Separada , um filho, e, sem nenhuma vontade de voltar a casar ou me envolver com homens. Na juventude namorei apenas o meu ex marido, aquele doce amuado ; parcos diálogos, andámos de mãos dadas. Na minha altura, olhar fixo, sorriso maroto, meio enviesado, talvez manhoso, um piscar de olho, fazia-me feliz, era o pó mágico do dia. O meu calcanhar de Aquiles foi o ciúme, um ciúme doentio. A paixão de uma jovem simples e acanhada . Era Deus no céu e o Rafael na terra, a minha cegueira impedia de ver racionalmente ; nós não tínhamos nada em comum. A minha grande esperança era mudar a cabeça do Rafael. Ele era o oposto de mim, o meu marido era ação, eu teoria. Em comum ? a timidez, a inexperiência da vida a dois, o que nos diferenciava? a educação. Eu, uma menina, criada com boas maneiras, boa aluna, excelentes notas, querida dos professores, querida da família. O modelo de perfeição dececionou os mais próximos por ter namorado e casado com o homem errado, indivíduo com poucos estudos, escassa instrução, sem cultura, porém, muito trabalhador, empenhado e despachado, capaz de qualquer empreitada, o oposto de mim. No noivado cometi muitos lapsos dos quais, interrogo-me se tivesse agido de outra forma, como teria sido a minha vida? Comecei logo com inseguranças e medos infundados. Coloquei um atrelado no pescoço do Rafael , proibi-o de se dedicar aos seus hobbys, retirei tudo; jogos de futebol, encontros com amigos, saídas isoladas por razões individuais , eu calculava o tempo que ele deveria demorar. Uma insanidade da minha parte. Ele era interessante a nível físico e isso mexia comigo, quando as outras lhe faziam "olhinhos" eu virava do avesso, uma tremenda revolta tomava conta de mim e não conseguia me conter, eram todas umas putas e cabras e reagia em voz alta, procurando indícios nos olhos dele; saber se aqueles olhos verdes também tinham devolvido olhares às outras. Quando me volto para trás, tenho pena de não ter acordado mais cedo. Desde o início que o meu casamento estava condenado ao fracasso, vivíamos face to face, a sufocar, eu respirava o oxigénio dele e vice versa. Passava a vida a inferiorizá-lo e de tanto repetir que ele não era nada sem mim, que tornei-o num ser nulo, neutro, incapaz de resolver qualquer problema sem pedir o meu conselho e isso causava-me um prazer tremendo, era tê-lo na palma da minha mão. Naquela altura, significava amor para toda a vida. Dali já não sairia, chamava-o à atenção por tudo e por nada. Maquiavelicamente, comecei a perceber o quanto ele era um fantoche nas minhas mãos, flexível, fácil de manobrar. Perante os familiares e estranhos, eu era vista como a soberana, aquela que tem o comando de tudo; Uma mulher ao volante , uma mulher que não permitia que o idiota do marido fosse mais esperto que ela. E , se por acaso ele tomasse qualquer atitude sem previamente me consultar, eu atirava logo à cabeça, depois lia-lhe no rosto a aflição e o arrependimento. Isto dava-me um tremendo poder.
Engravidei e senti-me maravilhada, o Rafael, um pai dedicado, à medida que o filho foi crescendo, eu comecei a querê-lo só para mim, só eu sabia educar, tudo o resto eram interferências abusivas e desnecessárias, de repente, a criança começou a dar jeito, comecei a pô-lo entre nós, sempre que o Rafael me procurava para ter sexo, aludia que a criança estava ali, nem pensar, que podia acordar, se chorasse, aconchegava-o, quando íamos de férias, arranjava o mesmo entrave, a criança vinha para a nossa cama. O Rafael foi perdendo a paciência, o interesse por nós os dois, eu constantemente a apontar defeitos em tudo; nas risadas, nas graçolas, nas conversas, nas ideias, nas decisões. Ele a tornar-se uma fera muito mal disposta e isso era um ponto a meu favor. Os que me cercavam odiavam-no pelo mau feitio, e , eu lastimava a minha sorte por estar atada àquele marido, havia um filho... por isso, por outro lado, convencia-o das vantagens de estar a meu lado. Precisava muito da mão de obra. A relação tornou-se tóxica, e esquecemos que a criança crescia e observava cada gesto nosso, o Rafael cada dia mais revoltado, a cuspir fogo para todos os lados. Eu sempre a depositar toda a desgraça sobre os ombros dele. As discussões aumentaram substancialmente de fervura. Já haviam transbordado. Não o suportava, a presença dele causava-me asco. Deitei mão a outros interesses para salvar a minha pele, precisava urgentemente sair daquele caos que eu mesma havia criado, mas cometi outra atrocidade, levei ambos comigo para onde quer que fosse, convenci-os e puxei-os à força . Outras vozes se ergueram e tentaram me fazer compreender o quanto estava errada. Ninguém me apontasse falhas, trepava paredes, eu era perfeita e todos conspiravam contra mim. Não admitia um reparo, uma observação, nada. Tornei-me impossível. Comecei a perceber que o filho já não era uma criança, era um adolescente, no entanto, interessava-me continuar a tratá-lo como uma criança para poder exercer o meu domínio sobre ele também, por não saber lidar com ele de outra forma. O meu grande receio era perder as rédeas do que tinha conseguido, o controlo das várias situações, sem perceber que já tinha perdido toda a noção do ridículo, do patético, dos meus limites. Então, assustava-os, amedrontava-os, manipulava-os. Aos poucos , o meu filho adoeceu emocionalmente, eu precisa de dois bodes expiatórios e consegui no meu imenso narcisismo e ilimitado egoísmo. Enaltecia os meus predicados, para que notassem que eu era uma mãe atenciosa e perfeita, o meu desempenho tinha de aparentar intocável.
O meu filho já se libertou das grilhetas que o amarravam a mim e ao pai, foi um processo complicado e moroso, passou um mau bocado. O Rafael tornou-se o meu eco, tem medo que eu conheça outro homem e eu tenho medo que ele se encante por outra mulher, também sei que estamos juntos porque é importante para ambas as partes. Que será dele sem mim e de mim sem ele? Não partilhámos a mesma cama, de qualquer forma não o posso perder, é o meu braço direito para tudo. E ele está ciente do estatuto que ganha a meu lado. Se por acaso, algum dia, eu quiser alguém, tem de ser nas mesmas condições em que estou agora. Viver de outra forma, é tarde demais. Eu teria de renascer. Quero um Rafael idêntico ao meu. Sou má, sei que sim, mas ele não é nenhum santo; conheço-o bem; mentiroso como eu, aldrabão, invejoso como eu, cínico, insubmisso, rebelde, criador de conflitos. Muito provavelmente, no nosso caso será, até que a morte nos separe.