domingo, 6 de outubro de 2024

Viagem II

 Observo a paragem do autocarro, ainda faltam trinta minutos, naquele preciso instante desvio o olhar para a esquerda e o meu ângulo de visão tem uma  amplitude horizontal alargada,  atinge o fim do cais. Há pouca gente àquela hora, o sol  de verão cai tórrido, sinto-me a incendiar e  desafiando o calor abrasivo, entro desejosa que o mar galgasse as muralhas protetoras e chegasse a molhar os meus pés. Caminho sem pressa, sufocada, devido ao fogo que me atinge e aniquila qualquer movimento mais rápido.  Os meus olhos vão se detendo aqui, ali, acolá... são os barcos na enseada, que balançam tristemente ancorados, presos  pelas cordas. Do lado oposto, as embarcações de recreio,  carregadas de turistas para avistar golfinhos  em alto mar e  aproveitar  para um mergulho mais profundo e arrojado.  O navio de cruzeiro desperta a minha curiosidade; ocupa praticamente todo o comprimento do porto; é  enorme, possante, de proporções  semelhantes a uma  baleia, o gigante dos mares. Da ponta do cais, observo-o mesmo à minha frente, até  parece que consigo alcancá-lo, basta para isso, esticar o braço, debruçada sobre a varanda fico ali, esquecida dos raios de sol fortíssimos que parecem estar a querer derreter-me toda. Fixo as águas, a parte do navio onde a luz do sol quebra.    Há ali  uma escuridão sinistra e de  dentro de mim, do fundo da memória, num relampejar de claridades profundas e assustadoras, surgem imagens de mares  sonhados em noites agitadas de pesadelos.  Uma tristeza infinita assola a minha mente, um  medo a apoderar-se  das entranhas, uma angustia inexplicável.  Sinto um aperto no estômago  e para fugir àquele estado de espírito,   consulto o relógio e desperto para outra realidade. A passos lentos deixo o cais, caminhando afogada pelo calor, demasiado atípico mesmo para o pico do verão. O autocarro já lá está no ponto, de porta aberta, apresso-me a entrar, para fugir à intensa fritura. 

Após descarregar a viagem do meu cartão eletrónico, vou ocupar um assento na parte de traseira da viatura, por isso subo alguns degraus e instalo-me. Sinto o ar condicionado fortemente  ativo  e isso causa-me irritação . Não me agrada nada chegar num estado de aquecimento terrível  e agora receber o oposto, um chuveiro de vento frio. Podia ser refrescante se fosse mais calmo e em pequenas doses. Com efeito, alguns passageiros que começam a entrar mostram uma viva satisfação. Deliciam-se, regalam-se , como se estivessem a banhar- se numa qualquer praia  maravilhosa. 

A meu lado, acomoda-se um homem idade avançada,  de relance, vejo a calva num arco perfeito  e o bigode cuidadosamente aparado sobre o lábio fino, os seus olhos vivos, claros e sorridentes passam pelos meus como se  me conhecesse,   do lado oposto,  paralelamente, logo a seguir à corredora do transporte, no outro assento, outro homem tem uma amplidão pançuda, no rosto uma barba negra cerrada e no lado da janela, uma  mulher, que mal se consegue descortinar. 

O autocarro arranca serenamente e inicia a viagem , o homem da calva perfeita  dirige-se ao homem de amplidão pançuda:

- Bom dia, sro Santos!  Não tenho memória de um calor tão excerbado! - e sopra aflito

- Viva Dro João Paulo, por aqui?!

- O meu   carro avariou quando ia  a caminho de casa, por isso aqui estou. É  muito triste que estejamos  a assistir à morte lenta do planeta,  impávidos e serenos, como se não nos dissesse respeito.

-  E olhe que de ano para ano, vai ser sempre  a subir! 

- Como foi possível termos  chegado a este estado!?- desabafa o da calva perfeita 

-  Isto faz parte da natureza e das suas transformações- acrescenta o de  amplidão pançuda , o som alto da  voz  alta, convencido da sua verdade 

- A natureza,  as suas transformações?! E as que o homem tem provocado ao longo dos séculos ? -  remata o da calva perfeita . 

-Dro João Paulo,  somos  todos uns desleixados para  com o meio ambiente  - responde num tom sibilante, tão alto como a sua proeminente barriga. 

- Nós pertencemos à terra, fazemos parte dela. Se ela morre, nós também. 

- Dro João Paulo, o senhor vai se preocupar com isso, agora?nesta altura da vida? 

Entretanto, entram mais passageiros, fora do ponto de paragem. Gera-se uma certa confusão, um grupo de ingleses,  jovens, descontraídos,  folgados, altos e bonitos, um deles pede ao motorista um  bilhete para o " Garden Botanik". Vão à procura de frescura, da sombra das árvores, dos cantos e recantos verdes, das plantas e jardins floridos, da esplanada acolheradora,  cujos chapéus trazem sombra.  

-  E como evitar  a preocupação? Ainda não estou senil para fingir que  não sinto medo pelos  filhos e netos, pela  vida na terra. O que significa e as  suas  consequências! Está tudo interligado e nós fazemos parte do conjunto - torna o homem da calva perfeita - Não podemos continuar a dar péssimos exemplos e esperar que seja a geração mais nova, a salvadora do planeta. Isto é patético! Não é possível,  até porque a sua ação está interdita e sistematicamente boicotada. 

O de amplidão  pançuda cala-se do alto da sua  indiferente estupidez , o da calva perfeita volta a cabeça para a frente e ergue o rosto numa atitude  de superioridade  defensiva. 

Agora sobressai o ruído do motor,  quase abafado pelas  conversas murmuradas, altas,  distantes, próximas, risadas, uma vozearia crescente. 

O homem da calva perfeita insatisfeito, volta o rosto para mim,  os nossos olhos cruzam-se e nesse piscar de  cílios,  observo instantaneamente os seus lindos olhinhos claros: 

- Eu não tenho razão?! Parece que falamos para o vento e vão-se as palavras...

- É  óbvio que sim! 

- Pois, pois! São poucos os que se interessam, como se o que se passa cá em cima não lhes dissesse respeito. 

Quando nos enfrentamos novamente vejo  com mais acuidade a beleza que o envolve.   E essa  beleza vem pelo sorriso, do bigode totalmente grisalho mas muito bem recortado sobre o labio inferior e pelo  olhar. É um doce olhar, enternecido, encontro  ali finura, inocência, bonomia. Quando aqueles dois lábios descerram e deixam brilhar o esmalte,  apercebo-me do quanto me sinto surpreendida . 

Fixa-me pensativo e assusta-me  o que me irá dizer:

- Já se apercebeu da  quantidade de ruído desta gente? É  sempre assim?

- Não, não é sempre assim. Alguns são amigos,  ou vizinhos, ou  parentes, ou conhecidos,  outros desconhecidos como nós. 

- E precisam desta gritaria , se fizer silêncio, será facil ouvir algumas dessas conversas, algumas íntimas. 

- Compreendo a sua observação e concordo. 

- Nós não sentimos necessidade  de gritar um com o outro e  conseguimo ouvir-nos  bem, apesar do zumbido das abelhas. 

Nova paragem, um indivíduo de meia idade apea-se com  dificuldade. O calor  cá dentro está   controlado pelo  ar condicionado, quando a porta se abre, um bafo quente invade e sentimos que as labaredas perseguem o autocarro pelo  lado de fora. 

De relance, noto que o homem da calva perfeita observa atentamente o indivíduo que sai e depois volta-se para mim:

-  Isto de adoecer é uma chatice! Especialmente as incapacitantes... 

- As pessoas deveriam fazer caminhadas e movimentar-se muito mais.  

- Exatamente, não obsessivamente, subjacente a ideais de beleza... 

- Então não é  pela saúde que se corre!? 

- Infelizmente não é! Corre-se atrás da beleza e da eterna  juventude! 

Entretanto, algumas pessoas vão saindo, o som sibilante dos jovens barulhentos diminui e dispersa-se, ocupando agora lugares  distantes uns dos outros e assim sendo, o transporte torna-se mais leve e o ruído das vozes baixa de tom. 

- Confesso-lhe,  o que mais me aterroriza  é ficar incapacitado e depender dos cuidados e da vontade  alheia, familiares ou não. 

- É o meu medo! 

- Acredito, e,  que possam tomar decisões por mim, sem eu conseguir expressar a minha reprovação ou  aprovação, julgam pelo livre arbítrio das suas vontades, das suas  necessidades, das suas prioridades, porque o  paciente já não consegue comunicar... como vai ser ? E se preferir uma morte assistida?

- Lamento , essa frase não me soa bem, imagine apenas isto, que esse sofrimento seja necessário,que seja  a purga para alcançar a outra vida. 

 antecipar a morte para cortar o sofrimento pode ser mais um erro tremendo da humanidade. Não é possível viver sem dor. 

- Mas é legal e já se pratica , muito anterior à lei ser aprovada. 

- Sabe, o ser bumano foge do sofrimento e há muita dor que  depende em grande medida de quem  cuida,  da família, recolher o parente idoso e indefeso e tratá-lo com compaixão,  amizade e amor. Não se aposta nos cuidados à velhice. 

- Falou em quem cuida mas e se tiver sido um paciente daqueles muito mauzinhos ?

- A vingança é a pior aliada e muito  má conselheira. Nunca dá bons frutos retribuir na mesma moeda pode trazer um rol de  problemas, sem fim à vista.  Trata-se de um ser humano  indefeso, debilitado e sofrido.Onde fica o perdão?  Parece-me que  Deus pensa desta forma e Jesus Cristo   praticou o bem a quem o amava e a quem o perseguia. Esta forma de agir e pensar é complexa mas dá frutos; a paz! 

- Então é uma crente ferverosa de  Deus? 

- Sim, sou. Acredito. A morte é  fechar uma porta e depois abrir outra. A morte não é definitiva. Ninguém morre para sempre. Há  a eternidade. É  lá que habitam as almas dos nossos antepassados. 

-  Enfrentar o desconhecido ...

- Só vamos saber quando chegarmos lá! Julgo que é perda de tempo pensarmos no fim, não é verdade? Ter missão cumprida em vida, é raro, no entanto,  fundamental. 

- Está certa! Refere-se aos atos, às oportunidades?!

- Sim, quanto mais longa é  a vida, mais chances  de aperfeiçoar.

- Diga-me , está perto de sair?

- Estou quase! 

- Gostava de lhe dar o meu contato. E dá-me também o seu, para o caso de não me ligar! Quero conhecê-la melhor, se me permite! 

- Está  bem, se quiser...

- Já  agora, é tão jovem e bonita! 

- Sou uma  jovem de sessenta anos ! 

- Como?Está a brincar comigo! Parece muito mais nova que isso! 

-  Que bom para mim  que aparento ser mais jovem mas  vou mesmo ter de  sair. Vai me dar licença,  sim? A minha paragem é  aqui. 

- Ah, pois! Com certeza. Já me levanto. 

Passo  pelo homem da calva perfeita e reparo  que os seus olhos desviam dos meus e  tornam-se  escuros repentinamente. 

Deseja-me um dia feliz e eu retribuo, num ápice observo que vai sentar-se rapidamente   ao lado de uma menina nova, num  banco mais à frente. Quando salto, sinto novamente o mesmo calor abrasivo, é como sair de uma arca frigorífica  para uma sauna. E vou  caminhando devagar, vergada sob o calor do sol e a ruminar como a maioria dos  homens de idade avançada,  de todas as classes sociais, são estúpidos e são  ridículos, extremamente ridículos e patéticos e toda esta tontice vem de longe, de muito longe... é um  clássico a cair de podre,  nunca se modernizou,  traduz a  cultura de uma sociedade que é incapaz de se modificar,  incapaz de  se refazer, uma sociedade que apoia, aplaude  e reforça o papel do  machão; o vilão,   o sujo, o imundo, a inversão de valores e atitudes, de um  conservadorismo hipócrita  e  quem educa para esta e outras palermices são as próprias mulheres, não exclusivamente mas em grande medida,  as mães e outras mulheres da família. 





    





 


quinta-feira, 4 de julho de 2024

Viagem I

 Viajar de autocarro, avistar  cá de baixo,  através da janela, as serras azuis ,  esfumadas lá ao alto, recortadas como pano de fundo e logo,  mais a baixo, os morros,   aqui e ali  salpicados  pelo casario,  sem grande preocupação. À minha frente   aglomerados habitacionais sem estética organizacional, a sufocar as bermas da  estrada,  serras e casas,  parecem-me refletir um  aspeto  desagradável,  quiçá  eu me projetasse nelas.  Estávamos a meio do Outono, sentia uma tristeza, uma mágoa cavada. Os céus  pesados,  manchados  e riscados acentuavam ainda mais o meu estado de espírito.   A viatura rolava agilmente  de uma curva a outra, metia por troços apertados, desviava cautelosamente quando vinha outra em sentido inverso. Dava mesmo a impressão de que  instantaneamente chocariam e  por uma fração de segundos o acidente ficava suspenso.  Apesar dos sobressaltos,  ia sentindo um certo adormecimento cerebral  produzido pelo rolar invariável  e arrastado do  motor. Talvez o  quebranto  das noites mal dormidas, ou   a influência da paisagem, ou os rostos desconhecidos dos outros passageiros...havia um entorpecimento no  ar, qualquer coisa semelhante a  um balão cheio de gás poluído a espalhar o pó maligno das alturas. Sei que não sei se  sou  negativa em consequência das vicissitudes da vida mas a vertente  realista faz parte de mim  e existe no fundo de cada um de nós, mesmo que rudemente educados, uma certa crença, o misticismo  é uma apetência de muitos de nós,  agnósticos ou não. Basta surgir diante dos nossos olhos, uma montanha coberta de neve, uma  tarde estranhamente  cerrada   de nevoeiro, um céu noturno  cheio de pontos estrelados,  cujo encanto é inegável.  A gritaria das gaivotas,  e, o pano místico sobe  e invade como uma espessa cortina de fumo. Subitamente, chegam até mim fragmentos de conversas dos outros passageiros; " ...você assiste à missa e ouve o padre dizer ; Meu filho tem paciência, amanhã vai  ser diferente, tenha esperança..."

"E  um tipo espera, espera e nada!"-  risos
" Passa a vida a escutar essa frase e naturalmente  habitua-se a ela, o pior é que , acredita nela. Ah! Torna-se escravo dessa  treta!
" Mas não deve ter esperança? "
" Esperança naqueles que metem a mão no seu e no meu  bolso? Eles não deixam de roubar!"
" Pelo menos acreditar que dias melhores virão!"
" Virão? Quando? Se o senhor quiser sonhar e sobreviver à custa desses  sonhos vazios...que nunca se vão concretizar. "
" Sempre podemos viajar, aprender, conhecer..."
" Tem dinheiro para viajar? "
" Ganho o suficiente para fazer uma viagem por ano, o patrão paga com atraso."
" Ah! Os patrões são todos iguais, querem pessoal para o seu negócio lucrativo mas choram lágrimas de crocodilo na altura do pagamento...odeio patrões! E, está a compreender como tenho razão? E os seus sonhos? "
" Os  sonhos adoçam a vida, não, não me quero tornar amargo. Tive e tenho esperança que aquilo que faço dá frutos, na pessoa que me tornei, na minha família, nos meus passatempos..."
" Vai me dizer que não adoraria ser famoso e rico?"
" Não, ser famoso às vezes é uma tremenda dor de cabeça, quantos suicídios de gente famosa e rica..."
" E gente a viver à grande e à francesa!"
" Vivo bem com o que tenho e não quero perder até que...
 
Depois as vozes foram para longe,  misturaram-se com o   ronco feroz do motor do autocarro.  De  repente, chegou até mim outra música; agora eram senhoras;" ...essa gente é do piorio, ele e ela, olhe, ele quis se dar bem na vida..."
" Nunca estiveram separados?"
" Nunca! Mas  são infelizes! "
" Quando o pai ainda andava por este mundo, parece  que a família aparentava estar bem..."
" Uma família  muito desequilibrada "
" Não sei, não os conheço assim tão bem mas  são pessoas com nível de instrução  considerável  e bem de vida!..."
" E isso é tudo? "
" É uma família bem formada, pelo que sei."
" Olhe que não,  olhe que não! Há ali problemas cabeludos"
" Não fazia ideia que fosse assim!"
" É uma gente que vive de aparências..."
De repente juntou-se uma sonoridade diferente, grossa:
" Vizinhas estão a falar da minha cunhada e do meu irmão?! "


" Sro professor rocha! Não fazia ideia..."
" Estou mesmo atrás das senhoras, ouço-as bem! mas não se preocupem,  também não me ligo a essa gente, de quem falam. Somos  família pelo  sobrenome e corre-lhes nas veias o mesmo  sangue que o meu, de resto, nada nos prende. É melhor assim.
" Agora senti-me envergonhada, até apanhei um susto!"
" Eu tambem não esperava !"
" Descansem, o susto já passou e é verdade,  ( chegou-se para a frente em jeito de confidencia ) essa gente é pouco recomendável; a mim é que me envergonha desabafar convosco assuntos desta natureza... faço-o porque são vizinhas e amigas mas efetivamente o meu.... "
Na curva, o   motor do autocarro  guinchou,  assemelhante  à  matança do porco,  um grito ensurdecedor  a riscar definitivamente todas as vozes. Levantei-me rapidamente para  carregar o botão da campainha.








  

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Sem tempo ...

 

Fui andar no cinzento  cinzentão das ruas,
das construções tombadas e ardidas ,
dos prédios  inclinados e descidos,
periclitantes à passada e  a um ligeiro sopro
À frente dos meus olhos , seguiam  no esquecimento
 os automóveis a uma  velocidade  estonteante , 
a correr desalmadamente para um ponto de fuga
Descreviam uma linha reta e desapareciam
ou fugiam de si mesmos,
ou havia mesmo muita pressa,
 ou competiam entre si,
 ou  eram devorados pela adrenalina
ou a náusea do dia carregava ansiosa no acelerador
Ou como num pesadelo, do qual queremos escapar
 e parece que não vamos conseguir acordar a tempo...

sábado, 20 de abril de 2024

Respondam

 

 Tanto estudioso de gravata ajustada
fatinho escrupulosamente limpo
escovado,  cabelo lambido,   excelente tecido
Medalhados  até ao pescoço!
Teorias e mais teorias visivelmente aplaudidas
O resultado?
Mais maleitas irreconhecíveis?!
Surtos a entrar olhos adentro
Efeitos secundários , adversos, efeitos  colaterais
boca seca, respiração ofegante,
A própria morte a arranjar canto?!
Depois, é a vez das  vestes sacerdotais
 ricas em  simbolismo e significado!
escrupulosamente preparadas para
elevar a pureza que a Divindade
exige ao seu povo?
 para honrar e reverenciar o altíssimo
Com as mãos impuras?!
Afogados em vícios? embebidos na profanação?
Ligados a crimes?!
E os mendigos à porta das igrejas?!
à espera que lhes caia uma moeda nas mãos?
Suas santidades onde estão?
Lá dentro? De altar em altar? Sempre a rezar? Em oração?
E os miseráveis do lado de fora?
Que Deus é o das batinas ?
 O coro dos indignados sobe de tom,
numa vozearia
Cria tumulto
Ruído, confusão
E Insiste!é a repetição de outros séculos...
Quem não tem memória?
Mais recente,  parcas travessuras
foram cometidas;
Arremessados
ovos coloridos contra fatos caros
atira-se tinta às estátuas!
E lá  vem:
- Não pode ser assim! contestação
não é atentado contra a democracia?!
 Nao posso concordar com estes atos de vandalismo
E outra voz   chega-se à  frente:
- Qual democracia? Conhece-a ?
Os garotos condenados pelos ovos coloridos?!
Ao tempo que não os escutam ?! Já cansa, já farta!
A eterna surdez,  a  surdez,
a fazer-se sempre e ainda  mais de surda?!
Quanto maior é o grito,
maior a surdez, maior a vingança,
maior a astúcia, maior a soberba,
maior o desdém, maior o castigo,
maior o policiamento, maior a condenação,
maior a perseguição.
Afinal, que quem querem de nós?
 Que esperam de nós?






 

terça-feira, 12 de março de 2024

Deixa uma flor na sepultura

 

Não há  qualquer vestígio  de ti;
 voz, risos, gestos ou cheiros
Nada. Quase tudo apagado...
Entrevejo-te  entre "séculos"
numa imagem diluída
 dos tempos esquecidos
Nem sei onde vives...
Tudo o que de ti
era vivo em mim
está morto e sepultado
apagado  até à eternidade
Se no fim dos meus  dias
 vieres ter comigo por qualquer motivo
encontrarás  a porta entreaberta;
Não por ti nem para ti
Mas se quiseres te despedir de mim...
Nessa altura vamos ser diferentes
sem o pretérito a incomodar os egos
Já sem tempo para  ressentimentos
pueris, estúpidos, raivas abrasivas
Velhos ódios bafientos
Suponho  que esse monte de sujidade
terá perdido aqueles odores nauseados
e insuportáveis
A tralha   inutilizada
deve  ser definitivamente abandonada
Nós, mudados por dentro;
mais generosos, mais humildes
menos ácidos, menos aborrecidos
Arrependimentos confessados
dentro de nós surja algum bom fundo...
Ou de nada, a vida, terá válido





quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Confissões de Mulheres&Mães

 Viúva, cinco  filhos, frequentei a instrução primária com imensa dificuldade, devido às minhas limitações, no entanto,  estive sempre  atenta ao que se passava à  minha volta, ao que me aconselhavam e narravam, mais tarde, mesmo depois de velha,  aprendi igualmente  com os meus filhos, foram  uma segunda escola para mim.  Em nova tive que me   desenrascar e  estar  preparada para o mundo do trabalho. Gostei de ser útil  na minha profissão; para os meus e para fora.    Procurei  fazer o melhor  que sabia e  exigiam de mim e  ficava  a par das novidades através das revistas da altura.

 Lamento a  infelicidade de ter sido  marginalizada,  um tratamento desigual  por não ser  inteligente, não  possuir  os tais atributos físicos, que nos dias de hoje, continuam cada vez mais em alta,   todos ambicionam a beleza exterior, a interior, poucos pensam nela. Sou baixa, roliça e senti na pele os risos de troça, as alcunhas...tudo isso!
O meu marido, foi o oposto de mim; estatura  acima da média, manteve-se  elegante  até partir deste mundo, nunca o vi de outra forma; magro ou muito magro, aquele   olho azul mar espantoso, aqueles lábios grossos...Naquela altura não me cansava de o contemplar. Sempre asseado e cheiroso,  tinha cuidado com o seu aspecto, as unhas das mãos e dos pés cortadas e bem limadas, os  pêlos do nariz, e das orelhas não espetavam  para fora, e as sobrancelhas aparadas. Há homens com arbustos por cima dos olhos, o que lhes fica imensamente mal, não custa nada endireitar. Fazia a barba com frequência,  aquele rosto sempre impecável.  Aplicava brilhantina no cabelo negro e penteava-o  para trás e dava-lhe  uma boa apresentação.  Ele era bonito e conservou a sua beleza até ao fim. Casei aconselhada pelo médico,  devido a ataques e  convulsões  que me assaltavam amiúde. Comecei a namorar o pai dos meus filhos nos bancos da igreja; primeiro, troca de olhares, depois encontrava-me com ele no adro e aí  já havia tentativa de introduzir conversa, ele era muito fechado, mais tarde acompanhava-me a casa, ou esperava por mim lá na porta. Não falávamos muito, apenas diálogos curtos mas encantadores. Eu derretia-me toda com aquele jeito tímido e cabisbaixo. Com o tempo,  começaram os desabafos sobre a sua vida familiar e eu sobre a minha.  Sinal  que ambos confiavamos um no outro  e isso fazia-me apaixonar ainda mais por ele e vice versa.  O meu marido apesar de ter, tal como eu, a instrução primária,  era um homem  muito inteligente  e muito dedicado ao trabalho.
Não conheci outros rapazes, apenas aquele. Quando ficámos noivos, começou a mostrar outras facetas que até então desconhecia, proibiu-me de usar saia acima dos joelho,  blusas sem manga ou decote, nem um baton nos lábios,   tinha apenas autorização para continuar a costurar mas sair de casa, nem pensar, apenas para o estritamente necessário, só  em caso urgente. O meu lugar?  Confinada às tarefas do lar. Submeti-me à  vontade dele, esperançada  que com o casamento acontecesse uma mudança .   A cerimónia  foi marcada  para de madrugada, mais uma vez, por decisão dele. Fiquei triste, um casamento celebrado  às seis horas da manhã ,  sensação estranha  ... talvez não quisesse que ninguém nos visse. O casamento descobre  tormentos; tudo muito encoberto. Subitamente, o meu falecido marido mostrou nitidamente que o seu espírito de monge não se encaixava no papel de marido.

Ele queria viver longe de  tudo e de todos, num deserto.  A ideia seria ter filhos  junto de mim, sem instrução, descalços,  bocas famintas, babosos, ranhosos, a fungar, a pele arranhada e maltratada... Para poupar?!  Quando comecei a escutar isto, arrepiei-me, assustei-me deveras, comida a lenha?! Com que espécie de homem tinha eu casado? Um eremita? Socorri-me de  uma irmã e desabafei com ela. Que poderia fazer? Enfrentá-lo sozinha ? Com que armas? Não tinha genica!  Ele prometia que me batia, usava frequentemente violência verbal para me intimidar.  Quando levantava aquela voz de trovão, as paredes tremiam, eu  tentava argumentar até  certo ponto, depois disso calava-me. Temia que passasse à ação. Cada vez mais aproximei-me de minha mãe, já viúva na altura  e da  minha irmã mais nova, ambas a viverem na mesma casa. A minha irmã,  marcada por um divórcio que lhe  tinha caído mal. Havia  visitas nossas  periódicas  lá a casa. O meu marido nutria pela minha querida e saudosa mãe um grande  respeito e  muita  admiração. Quando  ela  faleceu percebi que tinha perdido uma âncora, perdi o meu sustento emocional.  Já que a  minha irmã ficou só,  para me defender melhor  das investidas dele,  convidei-a  a viver na nossa casa. Ele   detestou a ideia porque conhecia-a bem e sabia  que ela era diferente de mim. A princípio até me senti amparada. Ela fazia-lhe frente e media forças com ele, não permitia que ele se sobrepusesse nem a ela, nem  a mim. Cedo compreendi que havia um preço a pagar; a minha família  já não me pertencia.  Ela  reinava dentro de casa,  decidia sobre todas as coisas.  Ele calou-se, eu apoiei-a. Os meus filhos foram à escola pelo pulso dela. À medida que surgiam situações; ela na dianteira , eu nas traseiras. O que me frustrava  era sentir que  os filhos já não eram meus,  nem do pai, eram dela, só dela.  Deixei de ser  mãe  para voltar  ser a  criada.  A minha irmã  proveitou-se das minhas fraquezas para ganhar uma vida que até então não tinha conseguido. Julgo que nem eles saberiam de qual das duas deveriam amar mais. Os conflitos começaram a aumentar de volume  porque ela era muito autoritária e tratava com desdém  uma das minhas filhas.  A casa de minha mãe  foi finalmente vendida e a herança distribuída pelos vários filhos,  o que me revoltou foi  ela   ter ganho mais duas heranças além da sua,  de outros dois irmãos. As  duas que recebeu eram-lhe destinadas. Eu  respeito mas  podia  divididir um bocadinho comigo. Fui  sempre a irmã  pobre, ela, a irmã rica. Tudo,  em parte para fugir ao marido e à vizinhança que era péssima. Não esqueço o quanto devo à minha mãe. Foi a pessoa que mais me compreendeu, não  tenho dúvidas que mora no céu,  era uma excelente pessoa  para todos; família,  vizinhos, amigos, conhecidos. Apesar de tudo, a minha irmã foi uma mais valia mas as heranças deram-lhe  a volta à cabeça ,   mudou muito, tornou-se impossível, o que antes nos unia, agora,  até isso nos separava. Fiquei sem aliada, naquela casa ninguém se entendia. Foram anos de verdadeira  guerra. Tornou-se amor e ódio.  Não nos suportavamos uns aos outros.    Passei a ser rotulada pelos dois de invejosa, desajeitada e por aí abaixo...  E onde vivia  ela ? sob o nosso  teto;  cama, mesa e roupa lavada. Nunca experimentou  ser independente.

Depois, foi estudar e trabalhar fora, viajar, divertir-se com os meus filhos, conheceu um homem depois da idade, ia passar o seu mês de férias com ele,  mas   regressou sempre para nós . Ao fim de dez anos, o arranjinho acabou tal e qual uma bola  de sabão. As relações são assim; arrefecem, enfraquecem  e morrem.  Quando os meus filhos, eu e ela saíamos, o meu marido recusava-se a acompanhar-nos,  eu aparentava ser  viúva,   ou divorciada.  Ele só  saía de casa para trabalhar de forma incansável, tudo  para sustentar a família, nunca nos faltou refeições à mesa, foi sempre um trabalhador honrado e honesto,  eu ajudava com a costura até ao momento em  que adoeci da minha cabeça.  Nem sei explicar; sentia-me angustiada, aborrecida, tornei-me sombria, sem remédio .  Entristecia-me perceber que os meus filhos preferiam  a tia, ela sabia seduzi-los; era a irmã mais vaidosa, a mais  bem falante, rodeada de amigos, conhecidos e havia quem imaginasse que   ela era  a mãe deles.  Ah, francamente! Chegou uma altura em que saturei daquela vida de  clausura e fui firme, desabrochei  e comecei a sair também, a ir ao café, o meu marido criticava-me severamente porém  deixei de me  importar com isso, ao princípio sozinha, sem a companhia deles, de nenhum filho. Sentiam  vergonha de mim, eu era o oposto dela; nesta ocasião já me vestia  melhor, no entanto,  viam-me como uma tonta, sem o brilho dela, sem  aquela  lábia, eu, uma atrasada mental a tentar sair da concha numa idade tardia. Os dois... ai aqueles dois,  irmã e  marido   haviam-me  empurrado para aquele isolamento. Depois,  a partir dali,  cada um saía só; eu, o marido e ela.   Os filhos tornaram-se  independentes, no entanto,  visitavam-nos regularmente. Então, essa filha, aquela que foi rejeitada por ela e por todos nós,  acompanhava-me para todo o lado,  já me perdia  na confusão das  ruas, já  não era  capaz de caminhar sozinha, essa filha  nunca mais me abandonou. Os outros também não.  Por isso  tenho um  orgulho infinito neles .Fui piorando,  surgiram outras complicações de saúde,  tornei-me  incapaz , fui hospitalizada em  muitas ocasiões; sempre amparada pela filha e pela irmã, que também envelhecera e já não conseguia ser  a mesma,  eu restabelecia, começavam as farpas espetadas da parte dela e da minha, sol de pouca dura... Não havia forma de melhorar o  ambiente entre nós, uma desgraça.  Contaram-me que certa ocasião, o meu marido vergou e pela primeira vez, verteu   lágrimas ao ver o meu estado. Apesar  daquele manicómio,  provocado por nós três,  o meu marido , eu e a minha irmã fizemos muito pelos filhos, semeamos tudo o que conseguimos semear e por isso hoje, estamos a colher. O que eles  censuravam em nós eram as sucessivas discussões, por tudo e por nada havia  gritaria, não lhes retiro a razão.  Quando ele  adoeceu gravemente e faleceu , ficamos as duas e aí foi novamente medonho, ela gritava comigo, eu gritava com ela. Pareciamos duas loucas numa disputa enorme e assustadora. Podíamos  nos acabar ali...

Ainda assim, ela saía de casa, toda coberta de luxo, com aquele ar empertigado,  apesar de já aparentar um desgaste  evidente, senhora de si, ia passear e eu ali,  impotente, remetida à prótese que me tinha travado os movimentos. Ela troçava muito de mim,  dizia-me coisas que... Deus sabe como feriam ... eu também lhe respondia, não era santa. Logo a seguir  cobria-me um manto de tristeza e as memórias   de antigamente... Não tinha que me submeter às provocações dela, ser novamente mal tratada,  depois de velha e doente, não se admite! Criava  coragem e respondia de forma igual! Descemos ambas ao inferno. Alguns anos depois,  ela  adoeceu , depois disso acalmou mais,  ficou em pior estado que eu,  apesar de ser  mais nova. Tudo foi perdoado,  ela  perdeu a  fala, coitada,  foi-se a genica,  encontra-se  presa à cama e eu aqui sentada. Uma ao lado  da  outra. Confesso, gosto da companhia dela. Sinto muita pena  que seja desta forma, o que se há-de fazer?  Finalmente sou aquilo que me caracterizou e andou perdido a vida inteira : posso ser alegre e divertida, faladora e simpática, dizem que sou muito inteligente, quem diria?  Eu nem sabia! Neste momento  é permitido dizer o que me apetece , sem freios, sem vergonhas, sem medos, sem entraves, sem críticas maldosas.  Os meus filhos não proibem, pelo contrário,  estimulam, nem eu, nem ela  pesamos nas vidas deles,  nenhum se queixa,  sinto- me amparada e amada, temos um lugar e um espaço,  estou em  paz e sinto leveza...  A grande mágoa;  gostaria que tudo tivesse sido  diferente;  sermos mais amigos uns dos outros , no entanto,  faltou o mais importante; o  respeito. O legado? Infelizmente os filhos imitaram-nos,  não se dão uns com os outros! Os cinco de costas voltadas. Daqui para a frente, seja o que Deus quiser, enquanto ela aqui estiver e eu... vamos vivendo, eu pelo menos continuo  a viver e a querer viver, a morte já me rondou diversas vezes  ao longo da minha  vida, penso que Deus achou que não  era a minha hora  e Deus tem  as suas razões que eu aceito.  O que não vivi antes, vou aproveitar agora  e isso faz de mim uma pessoa  mais feliz. O passado? está definitivamente esquecido e enterrado. E quando partirmos que seja, ela na sua cama e eu aqui sentada. Acenamos uma à outra, atiramos beijos com a ponta dos dedos e fechamos os olhos , um anjo há- de vir ao nosso alcance e guiar-nos céu fora, nós de mãos dadas, eu arrastando-me ao lado dela e  minha mãe à nossa espera...


 

domingo, 7 de janeiro de 2024

Conto de natal

 

Paro às portas de uma mansão

Sobre o telhado do primeiro andar
 debruçadas das janelas, 
as  flores escorrem secas  e  murchas;
 algumas pretas e feias, outras  magricelas
a exalar um cheiro nauseabundo
Nem sei descrever a sua espécie...
Quem serão as gentes dali ?
Os meus olhos percorrem a fachada e eis que;
Por detrás da vidraça surge
ao centro
uma rapariga  de expressão
tristíssima,
cinzenta outonal
Por detrás da outra vidraça,
a da direita, há um rapaz
de camiseta sem mangas
a  exibir o  conjunto superior musculado
e  sorriso
malandro colado nos lábios,
 pose relaxada e sensual
Na  janela superior,  sobre um telhado  de dimensões diminutas,
surge  outra  rapariga
talvez a mais velha;
rosto enxovalhado
sobrolho carregado
 com olhos  aborrecidos
O rapaz abre a vidraça e inclina
o tronco para a janela  da  mais velha:
- Assim está muito melhor!
- Cá para mim, uma maravilha!
- Fazes a tua vida aí e eu a minha, aqui
- Nós não nos entendemos...pois não?
- Ui, há muito tempo!
-  Enjeitada,  não estás melhor assim? - o rapaz refere-se à do meio
A do meio, de  vidraça aberta  não responde
- Sim, tu, óh tontinha! Estou a falar contigo...
- Eu sou a filha que a mãe gosta mais! - declara a mais velha
- Lembrem-se  que sou o predileto dela por ser o mais novo, por ser o único  macho. 
- Mas eu  sou a mais querida, a primogénita! Ela repete-o vezes sem conta!
- Então, divides o pódio comigo?
- Naturalmente que sim!
- A parva do meio não entra nisto, fica de fora! - acrescenta a mais velha
- Ninguém da família gosta dela! - remata o rapaz mais novo
- Somos os mais importantes! Ela é coisa secundária! - responde  com desdém
- Estás a ouvir, cara de aborto  mal parido!- ridiculariza
- Que importa o que digam? Eu sei o que a mãe sente por mim!
- E o que é que a mãe sente por ti? - o rapaz troça
- A mãe ama-me! - responde a do meio
- Tu nasceste  num asilo, a mãe foi lá te buscar! Nem pertences a esta família!
- Vocês  os dois são maus! - declara
- O quê? Eu sou santa! Estás enganada, rapariga!
- Coitadinha da enjeitada  veio por engano, não devias ter nascido, entendes? - o rapaz berra em plenos pulmões 
-  Sei que a mãe me ama!
- Ama-te como a nós? - pergunta a mais velha com  sarcasmo
- Sei que não...
- Ah! Então temos razão! Nem a mãe faz disso segredo! - esclarece  o rapaz
- No entanto,  a mãe não me maltrata, tem preferência por vocês os dois, mas no  coração dela há um  espaço reservado só  para mim. - remata convicta
- Ahhhhhhhh! - ela confessou-te isso assim!? - o rapaz  exclama divertido
- De vez em quando confessa que ama os três de igual modo e trata-me por minha querida ou muito querida,  sinto! - conclui a jovem do meio
- Mentira! - brada o rapaz irritado - Sabes parva, estamos quase no natal e haverá prendas, eu vou receber das melhores marcas, as mais caras  e tu ficas com os sobejos, os restos...
-  A mim também me há-de chegar do bom e do melhor! - esclarece a mais velha
- Vou ter direito a alguns pertences do avô - explica  a do meio
- Como?! - vociferam  os outros dois.
- Sim, o diário, os cadernos, as canetas e os outros objetos, a mãe vai passar para mim! Porque tem a certeza que ficarão bem entregues .
- Espera aí,  eu coleciono antiguidades  e ela não me falou de nada?! - desabafa frustrado- a mãe não refletiu bem, nem nos consultou! Isso não pode acontecer!
- Que te interessa? Não tens estimas por nada! - adianta a do meio
- Que queres dizer com isso?  Estás a irritar! Raios te partam!  - diz o  rapaz   assoberbado, ela tem de nos consultar primeiro se concordamos com isso ou não!
- Tu não zelas as coisas, queres mas não tratas bem!
- Que parvoíce é essa? - pergunta  a espumar  raiva
- Deixas as coisas amarfanhadas, o teu quarto é o reflexo da tua desarrumação interior! - remata com convicção
- Mas que observação estúpida,  já vou aí ter contigo!
- Calma, não precisas  de te  enervar! - assusta-se a do meio
- Oh!- exclama a mais velha - ei, que está  acontecendo aí? - debruça-se sobre o parapeito da janela e vê a do meio ser atirada pela janela  e o rapaz surge a observar o efeito do que tinha acabado de fazer.
- És louco?  que fizeste?
- Que queres?  armada em santa?
- Ela deve estar morta, não percebes a gravidade disso?!
- Chegou-te uma peninha agora, como se gostasses muito dela!?
- Entre não gostar e ser criminoso vai uma diferença abismal! Eu jamais faria isso,  um gesto desses!? Por favor!
- Logo tu que também maltrataste a desgraçada, que odiaste-a, que invejaste-a!
- Que horror! Nada disso, tínhamos pontos de vista diferentes, apenas isso, não inventes.
- Hipócrita! -berra no auge da irritação - bandida!  Agora faço-te uma visitinha !
- Tem vergonha e chama uma ambulância, pode ser que ainda esteja viva!
- Como se tu te importasses minimamente com o destino da triste! Então liga tu e  chama a ambulância!
- Eu não, chama tu, foste tu que a empurraste !
- Tu és igual a mim, a diferença é que a  mataste lentamente, em fogo lento! Qual a diferença?
- Tirar a vida dessa forma, nunca! E vais preso!
- Cala-te ! Vou aí!

- Podes vir que a porta está trancada à chave! - remata irónica
- Qual é  o problema? Eu arrombo! - responde endemoniado
O rapaz  derruba a porta  com vários golpes de pés, mal irrompe o quarto da mais velha,  repentinamente leva uma  paulada forte na cabeça,  fios de sangue correm da cabeça para o rosto e pingam sobre o peito, tropeça e cambaleia, rola  sobre o chão mas volta a erguer-se com esforço e muito pálido.   A  mais velha  atinge-o  de novo com força nas  costas  o rapaz torna a dar passos incertos em direção à janela e agarra-se  ao parapeito, a arfar de dor e a tossir,  ao ver  que a mais velha se prepara para atingi-lo de novo, num último esforço atira-se  pela janela mas agarra a mais velha que  cai  com ele . Escutam-se gritos horrorizados de ambos e os dois despenham-se lá em baixo onde jaz o corpo da irmã  do meio. De repente sinto-me rodeada de um grupo de pessoas que assiste à tragédia  e ouço as sirenes da polícia e das ambulâncias.

( texto inspirado no conto de Eça de Queiroz- " O tesouro " )