sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Conto II

Enquanto o autocarro rolava na estrada, ora aos solavancos, ora em alcatrão firme,  eu  continuei só, espreitei  algumas vezes para o lado, observei  sempre o mesmo; ela  atenta à  rua, a fotografar sofregamente  o que podia. A temperatura subiu e eu senti uma  moleza avassaladora, um desgasto, aos poucos as pálpebras começaram a pesar, não podia defender-me daquela  sonolência que me apanhava a jeito.  Um verdadeiro assalto. Ainda lancei  um olhar furtivo    à mulher e fui surpreendido,  quando vi que ela troçava de mim, tentei me  endireitar no banco,  escancarei o raio dos olhos, passei  a mão pelo rosto, quando me julguei desperto, voltei  a ser vencido  e a cabeça pendeu sobre o vidro. Não sei  quanto tempo dormi, pouco ou muito,  encolhido no assento. Acordei  sobressaltado quando outro indivíduo veio  sentar-se na bancada contígua.  Lembro-me que fiz uma careta, aquele  idiota... um autocarro com lugares vagos e tinha logo de instalar-se ao meu lado! Que chatice! A estúpida da Josefa, se aquietasse  ali,  evitava que  um estranho me visse naquele estado. Não havia necessidade! Tornei  a endireitar-me, queria parecer um senhor de respeito e não um urso desleixado. Mais à frente,  exclamei entre dentes: 
- Ah! O que é aquilo?! 
-  Uma cena de brutalidade entre dois rapazes - verbalizou o outro 
- Não gostei nada do que vi! - desabafei
- Nem eu! - anuiu o desconhecido - quase sempre acaba mal ou muito mal. 
Encarei finalmente  o desconhecido,  olhos nos olhos  e ambos estranhamo-nos. 

Conto I

O autocarro   apinhado de gente até à porta?!Ainda estávamos em pandemia! Já  pouca gente a usar focinheira ... açaimos  que não defendem  mas vendem?!Que insanidade!  Anteriormente, excesso de zelo, presentemente,  frouxidão no cumprimento de certas normas. Eu e a mulher, os únicos a usar máscara?! Com aquele  calor, gente sobre  gente a pigarrear, a lançar  espirros desalmados, a tossir desenfreadamente  para as mãos e sobre os outros! Povo desmemoriado,  a doença já não parecia assustar ninguém. Felizmente  o transporte a esvaziar, a se tornar mais leve. Já  conseguia  respirar e mexer o tronco e as pernas, sem esbarrar no vizinho do lado.  Podíamos nos ver melhor, eu e a mulher,  lado a lado, sem sermos  esmagados e espremidos, de qualquer forma,  apesar da liberdade,  fomos   parcos nos diálogos, rostos mais sisudos do que alegres.  Não sei indicar, com precisão, a  parte em que  ela  decidiu se afastar para o lado oposto, paralelamente a mim. Tirou o telemóvel da bolsa e pós-se  a fotografar através da vidraça aberta,   também  depositei  a vista lá fora,  igualmente aberta, ela baixou a máscara e eu  baixei a minha, comecei a magicar frustrado sobre o propósito esquecido da viagem. Outra que julgava amar  Deus sobre todas as coisas... apesar disso,   o telemóvel, objeto adorado, há muito substituído pela divindade. A vida da maioria das gentes  tornada  exibicionismo desejado, tudo é   fotografável,  nunca a  vida privada esteve tão exposta e por vontade  própria. Josefa, persuadida dos  seus dotes, não ia além de uma grande  manipuladora, aquilo é que era  oxigenar  as boas relações entre nós?   só miséria o que nos unia ,  perdera toda a   graça,  nem uma unha  de amizade restava, quanto mais amor!? Porcaria de casamento.   No final   da   travessia de merda , quando chegássemos ao tal lugar que  a mulher  pretendia visitar, ela saía  e eu seguia. Tinha  de me libertar das suas  manhas . Estava  velho e cansado daquela  farsa; o que havíamos  feito à relação? No tempo do encantamento e houve, desenrola-se quase sempre da  mesma forma; prendi-me à tentação; chegou em forma de   menina recatada com algum sal à mistura e eu,  tolo e parvo, caí,  ganhou-me por completo,  todavia, deitou logo  mão à  minha  garganta,  sufocou-me ; Tudo interdito: amigos, diversões,  demoras nos sítios que frequentava. Eu a pensar que era especial, que éramos especiais.  A ilusão cegou-me e tornei-me  um  prisioneiro,  um indivíduo  nulo, neutro, um animal acossado e depois,  perverso. Influenciamo-nos mutuamente, contudo,  fui colonizado, perdi tudo o que era só meu. Nas minhas  costas;uma mulher pequena e tonta como eu.  Nunca foi grande, nem me ajudou a ser. Depressa aprendemos a  usar os outros para  benefício próprio, fizemos o mesmo um ao outro, aos filhos e ensinamo-los dessa maneira.  A nossa história foi sempre  tumultuosa, toda ela. Formamos  uma equipa mesquinha, dois pulhas sem escrúpulos e tremendamente narcísicos. 

 NotaInspirado no  Conto de Sophia de Mello Breyner " A viagem" in " Contos Exemplares"

terça-feira, 13 de setembro de 2022

D. PedroII " Nos Tempos do Imperador "

"Não há alegria na guerra, Augusto ( genro) não há sequer Vitória numa guerra,eu sinto que perdi para sempre. Alegria? e ela não volta mais, é como se essa guerra tivesse me transformado numa outra pessoa, numa outra pessoa que eu desconheço. Acabou. Cartas escritas depois da guerra terminar: ... escrevo no rescaldo da batalha que travamos em Uruguaiana e que terminou, com a Vitória dos aliados, mais o preço de centenas de cadáveres, tanto do nosso lado como dos paraguaios. Esses mortos vão pesar para sempre na minha consciência, assim como o seu longo cortejo de órfãos, viúvas e mães. Solano Lopes se retirou da batalha e espero em Deus que tenha aprendido a lição e nunca mais se atreva a desafiar a nossa soberania.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Nos Tempos do Imperador, Pedro II

" Maquiavel definiu dois géneros de combate, um com as leis e outro com a força. O primeiro, seria próprio dos homens, o segundo, dos animais, porém, como frequentemente, o primeiro não basta, convêm recorrer ao segundo, portanto, é necessário ao príncipe saber usar bem tanto animal quanto homem."

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Um recorte de alma

A tarde já vai alta/
 e o vento cheio de mar vai enrolando/
 os cabelos compridos/
 Tem fobia à liberdade/
 medo de aparar as pontas/ 
Um rosto tão bonito/
 Uma aparência sigular.../
 Estragaram-te o passo/
 Travaram-te a vontade/
 e depois indicam-te a porta/
 Um convite à saída?/ 
Mentira/ 
A gaiola prendeu-te/
 Pressinto o trovâo/
 Hás-de retomar o caminho/ 
transpondo os limites desse manicómio/
 Toma as rédeas /
 o futuro em forma de leão!/
 um enorme rasgão.../ 
É a dor a chamar por ti/
 A tua dor/

domingo, 21 de agosto de 2022

What ?!

Nem sequer havia vento Nem sequer havia calor Nem sequer havia gente Nem sequer havia condições... e o fogo galgou?!?!

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Destemperado

A terra, um imenso aquário, aguaceiro antecipado... Choveu e chove chamas! As narinas cheiram a terra queimada e das labaredas saltam os seus demónios...