- Qual a história
desta canção?
ML-
É a história de uma miúda que trabalha num café e acho que tem a ver um
bocadinho com aquilo que nós vivemos, de imagem, aquela pressão da imagem, que nós temos que estar sempre espetaculares e
fabulosas, com o cabelo arranjado e todas maquilhadas e todas produzidas e só
assim é que parece que tens a atenção de alguém. Nós quisemos nesta miúda
do café e o vídeo explica isso, é uma miúda
normal que está a trabalhar, num dia
normal e entra um rapaz que ela acha que é o James Dean, que está igual ao
James Dean, ele não lhe liga nenhuma
porque ela é uma miúda normal, como
todas nós quando acordamos de manhã. Então ela decide arranjar-se e
tornar-se a mulher que supostamente é aquilo que todas deveríamos ser e ele
começa a vê-la e começa a ter algum interesse por ela. Isso não chega para ela. Então ela dá-lhe um grande “baile” e vai-se embora. A mensagem é, estarmos seguros daquilo que
somos e não daquilo que aparentamos ser, eu acho que é mais importante; mais do
que aquilo que tu tens e daquilo que tu aparentas, é o que tu és e isso não há
maquilhagem que te disfarce.
Eu acho que tenho vindo a
descobrir que não sou nada politicamente correta, portanto acho que há muita
coisa que não está bem, e que tem de ser alterado, eu sou uma pessoa indignada
com uma data de coisas, mas não sou revoltada, e não vou fazer nada? Quero
fazer alguma coisa e apercebi-me disso nas letras que escrevo, imagina que a
letra era triste, eu chegava ao final da letra, tinha de alguma forma acabar
aquela letra com uma nota positiva e comecei a pensar sobre isso; isto é uma
limitação a nível artístico brutal, porque há histórias que são só tristes, são
só tristes e acabam ali. Não há nada, nem com pó perlimpimpim, de repente
aquela história fica feliz. Há histórias que são só tristes. E eu tento de uma
forma à Disney, dentro da minha cabeça, acabar sempre com uma nota positiva
para quem me estiver a ouvir, porque eu acho que há sempre a possibilidade duma
história triste virar uma história feliz.
Apercebi-me muito cedo que não tinha necessidade que ninguém me dissesse
que sim. A única pessoa que tinha que dizer sim, era eu. Mesmo que o mundo
inteiro me dissesse que não. Se eu acreditasse que sim, não havia ninguém que
fosse mais forte, que tivesse um não mais forte que o meu sim. Não há e não me
sentia menor, porque não estava a tentar ser ninguém. Porque não conseguia. Não estava a tentar ganhar nada porque é
isso que eu digo aos meus filhos muitas vezes, eu acho que na vida não perdes, ou ganhas ou
aprendes. Com dois filhos menores, os pais a trabalharem
juntos, não é fácil mas consegues fazer as coisas. O tempo parece sempre pouco
para tudo, exceto quando tu utilizas bem. A
prioridade são sempre os meus miúdos e as pessoas que trabalham há minha volta
sabem disso, há certas coisas que são regras. Eu não trabalho no dia de anos
dos meus filhos. Há certas coisas,
pela tua profissão ou pelos timings que eu não deveria fazer mas eu faço porque
são os meus filhos, como tirar férias na pior altura de sempre. Eu vou tirar, porque
eles não vão voltar a ter esta idade. Tens
um maior volume de concertos mas tens que gerir e tens que pensar; são
concertos, é óptimo, é a nossa vida, queremos mostrar a nossa música mas são os
meus filhos, não há comparação possível. A minha filha tem 10 anos e tem
aulas daquilo que ela quer, ela gosta de ginástica, gosta de dança. Está na
idade de experimentar tudo, é nesta idade que se experimenta tudo, não acho que
seja bom definir ou deixar que as crianças se definam quando são crianças e nós
só temos uma vida, quem é que sou eu, mesmo que seja mãe dela para decidir o
que está correto. Qual o caminho normal d'uma vida de uma pessoa? É fazer o
décimo segundo ano? é ir trabalhar?
é casar? é ter filhos? Isso é definição de sucesso na
nossa sociedade. O sucesso para mim não é isso.
Portanto, não é isso que
passo aos meus filhos. Ter sucesso não é
ter filhos, não é estar casado, não é sequer teres uma relação. O sucesso é ser
feliz. Até podes estar a trabalhar e
o teu trabalho é limpar lixo, o teu trabalho é estar sozinha, a tua vida toda a
compor uma música no teu estúdio. Tu és feliz. És uma pessoa bem sucedida,
que interessa se tens uma relação há cinquenta anos? Mas depois para os outros que
não têm, os outros sentem-se uns falhados. Eu
sou uma falhada porque não tenho uma família, não tenho filhos, tenho uma
profissão que até nem gosto muito, se calhar adoro a minha profissão mas como
não ganho muito dinheiro, os outros acham que eu não sou uma pessoa de sucesso.
Porquê? É quase como tu perguntares a alguém, "- o que é que tu fazes?"
-"Trabalho num café. " -"Ai é! Ah, está bem.” Como se fosse....percebes?...
Estive a falar com uma pessoa que tem um
banco, tem montes de dinheiro e não faz nada daquilo que quer. Sabes porquê?
Todos os dias tem que de ir trabalhar para não perder dinheiro.
Voltando
à minha filha, ela tem aulas de muita coisa e quando ela decidir ser aquilo que
ela quiser, até pode mudar aos trinta anos, aos quarenta e dizer; "- Olhe,
Tirei estes cursos todos mas na realidade o que eu quero mesmo fazer é ser
tratadora de golfinhos " "- Então vai filha".
Os meus filhos estão
sempre a ver-me, eu acho que eles o direito de ter um descanso da mãe. Eu acho que a mãe que eles querem não é
aquela que está a cantar e quando estou em casa nem quero mostrar-lhes nada do
que eu fiz. " -Olha a mãe na televisão, olha a mãe a fazer isto"...
Não quero!