Estava a chover lá fora e chover no meu coração. Sem ser Primavera , sem ser Outono, sem ser Inverno, as minhas lagrimas escorriam em fios delgados e estreitavam ainda mais como canais sem margens, interrompidos pela linha do queixo, esmorecendo colo abaixo. Em pleno estio, tempo estranho, mudanças repentinas, tal como nós, iguais em tudo a nós que o deixámos assim, nós, parados, tão distraídos e não passámos de uns deslumbrados consumistas , não resistimos ao apelativo, babados, olhos fixos e maravilhados para rótulos coloridos, embevecidos pela panóplia que o virtual oferece para poluir a nossa própria vida. Os deuses terrenos tiram proveito das nossas fraquezas, e assim, aprimoram cada vez mais ardilosamente as suas técnicas de sedução.
Os passageiros entraram, não os encaro, para que nem vislumbrarem a intimidade dos meus olhos sofridos. A chuva torna -se robusta, mais grossa, mais espaçada e bate no vidro como dedos a chamarem por mim. Para onde quer que vá, levo a minha dor. São saudades ... a reta final foi tão breve, tão veloz, num pestanejar momentâneo . Nem deu tempo de buscar consolo por entre os lençóis da cama. A cadeira de rodas parada no canto habitual do quarto, lugar fixo, onde os olhos verdes se distraíam entre o ecrã da TV e o azul do céu que entrava janela adentro. Deixou de se equilibrar nos passos aos noventa e três anos, uma artrose manhosamente inflamada veio se instalar no joelho direito.
Por ali, saltitavam passarinhos numa chilreada alegre, feito casa em forma de ninho, no cimo da árvore de flores rosa, plantada no quintal.
Nesta casa de três andares, no rês do chão, havia muita alegria, risadas, música,a espontaneidade da matriarca, única sobrevivente dos dez irmãos e dos dez cunhados, todos falecidos. Certas visitas deliciavam-na, o sentido de humor aprimorado, as respostas acertivas, as gargalhadas acesas numa escala ascendente ( ULALÁ ), deve ter ficado gravado nas paredes do quarto, da sala. Os diálogos prolíficos, as questões pertinentes, o interesse por saber das coisas. Fazíamos-lhe testes à memória e não falhava nada. Afinada e contente!As coisas mais simples da vida, faziam-na feliz, nunca foi preciso muito. Um elogio aos cabelos, aos olhos, ao vestido, aos filhos, as prendas em momentos especiais, um carinho, um afago e soltava uma gargalhada contagiante que conquistava todos. Era devota da Senhora de Fátima e procurava privacidade na hora de quotidianamente rezar o terço. E de forma ainda bem lúcida, indicou aos filhos o cemitério onde gostaria de ser sepultada, sobre ela, o manto de Nossa Senhora do Monte, que o seu túmulo fosse uma Campa, um retratinho para saberem que era ela que jazia ali, e que os filhos fossem lá rezar uma Avé Maria por ela. Cumpriram-se escrupulosamente as suas vontades. Foi, é e para sempre será a nossa rainha, uma rainha admirável e muito sincera. Uma rainha que quanto mais me lembro dela, conheço-a agora, mais e melhor, descubro o que ainda não tinha descoberto, talvez a distância venha auxiliar. Quanto à medicação, uma série deles, uma farmácia dentro dela, alguns de dimensões consideráveis, e deglutia, sem mastigar. Nunca foi necessário partir ou reduzir a pó. À pergunta habitual após uma porção de água se já tinha descido. Respondia brandamente, já foi.
As viagens de autocarro que fizemos ambas aos Açores, na casa anterior, sentadas, assim, deleitadas. Que imaginação fabulosa! Os passeios ao fim de semana, muito lhe agradavam, mesmo a coxear esperava religiosamente pela minha visita de fim de semana, para eu estender o braço e apoiada em mim, lá íamos, e cada coisa que via, admirava, falava, descrevia, adorava chegar à curva, na continuação a rua descia, e subia, ficava debruçada sobre o muro que ladeava a casa grande, com um jardim, a árvore frondosa a meio, dava sombra em dias de calor, parávamos ali, era vida que respirava com gozo, sabia de cor os nomes de quase todas as flores, por isso demorava-se , até não poder mais. Na vez seguinte repetia tudo de novo,como se fosse a primeira. O grande martírio eram as terríveis insónias, inquitevam-na severamente e assombravam muitas das suas noites, indisponha quem estivesse ao lado porque falava quase sem parar e mexia-se, colava as palmas das mãos e rezava só para si, a Nossa Senhora de Fátima para lhe dar sono, quando me aproximava para vê-la , queria falar comigo, queria rir, dar gargalhadas, já que não havia forma de adormecer. A demência tinha destas e outras coisas mais sérias, nunca Alzheimer. Apesar disso mantinha o seu sorriso habitual. As cirurgias chegaram aos cinquenta anos, um tumor benigno nos ovários, aos setenta ou por aí, uma queda; fraturou o fêmur direito, é colocada uma placa para ajudar a caminhar, a se movimentar, felizmente ela própria com a sua força de vontade, saiu da cadeira de rodas e foi andando, apoiada por braços familiares. Nunca esqueci, uma enfermeira que nessa altura me disse que ela nunca mais voltaria a pousar os pes no chão, como se enganou redondamente. Aos oitenta, as cataratas estavam a cegá-la, nem ela se queixou, através da observação, percebemos e não permitimos. Quando começou a ver bem , foi uma felicidade.
A primeira perda; a morte do marido, aconteceu aos oitenta e dois, ambos com a mesma idade, depois, a senhora que cuidava dela, ao fim de alguns anos, teve de se ir embora, foi uma tristeza, após essa , vieram outras cuidadoras ,umas sem competência nenhuma, outras com alguma competência, um entrar e sair de gente impreparada. A penúltima andava sempre tão adoentada, tossia muito, escondeu o real estado de saúde, a proximidade com a matriarca foi inevitavelmente grande que acabou por lhe provocar a mesma doença, como se encontrava debilitada, venceu a morte. Foi negligência, falta de profissionalismo, falta de responsabilidade, uma falha imperdoável! Porque custou uma vida! É de extrema gravidade. A última, chegou mesmo à beira do fim e diz a matriarca para a cuidadora: Não vai ser a primeira, nem a última! Neste caso, foi. O que era admirável nela; a capacidade de se adaptar a muitas delas.
Nutria um particular afeto pela segunda casa, por ser maior, mais exposta à luz solar, uma vista ímpar, a cidade por baixo dos olhos. Um quintal grande e convidativo, aberto, os vasos com as suas florinhas que tanto amava. Um lugar mesmo para ela. Quando trazida para a atual casa, a carinha murchou , sem uma palavra de rabujice, de qualquer forma, uma pena sentida e cavada, novamente um entra e sai de senhoras que vinham ajudar a cuidar dela. No entanto, não se encaixavam ali. Tinha a companhia da irmã e dos filhos por perto, adaptou-se de novo a umas mais, a outras menos, entretanto, a irmã partiu, mais uma perda dolorosa e significativa. Sentia-se desacompanhada, então chamava vezes sem conta o seu nome. Onde estaria? a preocupação levou-nos a uma piedosa mentirinha, encontrava-se hospitalizada. Então onde estava a cama dela? Porque haviam retirado? O tempo passou, foi-se adaptando às novas pessoas que vinham e saíam, novo esforço.
No dia dos seus noventa e quatro anos não disfarçou a mágoa que cozia por dentro, tão forte, não condizia nada com o que conhecíamos dela em todos os outros aniversários. Era como se previsse que ia ser o último ou talvez sentiu que a irmã não voltaria a estar em família. Todavia,ainda se deixou provocar imensas vezes, e, foi capaz de fazer as suas festas esporadicamente. Lentamente, deixou de falar, de rir, de ter apetite. Após o lanche, da tarde, era a hora da grande nostalgia, uma nuvem espessa estacionava naqueles lindos olhos verdes, que se prolongava até ao jantar. Após o jantar, ficava sentada, à espera da hora em que a fossem depositar entre os lençóis. Quando era acomodada na sua cama, de repente sem ninguém esperar soltava gargalhadas e gritava de alegria o quanto era feliz e alturas houve, que foi justamente o oposto, gritava com dores. O habitual da grande matriarca consistia sofrer em silencio. Logo a seguir à manifestação de dor, ela dizia , já passou, já passou... Sofreu calada quando se gerou nas costas uma úlcera de pressão, que demorou meses e meses a cicatrizar , gemia quando a enfermeira lhe puxava o adesivo colado atrás .
Caminhei a seu lado durante anos, ofereci o meu braço para se apoiar, fui sua cúmplice em muitas ocasiões. Preocupei-me com o seu bem estar. A minha rainha deliciava-se com os banhos que lhe dava, sabia-me tão bem vê-la colocar as mãos em concha, à aparar a água do chuveiro, sempre com agrado. Quantas idas às urgências! trazia-a sempre comigo, de volta a casa, desta vez julguei que se repetiria o mesmo, não foi. Certa ocasião em que os olhos se mantiveram abertos, bem fixos nos meus, aproveitei a oportunidade e prometi que ia levá-la para casa, quando ela melhorasse, apertou-me um dos dedos. Sentiu-se confiante. Pela primeira vez eu sabia que estava a faltar à verdade, porém, como sempre, quis protegê-la e adiar qualquer sombra de preocupação, especialmente num momento tão delicado. Quando a Doutora propôs alta, precisei de um tempo para colocar em andamento a nova fase. O caso era delicado e quando procurei um lar para a internar, por necessitar de cuidados paliativos, responderam-me que não havia vagas! Mas listas de espera ?! O meu desespero foi quando me repetiram o mesmo, até naqueles lares que primam pela boa qualidade ! Fiquei a pensar, se existia uma lista de pessoas à espera, onde se encontrariam? Nos hospitais?! Quantas? Que estranho!? Entretanto, o quadro alterou-se e foi anunciado a previsão do fim. Recordei que alguns anos antes, uma médica fez três prognósticos errados, em três tempos diferentes , a família deveria preparar-se para o fim da matriarca, não aconteceu.
Estive sempre perto e presente todos os dias, observei tudo, até o que era preferível não ter observado, o estado das coisas, como correm, lança muita dúvida, a não ser que uma pessoa fosse mesmo muito ignorante. Ou cega, no meu caso, não pude fechar os olhos e pensei no mundo miserável em que vivemos que não sabe tratar os seus idosos, não sabe! E sabe cada vez menos! Que raio de mundo desinteressado do outro, não aposta nos mais desprotegidos, um mundo mentiroso, enganador, falsificador, maldito, um mundo desumano, perigoso, tudo isto sucede aqui, não é lá, distante, num reino sem rei, nem roque. Acontece nas nossas barbas, abaixo do nosso nariz! Quando os diabos se unem formam-se alianças e nasce o imbróglio. Mas a vida tem os seus meandros... A cobrança há-de chegar. Mais tarde ou mais cedo.
A viagem chegou ao fim , sem nenhuma companhia ao lado. Há muito que a chuva tinha cessado e o céu cobrira-se de cinza escuro