sábado, 15 de setembro de 2018

"A miúda do café "

O "lugar" desta entrevista não é aqui.Há espaços meus, próprios para este tipo de publicação,  de qualquer forma, a pertinência do que é dito, apaixonou-me de tal forma que não resisti à tentação. Vale a pena ler! Faça isso!


- Qual a história desta canção?

ML- É a história de uma miúda que trabalha num café e acho que tem a ver um bocadinho com aquilo que nós vivemos, de imagem, aquela pressão da imagem, que nós temos que estar sempre espetaculares e fabulosas, com o cabelo arranjado e todas maquilhadas e todas produzidas e só assim é que parece que tens a atenção de alguém. Nós quisemos nesta miúda do café e o vídeo explica isso, é uma miúda normal que está a trabalhar, num dia normal e entra um rapaz que ela acha que é o James Dean, que está igual ao James Dean, ele não lhe liga nenhuma porque ela é uma miúda normal, como todas nós quando acordamos de manhã. Então ela decide arranjar-se e tornar-se a mulher que supostamente é aquilo que todas deveríamos ser e ele começa a vê-la e começa a ter algum interesse por ela. Isso não chega para ela. Então ela dá-lhe um grande “baile” e vai-se embora. A mensagem é, estarmos seguros daquilo que somos e não daquilo que aparentamos ser, eu acho que é mais importante; mais do que aquilo que tu tens e daquilo que tu aparentas, é o que tu és e isso não há maquilhagem que te disfarce.

Eu acho que tenho vindo a descobrir que não sou nada politicamente correta, portanto acho que há muita coisa que não está bem, e que tem de ser alterado, eu sou uma pessoa indignada com uma data de coisas, mas não sou revoltada, e não vou fazer nada? Quero fazer alguma coisa e apercebi-me disso nas letras que escrevo, imagina que a letra era triste, eu chegava ao final da letra, tinha de alguma forma acabar aquela letra com uma nota positiva e comecei a pensar sobre isso; isto é uma limitação a nível artístico brutal, porque há histórias que são só tristes, são só tristes e acabam ali. Não há nada, nem com pó perlimpimpim, de repente aquela história fica feliz. Há histórias que são só tristes. E eu tento de uma forma à Disney, dentro da minha cabeça, acabar sempre com uma nota positiva para quem me estiver a ouvir, porque eu acho que há sempre a possibilidade duma história triste virar uma história feliz.

Apercebi-me muito cedo que não tinha necessidade que ninguém me dissesse que sim. A única pessoa que tinha que dizer sim, era eu. Mesmo que o mundo inteiro me dissesse que não. Se eu acreditasse que sim, não havia ninguém que fosse mais forte, que tivesse um não mais forte que o meu sim. Não há e não me sentia menor, porque não estava a tentar ser ninguém. Porque não conseguia. Não estava a tentar ganhar nada porque é isso que eu digo aos meus filhos muitas vezes, eu acho que na vida não perdes, ou ganhas ou aprendes. Com dois filhos menores, os pais a trabalharem juntos, não é fácil mas consegues fazer as coisas. O tempo parece sempre pouco para tudo, exceto quando tu utilizas bem. A prioridade são sempre os meus miúdos e as pessoas que trabalham há minha volta sabem disso, há certas coisas que são regras. Eu não trabalho no dia de anos dos meus filhos. Há certas coisas, pela tua profissão ou pelos timings que eu não deveria fazer mas eu faço porque são os meus filhos, como tirar férias na pior altura de sempre. Eu vou tirar, porque eles não vão voltar a ter esta idade. Tens um maior volume de concertos mas tens que gerir e tens que pensar; são concertos, é óptimo, é a nossa vida, queremos mostrar a nossa música mas são os meus filhos, não há comparação possível. A minha filha tem 10 anos e tem aulas daquilo que ela quer, ela gosta de ginástica, gosta de dança. Está na idade de experimentar tudo, é nesta idade que se experimenta tudo, não acho que seja bom definir ou deixar que as crianças se definam quando são crianças e nós só temos uma vida, quem é que sou eu, mesmo que seja mãe dela para decidir o que está correto. Qual o caminho normal d'uma vida de uma pessoa? É fazer o décimo segundo ano? é  ir trabalhar? é  casar? é  ter filhos? Isso é definição de sucesso na nossa sociedade. O sucesso para mim não é isso.



Portanto, não é isso que passo aos meus filhos. Ter sucesso não é ter filhos, não é estar casado, não é sequer teres uma relação. O sucesso é ser feliz. Até podes estar a trabalhar e o teu trabalho é limpar lixo, o teu trabalho é estar sozinha, a tua vida toda a compor uma música no teu estúdio. Tu és feliz. És uma pessoa bem sucedida, que interessa se tens uma relação há cinquenta anos? Mas depois para os outros que não têm, os outros sentem-se uns falhados. Eu sou uma falhada porque não tenho uma família, não tenho filhos, tenho uma profissão que até nem gosto muito, se calhar adoro a minha profissão mas como não ganho muito dinheiro, os outros acham que eu não sou uma pessoa de sucesso. Porquê? É quase como tu perguntares a alguém, "- o que é que tu fazes?" -"Trabalho num café. " -"Ai é! Ah, está bem.”  Como se fosse....percebes?...

 Estive a falar com uma pessoa que tem um banco, tem montes de dinheiro e não faz nada daquilo que quer. Sabes porquê? Todos os dias tem que de ir trabalhar para não perder dinheiro.



Voltando à minha filha, ela tem aulas de muita coisa e quando ela decidir ser aquilo que ela quiser, até pode mudar aos trinta anos, aos quarenta e dizer; "- Olhe, Tirei estes cursos todos mas na realidade o que eu quero mesmo fazer é ser tratadora de golfinhos " "- Então vai filha".



Os meus filhos estão sempre a ver-me, eu acho que eles o direito de ter um descanso da mãe. Eu acho que a mãe que eles querem não é aquela que está a cantar e quando estou em casa nem quero mostrar-lhes nada do que eu fiz. " -Olha a mãe na televisão, olha a mãe a fazer isto"... Não quero!