:
- Ui! termina aqui?! – pergunta ela estremunhada
- Parece que sim!
Apeiam-se na escuridão, sobem uns quantos degraus de pedra e eis que surge nova tabuleta com a seta;
“Bem vindos à casa de Heloise”.
- A bruxa tem nome! - comenta o homem entre dentes.
- A nossa sorte é a luz elétrica, mas ainda temos de subir o caminho de terra batida para chegar à casa? 
- Vamos embora! - decide ele.
Duas longas curvas:
- Olha, ali está ela e é rústica, um bom prédio!? - aponta a mulher.
Sobem mais degraus e ela pára:
- Não será vergonhoso virmos pedir ajuda a uma hora destas?
- Estamos aflitos, não estamos?
- Pois…mas …
- Isto são horas de chegar?!- da sombra surge um papagaio de cores exuberantes. 
Apavoram-se ambos:
- Ai o raio do bicho! - irrita-se o homem
O pássaro chama:
- Heloise, tens visitas!
Uma figura feminina aparece à entrada:
- Que quereis?
- Precisamos de uma consulta urgente!- explica o homem
- A esta hora não faço consultas.
- É que viemos de muito longe, passei o dia inteiro a conduzir…
e a minha mulher precisa descansar…por favor!
- Isto aqui não é uma estalagem, mas…está bem, entrem!- convida hesitante
- Não são confiáveis, não são confiáveis - repete o papagaio falante
O casal segue a dona da casa até ao andar de cima
Uma sala ampla, agradável, acolhedora e bem decorada.
Heloise indica os lugares aos recém chegados;
acomodam-se os três à volta de uma mesa redonda.
Foi aí que ambos notaram a beleza rara da anfitriã, elegantemente vestida, alta, magra, uma vintage. Sem vestígios da tradicional bruxa.
- Do que se trata? - pronuncia num tom baixo e sedutor
O homem toma a palavra e descreve tudo minuciosamente;
desde a passagem deles e dos três filhos pelas três moradias;
 as constantes fugas, os fantasmas a incomodarem dia e noite,
a preocupação com as crianças, os sustos, as angustias, as frustrações
vividas, o fadiga sentida pela família.
Heloise escuta-o atentamente, os seus grandes olhos pestanudos saltam do homem para a mulher e vice versa:
- Que sugerem que faça?
- Liberte-nos desta maldição! - solicita a mulher- não vai atirar
cartas? búzios? Nada?!
- Eu vejo nos olhos das pessoas - esclarece Heloísa.- onde estão as crianças?
- Deixamos em casa de um vizinho de confiança - clarifica o homem.
- Felizmente - remata a dona da casa.
- Então, tem algo de novo para dizer? - pergunta a outra mulher
- Tenho novos dados, muito elucidativos! - exclama Heloise intimidatória
- Então, exponha, estamos expectantes! - entusiasma-se o homem
- Tem a certeza que precisa da minha resposta? Que caso insólito…  
- Não percebi! – o homem pôs-se boquiaberto.
- Vocês sabem perfeitamente a que me estou a referir. Quem criou toda esta barafunda dos fantasmas, dos monstros e das almas?!
- Viemos aqui com o intuito que nos dissesse! – adianta-se o homem surpreendido.
- São vocês os dois! - afirma peremptória
Ambos trocam olhares cúmplices, ele ergue-se num salto, como se fosse ter uma síncope, pálido e cadavérico, ela encolhe-se desfeita:
- Que brincadeira vem a ser esta? O vosso jogo termina aqui. Não sei quais os propósitos de tamanha loucura…mas acaba já!
- A senhora é louca! - e avança para Heloise, que nesse preciso instante
estala os dedos e assomam do nada dois homens robustos,
a presença daquela força bruta, detém o homem.
- Vou ligar ao xerife, ele virá cá ainda esta noite e levá-los-á
à delegacia mais próxima e tomarão as diligências necessárias.
- Quem vai acreditar em si? Sua bruxa
mentirosa, charlatã, somos  acusado de quê ?
- Cale-se homem! Remeta-se ao silêncio, como
faz a sua esposa! Está preocupado porquê? Não têm vergonha
de andar a atormentar a vida dos seus filhos, a enloquecê-los?
- E porque faríamos isso?
- Vocês é que devem saber, não eu! Falta de equilíbrio mental…não sei…
O xerife saberá encaminhar o caso.
Num gesto de cabeça pede aos indivíduos para os amarrar.
Entretanto, o homem grita furioso há-de vingar-se dela, a mulher
permanece em silêncio.
Heloise dá as costas e sai da sala perturbada, desce e aproxima-se do papagaio:
- Tu já sabias?
- Soube assim que os vi chegar.
- Boa noite, meu espertalhão.
PN   

  
 Retirada da Internet -  desconheço o autor. 

 











sábado, 31 de março de 2018

“_Pai, Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem!”





Foto: PN
(Reedição)

Mais de dois mil anos depois, a frase continua atual! Fez-se História; inventos, transformações, desenvolvimentos, escritos, estudos. A tecnologia invadiu o quotidiano, o homem tornou-se mais frio, mais vil, mais mesquinho, mais demolidor e destrutivo, mortífero até. E as profecias antigas começam a fazer sentido! E não há volta a dar; o homem continua a insistir na política do remedeio, sem regras, sem freio, sem respeito por nada, insensível e gelado!
O dinheiro é o rei deste mundo. A grande maioria idolatra-o! Aqueles que ostentam riqueza são adorados! Pobre povo enganado, fascinado pelo falso ouro!
PN

“ Todo aquele que acredita em mim, viverá para sempre”

Nota-Desejo a todos os que passam por este espaço; Uma Feliz Páscoa ! Em meu nome, obrigada pela sua presença.  PN

segunda-feira, 19 de março de 2018

Ele e Ela



















Pablo Picasso

Ele, um funcionário da Câmara, pintor autodidacta desconhecido. Ela, uma famigerada escritora e jornalista.

Ele mostrou uma série de trabalhos a um colega e o parecer foi favorável, para quê esconder o seu talento? Podia ir mais longe, apostar a sério, arriscar mais!
- Conheces alguém do meio?
- Conhecer, conhecer, não conheço, mas posso te indicar uma pessoa muito próximo de outra, essa sim, navega nesses mares. Posso dar o contacto dele, no entanto, espera para eu confirmar se ele está interessado.

O encontro deu-se numa esplanada à beira mar. Uma ligação de telemóvel e rapidamente localizou um homem magro, barba farta, óculos de sol, boné escuro, que prontamente acenou. Cumprimentaram-se e o recém chegado também pediu um café. Trocaram algumas palavras habituais. Logo a seguir passaram a outro assunto:
- Onde estão essas maravilhas?
Ele retirou de uma pasta grande, umas folhas grossas.
- Oh, um aguarelista!? Que bem! Deixe cá dar uma vista de olhos.
O outro permaneceu na expectativa.
- Tem conhecimentos de arte?
- Não, apenas o que vou pesquisando na Internet. 
- Sendo assim, tem feito bom uso dessa pesquisa. O que me é dado apreciar é assaz interessante, revela sensibilidade e bom gosto! Tem de continuar! Já pensou numa exposição?
- Sim... também, o meu interesse passa mais  por entrar em contacto com um  artista que foi convidado a semana passada,  no programa " Espaço  Criativo”, transmitido na TV. No fim da entrevista apelou àqueles que se sentissem a mesma vocação ou com dificuldades em ingressar no mundo das artes, que o procurassem.
- Qual o seu interesse nesse artista?
- Os trabalhos dele estão na mesma linha dos meus e fiquei fascinado.
- Um momento, já sei de quem se trata, é o senhor James William, nunca falei com ele pessoalmente, ou sequer tive algum tipo de aproximação... Sei que é casado com a senhora Rachel, professora universitária e vivem em Londres...
- Gostou das minhas aguarelas?
- Sim, sim, excelentes! Como se propõe entrar em contacto com o pintor?
- Não sei, esperei até ao fim do programa, a ver se alguém mencionava algum contacto mas nada. Liguei para a RTP mas não estão autorizados a revelar dados a estranhos.
- Era de prever.
- Lembrei-me agora, esse programa é apresentado pela Maria Bravo, uma amiga minha. Ela faz rádio e televisão.
- Então vou lá procurá-la?
- Faça isso. Entretanto eu aviso-a da sua ida lá.
Cumprimentaram-se com um aperto de mão e despediram-se. A manhã continuava brilhante, cortada em gumes pelos voos verticais, horizontais e oblíquos das gaivotas e as embarcações atracadas baloiçavam-se e roçavam-se deliciadas umas nas outras.
No dia seguinte, ele aguardava ansioso pela presença da tal jornalista, um nervoso miudinho mordia-o bem por dentro. Ela atrasava-se com frequência. Dez horas e trinta da manhã, meia hora depois do esperado; Ei-la, muito apressada, as mãos ocupadas a carregar tralha. Assim que mencionaram o nome dela, ele ergueu-se num salto, colocou-se à frente; uma mulher possante, roliça, pesada. Um rosto nem bonito, nem feio. Sem carisma. Cabelo apanhado atrás. Estatura média. Olhos redondos e distraídos:
- Diga!?
- Foi um amigo seu que...
- Pois! Deixe cá ver! Sabe, estou demasiado atrasada. Um colega meu já começou o meu programa... Disponho de apenas uns minutinhos….
Sentou-se numa cadeira, havia nela traços vincados da tradicional mulher camponesa. Segurou desajeitadamente na capa, nos trabalhos e quando os passava, declarou:
- Tem aqui sumo do bom...
De repente, todos os trabalhos tombaram do colo e espalharam-se pelo chão e o queixo dele também andou ali a saltitar aflito, tamanha fora a desilusão sentida. Ela levantou-se rapidamente da cadeira, chamou e pediu:
- Sr. António, ajude-me a levantar isso e leve a pasta para cima, obrigada. 
Voltou-se para ele e rematou:
- Tome, aqui tem o meu cartão, ligue-me ao final do dia para combinarmos qualquer coisa.
- E os meus trabalhos?
- Não se preocupe, estão comigo! Até logo!
Ele ficou ali, meio aturdido, desconfiado da boa fé daquela mulher, contraiu o rosto e abandonou o local, desagradado.

Em casa com a mulher. 
- Filó, hoje não te vou levar à tua mãe!
- Já sei, disseste assim que chegaste. Tens que te encontrar com a tal senhora. Eu vou de autocarro.

Combinaram de se encontrar no Café Teatro às nove e meia. Ele preparou um discurso breve, para arrumar a questão. Afinal bastava dar-lhe um mero contacto e tudo ficaria resolvido. 
Ela chegou dez horas, pediu um copo para si e para ele. Ele não gostou da ideia, pretendia passar na casa da sogra pelas dez e quinze. Cada vez que ele abria a boca, ela fechava-a com conversas que não lhe interessavam; os temas foram variados; desde a planificação e das regras de urbanismo, das obras da zona velha da cidade. E ele cada vez mais aflito. E deve ter sido bem visível porque a certa altura, ela questionou:
- Não lhe agrada a minha companhia?
- Não se trata disso, fiquei de apanhar a minha mulher às dez e quinze e já são dez e cinquenta e cinco.
- Vá lá então, continuamos a nossa conversa amanhã. 

Quando a mulher entrou no carro:
- Então, assunto resolvido?
- Nada!
- Porquê?
- A senhora é um massacre! Tagarela dos diabos!
- Pois, é muito culta! Exibiu-se para ti! E nada acerca das tuas pinturas?
- Julgas que sim?
- Tens de ter paciência, essa gente é cheia de nove horas... é  tudo como querem, precisas dela...  Esclarece-me um pormenor, ela é bonita?
- Não conheces a figura?
- Já ouvi falar dela mas nunca a vi.
- Não tem qualquer pinta, é um bloco de gordura cozido por um qualquer forno caseiro, lá do norte.
- Assim fico mais sossegada.
- Somos casados há dois anos, estamos praticamente em lua de mel, nem filhos chegaram ainda.
- Isso quer dizer que és fiel?
- Fosse a senhora bonita ou feia!
O rosto dela correu para o dele e selaram aquela harmonia com um terno beijo de lábios.

O segundo encontro foi no mesmo café às vinte e duas e quarenta e cinco. Repetiu-se mais um prato cultural, à meia noite e meia, ela tinha tragado cinco copos, ele dois. Era quase forçado a acompanhá-la. Começava a impacientar-se. Sempre que ia ao assunto para terminar aquele imbróglio, ela contornava as palavras dele e ia por outro atalho. Ele ansiava o desfecho daquela questão, era só isso.
- Suponho que hoje não haverá problemas com horários...
- Não e a minha mulher, é do conhecimento dela que estou consigo!
- Sabe qual é o seu problema? Ser demasiado certinho! Vire a mesa, solte-se homem!
- Gosto de ser como sou, não quero mudar nada!
- Com certeza, esqueça a observação. Diga-me, tem pintado?
- Como? Depois do trabalho, estou consigo...
- Tem de pensar num tema para fazer uma exposição.
-Que quer dizer?
- O Sr. James já viu as suas pinturas e convida-o a ir a Londres expor no atelier dele.
- Isso é ótimo! Quero muito ir até lá, amealhei para esse efeito!
- Você é demasiado apressadinho. Tenha calma. Vamos comemorar!
- Desculpe, já bebi o suficiente para mim, sou fraquinho no que diz respeito a álcool. Depois vou conduzir, nem pensar!
- Fique descansado, eu levo-o a casa!
- Agradeço a gentileza mas prefiro conduzir o meu carro.
- Como é medricas… não se aventura, ai que tédio de homem!
Ele não respondeu, preferiu calar-se.

Durante dias e dias consecutivos foi um tormento para ele, saltitaram de bar em bar, copos e mais copos, ela ria-se de forma descomunal, havia sempre um motivo para celebrar. Chegava a casa de madrugada, atingiu níveis de álcool a que não estava habituado. Começou a ressacar frequentemente.

Ele e a mulher:
- Filó, se quiseres, desisto disto, nem me reconheço ao espelho... De repente fiquei velho e cansado.
- A tipa é lixada mesmo!
- Um osso duro de roer, ainda não devolveu o que é meu, não dá o contacto do inglês. E ando aqui de mãos atadas!
- Não desistas! O pior já passou, penso eu!
- Será?!
- Agarra essa oportunidade para te lançares, também a mim custa! Passaste por tanto para nada!? Coloca-te a bem com ela, tu é que perdes se te afastares, ela pode negar a entrega desses trabalhos, entendes? Sabes que estou contigo. Não te preocupes com mais nada. Cede no que puderes, para sairmos disto o mais breve possível. 
- Efetivamente parece não haver outra alternativa.
E os dois selaram o acordo com outro beijo apaixonado.  

O novo encontro aconteceu na casa de um amigo da jornalista. Foi o filho que veio abrir a porta. O pai ainda não chegara. Encaminhou-os a uma sala onde havia um bar. Ela serviu-se logo e perguntou se ele podia acompanhá-la no primeiro copo, ao princípio da noite. Ele recusou, alegando indisposição gástrica. Ela riu-se:
- Você é terrível! Fisicamente nada para atirar fora, pena essa cabeça tacanha. Tão jovem e pouco sedutor.
- A sua observação não faz mossa.
- Se continua com essas atitudes duvido que vá longe!
- Chego a onde devo chegar!
- E eu, como mulher sou atraente para si?
- Muito!
- Isso dito assim é pouco cavalheiro e mente mal!
- Disse aquilo que a Sra. queria ouvir!
- Também não sabe representar! Demasiado certinho, careta, qual foi a última loucura que cometeu?
- Qual foi a minha última loucura? É melhor não perguntar!
- Está a ver como tenho razão?! Se não fosse eu, a sua vida seria uma verdadeiro desastre.

Subitamente a porta abriu-se. Era o dono da casa. Ambos calaram-se. Um homem bem parecido, cabelos médios despenteados, olhos claros, braços tatuados, esfregava as mãos enquanto se aproximava deles:
- É este o artista? - riu-se.
- É, mas muito tacanho! Falta iniciá-lo nas nossas regras.
Ele ficou em silêncio, temeroso do rumo daquela conversa.
- Posso dar início ao ritual! - rematou o mais velho.
- Parece que está na hora - pronunciou divertida- hoje é todo teu!
O homem coçou o queixo quadrado:
- Já vais? – perguntou.
- Sim, tenho outro compromisso!- respondeu Maria Bravo
E trocaram olhares cúmplices que ele nem se apercebeu.
- Ótimo, sabe - começou dirigindo-se ao mais jovem- os seus trabalhos estão ali no meu atelier. Está interessado em ir a Londres fazer a tal exposição, não?
- Sim, mortinho por isso.
- Venha comigo -entretanto Maria Bravo já se havia retirado. Ele seguiu o mais velho, ali cheirava a tintas, a óleo de linhaça, a aguarás, terebintina, quadros por todos os lados. Um ambiente fascinante:
- Está a ver, acolá estão os seus trabalhos, dê uma olhada!
Ele conferiu todo entusiasmado.
- Sim, estão cá!
- Sem razões para desconfianças, certo?
- Certo!
- Antes que escorregue para ouros lados e profira alguma asneira ou mostre arrependimento, vá tirar a roupa toda, quero pinta-lo nu.
- Como? Estou fora da proposta!
- E como pensa ir para Londres? Estamos na recta final, é que sabe...
O entusiasmo gelou! Como contaria a Filó aquela loucura, aquela aberração? Sentiu-se um animal acossado. Nada o forçava a semelhante coisa mas por outro lado receava que a mulher se dececionasse com ele.
- Antes vou enviar uma mensagem à minha mulher, depois dou a minha resposta.
- Faça isso.
Contou o essencial, queria pô- la a par da verdade. Esperou e a resposta foi:
- Não vaciles agora meu amor! Estamos nas mãos deles. Pensa no nosso futuro! Há sacrifícios que valem a pena correr! Estou contigo, sempre estarei! Amo-te muito!
Depois de ler a mensagem, cerrou os olhos com imensa força. Uma sombra confusa pairou sobre ele. Esperava que ela se opusesse.
- Então, em que ficamos?
A resposta veio pesada, custosa e contrariada:
- Fico.
O outro colocou a mão direita sobre o ombro dele:
- Gosto das suas linhas corporais e quero contorná-las uma a uma com todo o prazer!

No dia seguinte acordou esgotado. Viu-se nu e o outro a seu lado ressonava e cheirava a bebida. Nauseabundo levantou-se e enquanto se vestia, observou um envelope em seu nome, sobre uma pequena mesa. Abriu-o e dentro constavam as duas passagens, a dele e a da mulher. A pasta das aguarelas, ali mesmo, tudo conforme acordado. Quando retirou o envelope havia uma nota sobre a mesa " Adorei a noite que passei consigo e passaria mais noites como esta. Quando voltar de viagem, se me quiser encontrar, sabe onde fica a casa, fofo".
Ele amarrotou a nota e atirou-a para o balde do lixo. 

Saiu o mais depressa possível, ligou a ignição e o carro desapareceu ao fundo da estrada, embrulhado numa nuvem de pó.

Viajaram para Londres, foram muito bem recebidos pelo casal inglês, a exposição concretizou-se e foi um sucesso de tal forma que decidiram ficar mais tempo por lá.
Ele nunca mais foi o mesmo homem.

PN 

Nota: Baseado em factos reais.