quarta-feira, 4 de junho de 2025

Viagem XI

 Enquanto viajava, imersa em pensamentos muito internos,   pessoais, traduzidos em imagens que me absorviam através de vozes e situações, chegavam alguns e  quase ficavam,  outros  provocavam-me,  mexiam comigo, rente a mim ou se  distanciavam e quedavam-se  ao largo como se me espreitassem, a insistir e  a minha cabeça fosse um  porto, uma gare. E aquele cruzar  em  todas as direções, semelhante a uma metralha , massacrava.   Havia aqui uma série de  cabeças familiares,  ideias e reflexões que me perturbavam mais que a paisagem, que sendo dominada por aglomerados de casas,  algo atraente, um pouco apelativo,  transmitia sensações estranhas,  talvez pela repetição das viagens e a monotonia do casario desalinhado, desenquadrado, as ruas assaz  estreitas,  tinha caído na rotina e na indiferença. Do que me era dado ver,  o panorama que  seduzia naquele troço, pois, nem tudo era  entediante,  nem havia assim tanta   fealdade talvez o seu contrário. Mas eu gostava mesmo era quando o autocarro   passava numa zona antiga, em que se mantinha de pé,  um casario de outro século. Era como entrar numa era  longínqua,  as  casas muito antigas, com toda a certeza pertencentes a gente abastada, a pressa do ônibus não me  permitia  deter e apreciar certas fachadas, algumas solitárias, deixadas para trás,  degradadas, de qualquer forma,   ainda exibindo a sua singularidade  exótica. Quem seriam os donos daquelas habitações? Que famílias teriam passado por ali ? Entretanto, ao fundo,  uma voz feminina  levantou-se em alto som.

Com certeza iniciava um diálogo ao telemóvel. Queixava-se da vida, da falta de dinheiro,  do trabalho duro, entrava às nove da manhã todos os dias até sábado, terminava às vinte e uma, recebia  por horas, muito mal paga, nada que lhe valesse o pagamento do aluguer do minúsculo apartamento. O marido estava preso a uma cadeira de rodas.  Era forçada a passar por cima de algumas refeições.  Comprava pão de forma e bebia leite quente quando a fome apertava. A fruta? nem pensava nela para não desejá-la. Fingia que não a via nas barracas que encontrava na rua. 

Aos poucos, um ou outro passageiro curioso voltava a cabeça para trás, como a senhora se expressava em voz alta, chamava a atenção. 

O que me vale, dizia ela,  era dormir como uma pedra. Caio na cama e só  acordo com o despertador às  cinco e meia da manhã. Devia preparar o almoço para levar consigo. Isto é  vida? Acreditas nisto? Não imaginas a distância! Ui! Como se não  bastasse,   a casa ficava fora da estrada principal,  tinha uma subida íngreme para calcorrear a pé. Onde trabalhava não lhe davam nada. E era tudo gente de posses. Até  havia três carros no quintal mas boleia nunca, nem em dias de chuva. Não  se atrevia a pedira nada, nem atirar vc bitates ao ar para ver se algum acertava. Após ter passado por engomadeira durante a noite e cuidadora de um senhor idoso de dia. Decidira deixar as noites para descansar. O  domingo destinava-se para as voltas dela;  o filho de vinte anos, já namorava  e isso eram  coisas dele, não se  metia nos assuntos pessoais do filho para não parecer intrometida , esperava  que ele viesse  contar de livre vontade. Quando ele achasse que era a hora própria, então sim, ela estaria lá,  para ouvi-lo. Receava perdê-lo se pressionasse. Já era um adulto e não era por viver com ela que ia abusar da sua intimidade.  Ele trabalhava como mecânico de carros e ajudava monetariamente em casa, colaborava nas tarefas domésticas. Era um bom rapaz, honesto e trabalhador, responsável e esforçado. E isto fazia dela uma mãe feliz. Ele só tinha conseguido chegar ao décimo segundo ano, nunca gostara da escola, não se enquadrava naquilo, custava-lhe ficar ali sentado tantas horas, havia intervalos só que eram curtos, a cabeça dele, às tantas já andava nos carros, menos escutar os professores, não conseguia se concentrar aquele tempo todo. Imaginava como podia construir um carro novo. Apesar de tudo, nunca chumbara nenhum ano, a mãe sabia que era por ela que ele estudava.  

É natural que tivesse  imposto  limites, não podia ser muito branda, além disso, teve de assumir papel de pai e de mãe. O marido era muito mole, também muito boa pessoa, já  antes do acidente era, lembas-te ? Era  assim,  vivendo dentro das  possibilidades, ensinara  o  filho a gastar o necessário para fazer face  às despesas caseiras e guardar o resto, ter um dinheirinho de parte para qualquer eventualidade e uma parte, se algum restar,  dar um passeio a  qualquer lugar que viesse a gostar muito.  Desejava muito que o rapaz se tornasse independente e autónomo,  capaz de seguir com a sua vida. Queria-o um homem inteiro, preparado para o que viesse, sem se envergonhar nem envergonhar a família.  Pobres mas honrados. Uma pessoa não tivesse nada, mas a cara limpa. Via  que hoje isso pouco importava   ser ladrão estava  na moda e quando se tratavam de senhores da alta, muito menos. A decência não existia. Era um salve-se quem puder, uma autêntica selva.  Na  vida dela não queria isso, nem na família.  Quem amasse os seus filhos, queria-os bem resolvidos, independentes, dignos. Foi-lhe transmitido assim pelos pais e preferia continuar assim, a vida só por si já trazia amargos de boca.  Depois pediu  com  quem falava para aguardar que ela já ia sair. 

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Viagem X

 Quando entrei vi os lugares quase todos  ocupados, havia um assento livre, todavia, ficava muito para cima e no fundo. Decidi quedar-me de pé, lugar que antecede as escadas, para os andares  de cima. Foi nessa ocasião que reparei em dois indivíduos, sentados no primeiro andar do lado direito,  um usava bigode, moreno e cabelo escuro, muito bem penteado e bem vestido. O outro à esquerda, um rosto charmoso, mais interessante,  ainda mais elegante,  pele clara, cabelo ondulado, ligeiramente grande. Fiquei rente ao lugar deles, escostada com as mãos sobre o varão,  voltada para o janelão. Fiquei de perfil para os dois homens. O que ficava na minha direção, usava  bigode chamava-se Carlos, ao lado, era o Miguel, consegui perceber quem era quem. Assim que o veículo retomou o andamento: 

- Carlos,  como te estava a dizer, estou farto desta situação ! 

- Miguel,  compreendo...só que..

- Só o quê? - tornou Miguel 

- Ela é  uma amiga muito querida. 

- Eu também simpatizo com ela mas sabes como é ... - argumentou Miguel 

A conversa entre os dois, não era alta, o ronco ensurdecedor do automóvel,  abafava qualquer tentativa de diálogo,  então o tom de ambos subiu. Como me  encontrava rente e na posição inferior,  escutava o que falavam, havia hiatos no respectivo diálogo,  em virtude das circunstâncias, ainda assim, era possível captar alguma conversa. Com efeito, não me atrevia a espreitá-los. 

- Sei como é e tu sabes o porquê... vamos deixar as coisas assim...

- Ela deve suspeitar...  não compreendo...

- Ela ajudou-me imenso em certas ocasiões da minha vida, Miguel! 

- Ajudou-te ou já  estava de olho em ti? 

- Ela de olho em mim e eu de olho nela! A amizade que nos unia tornou-se imensa...

- Tão grande que se despiram e afundaram numa cama de prazeres carnais !  

- Não terias feito o mesmo ? 

- Não, não teria feito o mesmo! 

- Miguel, tu és tu, eu sou eu! 

- Queres me dizer que nunca mais vamos ter sossego?

- Nos tempos mais próximos, penso que não! 

- Não me agrada nada, ou dentro de ti ainda há sentimento por ela? 

- Lembra-te do início, tu vinhas com ela, de mão dada...com a minha namorada! 

- Foi ela que me deu a mão! Ficou nervosa por uma briga de cães de rua. Estava aflita porque um deles, o medroso refugiou-se  nas saias dela  . Eu afugentei-os  e ela aliviada agarrou a minha mão. 

- E eu assim que te vi, Miguel, foi como se um raio me tivesse atingido de cima a baixo.  Um céu aberto, uma nova claridade encheu-me todo a mim e ao dia.
- Fiquei confuso com o teu nervosismo! 
- Na vida, nada semelhante me tinha apanhado daquela forma, foi num estalar de  dedos! 
- E eu sem saber de nada,  quando te dirigiste à  Alice como tua namorada, quem ficou nervoso fui eu, larguei imediatamente a minha mão da  dela. 
- Miguel, foi preciso cavar fundo para te conquistar, não tive caminho fácil. 
- Sempre fui fechado e discreto e tu foste a novidade que  surgiu. Jamais me tinha imginado com outro homem...
- Fui a dentro do armário , puxei-te para fora e iniciei-te no meu mundo gay. 
Não ouvi resposta, depois o Carlos continuou:
- Sabes, o me assustava era quando te via os olhos tristes, isso deixava-me agoniado! Foi um período sofrido para mim, nunca tinha experimentado algo semelhante, tive os homens que quis, as mulheres que quis. Como tenho dinheiro e posição social, não foi difícil.  De repente tu chegaste e  alteraste os meus planos.  Às vezes os teus silêncios ainda me desconcertam. 
- Sou de silêncios,  sou introvertido, sou assim Carlos, mas sou-te fiel, quero muito continuar contigo, sem a Alice entre nós.  
- Isso quer dizer o quê? 
- Carlos, é simples, demasiada Alice. Não suporto as gargalhadinhas eufóricas para te agradar, nem os olhares de esguelha com o intuito de se inteirar se olhas para mim ou para ela, constantemente a fazer-se presente, convida-se para estar connosco, a passar à minha frente, como se fosse quase  invisível. Ela é tua amiga. Entendes? Não tenho paciência para este tipo de situações. 
- Devo-lhe muito, ela foi, uma grande amiga, uma namorada, uma irmã, uma mãe, no entanto, compreendo-te. 
- Tens uma dívida de gratidão para com ela, isso não faz de ti refém. Coloca-lhe limites. 
- Compreendo , mas custa-me...
- A mim também me custa ...
Alguém antecipou-se a mim e tocou a  campainha, antes de descer os degraus da escada, voltei-me para saciar a minha curiosidade. Consegui observar que um olhava numa direção e o outro, noutra direção. 

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Viagem IX

 Seria uma viagem tranquila, sem nenhum percalço na tarde sombria, havia uma  humidade sufocante, lá em cima, as nuvens iam-se armando,  agregadas, como átomos ligados uns aos outros. O sol refugiava-se entre elas,  espreitava com aquele olho redondo de pirata rebelde, a cobiçar  ingenuamente a vida terrena. Imaginava-o a ruminar; " Que beleza de liberdade...tanta gente a passear na rua, o coração sem aflições ou outras privações, nem contradições. Aquela gente até corre de peito aberto. Que imensa alegria, festejar assim o dia. A diferença entre eles e eu é que eu  sou um rei só,  mas o céu é  todo meu, todo para mim,  este imenso céu, pensando bem, tenho a companhia das nuvens. Todavia, é diferente! Tento apanhá- las  e encontro o vazio das minhas próprias  mãos.  Será  que lá em baixo, falam uns com os outros? E se dão bem? Ah! Invejo tamanha felicidade! Ansiava ser humano por um dia ao menos para..." 

Subitamente entrou um grupo de quatro  jovens, dois rapazes e duas raparigas, o autocarro seguia mais vazio que o habitual e eles foram se instalar nos bancos das pessoas mais velhas. Dois, um rapaz e uma rapariga, frente  aos outros dois muito eufóricos. Julgo que a galhofa dos quatro chamou a atenção dos outros passageiros: 

- Ei, essa é a minha namorada, javardo! - disse o moreno ao louro

- Então ela que saia daqui! - respondeu o louro e empurrou a rapariga para cima da outra 

A namorada do moreno desatou:

- És parvo, estúpido de merda! - respingou para o louro

- Eu também quero a minha aqui! - exclamou o louro,  abrindo as pernas, descontraído, peito cheio, numa atitude altaneira. 

E foi feita a troca. 

- Agora sim, apalpa a tua que eu apalpo a minha! - continuou o louro de mau humor

- És  tão tonto, cala-te de uma vez! - ordenou a namorada do louro

- Ei, que queres?  - o louro segurou o braço da namorada com força 

- Deixa-me em paz, fack you ! 

- Vaca, se não estás bem comigo, desaparece! 

- Deixa-te de cenas merdosas! - admoestou o moreno  

- A conversa é com ela, não é contigo! 

- Ela também é minha amiga, chanfrado do caralho! 

- Tu tratas bem a tua, javardo?

- Vá,  deixem-se dessas porcarias, porra!- disse a namorada do moreno

- Aquele caralho tá bem contigo? Foda-se!  - tu e ele são duas bufas! - disparou o moreno 

- És mesmo uma bosta de vaca! ...- respondeu a namorada do louro num riso de troça  esganiçado. 

- Oh, pá, acabem com essas merdices, metem nojo! - zangou-se de novo a namorada do moreno. 

- Ok amor!

O moreno barbudo, que por sinal até era jeitoso, voltou-se para a namorada, agarrando-a a jeito, esmagou-a contra as costas do banco e juntando   os lábios dele aos  dela, beijou-a sofregamente. Foi um  beijo longo, apaixonado e correspondido. O louro, não suportou ver a cena do outro casal e tentou igualar só  que a namorada recusou:

- Deixa-te  de tontices, burro!  

- Qual o problema, não és a minha namorada? 

- Ah! - exclamou erguendo o braço, contrariada - Não há paciência! 

- Copiadeiro ! - exclamou rindo a namorada do moreno

O moreno juntou o riso ao da namorada 

À minha volta havia rumores dos outros passageiros: 

"O motorista não vai fazer nada? ", " Ele tem medo!", " Medo?!", " Se eles lhe montam uma armadilha, ah! Lindo!" , "Como assim?", " Basta ser apanhado só, ou  de noite, numa esquina, numa rua isolada...  não está a ver o perigo!? ", " Isso está  assim?", " Pois, não sabia?", " É  por isso que ele não abre a boca?", "Então?!", "Se é assim, é muito  grave!"...

O foco deslocou-se novamente para os mesmos protagonistas :

- Tu és um imitador! - declarou o moreno 

- Sei beijar melhor que tu ! - declarou o louro arrojado.

Foi um momento alto entre eles; emergiram risadas, apupos, grunhidos trocistas. 

- Isto está bué  divertido! - acrescentou a namorada do moreno, uma rapariga de pele semelhante à do namorado, apesar a tonalidade ser diferente, mais para o chocolate , o cabelo liso comprido, negro, muito bem tratado,  usava calções  de ganga casuais com bainha dobrada e rasgada, na parte superior,  uma camiseta de três botões ao peito, leve e elegante azul clara. Calçava uns ténis que me pareciam azuis escuros. 

Os olhos dos passageiros,  cruzaram-se novamente indignados: 

" Não aparecer um polícia aí e mandar esta canalha para fora!", " Estupores! Filhos da puta, uma caceta na cabeça de cada um, enviá-los para o hospital para aprenderem!", "Que desrespeito por nós, esta gente frequenta a escola? Não parece!"..." O motorista merece uma cabeçada de um desses gajos, ia acordar de vez". 

O moreno, dirigiu-se ao louro:

- Beija! - desafiou-o 

- Queres que eu beije a minha namorada? Se ela não quer, não posso fazer nada! 

- Tás  a me chatear com essa conversa!- disse a morena ao namorado e golpeou-o com uma palmada bem forte nas costas, causando um forte ruído, no momento em que o moreno estava  derreado para o louro. 

O moreno, ressentido e humilhado com a pancada  fez-se pálido e enfrentou a namorada com o sobrolho carregado: 

- És  louca? Vais me bater? O que te deu? 

Os outros dois desataram à gargalhada.

A morena inclinou a cabeça para o lado, como se uma câmara de filmar a captasse naquele exato momento,  fez um sorriso meio trocista, meio inocente:

- Desculpa, mor! - pediu sem nenhum sentimento e continuou em voz firme: - A minha mãe ensinou-me quando o namorado te chatear, não fiques por baixo, nunca! Se deixares, eles colocam a pata deles por cima e se ele te der uma, tu acertas-lhe duas. Entendes? 

- O que foi que eu te fiz a ti? - o rosto de espanto

- Tavas a chatear os cornos! 

O moreno continuou com olhos arregalados:

- Shit! 

O louro, tipo  possante, forte como um touro, as asas das narinas escancaradas, a bocarra  de imensos  labios grossos, os dentes grandes e com intervalos desalinhados, a cara salpicada de sardas, uma massa de cabelo forte .  Todo de branco, desde a t' sirt larga, à sua medida, com letras garrafiais ao centro, em vermelho e amarelo, na parte inferior umas calças semijustas em algodão leves, quase brancas , sapatilhas brancas enormes.  Tudo nele era grande, até ele próprio. 

A namorada,  tinha cabelo claro, ondulante, óculos quadrados grandes e grossos, lábios finos e rosto oval. Vestia uma saia muito curta, clara  de napa,a blusa fina às riscas na vertical,  o colete acolchoado fino e calcava  ténis clássicos de cano alto brancos. 

Por breves instantes, o moreno, recolheu-se num  semblante triste, foi quando ergueu a cabeça na minha direção aí pude vê-lo melhor,  os olhos, o rosto perfeito, as linhas belas, o cabelo  curto, moderno, a barba bem aparada. Era um jovem carismático, interessante fisicamente e saudável, musculos salientes e bem vestido, um Shorts simples de cor verde acinzentado claro, de tecido,  tinha um ar limpo e perfumado, nos pés uns ténis cinzentos claros, pareceu-me ser Nike. E uma Pepe Jeans t' shirt manga comprida branca, colada aos músculos. 

A morena lançou o repto: 

- Hoje vamos almoçar ao Mcdonald's! 

- Fixe! - respondeu o louro 

As duas raparigas  entusiasmaram-se, o moreno não reagiu, então a morena avançou: 

- Vá seu desmancha prazeres! 

- Não é isso! 

- Então o que é? 

- Não posso ir com vocês! Depois, já fomos lá  muitas vezes...

- O que é que tem? Qual o problema, idiota? 

- É  que não posso mesmo! 

- Dá-me uma razão! Uma boa razão! - exigiu a namorada

- Tu és teimosa! - enervou-se o moreno

- Qual o problema? Fala! 

- Vou almoçar com o meu pai! - disse contrariado 

- Como? O teu pai? Estás a brincar! 

- O meu pai veio de viagem e...

- O teu pai nem se dá com vocês! 

- O que é que tu sabes? Foda-se! 

Entretanto os outros dois ficaram em silêncio. 

- Sim, não mintas, o teu pai está longe! Nem sabes dele! 

- Deixa-me em paz! Sei sim, veio ontem a casa! 

- Ele fugiu para o estrangeiro..! 

- O que é que tu sabes? Sabes mais do  que eu?! 

- Tu odiavas esse homem! 

- Pára já  com isso! 

- Eu parar? Só paro se eu quiser. Tu a mim não me mandas! Vais tocar a campainha? Não vamos sair aqui!  

- Quero lá saber, vai comer uma tonelada de bosta! 

- Isso, és um cobarde! 

- Vai te foder, caralho! 

Após o moreno ter saído, como  na janela não havia fecho de abertura, a morena  pôs-se a bater com força no vidro e a mostrar a língua. 

De repente o louro e a namorada   continuaram calados



segunda-feira, 14 de abril de 2025

Viagem VIII

 A manhã apresentava-se límpida, o azul  matinal borrifado de nuvens  espumosas.    Porém,  corria a pique,  um vento gélido da montanha para a cidade. Um fresco cortante levava a subir as golas e os zíperes dos casacos. Um inverno já fora de época,  todo comprometido com a primavera. Chegou enregelado,  fazia imaginar que ainda estaríamos em Dezembro. Outrora lugar das  chuvadas , das  ventanias fortes, das trovoadas,  pedregulhos céu fora, do granizo inesperado, da neve a cobrir as serras e acercar-se da vidraça  e deslumbrar-se com a estação do frio. Agora, pusera-se  seca e  imiscuída a um sol morno.  A rua inclinada, larga e lisa. Curvas e mais curvas , quase todas muito apertadas. O autocarro a descer desalmadamente, parecendo um doido a querer espetar-se numa qualquer parede que lhe surjisse à frente.  Fez uma breve paragem  para um grupo de residentes e estrangeiros entrarem. Eu fui me instalar no andar de cima, o andar de baixo está indicado para pessoas mais velhas. De qualquer forma não deveria ser assim , já que os velhos não têm nenhuma segurança ali. 

De repente ouço uma voz rouca, sedutora e singular que diz : 

- Ontem, na  loja, na parte da manhã,  tive uma aparição!

- Uma aparição?  - perguntou outra voz masculina, tom médio, corriqueira. 

- Sim, uma aparição! - sublinhou a voz rouca e melodiosa 

Escutei uma risada divertida do outro indivíduo. 

- Que aparição foi essa? - ria-se à vontade 

- A loura dos nossos tempos de liceu. - explicou o da voz rouca e sensual 

- Qual loura? - perguntou rindo 

- Uma loura da nossa turma de décimo primeiro  ano! - explicou  num tom sério. 

- Jorge, isso foi há quinhentos anos! - tornou  à gargalhada - nem me lembro de nenhuma gaja dessa altura! 

-Flávio, tu e as gajas no lado norte da escola fizeram coisinhas lindas que eu sei.

- Eu , os outros da turma, e elas  foram connosco!  Tu nunca alinhaste nessas curtidas. 

- Andava à procura de algo mais sério.  

- Naquela altura poucos queriam saber de seriedades. Fizemos de tudo; sexo, álcool, fumámos, snifámos. 

- Depois foram apanhados ! - exclamou o da voz roqueira 

- E expulsos ! - adiantou o da voz corriqueira 

- Nenhuma delas engravidou? 

- Julgo que não! Não sei! 

-  Provavelmente tens um filho de alguma  delas e não sabes ! 

- Não quero saber! E essa loura ?...

- A loura  que não me ligava nenhuma...

- E foi uma aparição? Explica-me isso melhor! 

- Conheces a Sharon Stone? 

- Quem não conhece aquele cruzar  de pernas? Foi uma beleza! Um sonho de qualquer homem.

- E não te lembras da Sharon Stone do liceu?! 

- Ah, espera aí ! Penso que sei a quem te referes! Eu não simpatizava com essa gaja! Lembro-me vagamente dela! 

- Não simpatizavas  porquê?     

- Ela era nariz empinado! Muito distante de nós! 

- Não era nariz empinado! Era reservada! 

- Conheci algumas reservadas que depois da reserva, não passavam de umas grandes cabras! Essa loura  já  deve estar casada. 

- Não sei! 

- Mas viste-a na loja? 

- Vi-a, entrou sozinha!  Não  lhe vi nenhuma aliança no dedo. 

- Solteira? Aquela gaja deve ter um fulano por noite! Sozinha? ! Estranho! 

- O que eu  me afligi, por ser tão  apaixonado por ela...

-  Só tu mesmo para te apaixonares. Como foi dentro da loja, tu e ela? Ao fim destes anos todos como é que ela está? 

- Está mais velha, como eu, mais gordinha como eu. Perguntou-me por  armadilhas para baratas. 

- Que romântico! - exclamou o outro à gargalhada - conta desde o início. 

- Naquele momento estava sentado a tratar da papelada, quando levantei os olhos percebi nitidamente de quem se tratava e  ela também me reconheceu. 

- E ela ao fim destes anos todos, vai-te pedir justamente armadilhas para baratas?!Que sorte malvada! - e divertia-se imenso, enquanto o da voz roqueira, ria de forma muito mais controlada ou nem  ria e falava  com voz serena.

- Não havia na loja, ela teve de se dirigir à loja do meu tio, que fica  mesmo em frente.

- E depois? Voltou a ti ? 

- Não,  não voltou! 

- Ah! Mais uma razão para esqueceres Stone de vez! 

 -  Flávio, alguma vez te apaixonaste a sério ? 

-  Nos primeiros anos da minha relação com a mulher, talvez, depois, passa a ser um hábito. Casei porque quase toda gente casa.  Para ficar amparado. Depois vêm os filhos, uma tremenda dor de cabeça! Vais me dizer que não foi o teu caso!...

- Confesso, casei a  pensar  na Sharon Stone. 

- Ah! Só nela? 

- Só  nela! Mais nenhuma outra! 

- Foste fiel à gaja porquê? Vocês chegaram a comunicar naquela altura? 

- Eu vi-a muitas vezes mas nunca nos aproximámos um do outro! 

- Estás a gozar comigo? Isso é paixão platónica! Tu nem a conheces! Estás louco?

- Talvez seja louco por sentir assim! 

- Acorda Jorge, tu sabes lá quem ela  é,   pode ser  tudo menos o que tu idealizas. Imagina que seja lésbica! 

- Por favor, Flávio! 

- Até pode ser trans... tens a gaja muito idealizada, percebes isso? 

- Está bem! Percebo! - respondeu irritado 

- Agora estás casado, tens filhos como eu...

- Oh! Oh! Oh! - exclamação aflitiva

- O que foi, Jorge? 

- Ela vai ali , no passeio! Não acredito!

- Quem ?! 

- A  minha Sharon Stone! 

- Fala-se no diabo, a cauda aparece! Esquece isso, Jorge! Tira essa ideia maluca da cabeça! Vais te dar mal! 

- Flávio, não sei de nada, vou tentar a minha sorte. Não adio mais isto! Depois ligo-te. Até um dia destes. 

 Segui viagem e quando saí, fui à minha vida. 












quinta-feira, 27 de março de 2025

Viagem VII

 A viagem seguia, uma das   primeiras daquela  manhã. Já  havia abundância de sol àquela hora do dia, tão precoce. O autocarro descia nas calmas,  das   várias janelas, através do vidro, eu via-o e durante os vários intervalos de sombra, saltava de lugar em lugar, dependendo das habitações mais próximas de nós, das árvores, dos muros altos, então,  corria um ar desagradável, para depois voltar a sentir um calor  intenso, todavia, prazeroso.  Dava gozo contemplar os imensos reflexos que entravam olhos adentro, numa magia explosiva de luz,  enquanto me concentrava neste  jogo entre luz e sombra,  pensava que ali estava uma forma de esquecer  as agruras da vida, a escravidão de certas situações familiares,  o sofrimento por não  encontrar quem se procura, por não viver com quem se ama, entristecer porque a existência se vai escoando na companhia de quem não tem o dom da   compreensão. É triste estar tão perto, e as almas estranharem- se mutuamente, até aquelas que usam o mesmo sobrenome, estranho quando almas estão juntas, porque  julgam  se conhecer mas e  na realidade se desconhecem por completo. Quantos dramas numa manhã banhada  de sol , muitos, tantos, espalhados pela   agonia da espera,  diante de uma porta que nunca se abre, das intrigas feiticeiras, da difamação malidecente, do grotesco, das guerras sangrentas que ceifam  vidas inocentes, soldados confusos sob ordens absurdas, forçados a matar. Há  oportunidades que mirram  bem antes de refilar.  O mistério da vida e da morte, tão antagónicos , em princípio, díspares. A vida completa de vicissitudes amargas e doces e  no fim todos vamos passar por esse portal, de uma maneira ou de outra,  que nenhuma teoria consegue desvendar, por mais de sofisticada que seja a tecnologia, não chega para  adivinhar. A porta do fim permanece desde sempre, do início dos tempos, na total obscuridade,  eterna,  no mais cerrado segredo, quiçá desvendado só  por  aqueles  que por ela passam, jamais regressaram para contar o que é  efetivamente passar para o lado de  lá.  Alguém veio ocupar o banco ao meu lado: 

- Bom dia! - cumprimentou uma senhora

- Bom dia! - cumprimentei eu 

É raro pessoas estranhas me saudarem. Já não é moda. Se fosse, tratariam de  colocar na ordem do dia. Até se  deixa de  cumprimentar quem já se conhece, sem nenhuma razão,  ou quando a saudação acontece dia sim , dia não, julgo ser mais correto  decidir entre o sempre e o nunca. 

- A Sra também vai lá abaixo? - começou simpática todavia, felina 

- Sim, vou! 

Era uma senhora já de  idade avançada, muito magra, o rosto iluminado  por um  sorriso plástico,  tez amarela, muito expressiva, o cabelo castanho claro armado como uma peruca,  saia  longa e plissada castanha escura, muito abaixo do joelho,   casaco em malha, justo,  de um castanho mais claro que a saia,  por dentro uma blusa de um amarelo  muito suave. Nos pés, um par de sapatos de verniz e a bolsa da mesma cor. 

De repente fiquei admirada quando  voltou a dirigir-me a palavra: 

- Lindo dia de sol! - tom de voz  baixo e fino, lembrava uma nota musical, de um qualquer  velho piano. 

- Digo o mesmo!- respondi eu 

- Por esta altura, antigamente,  chovia muito! - diz sem olhar para mim, como se estivesse a resmungar para si mesma

- Também na minha altura! - acrescentei 

- Não entendo esses  alertas cada vez que chove! 

- É que as chuvas são muito intensas! 

- Lá isso é verdade. No meu tempo chovia um dia inteiro, semanas e um mês! A diferença parece que está na quantidade e  na velocidade. 

- É isso mesmo, agora são diluvianas e de curta duração. 

- Olhe, isto anda tudo alterado, em praticamente todos os sentidos, às  avessas, vai pensar que é por eu ser velha, ando minimamente informada, é mesmo o mínimo, afetam-me certas imagens, afetam-me certos ruídos, a TV quase sempre está desligada. Tenho os meus filhos e netos, tenho a amizade  do meu ex marido, tenho amigos, conhecidos e vizinhos, tenho o meu jardim, tenho o meu cão e o meu gato que até são amigos, tenho os meus livros, tenho o meu piano, gosto de cantar também,   tenho que responder às  cartas dos familares embarcados e amigos que viajaram para o exterior. 

- Toca e canta onde? 

- Na minha casa, na casa de certos familiares, na casa de alguns  amigos...sem nenhuma pretensão. Dá-me prazer, apenas isso. 

Enquanto  falava, não olhava para mim, a cabeça, sempre a observar em frente, como se procurasse saber em que lugar  estava  a passar. Agarrada às costas da bancada da frente, ora com uma mão ora com as duas. Por breves instantes,  calou-se, como se estivesse muito entretida  no que acabara de ver. Ou se esquecesse que me encontrava ali, ou se pura e simplesmente se aborrecesse da conversa. Subitamente senti que a ligação àquela senhora ficou suspensa, nem me atrevi a quebrar o direito dela  de se manter em silêncio. 

A certa altura, já eu percorria outros mundos quando ouço-lhe  a voz : 

- Isto, de viajar assim, também tem o seu interesse! 

- Diga?  - surpreendi-me com a iniciativa 

- Estou a gostar disto. 

- Nunca andou  de autocarro? 

- Eu tenho o meu Carocha ! - pronunciou  entusiasmada 

- Então conduz? 

-Sim, adoro, é a  liberdade, é a  independência, é a autonomia ...fascina-me. Você não? 

- Não! 

- Então não sabe o que perde! 

- Sei sim , mas não posso alterar isso. 

- Alguma razão especial?

- Saúde. 

- Que pena! É muito raro eu viajar de autocarro mas acho-lhe muita piada. 

Fiquei calada, sem saber muito bem o que responder, porque não tem piada nenhuma viajar de autocarro, a senhora não deve  saber como são os pontos de paragem, abertos, preparados  para o Verão, sem nenhuma proteção para o inverno, os passageiros ficam molhados, o que é extremamente desagradável e revoltante.  Como ignora certas zonas em que o autocarro passa superlotado de gente, porque o motorista parece que transporta mercadoria ou carne pendurada para um qualquer talho. A força necessária para se segurar e não tombar devido às  curvas apertadas. Também não deve imaginar o que é o massacre da espera quando se atrasam, nem quando se perde uma viagem e é  necessário  esperar pela próxima. Subitamente,  retomou a  narrativa : 

- Não tenho medo de praticamente nada nesta vida, a não ser a doença e depender da boa ou má vontade dos outros. É o que mais me assusta. A morte ?  vamos passar por ela...- rematou num encolher de ombros 

- Mas... será que o porta é o mesma para todos? E vamos passar de igual forma?  Será a morte idêntica  para toda a gente ?  É que falar da morte, imensa gente fala, tudo conjeturas de acordo com  crenças,  de acordo com teorias - senti-me no direito de expressar a minha opinião

- Quem sabe? Nem a senhora sabe, nem eu, essa é a sua teoria também ! - respondeu  irritadiça, todavia,  não compreendi a reação dela.

- Exatamente, não sei, do outro mundo, nenhuma alma embarcada , voltou sequer para me segredar o que se passou ou o que se passa...

- Não sabe de nada. A senhora e eu  estamos empatadas! - continuou com uma pontinha de sarcasmo 

Não me apeteceu responder, nem havia nada a acrescentar.  Ela rompeu de novo:

- A minha sorte é ter uma família maravilhosa, uma perfeita almofadinha. Há sempre umas coisinhas...mas nada que não seja superável - e riu-se cínica 

- Refere-se quando ficar sem faculdades, quem cuidará  conta de si.

- Percebeu o que eu quis dizer! - agora , a senhora aparentava ser uma boneca insuflada de vaidade. 

- E se a família falhar? 

- Ainda coloca essa hipótese! - argumentou beliscada,  com uma vermelhidão espalhada pelas faces e com os olhos esbugalhados, semelhante aos de um morcego. 

- Desculpe, não quis ofendê -la mas continuo pondo a hipótese da família  não ter disponibilidade. Um lar ou cuidadora? 

- Venha o diabo e escolha! Um lar, jamais !essa hipótese é o pior dos cenários, a cuidadora, depende da formação, que pode ser em Geriatria,  do caráter.  

- Sei de casos complicados que envolvem cuidadoras, se a família optar pela formação da cuidadora,  tem de pagar mais caro, nem sempre ao alcance do cidadão médio. A grande maioria não possui formação, nem caráter,  nem dignidade. É necessária a supervisão de um familiar próximo. À falta dos requisitos que lhe mencionei, ainda se pode acrescentar a instabilidade, às  vezes acontece, pelas mais variadas razões,  a cuidadora sai sem avisar. 

- A legislação não é  respeitada?! 

- Nem por sonhos, se não há  supervisão! 

- No meu caso,  não tenho de me preocupar com isso! 

- Que bom para si! 

- Vamos mudar de assunto, este deixa-me enervada! 

- Não, não vamos continuar, eu já  vou sair aqui mesmo. 

- Oh! Emitiu um som contrariado.  Saudei-a, a senhora mastigou  qualquer coisa semelhante a um cumprimento, saltei e  segui a pé.  


sábado, 15 de fevereiro de 2025

Viagem VI

 Havia algumas cabeças à minha frente de homens, de mulheres, cabeças mais velhas, cabeças mais jovens , umas mais interessantes e escultóricas, outras menos atrativas, carecas, toscas e gastas. Dir-se-ia que eram cabeças de vários  tamanhos  e formatos ,  cabelos de tons diferentes, penteados diversos, vi  raros apanhados no alto, enrolados em caracol,  no feminino ou no masculino torna-se exótico assenta extremamente bem, dá um toque poético e sensual à  caixa craniana,  ao pescoço, à figura.   Avistei clássicos; perucas a revistir a moleira, vi grande quantidade de  lisos esticados, lisos espadas, lisos mal lavados, até lisos  ondulados  para tomarem o aspeto que a moda exige,  uma tendência que atravessa gerações inteiras.   Atrás de mim, mais  alguns bustos  que naturalmente eu não via. Numa das paragens, subiu  um indivíduo, alto, folgazão, provavelmente, um quarentão de óculos de sol,  as lentes  tão escuras  que os olhos eram dois buracos negros, cara rapada quadrada.  Exalava um perfume intenso. Calça de ganga azul e por cima um polo rosa claro.   Numa das mãos o telemóvel, na outra, não havia nada. Usou-a para se segurar por onde passava até chegar ao lugar que ocupou, à minha frente. Cumprimentou o indivíduo que já  se encontrava no assento colado ao seu: 

-  Xavier, onde tens andado, nunca mais te pus os olhos em cima! ?

- Olha, quem chegou? O Carlos! Ando sempre pelos mesmos lugares. 

Eu mal via o Xavier,  de cima eu conseguia ver a camisa xadrez  vermelha e preta a  percorrer os ombros largos , já que se  encontrava mesmo na minha direção, de qualquer forma  percebia a sua  cabeleira ondulada, fresca e luzidia, o rosto de perfil, fazia imaginar  que talvez fosse um rapaz carinhoso,  com alguns pêlos na pele fina. Tinha voz aguda e tom baixo, ao contrário do outro, que tinha uma  sonoridade grave e descuidada. 

- Como é que vai isso? 

- Uma bosta, Carlos , uma bosta. E tu? 

- A mesma porcaria, cheira tão mal como a tua! 

-  Como sabes que a minha e a tua têm o mesmo cheiro? 

- Não sei, calculo...

- Carlos, estou numa merda de separação...

- Xavier e eu meti o pé na fossa e agora fui expulso de casa. 

- Sendo assim, nós  os dois estamos metidos em apuros! 

- Pois estamos , cada um à sua maneira. 

- Talvez não tenha nascido  para ser pai! Nem sei  se estou a agir bem, já que  a minha mulher todos os dias faz-me sentir um verdadeiro paspalho!  O meu pai foi de outra geração, ele mandava e a minha mãe calava-se, foi educado para ser servido, obedecido e eu quando vim ao mundo, as minhas irmãs mais velhas faziam tudo por mim, até a minha mãe entendia que a família mais próxima deveria se curvar  a  mim como se eu fosse uma majestade! 

Apesar de estar a escutá-los, voltei o rosto para o lado da  janela, para que, se olhassem para mim, desconfiados eu não demonstrasse que estaria  realmente a ouvi-los, sentia-me envergonhada. 

- Xavier! Um reizinho em casa! - risos 

- Mas não foi bom para mim. Só me estragou! Uma pessoa habitua-se e depois torna-se depende dos outros e segue pela vida fora assim...

- Deixa-me ver se percebi, foste mimado? E agora és um homem que tomou consciência disso, é só tirares a fralda e vestir a cueca!  não é facil? 

- A sério,  Carlos, eu não sei fazer nada em casa. 

- Aprendes com a mulher! 

- Eu não gosto de ser arrumado. Não tenho paciência, não tenho inclinação para trabalhos domésticos  e ela é da opinião que deve ser partilhado. 

- Mas gostas de estar casado? 

- Gosto de estar casado com ela, gosto dela, todavia, não chega. Ela precisa de um homem e eu...

- Não és  homem?! - risos 

- Sou homem, sou macho! A questão não é essa! - defende-se

- Hum?! 

- Não sou o tipo dela! 

- Vocês namoraram e conheceram-se, não? 

- Eu prometi que mudaria...

- Nós somos como os politicos, mentimos muito, quando nunca o devíamos fazer.

- Tens razão, Carlos, mentimos a nós e enganamos os outros. 

- Esquecemos que já estamos a dar mau exemplo. Passamos a vida a cair em descrédito, um dia quando falarmos a verdade, ninguém acredita em nós.  

- Por isso, esta separação está  a custar-me muito. 

- Foi ela que te  pediu a separação? 

 - Sim , foi ela e cometi outra gafe, tentei convencê-la a ficar pelo dinheiro que herdei da  minha mãe. 

- Eu, no lugar dela teria ficado...o dinheiro é o deus do mundo e faz imensa  falta- risos  

- Ela não pensa assim, discutimos feio, foi  bravo,   a corda esticou e rebentou.  

- Foi para os braços de outro? 

- Não, vive com a mãe dela. Sei que ainda gosta de mim. 

- E o teu filho? 

- Está com ela e a avó! 

- Julgas que volta para ti? 

- Não volta, Carlos, com muita pena minha! 

- Mas se gosta de ti...

- Esta mulher tem fibra,  conhece-me. Sabe o que quer num homem


- O que é que ela quer  num homem ?

- Maturidade,  responsabilidade,  cumplicidade, respeito

- Tens a certeza que não reunes nenhuma? 

- Não, não sou maduro, nem responsável, como posso ser cúmplice? E como posso respeitá-la se ela é a força única de trabalho e educação em casa e eu vou fazer parte apenas das horas de lazer? 

- Não consegues ser nada disso? ! -  voz de espanto e galhofa

 - Ela  é exigente e tem razão! 

 - Ela deve ter defeitos que tu não aprovas,  Xavier,  já  pensaste nisso? 

- Espera aí,  não há nada nela que seja insuportável! Que me cause repulsa.

- E no teu caso, sim? 

- Uma mulher que não pode contar  com o apoio do marido nas questões principais da casa... sirvo para quê? 

- Xavier, sei se mulheres que aceitariam as tuas condições! 

- Carlos, há muita mulher parva, então quer um companheiro ou adoptar  um filho? 

- Repito, conheço algumas que te aceitariam sem pestanejar.  

 - Infelizmente sou muito imaturo e muito medroso. Mulher que se preze não me aceita. 

- Xavier, não és traidor?

- Não! 

- Não és mau carácter?

- Não! 

- Não lhe foste infiel?

- Não!

- Então porque é que ela se separa por essas razões? 

- Para ela as razões  pesam, entendes? 

- Pensa comigo, Xavier, a tua forma de ser não é grave, é o que me parece! Eu sim, tenho a família toda  contra mim, porque traí a confiança da minha mulher e o respeito dos meus filhos, primeiramente deveria ter tido a coragem para um diálogo franco com a ela, para sair de casa de cabeça erguida, tu , tu és...

- Eu sou um inútil que não sabe ser de outra forma! E isto mexe com o sistema nervoso das pessoas, principalmente o dela. 

- Tu é que sabes, Xavier! É a tua vida!

-  Não tem como...

Cheguei ao meu destino. 




terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Viagem V

 Subo os degraus à entrada do autocarro e volto a subir mais degraus para me instalar,  não vejo vantagem alguma em subir tantos degraus, nem facilita a acomodação dos mais velhos. Pelo contrário, dificulta mais e muito. Os passageiros entram devagar e em silêncio, como se dirigissem a um velório . Logo a seguir o transporte sai lentamente. Alguém  instala-se a meu lado, nem presto atenção, porque estou concentrada na cena que visualizo através da janela; um  casal de jovens a agridirem-se mutuamente,  à bofetada. Tento seguir a cena, ainda estico o pescoço,  os meus olhos de esquina, a fita   desaparece à medida que o autocarro desliza para iniciar o seu percurso. Que terá sucedido? Alguém deve tê-los afastado... Para chegar à violência é que já  sucederam precedentes nada dignos de um casal .   Encontro-me  eu  em suposições quando alguém dispara:

- Que tipo de  mulher  seca tudo à volta e consome a água  dos outros? 

-  É uma  filha  da puta! - responde outra voz

Algumas cabecas curiosas voltam-se para trás à procura do indivíduo que se pronuncia,  efetivamente não sei se   vêm o rosto,  não me mexo, apenas espreito para o meu lado direito e dou de caras com a senhora sentada contígua a mim com um ar sereno. 

- Este sujeito deve pensar que está na tasca - voz  calma e firme

- Se fosse um miúdo, era logo  "apedrejado" de mal educado...- digo eu. 

- A sociedade de hoje é uma lástima! 

- A cair de podre! 

Cai um silêncio , depois arqueia as sobrancelhas, inclina a cabeça na vertical, atribuindo-me razão. Só agora observo detalhadamente o semblante altivo  desta senhora,  tez amarelada assaz  vincada, olhos negros, líquidos, vivos , lábios semi finos,   o cabelo louro claro falso mas  bem cuidado, desce até aos ombros, fisicamente em muito boa forma . Vestuário desportivo  feminino; calça comprida castanha escura de  bombazine justa, casaco de linho bege claro, com botões castanhos escuros, a mesma cor nos sapatos . Por dentro, a blusa justa em algodão  castanha, brincos discretos, os dedos decorados com anéis, uma maquiagem suave, no entanto,  perceptível.  A senhora traz consigo um odor perfumado maravilhoso. Apetece permanecer ao seu lado. 

As vozes chegam até nós  e diluem-se entre novas conversações. 

- Logo pela manhã  esta gente fala imenso! - disse pausadamente 

- Concordo consigo, as pessoas falam mesmo muito alto e nem se dão de conta. 

- É um mal geral! Cada um julga que pode trepar sobre o outro! Todos  querem  impor o seu ponto de vista. Como se fossem todos doutores. Toda a gente opina! Os sabidos...É que falar mais alto, dá para notar, percebe? Anda tudo a fazer o mesmo. 

- Há uma impaciência no ser humano, cada vez mais crescente, uma irritação...

- Tudo o que não sou! Pelo menos, penso que não. 

- Eu também não! Não há necessidade, quero seguir em paz. 

- Olhe que bem, que sintonia entre nós , duas desconhecidas. 

Sorrimos ambas. 

- Também vai à baixa? - pergunta ela descontraidamente 

- Sim, vou. 

- Sempre viveu aqui  e gosta ? 

- Sim, sempre vivi nesta maldita gaiola, uma parca gaiola, uma mesquinha gaiola, uma miserável gaiola, onde todas as coisas são demasiadamente fechadas a fingir de abertas!  

- Não gosta mesmo disto!? 

- Não,  nada, odeio! 

- Se foi assim tão mau porque permaneceu? 

- Por causa do clima! Em boa parte bom para a minha  saúde! 

- Compreendo. Eu vivi alguns anos no Canadá! 

- Gostou  de lá ter estado? 

- Não, o meu primeiro marido era muito ciumento e não me permitia sair de casa! Era casada com ele nessa altura,  isso deixou-me de rastos, soube-me a pouco ou a nada. Não nasci para ser prisioneira de homens e aprendi a me defender de chantagens. 

- Quantos anos esteve por lá? 

- Sete anos. Foi um dos  piores momentos da minha vida. 

- Pois... efetivamente.  

- Admiro o sexo masculino, gosto desta parceria; homem, mulher, adoro a intimidade. Todavia, cortar as minhas asas,  ameaçar,  impedir todo e qualquer movimento,  como se eu fosse uma criminosa, só me trouxe desgosto. 

- Não podia ter fugido? 

- Se pudesse acha que não teria tentado? É que temos dois filhos em comum. Ir para outro país, livrar-me daquele estorvo, sabe, viajar é  maravilhoso, ver outras realidades,  você capta  a beleza das coisas,  areja e volta cheia de outras imagens de lugares e cores diferentes, de rostos desconhecidos,  outros sabores, outros odores, outras vozes... e regressa diferente. 

- Tem razão ! disse eu terrivelmente encantada 

- Nao usa  um livro de viagens? 

- Não . 

- Eu tenho o meu, com fotografias, legendas, com apontamentos dos lugares que visitei, onde permaneci. Pessoas com quem falei, os assuntos. Pretendo continuar a viajar e sobretudo bem acompanhada, consegue ser uma mais valia. Olhe, aproveito a oportunidade - ela abre a bolsa, graciosamente e segura de si, retira um cartão do porta moedas e estende-me: 

- O meu cartão, aqui tem,  é assim,  eu e o meu companheiro  somos organizadores de eventos e decoração. Ele organiza e eu decoro. Temos uma excelente  formação na área. Ligue-me  para combinarmos um café, um chá, qualquer coisa. 

- Se tiver disponibilidade...sim. 

- Arranje um tempo para si, para estar bem. Ofereça a si própria umas horas de bem estar , conforto e descontração. Você tem bom ar, é bonita, se quiser podemos engendrar um evento a seu gosto, deve ter namorado, noivo ou é casada... ou até que seja só para si, há amigos com certeza, ou até familiares, é  só combinar e aproveitamos para acertar  os preços, é  dinheiro que vale a pena, está a investir em si, na sua felicidade. 

- Está bem, agradeço a amabilidade.

- É uma gentileza minha, não é habitual ter este tipo de gestos, você parece uma pessoa que precisa arrebitar, um estímulo,  aqui está ele! 

-  Já saio a seguir,  na próxima paragem- esclareço 

- Quero que saiba que gostei muito desta nossa abordagem. É simpática e eu também . Está a ver, que alegria! vai ser este o momento da sua vida. É  verdade, estou a apostar no meu negócio mas estou também a apostar em si. Eu ganho e você .  Medite com carinho na minha proposta, aguardo uma resposta sua. 

- Eu também gostei e entrarei em contato consigo.

- Óptimo,  faça isso e não se arrependerá, confie em mim! 

Cá fora, observo minuciosamente  o cartão,  especialmente o verso , onde constam os valores e quedo-me estarrecida com  os preços praticados, desencantada atiro  o bocado de papel  para o balde do  lixo.