sábado, 29 de setembro de 2018

O paraíso dos pinóquios



 A hora do recreio é sempre de grande euforia; risadas, gritos, berros, empurrões, ameaças de agressões, rasteiras, murros, correrias e também vasculhar sofregamente o objeto pequeno, cujo visor, seduz e atrai a presa mais firme.

Até que um espertalhão,
com ares de rufião
sobe um   palanque e toma a palavra em altos brados:
- Ei malta, atenção! Venham cá!
- O que é que tu queres, ó caramelo? - pergunta outra voz no mesmo tom.
Rapazes e raparigas, numa falácia de abelhas vai sucumbindo
aos apelos daquele que parece um dançarino vivaço:
- Calem-se, pá! Eu quero falar! - grita no auge da fúria.
- Então, diz tonto!
O outro, impetuoso, lança-se para baixo, a mão em punho cerrado:
- Repete o que me chamaste e quebro-te esses dentes rançosos, porco de merda!
Os outros agarram-no e puxam-no:
-Vai para o teu lugar, rapaz! e içam-no ao cimo do estrado de madeira.
Enquanto, cá em baixo, um outro:
- Não lhe ligues, ele é que é um  porco de merda. Agora que nos
representa, acha-se o máximo mas tem participações…
- Os professores bajulam-no e ele faz o que quer dentro da sala!
- Nem todos, alguns fazem participações, nem todos aturam aquele cabrão!  
Entretanto,
a onda de estudantes cede e chega-se  para mais perto do moreno:
- Ouçam! - de nada lhe valem os apelos, e entre dentes;
“grandes cabroes, filhos da puta...”
Chovem assobios, palavrões, risadas, conversas paralelas.
Apesar da proximidade, ninguém lhe presta atenção. 
Cá  de baixo, alguém atira um apito, ele agarra-o
e mete-o apressadamente nos lábios grossos,
o som agudo fá-los silenciar, alguns queixam-se dos
tímpanos.  O moreno espertalhão aproveita depressa
a brecha e apressa-se a dizer:
- É para comunicar que se aceitarmos as aulas de substituição vamos
ser premiados.  
- Nós não queremos aulas de substituição, antes de prostituição,
e se for com a prof. de  Ciências… ela também dá prostituição, não dá?
Novas risadas, a celeuma instala-se de novo.
- Medalhas? Diplomas? É isso? - berra outra voz.
- Ó rapaz, impõe-te, caraças! – uma voz censura o anunciante.
O moreno sopra o apito, novas queixas dos tímpanos.
- Calem, deixem-me falar! 
o prémio são telemóveis,  vídeos jogos, entendem?
- Sendo assim, já aceitamos essa porcaria de aulas mas
com uma condição,  terminadas as tarefas propostas,
nós  queremos brincar com os telemóveis. 
- Isso depende do professor de Substituição- esclarece o moreno.
- Eu não gosto da escola e muito menos de professores de substituição!
- E quanto aos vídeos jogos?
- Podem levar para casa ou usar na ludoteca! - explica o moreno.
- Era essa a novidade que querias dar? - grita um deles.
- E não é bom? - acrescenta o moreno.
- O bom, bom mesmo, era não haver mais aulas hoje! – e cai um  tumulto
clamoroso.
- Melhor que isso, era não haver mais aulas de nada! Ahhhhh! Fazermos o que nos
apetecesse.
-Sem mãe, nem pai, nem professores a mandar.
A vozearia tinha atingido o seu ponto máximo.
- Na minha casa quem manda é meu pai; tudo treme à frente dele.
Quando bebe, dorme, é um descanso. Depois acorda mal disposto. Ui, nem te digo nada.Bate em todos, fugimos de casa e de vingança parte loiça. Uma fera! É de loucos! Florido pá! No amontoado de alunos, o baixinho vai se expressando aos gritos para se fazer ouvir.
- Estás lixado, caraças! eu também estou, meu pai tem outras mulheres, até já  tentou matar a minha mãe com uma faca de cozinha, o gajo é  nojento. O meu caso está a ser analisado pela comissão de proteção de menores...
- Forca-se! Porra! Não te invejo a sorte!
- Os meus pais separaram-se quando eu era bebé. A professora disse à minha mãe
que deve ser por isso que sou como sou – pronunciou-se outro que ouvira a conversa.
- Como é que tu és?
- Sou bom aluno mas não me apetece estudar, notas baixas, se quisesse facilmente tirava cinco a tudo! O meu pai até já me comprou um carro para quando eu fizer dezoito anos.
- Mas os teus pais são ricos?
- Sim, somos uma família com dinheiro. 
Enfrentam-se os três em silêncio no meio daquela vozearia grosseira.
Subitamente, por detrás do aglomerado, abre-se a porta:
- Fujam depressa! Corram! A funcionária! - indica o moreno apavorado.
Disparam numa rajada de pássaros, ante o olhar estupefato da empregada que murmura para si mesma:
- O que é isto? Perderam a cabeça? Eu bem me parecia ter escutado  um ruído fora do normal, esta canalha! E consultando o relógio, continua:
- Ainda bem que está quase a tocar! Já vão entrar, não há quem possa com este tipo de pequenos. Qualquer dia meto baixa! Ai a minha cabeça!

PN 

(Inspirado em factos reais)

Nota : Se encontrar qualquer gralha, avise por favor. Obrigada.