Enquanto o autocarro rolava na estrada, ora aos solavancos, ora em alcatrão firme, eu continuei só, espreitei algumas vezes para o lado, observei sempre o mesmo; ela atenta à rua, a fotografar sofregamente o que podia. A temperatura subiu e eu senti uma moleza avassaladora, um desgasto, aos poucos as pálpebras começaram a pesar, não podia defender-me daquela sonolência que me apanhava a jeito. Um verdadeiro assalto. Ainda lancei um olhar furtivo à mulher e fui surpreendido, quando vi que ela troçava de mim, tentei me endireitar no banco, escancarei o raio dos olhos, passei a mão pelo rosto, quando me julguei desperto, voltei a ser vencido e a cabeça pendeu sobre o vidro.
Não sei quanto tempo dormi, pouco ou muito, encolhido no assento.
Acordei sobressaltado quando outro indivíduo veio sentar-se na bancada contígua.
Lembro-me que fiz uma careta, aquele idiota... um autocarro com lugares vagos e tinha logo de instalar-se ao meu lado! Que chatice! A estúpida da Josefa, se aquietasse ali, evitava que um estranho me visse naquele estado. Não havia necessidade! Tornei a endireitar-me, queria parecer um senhor de respeito e não um urso desleixado.
Mais à frente, exclamei entre dentes:
- Ah! O que é aquilo?!
- Uma cena de brutalidade entre dois rapazes - verbalizou o outro
- Não gostei nada do que vi! - desabafei
- Nem eu! - anuiu o desconhecido - quase sempre acaba mal ou muito mal.
Encarei finalmente o desconhecido, olhos nos olhos e ambos estranhamo-nos.