Pintura s/tela: acrílico e carvão.
- Milorde, está na hora de regressarmos…
- Tão depressa?!
- Convém voltar à base antes de anoitecer.
- Espera, antes quero que instales uma tenda.
- Isso é um pedido ou uma ordem?
- Ambas as coisas.
- Mas Milorde…é desnecessário...
- Nem mais uma contestação…
- Então é uma ordem. – resmungou o jovem oficial aborrecido e começou a executar a tarefa.
O lorde apoiado na bengala andou uns passos para a esquerda, apoiou-se no bastão, ergueu o rosto para o céu, respirou fundo e cerrou as pálpebras.
- Milorde, o senhor sente-se bem? – boquiaberto endireitou-se e parou de martelar.
O velho fidalgo baixou o rosto e encarou o mais jovem:
- Porque interrompeste a minha conversa com Deus?
- Que lhe dizia? – sorriu-lhe com um ar céptico.
- Tranquilizava-me…
- E como é isso?
- Através do vento, dos estalos destes ramos – a voz do fidalgo alterou-se, subiu de tom e erguendo o braço apontou para a densa folhagem das árvores – os cânticos das aves…o chiar, o palrar…estes sons maravilhosos, esta orquestra…entra-me nos ouvidos, estala-me o pensamento, povoa-me a alma, entende esta música?
O jovem oficial ficara imóvel e abrira a boca de assombro.
- Senhor, vamos regressar. – pronunciou amedrontado.
- Terminou a sua tarefa?
- Sim.
- Obrigado meu rapaz!
- Agora partamos…não tarda a hora crepuscular.
- Fizeste o meu abrigo.
O oficial voltou-se estupefacto:
- Como? Que quer dizer?
- Tu voltarás sem mim.
- Senhor, que lhe aconteceu?
- É aqui que quero terminar os meus dias.
- Mas a floresta está repleta de perigos, de bichos estranhos, de cobras…e não tem mantimentos para sobreviver?
- Não te preocupes comigo.
- É um suicídio! - replicou alterado
- Calma, não, não é, tenho os dias contados.
- Está doente?
- Sim, muito!
- E os cuidados a ter? Aqui não terá nada…
- Tenho Deus comigo. Prescindo de todos os outros cuidados. Não quero que me liguem a máquinas… nem preciso de mais nada.
- Milorde tem a certeza do que diz?
- Absoluta!
- Devo voltar sozinho?
- Sim, rapaz!
- Que devo dizer aos outros?!
- Que a minha vontade está escrita em testamento.
- Custa-me imenso deixá-lo aqui…ou terei de levá-lo à força?
- Não, não cometa essa loucura, respeite a minha vontade.
- Tudo isto é um absurdo…um completo absurdo!!!
- Para si pode ser, não para mim.
- E quando sentir fome e sede?
- Não demora nada, deixarei de sentir tudo… agora deixe-me abraçá-lo e agradecer-lhe a confiança, a dedicação e o trabalho.
Abraçaram-se comovidos:
- Foi como um pai para mim.- a voz saiu embargada
- E para mim um filho. Agora vá, vá depressa para não se perder no caminho.
O oficial fez a continência, bateu as botas, aprumou-se todo mas os olhos encheram-se de lágrimas. Rapidamente limpou o rosto, encheu-se de coragem e numa corrida veloz desapareceu na mata.
