sábado, 4 de outubro de 2014

Ponta Afiada



 Alguém diz:
- Que criança mentirosa, sempre a inventar histórias!
Outro alguém acrescenta:
- É só para chamar a atenção!
Ainda  outro  remata:
- Não é para chamar a atenção mas à RELAÇÃO! E se a criança mente, aprendeu com quem a ensinou a mentir.
Os pais mentem, mentem muito, desdizem-se um ao outro mesmo na frente de um pequeno espectador, dão-lhe péssimo exemplo, porque a mentira alarga-se aos restantes familiares,  passa aos conhecidos e amigos e no local de trabalho, refila como uma planta do mal.
Quantas vezes a criança necessita inventar( recriar) cenários imaginários, imiscuindo realidade e ficção para suportar o quotidiano que a aterroriza, que a confunde,  que a devora, que a desvaloriza, que a desrespeita, que lhe retira a essência e  o vigor .
Estes pais assumiram um compromisso e não conseguem levá-lo a bom porto.  Como se não bastasse, fazem uma aliança, um pacto secreto , tirânico e diabólico; actuam incessantemente na mente da criança, à semelhança de como agem  os líderes fantasma   de al- Qaeda, quanto mais laboram pioram o comportamento, o aproveitamento escolar, alteram o  carácter e baralham  a personalidade da criança. São pais criminosos e desequilibrados.
Para quem julga o contrário; “coitadinhos dos abandonados à sua sorte”, desengane-se, os que fogem, os “patinhos feios”, os desordeiros, têm mais possibilidades de singrar porque não os obrigam a beber tóxicos, e se descobrirem ou forem descobertos no caminho, por gente capaz, gente com boa índole, gente saudável ou mesmo altruísta que adopta, pode ser a sua salvação. Cito o exemplo do Diogo Infante (vejam a entrevista em Alta Definição).

Essa história; “ Filho, obedece ao teu pai e à tua mãe” – pode ser uma frase assassina.   PN
Nota: Fotos retiradas da Internet

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Poema sem título


(Imagem raptada da Net acerca da vida das Ninfas)

Puseram-se em fuga
seres vagantes
fugidios errantes,
as vestes ?
velas pandas
sopradas na pressa da corrida
Foi na moita
ali…
que sem morosidade se despiram
impacientes ,
forma estouvada
Ósculos repenicados
na pontinha dos lábios;
depois mais longos, mais apertados
esmagados, frios, gélidos
risinhos à socapa …
No instante seguinte;
olhos nos olhos
semblante grave
é a linfa que arrebita
Bocas cobiçosas
ranhuras de mel
ou de par em par
sorvidas uma  na  outra
Línguas roçadas
bêbadas em festa
Dentes alvos e puros
Monumentos megalíticos;
Construção  dura, saliente
mais a   polpa, dentina e esmalte
Ciosos de cerimónias afagadas
Banquete assaz apetecido
Mãos quentes
sob as vestes percorrem uma e outra perna
É a falésia  a chamar almas
O peito sobe e desce mais pulsado
Cabelos esgaçados, puxados 
entre ávidos dedos…
Vagidos assomam da cave
do velho tronco centenário;
raízes amadas….
Montanhas assaltadas
mamilos eriçados e furtados
a habilidades mestres e macias, facilmente soldáveis
ao relento
d’uma qualquer tarde abrasiva;
o  pudor é silenciado
o  medo posto de lado
o pecado abre pernas desavergonhado
O ardor febril
Torna o assalto  à medida da vontade
pele roçada , esmagada , beliscada
 Há regatos abertos
filamentos  viscosos  de lava
escorrem morosamente
mel que se desprende do vazadouro
languidamante…
e é a boca que o vai chupar, lamber
o rosto lambuzar…
Há  rosas atrevidas
desprendidas ….
pintam  paisagem lascivas
constroem histórias
verbalizam numa linguagem despudorada
desfiles de fantasias ,
 loucuras a serem perpetuadas
no jardim das delícias.
PN



quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Mais um poema para si, caro leitor e amigo.



O homem pobre, escavado pela fome
abatido pela mão negra da sorte
estiolado,
a  crepitar de arrefecimento
a  boca sangrando…
Derrubado na berma da estrada
cenho ermo, frio
cinzento e
nos olhos,  o sol esquivado
Pensou alto:
- Não vale a pena continuar!
E eis que nesse instante
passa um jovem forasteiro a cavalo:
-Ouvi-te dizer que não vale a pena continuar?!
-Sim, já nada tenho a perder…
nada me resta…nada!
O forasteiro apoiou as coxas
no selim do animal
 esticou o tronco
espreguiçou-se, observou para lá do horizonte
e propôs:
- Vamos fazer um acordo, dás-me um sentido teu
e em troca cedo-te duas montanhas, concordas?
- Sim, sim, pede o sentido, o acordo fica já selado…
- Calma, reflecte, volto daqui a duas horas
e nessa altura terás decidido.
- Com certeza.
O forasteiro puxou as rédeas do corcel
e afastou-se a trote lento.
O pobre tornou a pensar  alto.
- Que sentido devo dar?
Deixa cá ver….já sei, entrego-lhe a audição, isso mesmo…
Não serve para nada…ou serve?
Nunca mais vou ouvir o meu cão latir…
nem a água do riacho a cantar…
nem o vento a assobiar ….
não me parece boa ideia.
Então, e se for o tacto?
Não serve de nada…ou serve?
Nunca mais sentirei  o pêlo do cão
que é tão fofinho…
nunca mais vou sentir a água nos dedos
nem tocar a terra quente
Ah, não sei se gosto disto…
não me parece boa ideia…não quero
Espera aí… ( coçou a barba um tanto embaraçado)
Só se for a visão… é isso mesmo.
Não serve para nada…ou serve?
À  noite quando o sono não chega
estendo-me  sobre a relva
molhada  e  conto as estrelas …
e agora já não vou poder apreciar
as garinas quando vão lavar roupa na  ribeira
em risadas de dentes alvos como a neve,
lindas de morrer…
nem mirar os seixos do fundo do rio….
nem pescar…com a cana afiada
nem apreciar os verdes, os castanhos
Sempre de noite e sem lua? nem estrelas…
Não!
Total escuridão? Sem a claridade do sol?
Basta, nem pensar!
Assim sendo, restam dois;
Ó paladar para que te quero?
Vais tu embora!
Não serve para nada…ou serve?
E o copinho de vinho tinto?
Que sabe tão bem na boca….
E as broas de mel…
que me dão a provar…
Coisas tão boas, doces e salgadas….
Fresquinhas, tenras, meio rijinhas
Que adoro trincar…
Ainda não vai ser este….
Tenho de me apressar
As duas horas vão mesmo escoar….
Vai ter de ser o cheiro…
Não resta outro… (levantou o chapéu, coçou a cabeça,
soprou contrariado)
mas, mas ,mas….
há odores que fazem festa nas narinas…
quando me chamam para entrar na cozinha…
o cheirinho da comida …hum…..
Ai o perfume das flores, das ervas, da terra molhada, seca
Seja  que odor  for….não, não não!
Que venha o forasteiro.
- Aqui estou, tens o sentido para me dar?
- Não, não tenho nada para te dar. Todos me fazem
uma falta danada. Sei que me vou arrepender se o fizer…
 Fim do acordo.  
- Felicito-te pela decisão tomada.
Um homem sensato e inteligente
Não foi por acaso que te dei duas horas,
tempo suficiente para ponderar
- E agora?
- Agora vive e pensa na riqueza que ainda tens! Queres vir comigo?
- Para onde?
- Para longe, para casa.
- Que farei lá?
- Serás meu ajudante nas tarefas caseiras e pagar-te-ei  por isso. Aceitas?
- Aceito! - declarou muito contente
- Então sobe! ( Estendeu a mão ao pobre e ajudou-o a montar o cavalo)



Esboço ilustrativo do texto poético)
PN

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Reveja-se se quiser

"Já não tenho paciência para algumas coisas, não porque me tenha tornado arrogante, mas simplesmente porque cheguei a um ponto da minha vida em que não me apetece perder mais tempo com aquilo que me desagrada ou fere. Já não tenho pachorra para cinismo, críticas em excesso e exigências de qualquer natureza. Perdi a vontade de agradar a quem não agrado, de amar quem não me ama, de sorrir para quem quer retirar-me o sorriso. Já não dedico um minuto que seja a quem me mente ou quer manipular. Decidi não conviver mais com pretensiosismo, hipocrisia, desonestidade e elogios baratos. Já não consigo tolerar eruditismo selectivo e altivez académica. Não compactuo mais com bairrismo ou coscuvilhice. Não suporto conflitos e comparações. Acredito num mundo de opostos e por isso evito pessoas de carácter rígido e inflexível. Na Amizade desagrada-me a falta de lealdade e a traição. Não lido nada bem com quem não sabe elogiar ou incentivar. Os exageros aborrecem-me e tenho dificuldade em aceitar quem não gosta de animais. E acima de tudo já não tenho paciência nenhuma para quem não merece a minha paciência."
José Micard Teixeira
Encontrei num blogue de uma amiga e trouxe-o para aqui, tem imenso sentido, até serve à minha pessoa... Que bom ! Desculpa não ter pedido autorização prévia. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Pare para Ouvir, Ver e Meditar

Livre Pensamento- Episódio 8 - RTP Play - RTP

www.rtp.pt
Maria do Rosário Vieira

Assista porque a Pedagoga coloca o dedo na ferida sem dó nem piedade. Fiquei encantada por saber que  afinal não estou só.

domingo, 17 de agosto de 2014

Daniela e o poeta


Sentou-se à secretária;
Gestos indolentes
folhearam o caderno de notas
Caligrafia quase ilegível
imperceptível
meio apagada
No percurso, alguma nota esborratada
outra rabiscada
ou levada pelo entusiasmo; rasurada.
Dedos curtos, níveos, papudos
Sólidos,
cegos tactearam as imediações…
ergueu o bloco.
Estalinho da língua no céu da boca
denunciou certa impaciência…
Levantou-se,
 analisou pormenorizadamente  cada canto do santuário,
as mãos semiabertas baixaram e tactearam os bolsos do casaco;
regozijou-se
A caneta; o achado da tarde.
Tranquilizou-se de novo e retomou a tarefa costumeira;
deixar correr a tinta sobre uma folha de mar….e nuvens a cavalgar
Embrenhou-se na floresta dos  vocábulos; ora densos , ora diáfanos… encharcados, húmidos, secos, tísicos…
Parou desnorteado;
borboletas saltavam
do prédio em frente e vinham ter com ele.
Algumas, laços brancos, outras, lenços a acenar…
Saltitantes, frescas, escamadas, azuladas,
esvoaçantes, calmas, atrevidas
Umas exaltadas, outras mais contidas….
Todas entraram janela adentro…
desvairadas,
agitadas…
Fizeram-lhe cócegas;
desmanchou-se em risos
puxaram a gravata
os bolsos das calças
desgrenharam-lhe a cabeleira grisalha e farta…
“Doidas”- murmurou  rindo.
Tanta mariposa de papel !
Um rancho delas …
Com o mesmo alvoroço com que tinham vindo, foram…
 Silêncio .
E os olhos dele ficaram pregados no edifício do outro lado da rua
 Os sons haviam cessado na escola de música… terminara a animação.
Ficou assim; alienado … até que avistou uma jovem a sair.
Seguiu-a, debruçou-se para a rua até vê-la desaparecer.
Ficou pensativo….
No dia seguinte permaneceu mais atento, no outro, no outro e mais o outro…
Dava-lhe um gozo tremendo vê-la chegar, vê-la partir… meio despida, meio vestida…
Jovial, feminina, descontraída… ora só, ora acompanhada …
-Rómulo, hoje temos visitas, não te esqueceste, pois não?
-Sim…não, é verdade…! - tartamudeou distante .
Sentado na cadeira, braços abertos
 dobrados pelos cotovelos,  apoiados no peitoril da janela
 e dedos entrelaçados, o queixo fincado no ponto médio do cruzamento das mãos anafadas.   
- Senhor doutor, o pequeno almoço já está na mesa.
-Sim? Obrigada, Vou já. – outra resposta  distante.
Logo cansou-se daquele deslumbre;
“ Hoje vamos nos encontrar!”
Um nervosismo miudinho tomou conta dele;
desceu as escadas a correr,
matreiro esperou que a garota saísse.
Havia muita gente na rua àquela hora.
Tomara que a mulher não o chamasse
nem a empregada o atormentasse.
Lá vinha ela; as short´s  não muito curtas
assentavam-lhe bem, a mochila ao ombro
a túnica rococó acompanhava o tamanho dos calções
Cabelos louros e lisos flutuantes, óculos de sol Ray Ban. Sandálias turcas
Bijutaria ao peito, nos pulsos, nos dedos….nas orelhas
Primeiro deteve-se  a  uma certa distância,
o resto  do mundo eclipsou-se… esfumara-se
Desesperado, simulou distracção fortuita e chocou com ela.
Alguns livros caíram, ele prontamente apanhou-os
e desculpando-se entregou-lhos.
A  jovem sorriu e o reflexo dos dentes alvos e simétricos
estontearam-no.
Atarantado convidou-a a tomar café.
Ela amavelmente rejeitou …outro dia…quem sabe
mas sugeriu-lhe que fossem até ao parque,
Ponto de encontro com alguém. ..
Perguntou-lhe logo o nome:
-Daniela.
Enalteceu o bom gosto dos  pais dela.
Apresentou-se com uma vénia:
-Rómulo, um admirador discreto e secreto.
A rapariga, de repente, em gestos sensuais libertou o rosto dos óculos
Rómulo fitou -a com pasmo e estupefacção; que semblante completo e fresco!
Os olhos ramalhudos, que perdição…, amêndoa avelã, ou ocre mel.
- Como bailarina deve ser excepcional!
Um jovem chamou-a e desfez-lhe a curiosidade de saber coisas… mais e mais ….
- Tenho de ir, Sr. Rómulo.
– Já?! Outro pormenor, trate-me apenas pelo nome, agradecido.
- Volto amanhã, encontramo-nos por aqui!
Atordoado com um raio de sol agudíssimo que lhe manchou a face
ou a promessa de voltar a vê-la
rodou nos calcanhares e o rosto voltado para o céu numa bebedeira de inspiração.
E passaram a encontrar-se com regularidade, ali, no parque
enquanto a jovem aguardava a chegada do mesmo rapaz.
 Foi assim durante  algum tempo, sob o sol e a chuva da mesma estação que trocaram impressões, riram, conjecturaram, desabafaram….
 Feitiço certeiro aniquilou a realidade do poeta
e deu a beber uma taça de cegueira pura.
Certo dia anunciaram:
- Senhor doutor, há um rapaz que lhe quer falar.
- Um rapaz? Mande entrar.
A senhora saiu sem fazer ruído e o jovem entrou
Rómulo, ergueu o rosto sem prestar atenção ao estranho,
atafulhava o caderno e a caneta dentro da gaveta.
- A que devo a sua presença?
Foi  quando prestou mais atenção que tudo nele  lhe pareceu familiar:
Alto, imberbe, olhos grandes e brilhantes
pele sedosa, cabelo médio,  
espadaúdo….descontraído
garboso… brioso
- Já nos conhecemos… ? questionou o poeta
- Sou o namorado da Daniela.
Rómulo pôs-se de pé num ápice;
- Que deseja de mim?
- É muito simples, ainda não se cansou de a tentar seduzir?
- Que insinua?
- Poupe-me ao seu cinismo, todos os dias no parque à espera dela, eu observo e vejo-o
como um animal a farejar a presa.
- Atenção rapaz, haja respeito, cuidado com a língua, sabe a quem se dirige?
- O senhor é que me deve respeito; não se meta na minha vida privada. A  Daniela tem apenas dezassete anos e é minha namorada. Podia ser um parente longínquo dela…um avô …
- Que história sem graça…
- Sei que é poeta de renome mas isso não me afecta, nem me compra por aí, as mulheres rendem-se e confundem o homem e o vate, tem fama , glória e o mundo aos seus pés…
- Está com inveja?!
- Não! Quantas vezes o que escreve nem se harmoniza com o que pensa, diz e faz…
-Não vou ser insultado na minha própria casa!
- A Daniela é minha namorada!
- Mas ela sente prazer em estar comigo…receia que a roube?
- Não tenho nenhum medo, conheço-a bem  e falta pouco para esses “encontrozinhos” terminarem. Ela simpatiza consigo, admira-o,  apenas e só, essa mania de erotizar tudo…
 como se todas as mulheres quisessem envolver-se consigo…
- Mas ela deseja-me, sinto isso!
- Velho tonto, não confunda  as coisas…
 - Rua, rua !- bradou de olhos esbugalhados
O jovem retirou-se e bateu a porta.
- Rua , desparece, fedelho nojento! Morde-te  de inveja, grande burro,
 não és nada, eu figuro na História, na intemporalidade
sou imortal e tu parvo? – praguejou  encrespado
- Senhor, que aconteceu? Está a tremer ! Já lhe trago água com açúcar.
Assaz perturbado, decidiu  que teria de falar com a rapariga o mais urgente possível.
Não seria qualquer Joãozinho que o intimidaria, se o outro queria braço de ferro, iria tê-lo!
Sem mais delongas, foi ter ao lugar habitual, esperava-a impaciente
Consultou o relógio, faltava tanto tempo…. Voltar para casa não, nem pensar!
Girou por ali, passeou, tentou distrair-se, esquecer que uma boca
mordia-o por dentro, angustiado voltou ao banco.
Perscrutou de novo o relógio, ainda faltavam cinco minutos… mais uma eternidade.
Tentou aquietar-se, porém, não parava de mexer nos bolsos  do casaco….
Ajeitou a gravata inúmeras vezes, os colarinhos da camisa, escovou com as mãos
as calças…. Examinou os sapatos brilhantes , revirou os pés, aparentemente estava pronto.
- Olá, bom dia!
Levantou-se abruptamente
- Bom dia Daniela.
Cumprimentaram-se com dois beijos, ele não cabia em si de contente.
- Gosta mesmo deste parque!? E tem razão para isso. Um lugar apaziguador, relaxante, vem muito aqui buscar inspiração para escrever…
- Não é só a paisagem que me inspira aqui…
- Não?
- É mais por si…- desatou o nó da gravata
- Também sirvo de inspiração?!
- Nem sabe o quanto….
- Diga-me o quanto…
- Estou apaixonadíssimo  por si - declarou de chofre
e segurou a mão dela.
- Rómulo, tenha  calma, você está a confundir tudo!
- Que quer dizer? Não sente nada por mim?!
- Não é bem assim, sinto por si um carinho especial, uma amizade pura e verdadeira…
- E desejo?
- Não! Nem podia, amo o João!
- O João é um rapaz sem interesse ….
- Está enganado, não julgue sem conhecer primeiro.
- Desculpe. Fui precipitado. Não considere este meu lapso.
- Com certeza, somos  amigos.
- Amigos… – pronunciou num tom murcho.
- Quando nos voltaremos a ver? Quero visitar museus, cafés, conhecer outros lugares na sua companhia, estou farto deste parque…
- Lamento mas hoje vim  despedir-me de si, eu e o João vamos sair do país.
O João foi convidado para desenvolver um trabalho de pesquisa estrangeiro, acerca de textos bíblicos. Eu vou acompanhá-lo, o que faço aqui, posso continuar a fazer lá.
O poeta estremeceu de desencanto, petrificou e clareou marmóreo.
Daniela abraçou-o e comentou rindo:
-Não fique assim, por favor, prometa que vai cuidar de si e nada de se deixar enredar nas malhas de qualquer oportunista. Fique bem, eu também vou ficar, darei notícias. Adeus.
- Adeus menina linda, que pena …
Daniela saiu do parque apressada, o poeta esperou que ela acenasse pela última vez,
 só depois  tornou a sentar-se pesado no banco,
 curvou-se ,
 apoiou os cotovelos nos joelhos ,
e enterrou a cabeça nas mãos abertas.


PN

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Coisas de "Moscas"



O asfalto inclina
a Mosca reduz o andamento
depois…
pela frente quilómetros de estrada lisa, alongada…
indefinidamente a direito
…. ao comprido.
Lá vai ela ao volante do seu volvo….
Maxilares a torcer,
numa mastigação lenta de qualquer porcaria encontrada…
acelera, liga o rádio, desagradada da musica tocada
desliga num gesto agressivo.
Mais à frente encontra um desvio
um largo conspurcado de latas vazias,
de papéis surrados , plásticos adiposos e os outros em circunstâncias iguais…
Puxa o freio rapidamente, a máquina derrapa, treme, guincha.
A Mosca, numa elegância desmesurada
apeia-se, contorce-se molemente.
Traje negro, transparente e justo, decote marcado
Sorriso habilidoso quase sobranceiro.
Atira a cabeça para o alto
os cabelos finos e escorridos descrevem uma curva
olhos escuros breu, cor do carvão
mortíferos como punhais frios
destilam uma maligna sedução.
Caminha sem pressa, as coxas bamboleiam roliças
Saltam fartas e roçam-se uma na outra.
Aguarda-a a rainha Vareja;
tacão altíssimo e verniz estilhaçado.
A Anã antecipa apressadamente o abraço
mas o cumprimento não desmancha a imperturbável “Vareja”.
Insolente, vaidosa imperatriz do lixo costurado
solta um grunhido descrente, o rosto incha de tão pérfida maldade
Por ali, além do suspense, as fumarolas arrotam baixinho
pressentindo a esgrima da cena.
A” Vareja” de mãos à cintura, a Anã de lábios espremidos
Sua majestade de peruca desgrenhada, palácio da furna…
A rasteira, rosto altivo, cabelo empapado, nariz empoado.
Toma a palavra a suprema hierarquia:
Voz forte, altifalante ligado,
estrídula , sibilante
e áspera…
Treme o deserto e a mosca Anã a “desaparecer”….
esmagada e triturada, escancara as narinas
baixa os cílios no auge da exaltação ,
Plagia a postura da mandante e ligeiramente nervosa
altaneira e contrafeita
tom esganiçado , rápido
lamuria-se em falsete:
- Eu sou sempre a má da fita, a falsa, a embusteira, logo eu que me esmero tanto…
Sua alteza, torna-se sombria e desfia metálica:
- Aborto mal parido
Cigarro apagado
Dente furado
Não tomas a palavra sem antes consultar a minha!
A mosca Anã desafia as alturas:
- Dizem por aí que não passas de um monte de estrume!
Mais endoidecida e afogueada que nunca
aponta canhões
dispara espingardas
viola fronteiras
A raiva em faúlhas a coser por dentro
o dedo em riste:
- Sai daqui indigente, este lugar é meu, por sufrágio
universal direto!
Excomungada, coisa tirana, leva as tuas coisas, busca outra casa,
Aqui não entras mais!
Humilhada no mais fundo de si, a mosquinha recompôs-se da ira e em pranto se desfaz:
- Não acredito que me estás a expulsar! Eu sempre te defendi….sempre! e é assim
que pago pelo mal que não fiz?!
Dobra-se toda em altos soluços…
- Ai meu deus, que mal fiz eu?…são as outras…não vês que são as outras …
que fazem tudo e te colocam contra mim?!
Rosnando algo condoída, revoltada por sentir-se a retroceder….
Remói, salpica a salada da vida, mexe muito bem, rala tudo mental mente …
espia a outra; continua prostrada, lavada em pranto
Indecisa e confusa, desata irrefletida:
- Chega de carpir, levanta-te!…. A culpa não é só tua… ficas cá mas livra-te
de me enfrentares mais !
- Alteza ….- ia começar a Anã.
- Vá, deixa-te de lábias, tenho assuntos mais importantes a tratar!
Enquanto a mosquinha se dirige ao carro, a Vareja, fixa-a inquieta,
desconfiada das suas boas intenções…
Mal se ajeita no assento do volvo, limpa o rosto, liga a ignição, já distante, ri-se,
primeiro baixinho, mas livre e longe da outra, gargalha e até uiva;
por fim murmura raivosa:
-Velhaca! Um dia lixo-te!
Lá atrás, no descampado, parada, fica a Vareja
a cogitar, com  os olhos pregados  na estrada por onde partira
a anã:
“ Vai para o diabo, se julgas que vais longe, estás enganada… aqui, não voltas nunca mais!”  

PN 11 de Julho 2014

Nota- Fotos da Internet que foram algo tratadas por mim através do photoshop.