sexta-feira, 4 de março de 2011

Milorde

Pintura s/tela: acrílico e carvão.


- Milorde, está na hora de regressarmos…



- Tão depressa?!


- Convém voltar à base antes de anoitecer.


- Espera, antes quero que instales uma tenda.


- Isso é um pedido ou uma ordem?


- Ambas as coisas.


- Mas Milorde…é desnecessário...


- Nem mais uma contestação…


- Então é uma ordem. – resmungou o jovem oficial aborrecido e começou a executar a tarefa.


O lorde apoiado na bengala andou uns passos para a esquerda, apoiou-se no bastão, ergueu o rosto para o céu, respirou fundo e cerrou as pálpebras.


- Milorde, o senhor sente-se bem? – boquiaberto endireitou-se e parou de martelar.


O velho fidalgo baixou o rosto e encarou o mais jovem:


- Porque interrompeste a minha conversa com Deus?


- Que lhe dizia? – sorriu-lhe com um ar céptico.


- Tranquilizava-me…


- E como é isso?


- Através do vento, dos estalos destes ramos – a voz do fidalgo alterou-se, subiu de tom e erguendo o braço apontou para a densa folhagem das árvores – os cânticos das aves…o chiar, o palrar…estes sons maravilhosos, esta orquestra…entra-me nos ouvidos, estala-me o pensamento, povoa-me a alma, entende esta música?


O jovem oficial ficara imóvel e abrira a boca de assombro.


- Senhor, vamos regressar. – pronunciou amedrontado.


- Terminou a sua tarefa?


- Sim.


- Obrigado meu rapaz!


- Agora partamos…não tarda a hora crepuscular.


- Fizeste o meu abrigo.


O oficial voltou-se estupefacto:
- Como? Que quer dizer?


- Tu voltarás sem mim.


- Senhor, que lhe aconteceu?


- É aqui que quero terminar os meus dias.


- Mas a floresta está repleta de perigos, de bichos estranhos, de cobras…e não tem mantimentos para sobreviver?


- Não te preocupes comigo.


- É um suicídio! - replicou alterado


- Calma, não, não é, tenho os dias contados.


- Está doente?


- Sim, muito!


- E os cuidados a ter? Aqui não terá nada…


- Tenho Deus comigo. Prescindo de todos os outros cuidados. Não quero que me liguem a máquinas… nem preciso de mais nada.


- Milorde tem a certeza do que diz?


- Absoluta!


- Devo voltar sozinho?


- Sim, rapaz!


- Que devo dizer aos outros?!


- Que a minha vontade está escrita em testamento.


- Custa-me imenso deixá-lo aqui…ou terei de levá-lo à força?


- Não, não cometa essa loucura, respeite a minha vontade.


- Tudo isto é um absurdo…um completo absurdo!!!


- Para si pode ser, não para mim.


- E quando sentir fome e sede?


- Não demora nada, deixarei de sentir tudo… agora deixe-me abraçá-lo e agradecer-lhe a confiança, a dedicação e o trabalho.


Abraçaram-se comovidos:


- Foi como um pai para mim.- a voz saiu embargada


- E para mim um filho. Agora vá, vá depressa para não se perder no caminho.


O oficial fez a continência, bateu as botas, aprumou-se todo mas os olhos encheram-se de lágrimas. Rapidamente limpou o rosto, encheu-se de coragem e numa corrida veloz desapareceu na mata.