Há muito,muito tempo
despertara ,dia após dia
lentamente...
atravês de gerações inteiras
Gotinhas de Primavera resvalam
com prazer de se ferirem
na ramagem densa da árvore centenária
Os olhos verdes e húmidos
desdobram-se pelo horizonte além
desmaiam sobre o mar
Paira uma suave quietude...
E a luz pálida do sol
pestaneja preguiçosa
À distância um grupo de arbustos
sussurram num murmúrio doce e infantil
O voo incerto das gaivotas
desenha linhas verticais ,horizontais e oblíquas...
A velha árvore
vê
escuta
sente
e permanece em silêncio
Suporta as ventanias infernais
as tempestades ruidosas
A sombra bendita consola
nos dias escaldantes
Consente nas brincadeiras
traquinas das crianças
Escuta confidências
e presencia carícias de amor
trocadas por jovens adolescentes apaixonados
Acolhe e afaga o coração dos sem esperança...
Das mulheres viúvas inconsoláveis
Dos marginalizados e sem condição
Deleita-se quando se sentam a seus pés
saboreando os frutos luzidios e frescos que fecundou
O que mais lhe dói...
bem lá no fundo
é ser :
NEGLIGENCIADA
MUITILADA
MAGOADA
Por
Ignorância?
Estupidez?
Inocência?
Petulância?
Ganância?
Os sinos da capela repicam com veemência
as andorinhas escutadeiras
regressam
de viagens longínquas aos ziguezagues
As flores rompem no seu despertar
Uma cor juvenil cobre o planeta...
É a Primavera a acordar dentro de cada um
O eterno retorno à fecundidade!
Um pássaro cantarolando
num regorgeio
poisa num braço da árvore gigante
e segreda novidades e outros mundos distantes...
Desceve-lhe tudo minuciosamente
entusiasmado
como se fosse uma confissão
A árvore gigante e solitária
sente a seiva quente percorrer as veias
É a amálgama do desespero e da euforia
O desejo castrado do que jamais vislumbrou
Apazigua imediatamente a sede
tranquiliza-se
porque na aldeia
todos estão felizes
Os pinheiros esguedelhados e nostálgicos
agradecem numa prece religiosa o sabor da vida!
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