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Segundo J.G.
O que me parece é que estamos já,
sobretudo nas sociedades altamente industrializadas, numa espécie de caos do
tempo. Eu lembro-me daquela famosa, célebre e conhecidíssima frase de
Shakespeare no Hamlet em que ele diz " O tempo saiu dos gonzos, o tempo
está fora dos gonzos." O que é uma frase absolutamente extraordinária pelo
que revela do conhecimento, que está fora dos gonzos. O tempo vive por si, saiu
daquilo que o domestica, é o que faz com que haja uma ordem da vida, é a
possibilidade de haver uma charneira que liga o tempo do trabalho e o lazer, que
os tempos de um e de outro possam coexistir. Quando há pouco tempo para o
trabalho, o trabalho começa a disfuncionar e não se pode combinar com o tempo
do lazer, com o tempo psicológico, com o tempo da família. Nós somos feitos de imensas camadas de tempo,
tempos heterogêneos, que entram em combinações e a possibilidade de combinar,
de traduzir uns nos outros e de os integrar numa vida, é que faz a ordem do
tempo. Quando o tempo sai dos seus gonzos isso desaparece.
Há uma experiência do tempo que é
sempre mediada pelo movimento das coisas, o tempo meteorológico, o tempo
astronômico, o tempo psicológico, o tempo da convivência familiar, da
convivência comunitária, o tempo político, o tempo da ação aventurosa, o tempo
do amor, o tempo dos afetos, etc. São todos tempos. A perceção que tenho é que nós vivemos num
tempo fora dos seus gonzos, em que não temos tempo para nada, em que
precisamente estamos sempre à procura de arranjar tempo para a família, tirando
o tempo ao trabalho, tirando tempo ao lazer...Não temos já essa tal ordem do
tempo. E isso é extremamente importante
porque é essa ordem combinada das diferentes camadas de tempo que dão sentido à
vida. Pode-se fazer uma descrição gráfica, do esquema, da ordem do tempo, que
dá sentido à vida e esse esquema está a destruir-se, a quebrar-se por todos os
lados.
Não é porque se é agnóstico que
não se pode admitir um tempo de eternidade, que não devemos confundir com o
tempo de imortalidade. A diferença é que imoralidade é a sobrevivência depois
da morte, a eternidade pode ser conquistada durante a vida.
A obra de arte é eterna mesmo se
os materiais forem corroídos e desaparecerem.
No que diz respeito ao presente e
passado, o que acontece hoje é que há uma destruição progressiva que dura já há
muito tempo, vem antes do séc. 19, uma destruição progressiva das tradições,
dos territórios onde estão inscritas essas tradições, essas que suscitam,
induzem comportamentos e ações. Tudo isso está a ser destruído fundamentalmente
por 3 fatores: Capitalismo, agora o capitalismo financeiro global, o outro é a tecnologia
e o desenvolvimento extraordinário da tecnologia e o terceiro é o poder do
estado. Poderíamos analisar, mas é evidente que nós vemos que a tecnologia se
põe ao serviço da ganância capitalista e esses territórios vão sendo destruídos
de tal maneira que os transportes são cada vez mais rápidos, não temos uma
relação com a terra e o território e o passado, por isso às tradições já não
contam. Por isso o peso dos costumes, de
uma moral, que vem dos antepassados já não pesa, há essa destruição... O
passado é arquivado e há arquivos excecionais como nunca tivemos, mas não temos
uma relação com o passado. Temos uma relação puramente de informação, nada é
revisto. O que vai sobrar, não sei. Que homem será este sem a construção da
memória? Não sei responder, implica
futurologia de que não sou capaz, não tenho controlo.
Não é imediato, mas vamos ter a
emergência de um novo ser humano que vai
ser para nós, irreconhecível porque nós
temos uma outra imagem do homem porque as técnicas, por exemplo: contra o
envelhecimento, contra a doença vão transformar completamente a nossa perceção e
a maneira de vivermos o tempo; imagine que conseguimos parar o
envelhecimento, com uma boa qualidade de
vida, aí a morte pode ser adiada ou não sei, de qualquer forma isso implica, uma transformação total da
nossa maneira de pensar as coisas, de pensar os processos de transformação
físicos que nós antropomorfizemos. Basta ver o que se está a fazer em relação
ao corpo, às próteses meio humanas, meio robôs, na nova economia de trabalho,
em que haverá uma mecanização extraordinária. A Acção não conta, já não é
sequer a desvalorização da acção, a acção do corpo não conta. Porquê? O que vai contar é o tempo que essa acção faz
nascer, que é fundamental, esse tempo é que é o tempo da respiração, esse tempo
vai desaparecer e então como é? A imagem do homem será irreconhecível, a imagem
do homem está em profunda alteração, mas não sei como será. Há outros factores,
futurologia, outro factor, para mim extraordinariamente importante, para mim e
para milhões de pessoas; as alterações climáticas, o que
está a acontecer ao planeta é decisivo;
em dois sentidos; ou nós fazemos qualquer coisa e isso implica necessariamente
uma transformação enorme do nosso pensamento e da nossa vida, se não fizermos nada e então? Não sei! A técnica em si não é má, o que me
parece e temos que destacar, estamos numa época de uma crise singular. Esta crise não é como as outras.
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Vou equacionar um terceiro termo,
o Ministério da Educação; é preciso que se dê tempo àqueles que não têm
absolutamente tempo, a inteligência dos responsáveis relativamente ao que isso
é. O que é uma troca entre um aluno e um
professor? O que é um professor? O que é
um aluno ? , etc., etc. É preciso que o terceiro termo pense e tenha
tempo porque não tem tempo.
A governação hoje em todos os
países é uma governação sem tempo, sem tempo para refletir, sem tempo para
saber o que é o ensino, o que é educação, etc.

