sábado, 24 de dezembro de 2022

Sete e trinta da manhã

Quando os tapassois se abriram, havia  um espesso  esborratado  cinza, um denso e estático nevoeiro. Quase rente aos meus olhos, passou uma gaivota pequena, arrepiadinha, a fugir do pó ralo da chuva...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Alcovitas

 

Mesmo por trás dos prédios, 
a caminho da reta final da  tarde
Inesperadamente
surge um clarão
estala em unhadas de brilhos
Aquele  repentino apogeu
 perturba a visão dos factos
Logo de seguida esmorece
Arrefece o ânimo das alcoviteiras
Mas o vício não cessa
A obsessão teima em voltar indefinidamente,
até sacode as  pulgas sardentas dos entrefolhos
A raiva, o riso, a vingança
Pequenez sinistra  
de quem morre
antes da morte. 

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Nos Tempos do Imperador

 Pedroll sentado na cadeira do rival, Tonico Rocha permanece de pé ( um deputado sem escrúpulos e sem nenhum caráter)

- Magestade ! A que devo a honra? No meu gabinete? 

- Eu estou tentando me colocar no seu lugar. 

- Não entendi.  

- Como alguém é capaz de cometer tantos crimes e agir como se nada tivesse acontecido? O senhor não sente nenhuma dor por ter tirado a vida de outras pessoas? 

- Magestade! E quantas vidas foram perdidas nessa sua guerra ?! 

- O Brasil foi invadido, não havia alternativas e essa guerra podia ter sido evitada se não fosse a sua interferência na embaixada brasileira em Assunção. 

- Painho sempre me dizia que quando um não quer, dois não brigam...

- Seu pai dizia isso na época em que éramos crianças e que me bateu, será que naquele instante você desejava, talvez , tirar minha vida ... será que era isso que queria? 

- Não,  não,  se com aquela surra a minha vida já destrambelhou, se eu  tivesse matado o menino imperador... ai...eu seria o crápula da nação.  

- Seria?

- E vossa majestade é um santo. O modelo da virtude que trai a esposa. Sabe o que o senhor, é? Um hipócrita! 

- Sim, eu tenho defeitos.  Eu cometi erros, cometerei novos erros, porque sou humano. Já o senhor, deputado, é um criminoso, covarde, que espalha mentiras, para talvez tentar manter seu cargo público, pago pelo povo. O senhor é um sujeito nocivo, ressentido, frustrado, que dissemina o mal, para tentar ser notado. E , sabe o que ganhará com isso? O deputado será desprezado por completo, será solenemente esquecido e varrido da História. " 

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Obscura sorte quem lhe calha, canalha desta...

 

O imbróglio nas mãos do inescrupulosamente
estúpido,  colocado no altar por falsos deuses e anões
pretenciosos
Desavergonhados, agarrados a quê?
Espezinham flores!
As mais delicadas? Que absurdo !
Rude gesto,  picador de gelo, ser boçal
Pretenso atingir
a casa alheia...
Provocação desnecessária
Sem medida nem   ponderação
A impor à  viva força
a altivez soberba
Discurso incisivo
E sem razão !
Gente  demoníaca , cuspindo enxofre
Impediedosa e descarada
Inestetica e  maldosa
E muito mal intencionada.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Conto VIII

As horas  passaram , escondi-me nas sombras do  parque  e fiquei aguardar    a reação dela.  Perto da meia noite,devia estar muito desesperada,   veio cá fora, de um lado para outro,  encolhida de medo,  observou desconfiada  para os lados, eu nunca me tinha  ausentado de casa à  noite. A mulher  estranhou.  Percebi que gostaria de me chamar, faltou-lhe a voz, nao teve coragem e para não causar alarido.  Àquela hora, o homem fora de casa... uma efeméride. O acontecimento,  no dia seguinte, cairia na boca da vizinhança.  Ela não ia  querer isso por nada.  Muito transtornada, precipitou-se novamente para dentro, nem tentou procurar  no bar.  Grande cobardia. Armava-se em esperta,  rainha da casa e dona da minha vida.    Pernoitei  no bar,  aquela  noite, estava decidido, ela iria   sentir a minha falta.

 Inspirado no Conto de Sophia de Mello Breyner - " A viagem" in "Contos Exemplares"

Conto VII

Isso Josefa, em beleza, por acaso és  minha mãe?!eu a ser tratado   como uma criança, pela minha mulher, na frente de um estranho. Não,  não é de agora, vem de longe ; " Atrasado mental",  "  Não vales de nada ", " Nunca chegarás longe "; " Está calado, não suporto escutar a tua voz", e, outras tantas, estou certo, Josefa? Eu também errei, embrulhei-me na mesma manta de retalhos ; " Acertava-te  nesse focinho", Vai para o raio que te parta, demónio",  Está  calada que não sabes nada, estafermo" ,  entre outras... olho por olho, dente por dente. As nossas  quinquilharias  arrastam-se como fantasmas colados a nós, só uma demência para esquecer tamanha torpeza.  A própria vida a meio gás ou menos que isso. A única oportunidade que   conheço para  ser feliz, para  se realizar, outra semelhante a esta, onde?  Prendemo-nos a coisas que só  nos tornaram infelizes e quantos anos, a rondar no mesmo lixo tóxico, sem conseguir sair da sujidade,  a adoecer,  a padecer,  a apodrecer, a exalar mau odor , mau hálito,  como se as fezes nos saíssem pela boca... a consentirmos   neste  absurdo, a  envelhecemos precocemente, e a tornarmo-nos  senhores das causas impossíveis...   Pobres de espírito que somos.  Por escassos instantes estava esquecido do que iria enfrentar, a cruel e dura verdade. Até lá  precisava   desconfiar de Josefa para me aguentar. O crepúsculo foi  desaparecendo a olhos vistos. A cor esmoreceu devagar, lentamente e as lâmpadas  já acesas àquela hora,  davam um tom tão díspar da luz diurna. Para espanto meu, o desconhecido saiu na mesma paragem que nós. Apeamo-nos, na despedida o desconhecido ainda lançou o convite:
- Se quiserem, estou naquele café. Quem paga sou eu.
 - Obrigado, vamos entrar em casa e depois logo se vê!  Entrei  disparado, galguei escadas e apressei-me a rodar a maçaneta da porta, numa sofreguidão desalmada, tateei  a mesa do escritório, existia   papelada,  nada de envelope:
 - Josefa! - berrei  em plenos pulmões Desci  a correr,  procurei  a mulher e encontrei-a na cozinha:
 - Que modos são esses? - repreendeu ela . Circulei à volta da mesa, até ficar de frente para ela , eu de pé,  ela sentada:
 - Que brincadeira nojenta foi esta? 
 - Qual? - questionou com espanto 
 - Não encontrei o envelope! 
 - Deve ter sido a empregada que sem querer atirou fora!
 - Como? A empregada ia atirar fora um envelope daqueles, ela está avisada para não mexer na minha secretária. 
 - Talvez deixei na minha! 
 - Tive o cuidado de ver a tua e nada!
 - Pedes uma nova via... 
- Sabes que estás a mentir descaradamente !
 - Tu também mentes ! 
 - Assim? Como tu? É  grave o que inventaste!
  - Não faças dramas! 
 - Josefa, não tens remédio, esquece! 
 - E tu tens?
 - Antes que te parta a cara e depois seja incriminado por violência doméstica,  prefiro sair,   vou ao café da esquina, fazer companhia ao estranho. 
 - Gostas mais de estranhos  que os de dentro de casa. 
 Sem mais demoras, saí  furioso e bati com a porta ruidosamente: 
- Grande bruto!-  disparou  Josefa

Conto VI

- Dá-se bem com ela? 
 - Com quem? 
- Referia-me à rotina.
 - Dias sim, dias não. 
 - Também eu! O telemóvel do desconhecido chamou:
 - Com licença! - pediu e afastou a cabeça para o lado 
 - Toda! O desconhecido encostou-se bem à janela para  abafar melhor a  voz. Quando terminou, voltou-se para mim: 
- Felizmente que está aqui, caso contrário, eu passaria a viagem toda nos jogos, troca de mensagens, adoro  isto - e guardou-o no bolso do casaco com o mesmo zelo que se esconde uma pedra preciosa. 
 - Controlo bem esse vício, de viagem, nem pensar! Serve apenas para atender, ligar e enviar uma ou outra mensagem,   em caso de grande necessidade. Não me deixo escravizar , porque o  vício de uns é o lucro de outros. Quem ganha? Nós sabemos, sempre os mesmos.  O que poucos  sabem  é que esta panóplia do digital é uma fatura descomunal para o ambiente  e ninguém esclarece isso. - Também  é  contra a tecnologia!? - constatou entusiasmado
 - Nem a favor, nem contra, a tecnologia devia ser usada com medida.  O telemóvel é a invenção mais revolucionária, o  brinquedo de todas as gerações. - Poucos resistem à tentação. 
 - Eu sou dos que não se deixam seduzir! Sou antiquado e contra a corrente, prefiro pensar, observar tranquilamente a natureza, folhear um jornal, abrir um livro...ler. 
 - Sabe que os jornais têm páginas na Net, e pode consultar  na mesma! - riu-se
 - Gosto do papel! 
 Caiu um silêncio, calamo-nos os dois. Ele deve ter   pensado "que indivíduo estranho, não parece a mesma pessoa da vinda, de qualquer forma,  não o conheço! Deve estar cansado! Aquela deve ser a mulher dele. Terão vindo da lua de mel? Será o segundo casamento? Pelos rostos, já não têm idade para ter filhos pequenos. E se forem amantes? Provavelmente ! E vêm aqui divertir-se , longe dos olhares  curiosos." 
 - Olhe - apontou o desconhecido- pelo fumo, é incêndio! 
 - Estes incêndios dão que pensar! - acrescentei logo
 - Os incendiários andam sempre à solta, não é? - Circulam por aí umas teorias descabidas, de que as altas temperaturas provocam incêndios...a mim,  parece mais evidente, se há fogo, há mais calor!  terrorismo interno ou externo?  Ou políticas ineficientes? Remediar não é sinónimo de prevenir.
 - Você é  dramático! - Óbvio; gente, vegetação, animais, solos, habitações, toda a logística para combater as chamas... quantas perdas....e gastos desnecessários! 
A mulher voltou-se para trás e mostrou-me o rosto sisudo. Mais uma vez, fiz silêncio  até ao fim da viagem. Nem eu, nem o indivíduo ousamos sequer olhar um para o outo.