Enquanto viajava, imersa em pensamentos muito internos, pessoais, traduzidos em imagens que me absorviam através de vozes e situações, chegavam alguns e quase ficavam, outros provocavam-me, mexiam comigo, rente a mim ou se distanciavam e quedavam-se ao largo como se me espreitassem, a insistir e a minha cabeça fosse um porto, uma gare. E aquele cruzar em todas as direções, semelhante a uma metralha , massacrava. Havia aqui uma série de cabeças familiares, ideias e reflexões que me perturbavam mais que a paisagem, que sendo dominada por aglomerados de casas, algo atraente, um pouco apelativo, transmitia sensações estranhas, talvez pela repetição das viagens e a monotonia do casario desalinhado, desenquadrado, as ruas assaz estreitas, tinha caído na rotina e na indiferença. Do que me era dado ver, o panorama que seduzia naquele troço, pois, nem tudo era entediante, nem havia assim tanta fealdade talvez o seu contrário. Mas eu gostava mesmo era quando o autocarro passava numa zona antiga, em que se mantinha de pé, um casario de outro século. Era como entrar numa era longínqua, as casas muito antigas, com toda a certeza pertencentes a gente abastada, a pressa do ônibus não me permitia deter e apreciar certas fachadas, algumas solitárias, deixadas para trás, degradadas, de qualquer forma, ainda exibindo a sua singularidade exótica. Quem seriam os donos daquelas habitações? Que famílias teriam passado por ali ? Entretanto, ao fundo, uma voz feminina levantou-se em alto som.
Com certeza iniciava um diálogo ao telemóvel. Queixava-se da vida, da falta de dinheiro, do trabalho duro, entrava às nove da manhã todos os dias até sábado, terminava às vinte e uma, recebia por horas, muito mal paga, nada que lhe valesse o pagamento do aluguer do minúsculo apartamento. O marido estava preso a uma cadeira de rodas. Era forçada a passar por cima de algumas refeições. Comprava pão de forma e bebia leite quente quando a fome apertava. A fruta? nem pensava nela para não desejá-la. Fingia que não a via nas barracas que encontrava na rua.
Aos poucos, um ou outro passageiro curioso voltava a cabeça para trás, como a senhora se expressava em voz alta, chamava a atenção.
O que me vale, dizia ela, era dormir como uma pedra. Caio na cama e só acordo com o despertador às cinco e meia da manhã. Devia preparar o almoço para levar consigo. Isto é vida? Acreditas nisto? Não imaginas a distância! Ui! Como se não bastasse, a casa ficava fora da estrada principal, tinha uma subida íngreme para calcorrear a pé. Onde trabalhava não lhe davam nada. E era tudo gente de posses. Até havia três carros no quintal mas boleia nunca, nem em dias de chuva. Não se atrevia a pedira nada, nem atirar vc bitates ao ar para ver se algum acertava. Após ter passado por engomadeira durante a noite e cuidadora de um senhor idoso de dia. Decidira deixar as noites para descansar. O domingo destinava-se para as voltas dela; o filho de vinte anos, já namorava e isso eram coisas dele, não se metia nos assuntos pessoais do filho para não parecer intrometida , esperava que ele viesse contar de livre vontade. Quando ele achasse que era a hora própria, então sim, ela estaria lá, para ouvi-lo. Receava perdê-lo se pressionasse. Já era um adulto e não era por viver com ela que ia abusar da sua intimidade. Ele trabalhava como mecânico de carros e ajudava monetariamente em casa, colaborava nas tarefas domésticas. Era um bom rapaz, honesto e trabalhador, responsável e esforçado. E isto fazia dela uma mãe feliz. Ele só tinha conseguido chegar ao décimo segundo ano, nunca gostara da escola, não se enquadrava naquilo, custava-lhe ficar ali sentado tantas horas, havia intervalos só que eram curtos, a cabeça dele, às tantas já andava nos carros, menos escutar os professores, não conseguia se concentrar aquele tempo todo. Imaginava como podia construir um carro novo. Apesar de tudo, nunca chumbara nenhum ano, a mãe sabia que era por ela que ele estudava.
É natural que tivesse imposto limites, não podia ser muito branda, além disso, teve de assumir papel de pai e de mãe. O marido era muito mole, também muito boa pessoa, já antes do acidente era, lembas-te ? Era assim, vivendo dentro das possibilidades, ensinara o filho a gastar o necessário para fazer face às despesas caseiras e guardar o resto, ter um dinheirinho de parte para qualquer eventualidade e uma parte, se algum restar, dar um passeio a qualquer lugar que viesse a gostar muito. Desejava muito que o rapaz se tornasse independente e autónomo, capaz de seguir com a sua vida. Queria-o um homem inteiro, preparado para o que viesse, sem se envergonhar nem envergonhar a família. Pobres mas honrados. Uma pessoa não tivesse nada, mas a cara limpa. Via que hoje isso pouco importava ser ladrão estava na moda e quando se tratavam de senhores da alta, muito menos. A decência não existia. Era um salve-se quem puder, uma autêntica selva. Na vida dela não queria isso, nem na família. Quem amasse os seus filhos, queria-os bem resolvidos, independentes, dignos. Foi-lhe transmitido assim pelos pais e preferia continuar assim, a vida só por si já trazia amargos de boca. Depois pediu com quem falava para aguardar que ela já ia sair.