Viúva, cinco filhos, frequentei a instrução primária com imensa dificuldade, devido às minhas limitações, no entanto, estive sempre atenta ao que se passava à minha volta, ao que me aconselhavam e narravam, mais tarde, mesmo depois de velha, aprendi igualmente com os meus filhos, foram uma segunda escola para mim. Em nova tive que me desenrascar e estar preparada para o mundo do trabalho. Gostei de ser útil na minha profissão; para os meus e para fora. Procurei fazer o melhor que sabia e exigiam de mim e ficava a par das novidades através das revistas da altura.
Lamento a infelicidade de ter sido marginalizada, um tratamento desigual por não ser inteligente, não possuir os tais atributos físicos, que nos dias de hoje, continuam cada vez mais em alta, todos ambicionam a beleza exterior, a interior, poucos pensam nela. Sou baixa, roliça e senti na pele os risos de troça, as alcunhas...tudo isso!
O meu marido, foi o oposto de mim; estatura acima da média, manteve-se elegante até partir deste mundo, nunca o vi de outra forma; magro ou muito magro, aquele olho azul mar espantoso, aqueles lábios grossos...Naquela altura não me cansava de o contemplar. Sempre asseado e cheiroso, tinha cuidado com o seu aspecto, as unhas das mãos e dos pés cortadas e bem limadas, os pêlos do nariz, e das orelhas não espetavam para fora, e as sobrancelhas aparadas. Há homens com arbustos por cima dos olhos, o que lhes fica imensamente mal, não custa nada endireitar. Fazia a barba com frequência, aquele rosto sempre impecável. Aplicava brilhantina no cabelo negro e penteava-o para trás e dava-lhe uma boa apresentação. Ele era bonito e conservou a sua beleza até ao fim. Casei aconselhada pelo médico, devido a ataques e convulsões que me assaltavam amiúde. Comecei a namorar o pai dos meus filhos nos bancos da igreja; primeiro, troca de olhares, depois encontrava-me com ele no adro e aí já havia tentativa de introduzir conversa, ele era muito fechado, mais tarde acompanhava-me a casa, ou esperava por mim lá na porta. Não falávamos muito, apenas diálogos curtos mas encantadores. Eu derretia-me toda com aquele jeito tímido e cabisbaixo. Com o tempo, começaram os desabafos sobre a sua vida familiar e eu sobre a minha. Sinal que ambos confiavamos um no outro e isso fazia-me apaixonar ainda mais por ele e vice versa. O meu marido apesar de ter, tal como eu, a instrução primária, era um homem muito inteligente e muito dedicado ao trabalho.
Não conheci outros rapazes, apenas aquele. Quando ficámos noivos, começou a mostrar outras facetas que até então desconhecia, proibiu-me de usar saia acima dos joelho, blusas sem manga ou decote, nem um baton nos lábios, tinha apenas autorização para continuar a costurar mas sair de casa, nem pensar, apenas para o estritamente necessário, só em caso urgente. O meu lugar? Confinada às tarefas do lar. Submeti-me à vontade dele, esperançada que com o casamento acontecesse uma mudança . A cerimónia foi marcada para de madrugada, mais uma vez, por decisão dele. Fiquei triste, um casamento celebrado às seis horas da manhã , sensação estranha ... talvez não quisesse que ninguém nos visse. O casamento descobre tormentos; tudo muito encoberto. Subitamente, o meu falecido marido mostrou nitidamente que o seu espírito de monge não se encaixava no papel de marido.
Ele queria viver longe de tudo e de todos, num deserto. A ideia seria ter filhos junto de mim, sem instrução, descalços, bocas famintas, babosos, ranhosos, a fungar, a pele arranhada e maltratada... Para poupar?! Quando comecei a escutar isto, arrepiei-me, assustei-me deveras, comida a lenha?! Com que espécie de homem tinha eu casado? Um eremita? Socorri-me de uma irmã e desabafei com ela. Que poderia fazer? Enfrentá-lo sozinha ? Com que armas? Não tinha genica! Ele prometia que me batia, usava frequentemente violência verbal para me intimidar. Quando levantava aquela voz de trovão, as paredes tremiam, eu tentava argumentar até certo ponto, depois disso calava-me. Temia que passasse à ação. Cada vez mais aproximei-me de minha mãe, já viúva na altura e da minha irmã mais nova, ambas a viverem na mesma casa. A minha irmã, marcada por um divórcio que lhe tinha caído mal. Havia visitas nossas periódicas lá a casa. O meu marido nutria pela minha querida e saudosa mãe um grande respeito e muita admiração. Quando ela faleceu percebi que tinha perdido uma âncora, perdi o meu sustento emocional. Já que a minha irmã ficou só, para me defender melhor das investidas dele, convidei-a a viver na nossa casa. Ele detestou a ideia porque conhecia-a bem e sabia que ela era diferente de mim. A princípio até me senti amparada. Ela fazia-lhe frente e media forças com ele, não permitia que ele se sobrepusesse nem a ela, nem a mim. Cedo compreendi que havia um preço a pagar; a minha família já não me pertencia. Ela reinava dentro de casa, decidia sobre todas as coisas. Ele calou-se, eu apoiei-a. Os meus filhos foram à escola pelo pulso dela. À medida que surgiam situações; ela na dianteira , eu nas traseiras. O que me frustrava era sentir que os filhos já não eram meus, nem do pai, eram dela, só dela. Deixei de ser mãe para voltar ser a criada. A minha irmã proveitou-se das minhas fraquezas para ganhar uma vida que até então não tinha conseguido. Julgo que nem eles saberiam de qual das duas deveriam amar mais. Os conflitos começaram a aumentar de volume porque ela era muito autoritária e tratava com desdém uma das minhas filhas. A casa de minha mãe foi finalmente vendida e a herança distribuída pelos vários filhos, o que me revoltou foi ela ter ganho mais duas heranças além da sua, de outros dois irmãos. As duas que recebeu eram-lhe destinadas. Eu respeito mas podia divididir um bocadinho comigo. Fui sempre a irmã pobre, ela, a irmã rica. Tudo, em parte para fugir ao marido e à vizinhança que era péssima. Não esqueço o quanto devo à minha mãe. Foi a pessoa que mais me compreendeu, não tenho dúvidas que mora no céu, era uma excelente pessoa para todos; família, vizinhos, amigos, conhecidos. Apesar de tudo, a minha irmã foi uma mais valia mas as heranças deram-lhe a volta à cabeça , mudou muito, tornou-se impossível, o que antes nos unia, agora, até isso nos separava. Fiquei sem aliada, naquela casa ninguém se entendia. Foram anos de verdadeira guerra. Tornou-se amor e ódio. Não nos suportavamos uns aos outros. Passei a ser rotulada pelos dois de invejosa, desajeitada e por aí abaixo... E onde vivia ela ? sob o nosso teto; cama, mesa e roupa lavada. Nunca experimentou ser independente.
Depois, foi estudar e trabalhar fora, viajar, divertir-se com os meus filhos, conheceu um homem depois da idade, ia passar o seu mês de férias com ele, mas regressou sempre para nós . Ao fim de dez anos, o arranjinho acabou tal e qual uma bola de sabão. As relações são assim; arrefecem, enfraquecem e morrem. Quando os meus filhos, eu e ela saíamos, o meu marido recusava-se a acompanhar-nos, eu aparentava ser viúva, ou divorciada. Ele só saía de casa para trabalhar de forma incansável, tudo para sustentar a família, nunca nos faltou refeições à mesa, foi sempre um trabalhador honrado e honesto, eu ajudava com a costura até ao momento em que adoeci da minha cabeça. Nem sei explicar; sentia-me angustiada, aborrecida, tornei-me sombria, sem remédio . Entristecia-me perceber que os meus filhos preferiam a tia, ela sabia seduzi-los; era a irmã mais vaidosa, a mais bem falante, rodeada de amigos, conhecidos e havia quem imaginasse que ela era a mãe deles. Ah, francamente! Chegou uma altura em que saturei daquela vida de clausura e fui firme, desabrochei e comecei a sair também, a ir ao café, o meu marido criticava-me severamente porém deixei de me importar com isso, ao princípio sozinha, sem a companhia deles, de nenhum filho. Sentiam vergonha de mim, eu era o oposto dela; nesta ocasião já me vestia melhor, no entanto, viam-me como uma tonta, sem o brilho dela, sem aquela lábia, eu, uma atrasada mental a tentar sair da concha numa idade tardia. Os dois... ai aqueles dois, irmã e marido haviam-me empurrado para aquele isolamento. Depois, a partir dali, cada um saía só; eu, o marido e ela. Os filhos tornaram-se independentes, no entanto, visitavam-nos regularmente. Então, essa filha, aquela que foi rejeitada por ela e por todos nós, acompanhava-me para todo o lado, já me perdia na confusão das ruas, já não era capaz de caminhar sozinha, essa filha nunca mais me abandonou. Os outros também não. Por isso tenho um orgulho infinito neles .Fui piorando, surgiram outras complicações de saúde, tornei-me incapaz , fui hospitalizada em muitas ocasiões; sempre amparada pela filha e pela irmã, que também envelhecera e já não conseguia ser a mesma, eu restabelecia, começavam as farpas espetadas da parte dela e da minha, sol de pouca dura... Não havia forma de melhorar o ambiente entre nós, uma desgraça. Contaram-me que certa ocasião, o meu marido vergou e pela primeira vez, verteu lágrimas ao ver o meu estado. Apesar daquele manicómio, provocado por nós três, o meu marido , eu e a minha irmã fizemos muito pelos filhos, semeamos tudo o que conseguimos semear e por isso hoje, estamos a colher. O que eles censuravam em nós eram as sucessivas discussões, por tudo e por nada havia gritaria, não lhes retiro a razão. Quando ele adoeceu gravemente e faleceu , ficamos as duas e aí foi novamente medonho, ela gritava comigo, eu gritava com ela. Pareciamos duas loucas numa disputa enorme e assustadora. Podíamos nos acabar ali...
Ainda assim, ela saía de casa, toda coberta de luxo, com aquele ar empertigado, apesar de já aparentar um desgaste evidente, senhora de si, ia passear e eu ali, impotente, remetida à prótese que me tinha travado os movimentos. Ela troçava muito de mim, dizia-me coisas que... Deus sabe como feriam ... eu também lhe respondia, não era santa. Logo a seguir cobria-me um manto de tristeza e as memórias de antigamente... Não tinha que me submeter às provocações dela, ser novamente mal tratada, depois de velha e doente, não se admite! Criava coragem e respondia de forma igual! Descemos ambas ao inferno. Alguns anos depois, ela adoeceu , depois disso acalmou mais, ficou em pior estado que eu, apesar de ser mais nova. Tudo foi perdoado, ela perdeu a fala, coitada, foi-se a genica, encontra-se presa à cama e eu aqui sentada. Uma ao lado da outra. Confesso, gosto da companhia dela. Sinto muita pena que seja desta forma, o que se há-de fazer? Finalmente sou aquilo que me caracterizou e andou perdido a vida inteira : posso ser alegre e divertida, faladora e simpática, dizem que sou muito inteligente, quem diria? Eu nem sabia! Neste momento é permitido dizer o que me apetece , sem freios, sem vergonhas, sem medos, sem entraves, sem críticas maldosas. Os meus filhos não proibem, pelo contrário, estimulam, nem eu, nem ela pesamos nas vidas deles, nenhum se queixa, sinto- me amparada e amada, temos um lugar e um espaço, estou em paz e sinto leveza... A grande mágoa; gostaria que tudo tivesse sido diferente; sermos mais amigos uns dos outros , no entanto, faltou o mais importante; o respeito. O legado? Infelizmente os filhos imitaram-nos, não se dão uns com os outros! Os cinco de costas voltadas. Daqui para a frente, seja o que Deus quiser, enquanto ela aqui estiver e eu... vamos vivendo, eu pelo menos continuo a viver e a querer viver, a morte já me rondou diversas vezes ao longo da minha vida, penso que Deus achou que não era a minha hora e Deus tem as suas razões que eu aceito. O que não vivi antes, vou aproveitar agora e isso faz de mim uma pessoa mais feliz. O passado? está definitivamente esquecido e enterrado. E quando partirmos que seja, ela na sua cama e eu aqui sentada. Acenamos uma à outra, atiramos beijos com a ponta dos dedos e fechamos os olhos , um anjo há- de vir ao nosso alcance e guiar-nos céu fora, nós de mãos dadas, eu arrastando-me ao lado dela e minha mãe à nossa espera...