O telefone ressoa e a secretária atende.
- Bom dia, gabinete do Dro Fera.
- Bom dia, desejo falar com o Dro Fera.
- Quem devo anunciar?
- Lobo Mau, por favor.
- Aguarde um momento...sim?
- Sim.
Pausa.
- Vou passar já a sua chamada!
- Obrigado!
- Então, Lobo! - soa a voz entusiasmada do Dro Fera - a operação foi um êxito!
- Como sabe?
- Estou por dentro de tudo! Julgaste que tiraria o olho de ti...
- Nesse caso, não existem novidades a transmitir! Precisamos acertar a minha parte.
- Quero ter o prazer de escutar certos pormenores...
- Dro Fera, está na hora de...
- Detesto que me interrompam! Cala-te e deixa-me terminar o raciocínio! - berra e atropela as palavras, afogado em raiva.
- Desculpe, pode continuar, Dro Fera.- responde o Lobo, manso
Silêncio.
- Vá, prossegue! - o Dro Fera recompõe-se e ordena.
- É assim, fiquei mais próximo da dita cuja e ela aos poucos foi-se confessando, e eu naturalmente também me expus...
- Que queres dizer com isso ? !
- Tive que engendrar uma vida para mim! A de Lobo bom, decente, boas famílias, caso contrário o plano esfumava-se.
- Um cordeirinho por tempo indeterminado e provisório.
- Exatamente, fui obrigado a agir assim...
- Obrigado?! Quem te obrigou a ...?
- Espere...
-Outra vez a cortar a palavra?! Já te avisei que odeio interrupções, és surdo?- de novo, a voz irada
- Não senhor, Dro Fera, peço desculpa!
- Vá, siga!
- Siga , para onde?
- Continua a tua narrativa, estúpido!
- Retomo a exposição dos pormenores, confesso que não foi fácil! A dita cuja era o que julgávamos; esperta, inteligente, atenta...
- Salta essa parte! Chegaste a casar com ela?
- Sim, casei com ela, uma cerimónia rápida, sem ninguém, só nós dois, um falso padre ... por isso, não valeu de nada!
- Apaixonaste-te por ela?
- Jamais, ela não possuí os requisitos que me atraem! Sem encantos...A dita cuja é muito travada!
- E sexo antes do casamento?
- Não! Nem se deixa arrastar para isso!
- Que idade?
- Dezessete anos!
- Maior de idade! Não te apeteceu forçar nada?
- O plano esteve sempre presente na minha cabeça!
- No teu lugar, aproveitaria tudo o que estivesse ao meu alcance, comigo, não havia de falhar! - remata folgado
- Ao contrário de si, eu não queria mesmo! Se a atração faltou...
- És parvo, "a ocasião faz o ladrão "! Adiante!
- A lua de mel era uma surpresa minha, a dita cuja desconhecia que o destino da viagem era a Sibéria, embarcou sozinha, fiquei para trás, esqueci de propósito uma das minhas malas. O avião arrancou sem mim.
- A reacção dela?- ri-se com gozo
- Como vou saber?
- Questionavas a hospedeira!
- Isso que importa!?
- Fiquei curioso, imagino-a atarantada a agir tal qual uma barata tonta! Dá-me prazer!
- Neste momento, nada sei dela!
- É óbvio, já morreu congelada, nem teve tempo para enfrentar os lobos selvagens! - agora, sufocado em riso, controla-se e pergunta - Sentes dó da dita cuja?
- Antes ela a dar-se mal que eu, não sinto nada, indiferença absoluta!
- Eu sou Fera mas tu és mesmo Mau!
- Sou Mau ao seu serviço!
- Tu ofereceste-te, ninguem te forçou a nada!
- As circunstâncias forçaram! - explica - Temos pontos a ajustar!
- Lobo Mau, como é possível teres levado... quanto tempo nisso?!
- Três anos!
- Impressionante!
- Tenho uma lista de nomes importantes, sei de factos inéditos, conheci os amigos dela! Estou na posse de imenso material valioso!
- Calculo, quero isso tudo amanhã, na minha secretária!
- Então, vou ai?
- Esquece, eu envio alguém da minha confiança à tua casa, entregas todo o material e desapareces de cena, hás-de receber um bilhete de avião e segues para Paris! Lá, serás encaminhado para um cargo de grande responsabilidade.
- E os suplementos extra que me prometeu?
- Quais ? Um cargo vitalício, férias sempre prolongadas, uma habitação nova e toda mobilada, uma conta choruda no banco ?
- Foi o acordado!
- Empregaste demasiado tempo nessa operação!
- O tempo necessário!
- Não me interessa, o acordo não viabiliza esse tempo, essa duração! injustificável! Uma eternidade para convencer uma fedelha de dezassete anos!Por favor!
- Aparentemente e só aparentemente uma miúda carente, ingenua, pacata...
- Problema teu, ou aceitas a minha proposta ou nada, escolhes nada?
- Pensando bem, aceito o que oferece.
- Feito! - e desliga a chamada.
O Lobo Mau, atira furioso o telemóvel à parede:
- Animal! Fera maldito! Vais ver como é, verme!
No dia seguinte, o Lobo Mau, entrega o envelope lacrado e recebe o bilhete.
Mal o desconhecido se apaga da vista, corre para dentro, agarra a mochila, o capacete, cá fora, monta a moto de alta cilindrada e esfuma-se a toda a velocidade.
Quando o envelope chega às mãos do Dro Fera, este abre e depara-se com folhas em branco, sentindo-se traído, desata aos berros e espuma pela boca!
Todas as tentativas de encontrar o Lobo Mau, revelam-se infrutíferas:
"Eu apanho-te, rato! Mais tarde ou mais cedo vais cair! Andas a provocar a pessoa errada!"
O Lobo Mau viaja Europa dentro e a vida corre-lhe de feição, mais tarde, entra na Índia. Três anos depois, é vítima de atropelamento e morre a caminho do hospital.
Na mesma altura, o Dro Fera, é acusado de vários crimes obscuros. Embora tivesse negado sempre, é preso.
Quanto à Capuchinho, paradeiro incerto, hipoteticamente conseguiu sair da Sibéria e dizem que se encontra em lugar incerto, algures, na Europa.